Discute-se hoje o tamanho de uma rede distribuída, até onde ela pode crescer.

 

Em geral quando nos preocupamos com o tamanho de uma rede (de uma rede propriamente dita, quer dizer, distribuída), estamos pensando em redes voluntariamente construídas e não na chamada rede-mãe (a rede que existe independentemente de nossos esforços conectivos).

 

Tomamos freqüentemente a perspectiva de quem quer ver uma rede voluntariamente articulada crescer. Mas crescer para que? Por que, por exemplo, uma rede distribuída de 50 pessoas precisaria crescer? Para fazer alguma coisa? Mas as redes não são para fazer coisa alguma: elas são simplesmente para ser. Elas são o que qualquer sociedade seria se não tivesse sido invadida por programas centralizadores.

 

Estamos falando de crescer, mas uma rede não “cresce” apenas aumentando seus nodos e sim também aumentando a sua conectividade (ou o seu grau de distribuição). Além disso, é possível que a rede “cresça” ainda em outro sentido: aumentando a “largura de banda” das suas conexões. Talvez a rede, além de crescer (mudança quantitativa), se desenvolva (mudança qualitativa). E talvez seja mais importante se desenvolver (quer dizer, promover mudanças regulacionais) do que propriamente crescer (em número de nodos). E, por último, talvez estejamos um pouco hipnotizados pelo fetiche do número (como os economistas; como se sabe a economics nasceu como uma “ciência do crescimento”).

 

Freqüentemente, também, nos preocupamos com as redes que param de crescer, mas as redes são móveis mesmo. Crescem até certo ponto, ou melhor, dentro de um certo tempo (o seu tempo) e depois tendem a diminuir ou até a desaparecer. Ora, se não estamos querendo usar a rede como um instrumento para fazer alguma coisa, qual o problema aqui? Só haverá problema se precisarmos da rede durante um tempo que não é o dela.

 

Ocorre que as redes voluntariamente construídas em torno de uma causa, de uma idéia, de um motivo contingente, são fenômenos restritos no tempo mesmo. No seu tempo, porém, elas podem fazer muitas coisas que não conseguimos ver. Cada rede mais distribuída do que seu universo-entorno que se forma, funciona como uma espécie de anti-virus em relação aos programas centralizadores que rodam nesse universo… Na medida em que mais redes distribuídas vão se formando é como se mais antivírus fossem rodando (e cada rede representa nessa metáfora uma nova edição de antivírus), mais e mais obstruções de fluxos, separações entre clusters e exclusões de nodos vão sendo desativadas. Mais mundo velho vai sendo substituído. Isso significa que a rede não existe para fazer qualquer mudança. Quando a rede existe, ela já é a mudança naquele mundo (estamos em um multiverso, não em um universo). Cada mundo distribuído é um mundo que tem validade em si, é uma experiência coletiva de vida, é a afirmação de uma nova identidade no mundo, é uma segunda criação naquilo que diz respeito ao seu âmbito local. O mundo distribuído é uma nova criação local.

 

Se tomarmos um conceito mais abrangente – e mais preciso – de local como cluster (abarcando não as localidades geográficas, mas as sócio-territorialidades ou comunidades), veremos que redes distribuídas são, na verdade, sempre redes locais.

A rigor, não podemos falar em redes distribuídas ou redes centralizadas (monocentralizadas ou multicentralizadas, quer dizer, descentralizadas). Deveríamos falar em graus de distribuição (ou, inversamente, em graus de centralização). Entre a monocentralização (o grau máximo de centralização, que no diagrama de Baran aparece como rede centralizada) e a distribuição máxima (todos os caminhos possíveis, correspondendo ao número máximo de conexões para um dado número de nodos - que não aparece no terceiro grafo do diagrama de Paul Baran, por razões de clareza na visualização), existem muitos graus de distribuição. É entre esses dois limites que se realiza a maioria das redes realmente existentes.

 

Portanto, não parece muito consistente falar de rede centralizada ou rede distribuída, a não ser como limites. A partir de certo número de nodos, nenhuma rede social real consegue ser totalmente centralizada (isso seria supor a inexistência de conexões entre os nodos, mas apenas de conexões entre o nodo central e os outros nodos). Ora, a partir de certo número de nodos é impossível que isso aconteça, pois é o próprio tamanho (social) do mundo que impõe um determinado número mínimo de conexões entre quaisquer nodos escolhidos aleatoriamente. Assim, mesmo que não queiramos, os nodos ligados a um centro tendem também a estar ligados entre si em alguma medida. Portanto, esse número de nodos a partir do qual uma rede não conseguirá mais permanecer centralizada (stricto sensu) depende do mundo em que se está, dos seus graus de separação.

 

O mesmo vale, mutatis mutandis, para as redes com topologia considerada descentralizada. Existem diferentes graus de descentralização. Mas o menor grau de descentralização já é (localmente falando) um grau de distribuição. A descentralização máxima coincide com a distribuição (quando cada centro coincidir com cada nodo, é óbvio). Distribuir é des-con-centrar. A rigor, portanto, mais de um centro já des-con-centra. Há um problema com o segundo grafo de Baran (o da rede descentralizada). Os nodos de cada um dos múltiplos centros não costumam estar totalmente desconectados entre si como aparece no grafo (quer pensemos em filiais de uma empresa multinacional, quer pensemos em um partido de células).

 

Não se trata apenas de encontrar uma fórmula matemática, porque não existe um número ideal para uma rede poder ser considerada distribuída (a não ser o número total de conexões possíveis entre seus nodos, correspondendo ao grau máximo de distribuição). Mas uma rede distribuída em si não é distribuída para si. Talvez exista um número mínimo para que uma rede distribuída possa reduzir para 1 a extensão característica de caminho do cluster no qual se insere. Para um certo universo potencial de conexões (por exemplo, um cluster com até 50 mil pessoas), temos motivos para supor que esse número seja o de 1% dos nodos com grau de distribuição máxima (todos conectados com todos). Significa que em uma localidade de 20 mil pessoas, 200 pessoas (1%) conectadas em uma rede totalmente distribuída, consegue reduzir o tamanho social do mundo onde está inserida para 1 (um grau de separação). Será? Esse insight ainda carece de justificação matemática. De qualquer modo, parece que é o efeito da rede distribuída sobre o mundo no qual se insere que determina o efeito-distribuição. Uma rede distribuída provoca um crunch no mundo (isso é o mais importante: significa que ela aumenta o “poder social” ou empowerment induzido pelo campo). Para que uma rede tenha tal efeito é necessário que ela tenha o grau máximo de distribuição? O mais correto, talvez, seria dizer que ela terá sempre esse efeito, na razão direta do seu próprio grau de distribuição. Uma rede distribuída pode, assim, reduzir os graus de separação do mundo em que se insere, por exemplo, de 5 para 3. Mas ela só reduzirá esse grau para 1 se - dentro de certos limites, determinados pelo relação entre o número efetivo de nodos conectados e o número potencial de nodos do mundo - apresentar, ela mesma, um grau máximo de conexão (todos conectados com todos). Pode haver um importante conhecimento aqui para o netweaving. Não é necessário trabalhar com todos os nodos potenciais (a população de uma localidade, por exemplo). Basta trabalhar com uma porcentagem (1%?) dessa população (aquele insight luminoso de Jane Jacobs em 1961, mas ela errou a conta, talvez, por um zero).

Em breve a metáfora do “capital” social já poderá (ou deverá) ser abandonada. Usar a expressão ‘capital social’ é – como se diz na roça – “bater na canga pro boi ouvir” (o boi, no caso, são os policymakers que tiveram suas cabeças feitas pelos economistas ou, então, aqueles sociólogos cujo maior desejo é serem levados a sério pelos economistas…). Dizer que aquela externalidade que conotamos com a expressão capital social é um capital – em sentido metafórico – significa chamar a atenção das pessoas para o fato de que estamos diante de um recurso para o desenvolvimento tão importante como se fosse um capital (propriamente dito, físico ou financeiro). A metáfora – como qualquer metáfora – não é perfeita. Pois o chamado capital social é um recurso público que costuma assumir um papel inverso na equação do desenvolvimento quando é privatizado (como ocorre, por exemplo, no familismo amoral mafioso, coisa que não acontece com outros capitais em sentido estrito e mesmo em sentido metafórico, como o ‘capital humano’ – talvez com exceção do ‘capital natural’).

 

Tem gente que, por motivos ideológicos, rejeita a noção de ‘capital social’. Muitos acham que é uma tentativa neoliberal de mercantilizar relações sociais e, não raro, confundem capital com capitalismo e cometem outras besteiras semelhantes. Não é por consideração a essas posições que devemos ir abandonando a metáfora e sim para avançar na compreensão da natureza desse novo recurso político que foi aventado há tanto tempo (desde Tocqueville, pelo menos) mas que só se tornou presente nas preocupações dos teóricos do desenvolvimento há menos de vinte anos. A natureza em questão é a natureza da sociedade humana (ora, se se discute tanto hoje em dia sobre a natureza da natureza humana, por que não se pode discutir também sobre a natureza da sociedade humana?). Sim, porquanto o que chamamos de capital social é, na verdade, a sociedade (no sentido tocquevilliano do termo).

 

Pois bem. A natureza da sociedade é… a rede social. O que chamamos de social é a rede social, conquanto comumente atribuamos o qualificativo (ou o designativo) de ‘social’ para qualquer realidade humana. Humano e social não são sinônimos. Ao contrário do que parece, ‘social’ não é a coleção de elementos humanos. Humanos vistos individualmente, naquilo que aportam de recursos para o desenvolvimento em virtude das suas qualidades e potencialidades humanas intrínsecas, não compõem o social se não se incluir também no conjunto as relações que tais humanos estabelecem entre si.

 

Pode-se dizer que esta discussão é ociosa na medida em que o humano não se constitui como tal na ausência do social. Isso parece certo. Entretanto, se focalizarmos apenas os componentes do capital humano stricto sensu, não poderemos deles derivar o capital social. Ou seja, não há nenhuma equação que permita “calcular” o capital social a partir do capital humano. Vai daí que o que chamamos de políticas sociais são, na verdade, políticas humanas, no sentido de políticas de proteção ou promoção do desenvolvimento humano (como saúde e educação, por exemplo). Por outro lado, políticas de indução do desenvolvimento social propriamente dito, como aquelas que têm como objetivo aumentar a conectividade (inspirando, por exemplo, programas de instalação de telecentros comunitários), muitas vezes não são percebidas, nem consideradas, como políticas sociais (quando é somente isso o que são!).

 

Capital social é um tipo de recurso bastante diferente do capital humano, na medida em que não pode ser individualizado, internalizado por um sujeito, identificado com atributos isoláveis do ambiente ou do campo social (no sentido de que tal recurso continue existindo na ausência desse “campo de força”). É claro que capital humano gera capital social se acrescentarmos as colisões, num modelo análogo ao que se emprega para observar um gás aquecido: Singapura tem muita densidade de capital humano que, como moléculas de um gás, vão se chocar numa freqüência muito maior do que no Afeganistão ou na Amazônia. Essas colisões são, na verdade, uma imagem das conexões. Se trombarmos com muitas pessoas o gás vai se aquecer. Num mundo pequeno (Small World Network) – quer dizer, com alta conectividade, baixa extensão característica de caminho (ou graus de separação reduzidos) – vai haver maior produção de capital social.

 

Tudo isso sugere que o fundamental não está na metáfora do capital social como se fosse um recurso misterioso, produzido pela cooperação ampliada socialmente ou pelos níveis sociais de confiança emitidos, sei lá, por corações humanos que, incontidos em sua generosidade, querem sair do peito (não é da sociedade dos anjos que falamos aqui), e sim nos fenômenos que ocorrem na intimidade mais profunda disso que chamamos de sociedade. O fundamental é o multiverso das conexões ocultas que configuram o que chamamos de social. O fundamental é descobrir quais padrões de convivência social são mais favoráveis à criação de um campo empoderante… (Ah! Sim, o capital social encoraja o capital humano a realizar suas promessas). Ou, em outras palavras, o fundamental é captar aquelas configurações e dinâmicas de rede que favorecem a emergência, a geração espontânea de ordem.

 

As conexões representadas por linhas fixas são apenas rastros de fluições. A rede não é o grafo, o emaranhado das linhas é apenas a trajetória de algo que já fluiu por ali, não no espaço físico ou sobre o território geográfico e sim no espaço-tempo dos fluxos. É claro que um fluir repetido cria um sulco por onde acabam escorrendo as coisas que ainda virão: nesse caso a conexão vira estrada, a aresta vira trilha por onde outros caminharão. É assim que nascem as ruas numa cidade; antes nasceram no espaço-tempo dos fluxos para, só depois, virarem construção urbana.

 

No espaço-tempo dos fluxos cada caminho novo que se abre é uma possibilidade de futuro que não havia. O desenvolvimento, desse ponto de vista, é a abertura de novos caminhos, de novos futuros. Poucos futuros, pouco desenvolvimento (e imagine que explicações inovadoras podem surgir daqui: o estoque – ou o fluxo, melhor dizendo – de futuros disponíveis é o reservatório dos futuros possíveis; ou o desenvolvimento não é um caminhar de volta ao presente passando pelos futuros disponíveis?).

 

Em breve reescreveremos as metodologias de indução do desenvolvimento baseadas no investimento em capital social como um conjunto de técnicas e atividades que têm por objetivo a criação (e a animação) de redes sociais; ou seja, netweaving.

 

Em geral o conceito de desenvolvimento é tomado no sentido transformacional ou variacional. São dois modelos. O modelo transformacional evoca a idéia de desdobramento de qualidades ou dinamização de potencialidades contidas em gérmen. É o desenrolar. Em certo sentido, o termo ‘evoluir’ ficou muito marcado por essa idéia. O pinto está contido no ovo. Há uma transformação pela qual a “forma” contida em gérmen (no conteúdo do ovo) vira outra “forma” (a ave). Já o modelo variacional evoca a idéia de mudança acarretada por uma interação com as circunstâncias. Nada está totalmente contido em gérmen. O que está contido muda de acordo com as variações aleatórias que ocorrerão, sobretudo, na interação com o meio.

 

O primeiro modelo de mudança – o modelo transformacional – foi muito usado pelos que conferiam um papel preponderante ao Estado (ou a um sujeito coletivo, munido de um projeto, de uma vontade) no processo de desenvolvimento. O segundo – o modelo variacional – foi usado pelos que atribuíam ao mercado um papel principal como motor do desenvolvimento. Com efeito, o mercado parece ter um comportamento que é mais bem explicado pelo modelo variacional do que pelo modelo transformacional.

 

Nenhum desses dois modelos de mudança é inteiramente compatível com uma visão de sustentabilidade. Sugerimos, por isso, um terceiro modelo, o modelo regulacional. O modelo regulacional parte da idéia de que existe uma rede que regula a mudança. Ele não nega a transformação nem a variação, mas não atribui papel determinante à criação de condições para que a transformação aconteça, nem deixa a mudança ao léu das variações aleatórias.

 

Falar de desenvolvimento sustentável é a mesma coisa que falar de desenvolvimento de uma perspectiva regulacional ou sistêmica. Só é sustentável (e, nesse sentido, só se desenvolve) aquilo que permanece (como o que é, como o que se identifica de um modo particular e único) e muda ao mesmo tempo (de acordo com a mudança das circunstâncias). Em outras palavras, isso significa conservar a adaptação. Para se adaptar, é necessário mudar. Mas o padrão de mudança deve ser conservado pois, do contrário, o ser em mudança deixa de ser o que é.

 

Para que isso seja possível é necessário reconstruir programas de adaptação a partir de um padrão que defina uma identidade. Pois bem. Essa identidade é a identidade da rede social onde o processo de mudança de verifica e não a identidade particular desse ou daquele indivíduo, ou desse ou daquele grupo de indivíduos.

 

Não apenas em termos ambientais, mas também em termos sociais, desenvolvimento é a mesma coisa que sustentabilidade. Quando falamos em mudanças em um ecossistema, estamos falando da teia de conexões que regula o fluxo de energia e matéria dentro do sistema e das suas relações com o meio. Se esse fluxo for regulado – incluindo o aparecimento de novos indivíduos, organismos e espécies e o seu desaparecimento, bem como as mudanças físicas – por essa teia de conexões, o ecossistema se mantém. Muda para permanecer como tal, muda – apesar de ser um pouco estranha a formulação – para permanecer o que é, e só permanece se estiver em contínua mudança. É igual (ao que é), quando, a cada momento, consegue ser diferente (do que era).

 

Esse é o aparente paradoxo da sustentabilidade. E é por causa disso que é tão difícil entender esse conceito.

 

Estamos afirmando que isso pode igualmente ser observado em termos sociais. A rede social – a verdadeira Matrix, não o mainframe do filme dos irmãos Wachowski, mas a network, a teia invisível, móvel, pulsante, de conexões entre indivíduos e grupos em uma sociedade, também denominada – do ponto de vista dos recursos necessários ao desenvolvimento – pela expressão ‘capital social’ – tem o papel de mudar os programas de adaptação a partir do seu próprio padrão de identidade.

 

Ainda não temos instrumentos teóricos e condições técnicas para mapear os padrões de identidade de uma rede social. Mas estamos nos aproximando velozmente desse conhecimento. Experiências recentes com trânsitos de mensagens e monitoramento das interações entre indivíduos em um pequeno grupo, já estão permitindo desenhar configurações complexas de conexões. O problema agora é identificar, nesses intricados desenhos, os invariantes, as formas que não mudam quando tudo muda. No momento em que conseguirmos fazer isso teremos descoberto a “impressão digital” de uma particular sociedade.

 

O que chamamos de desenvolvimento, de um ponto de vista regulacional é, assim, apenas “a dança conforme a música”. Isso pode significar crescimento, expansão de uma ou várias características ou fatores, mas pode também não significar. Significa sempre mudanças relativas de fatores, uns em relação aos outros, em torno de valores ótimos. Crescimento de um fator (por exemplo, o econômico) não acompanhado por movimentos correspondentes de outros fatores (humanos, sociais, ambientais) em geral leva à insustentabilidade. Mas os economistas ainda vão levar algum tempo para perceber essas coisas.

 

Maturana e Varela, nos anos 80, já estabeleceram um importante paralelo entre o processo de vida e o processo de conhecimento. A chamada, por alguns, “Teoria do Conhecimento de Santiago”, é um conjunto de hipóteses sobre tal paralelo. Os ecologistas já haviam estabelecido um paralelo semelhante, entre o processo de vida – sobretudo em ecossistemas, mais do que em organismos e partes de organismos – e o processo de desenvolvimento. É daí, aliás, que nasce a idéia de desenvolvimento sustentável. Aventamos então a possibilidade de um paralelo entre o processo de conhecimento e o processo de desenvolvimento. Não se trata de uma grande descoberta. Qualquer um que estabelecesse uma relação lógica (na verdade, analógica) simples poderia chegar à mesma hipótese. Se ‘vida’ é análoga a ‘desenvolvimento’ e ‘vida’ é análoga a ‘conhecimento’, então ‘desenvolvimento’ é análogo a ‘conhecimento’.

 

Mas dizer que tanto o processo de vida quanto o processo de conhecimento são análogos ao processo de desenvolvimento admite alguns pressupostos e tem conseqüências importantes. Um desses pressupostos é o de que deve haver uma estrutura comum, que vive e aprende e se desenvolve – sendo essas três coisas, talvez, três maneiras de olhar um mesmo processo estrutural (estrutural no sentido em que Maturana emprega essa expressão e não nos sentidos em que a filosofia estruturalista ou o marxismo a empregaram). Essa estrutura é a rede. Só pode viver o que está conectado em rede. Só pode aprender o que tem o padrão de rede. Só pode se desenvolver o que tem a configuração de rede.

 

Se o cérebro é capaz de aprender é porque ele não é uma CPU de computador, mas tem a estrutura de rede. Se um acidente destruir uma parte do cérebro, sendo tal dano irreversível na medida em que o componente destruído não poderá ser refeito, isso não significa que não possa ser compensável, isto é, que sua função não seja assumida por outro nodo da rede ou por uma nova combinação de conexões entre esse nodo e os demais. Estamos falando de regulação. Não da regulação operada por uma instância superior, top down ou de fora para dentro. Estou falando da regulação própria que só pode ser operada por uma rede. Os estímulos podem vir de fora, mas o seu processamento ocorre dentro. Trata-se de autoregulação.

 

Uma conseqüência importante dessa concepção é que o sujeito deixa de ser o indivíduo evoluindo e passa a ser a rede aprendendo. A rede aprende, entretanto, de um modo bastante diferente daquele que (imaginávamos) ocorre com os indivíduos. A rede aprende toda a vez que é obrigada a se autoregular. A rede aprende toda vez que gera nova ordem, toda a vez que se manifesta o fenômeno da emergência.

Sustentabilidade é o que chamamos de desenvolvimento com base em um modelo regulacional da mudança, ou seja, um modelo que não é nem (apenas) transformacional, nem (apenas) variacional. Transformações e variações acontecem o tempo todo. Mas transformações não são unicamente o desdobramento de um projeto prefigurado, contido em germe, em um programa arquivado em um genoma. E variações não são o resultado da replicação imperfeita desse projeto diante da mudança totalmente aleatória das circunstâncias. A nova ordem implicada na mudança só pode emergir porque a transformação e a variação passam a ser reguladas. Essa nova ordem emerge quando há regulação da mudança. Quem regula a mudança, desse ponto de vista, é a rede social. Ela se adapta e conserva seus padrões de adaptação. Ela só consegue conservar a adaptação porque reconstrói (ou seja, muda) seus programas de adaptação a partir desse padrão (a identidade de uma rede social). Sustentabilidade, isto é, desse ponto de vista, desenvolvimento, só pode existir quando existe ordem emergente, quer dizer, auto-regulada.

 

Novamente aqui é evocado um poderoso paralelo heurístico. Se em termos biológicos sustentabilidade é a mesma coisa que vida, em termos sociais sustentabilidade é a mesma coisa que desenvolvimento. A vida cessa quando se rompe a congruência entre o indivíduo e o meio, o que significa incapacidade de manter uma correspondência dinâmica com os outros elementos da rede que possibilite a autopoiese. O desenvolvimento (sustentável) ocorre a não ser enquanto exista auto-regulação social.

 

Mas há ainda um outro paralelo heurístico. Assim como o processo de vida é análogo ao processo de conhecimento, o processo social – ou seja, o processo de desenvolvimento social de um ponto de vista regulacional (ou para uma teoria sistêmica do desenvolvimento, poder-se-ia dizer) – é também comparável ao processo de conhecimento. É assim que se pode então dizer que a sociedade se desenvolvendo é sinônimo de sua rede social aprendendo. Aprendendo o quê? Aprendendo a se auto-regular. Aprender, aqui, significa ser capaz de reconstruir seu programa de adaptação; ou seja, ser capaz de construir um outro (novo) programa a partir da (mesma) matriz de identidade, quer dizer, do mesmo padrão que caracteriza uma sociedade particular porque contém os invariantes da configuração e da dinâmica de sua rede social.

 

Ocorre que uma sociedade particular capaz de fazer isso é sempre uma sociedade local. É por isso que se diz que todo desenvolvimento (sustentável) é local, porque ‘todo bottom up é local’, porque todos os conhecimentos tomados (a partir de baixo) são locais, quer dizer, são tomados com base em avaliações locais das circunstâncias mais amplas ou das condições mais gerais. A emergência (quer dizer, o surgimento de uma nova ordem por auto-regulação) se dá a partir do local; inclusive uma ordem emergente de caráter mais global é construída a partir de interações locais.

 

Sistemas complexos são capazes de fazer isso, ou seja, de configurar ordem mais global (macrocomportamentos) a partir de regras locais, tornando-se capazes de comportamento emergente, de inteligência coletiva, de swarm intelligence, quando seus elementos se concentram na solução dos mesmos problemas (que são, então, forçosamente, problemas locais).

 

Sociedades (de massa) não são capazes de fazer isso, mas comunidades (de projeto) sim. Ou melhor, sociedades só são capazes de fazer isso se as comunidades de projeto que se formaram no seu seio fizerem isso, como percebeu Jane Jacobs, em outros termos, há 40 anos. Só comunidades de projeto – que se dedicam, por milhares de micromotivos diferentes das pessoas e grupos que as compõem – à resolução dos mesmos problemas locais, podem ser capazes de adquirir a dinâmica de sistemas complexos adaptativos e, assim, podem ser sustentáveis. É por isso que uma nova visão do desenvolvimento como a que está sendo cogitada aqui aponta para o desenvolvimento local. Desenvolvimento local, nesse sentido, não é uma redução, não é uma particularização. Desenvolvimento local nada mais é do que desenvolvimento comunitário, ou seja, desenvolvimento de comunidades de projeto a partir dessas próprias comunidades. Desenvolvimento, nesse sentido, é uma emergência. E o terreno da emergência é o local.

 

Só redes podem aprender, mas não é qualquer rede que aprende. Só redes podem ser sustentáveis, mas não é qualquer rede que pode ser sustentável. No que tange a sociedades humanas, só em comunidades de projeto o tecido social pode atingir o grau de tramatura suficiente para ensejar a fenômeno da autoregulação. Comunidades são sociedades que atingiram certo grau de tramatura do seu tecido social. Uma ordem na sociedade global – se não for autocrática – só poderá emergir, quer dizer, vir de baixo, do local.

 

Tudo isso pode ser analisado por teorias do capital social se considerarmos que o fator do desenvolvimento designado pela noção de capital social nada mais é do que a rede social. É o grau de conectividade, o número de caminhos (medido, se quisermos, pela ‘extensão característica de caminho’ ou pelo ‘comprimento de corrente’) existentes entre os nodos de uma rede social que dá o poder social de uma sociedade, ou seja, a sua capacidade de empoderar os seus elementos para que eles criem, inovem, empreendam, assumam protagonismo – enfim, se desenvolvam na medida em que desenvolvem o coletivo do qual fazem parte. Desenvolvimento (sustentável) é, assim, a coincidência de auto-desenvolvimento e comum-desenvolvimento. Em outras palavras, como dizia Jacobs (2000), desenvolvimento é sempre a operação de uma rede de co-desenvolvimentos interdependentes.

 

Qualquer ordem não-autocrática só pode existir se for emergente. Temos aqui uma pista para estabelecer um nexo conotativo entre desenvolvimento e democracia. Assim como o desenvolvimento é o ‘aprender’ de uma comunidade, a democracia é um ‘deixar aprender’. Como pacto de convivência, a democracia é um modo de regulação de conflitos que preserva a existência dos conflitantes, que permite a continuidade de sua experiência de convivência social, que possibilita a expansão continuada dos graus de liberdade para que possa haver cada vez mais experimentação e mais aprendizagem e, por conseguinte, mais desenvolvimento.

 

É por isso que não pode haver desenvolvimento (tomado em termos regulacionais, na visão proposta aqui, ou seja, desenvolvimento sustentável ou sustentabilidade) sem democracia. Ou melhor, é por isso que mais desenvolvimento (ou sustentabilidade) implica mais democracia, avanço do processo de democratização, de democratização da democracia. Pode haver crescimento (da renda, da riqueza ou de qualquer outra variável extra-econômica da equação do desenvolvimento, como o conhecimento, por exemplo) sem democracia, mas não pode haver, nesse sentido, desenvolvimento.

 

E é por isso que desenvolvimento depende da produção de capital social, ou seja, da capacidade de uma sociedade de gerar ordem espontaneamente a partir da cooperação. Em outras palavras, é por isso que desenvolvimento depende da capacidade de uma sociedade de constituir comunidade, de tramar o seu tecido social a ponto de permitir a eclosão dos fenômenos associados à emergência (multiplicidade, diversidade, reverberação, circuitos de retroalimentação de reforço ou de feedback positivo etc.).

O grande estadista grego Péricles (495-429 a. C.) – considerado um dos pais da democracia – usava a palavra “idiotes” para designar os atenienses que, alegando ter de cuidar de seus próprios assuntos, não participavam das reuniões para tratar de questões de interesse coletivo.

 

É incrível como, dois mil e quinhentos anos depois, continuamos cultuando uma cultura econômica que produz idiotas (no sentido grego – e original – do termo).

 

Tal é a cultura, ainda predominante, do desenvolvimento. Imaginamos que desenvolvimento é o resultado de crescimento econômico que se atinge em virtude de um dinamismo que se instala na sociedade quando cada indivíduo se lança na busca desenfreada pela satisfação de seus interesses materiais egoístas.

 

Modernamente justificamos essa crença lançando mão de uma teoria (darwiniana) da evolução, baseada em um modelo variacional da mudança. Trata-se de uma perspectiva mercadocêntrica, quer dizer, centrada no mercado e que imagina que a “lógica” e a racionalidade do mercado dão conta de explicar o funcionamento das outras esferas da realidade social (ou dos outros tipos de agenciamento), como o Estado e a sociedade civil.

 

Vamos ver melhor o que é isso.

 

O modelo variacional se opõe ao modelo transformacional da mudança. Richard Lewontin (1998), em “A tripla hélice”, aborda tal diferença da seguinte maneira:

 

“O termo desenvolvimento é uma metáfora que traz consigo um compromisso anterior quanto à natureza do processo. Desenvolvimento (development em inglês; Entwicklung em alemão; desarrollo em espanhol e sviluppo em italiano) é, literalmente, o desdobrar ou o desenrolar de algo que já está presente e em certo sentido pré-formado. Essa mesma palavra é utilizada em inglês para nomear o processo de revelar uma imagem fotográfica. A imagem já está imanente no filme, no interior da câmera, e o processo de revelação – development, em inglês – simplesmente torna visível a imagem latente. É exatamente essa a visão da biologia do desenvolvimento a respeito do desenvolvimento de um organismo. A moderna biologia do desenvolvimento é totalmente concebida em termos de genes e organelas celulares, cabendo ao ambiente apenas fazer as vezes de cenário. Considera-se que os genes no ovo fertilizado determinam o estado final do organismo, enquanto o ambiente em que o desenvolvimento ocorre é tão-somente um conjunto de condições propícias a que os genes se expressem, assim como o filme fotográfico, ao ser exposto, produzirá a imagem que nele já está imanente, quando colocado nos líquidos apropriados e na temperatura adequada”.

 

Lewontin prossegue afirmando que:

 

“O emprego do conceito de desenvolvimento para designar as mudanças pelas quais um organismo passa durante a sua vida não é simplesmente um caso em que a linguagem disponível influencia o conteúdo das idéias. Quando se decidiu transformar uma língua antiga, o hebreu, em língua moderna, dotada de vocabulário técnico, a palavra escolhida para designar o desenvolvimento de um organismo – Lehitpateach – foi a mesma que se escolheu para nomear o processo de revelação de um filme, mas na forma reflexiva, de modo que um organismo literalmente “desenvolve a si próprio”. Além disso, a palavra evolução tem o mesmo significado original de desdobramento, e por essa razão Darwin não a empregou na primeira edição da “Origem das Espécies”. Antes de Darwin, toda a história da vida na Terra era vista como uma progressão ordenada de estágios imanentes. Ainda que Darwin tenha libertado a teoria desse elemento de predeterminação, sua história intelectual deixou a sua marca na palavra.

 

O uso desses termos reflete um comprometimento profundo com a idéia de que os organismos, tanto em suas histórias individuais de vida como em sua história evolutiva coletiva, são determinados por forças internas, por um programa interno, do qual os seres vivos reais são apenas manifestações exteriores. Esse comprometimento é uma herança da visão tipológica da natureza, de origem platônica, segundo a qual eventos materiais reais, que podem diferir uns dos outros em graus variados, são realizações imperfeitas e acidentais de tipos idealizados. O real é o ideal visto “através de um espelho, indistintamente”. Essa foi a visão das espécies que predominou até o século XX. Cada espécie era representada por uma descrição de “tipo” e um espécime real era depositado em alguma coleção como representativo desse tipo, enquanto todos os outros indivíduos da espécie, variando com relação ao “tipo”, eram vistos como realizações imperfeitas do ideal subjacente. O problema da biologia consistia, então, em dar uma descrição anatômica e funcionalmente correta dos “tipos” e explicar as suas origens. A biologia evolutiva moderna rejeita esses ideais platônicos e sustenta que a variação efetiva entre os organismos é a realidade que precisa ser explicada. Essa mudança de orientação é conseqüência da ascensão da visão darwiniana de que a variação efetiva entre os organismos é a base material de que depende a mudança evolutiva.

 

O contraste entre a teoria platônica moderna do desenvolvimento e a teoria evolutiva darwiniana reflete o contraste entre duas maneiras de explicar as modificações dos sistemas através do tempo. O desenvolvimento é uma teoria transformacional da mudança. Nas teorias transformacionais todo o conjunto dos objetos modifica-se porque cada objeto individual sofre durante o seu tempo de vida os efeitos de uma mesma história geral. O cosmos evolui porque todas as estrelas que têm a mesma massa inicial passam pela mesma série de modificações termonucleares e gravitacionais em um caminho que as leva a uma posição previsível na seqüência principal. Como grupo, as pessoas de setenta anos são mais grisalhas e mais esquecidas do que o conjunto das que têm 37 anos, porque a mente e o corpo de todos os indivíduos envelheceram. Por outro lado, a teoria darwiniana da evolução orgânica baseia-se em um modelo variacional da mudança. O conjunto dos indivíduos modifica-se não porque cada indivíduo passe por desenvolvimentos paralelos durante a vida, e sim porque existe variação entre os indivíduos e algumas variantes produzem mais descendentes do que outras. Assim, o conjunto como um todo se modifica por causa de uma alteração na representação proporcional das diferentes variantes, cujas propriedades específicas permanecem inalteradas. Se os insetos estão se tornando mais resistentes aos inseticidas não é porque cada indivíduo adquire níveis cada vez mais altos de resistência durante a sua vida, mas sim porque as variantes resistentes sobrevivem e se reproduzem, enquanto os organismos suscetíveis morrem”.

 

Lewontin, portanto, defende a idéia de que “o organismo não é determinado nem pelos seus genes, nem pelo seu ambiente, nem mesmo pela interação entre eles, mas carrega uma marca significativa de processos aleatórios”.

 

Mas o fato de que ele possa ter razão no que tange a evolução de organismos, não significa que teorias transformacionais da mudança não se apliquem às sociedades humanas. Pode significar, simplesmente, que sociedades humanas não são como organismos que evoluem segundo um modelo variacional. E que sociedades humanas passam por processos transformacionais de mudança. Ora, como ele mesmo ressalta, “o desenvolvimento é uma teoria transformacional da mudança”. E, ou admitimos que o desenvolvimento se aplica a sociedades humanas ou, então, é melhor abandonar o conceito de desenvolvimento.

 

Afirmamos que o modelo variacional, quando aplicado a sociedades humanas, corresponde a uma perspectiva mercadocêntrica, porque é possível que modelos variacionais se apliquem, dentro de certos limites, a algumas realidades sociais, como mercados. É mesmo possível, ademais, que Darwin tenha se aproximado de uma hipótese variacional a partir da observação do que ocorria em sociedades humanas sob forte influxo da dinâmica mercantil, como a sociedade inglesa da sua época. E que, então, sua compreensão da evolução biológica tenha sido, em alguma medida, decalcada dessa observação, como sugere a idéia de luta pela vida com toda aquela visão competitiva embutida.

 

Por outro lado, outras visões biológicas (como, por exemplo, as de Humberto Maturana, Lynn Margulis, Richard Strohman e Mae-Wan Ho) indicam que para explicar a mudança evolutiva não se pode olhar somente para o organismo ou para o gene e sim para as redes que regulam tal mudança. Tais redes celulares são sistemas complexos, com múltiplos laços de realimentação que fazem com que os padrões de atividade genética mudem continuamente com a mudança das circunstâncias, para manter o tempo todo uma congruência dinâmica com o meio, sem o que não poderia haver o que chamamos de vida.

 

Assim, é possível que mesmo a teoria variacional não explique totalmente o que acontece na evolução biológica e tenhamos de lançar mão do modelo das redes reguladoras. E que tal modelo possa também se aplicar a redes sociais para explicar o fenômeno chamado de desenvolvimento. Neste caso, o desenvolvimento social seria um fenômeno próprio das redes sociais: sistemas complexos que apresentam características formalmente semelhantes às redes celulares. Segundo essa perspectiva, os padrões de comportamento surgiriam e se modificariam na interação com o meio, sem o que não poderia haver isso que chamamos de cultura. Ou seja, a forma e o comportamento culturais manifestar-se-iam como propriedades que emergem da dinâmica complexa das redes sociais.

 

Portanto, pode existir um outro modelo para a mudança, além do modelo variacional e do modelo transformacional: o modelo sistêmico regulacional, que não exclui, no caso dos organismos biológicos, nem os genes, nem o ambiente, nem a interação entre eles, nem os processos aleatórios. Mas que acrescenta um outro elemento: as redes compostas por genes, proteínas, hormônios, enzimas e complexos moleculares. A diferença é que o “programa” não estaria arquivado no genoma e sim nessa rede. No caso das sociedades humanas, haveria também essa rede, composta, é claro, por outros nodos; e. g., pessoas e organizações.

 

A rede não predetermina o que vai acontecer, mas combina e recombina, continuamente, eventos e relações já existentes com novos eventos e novas relações introduzidas pelas mudanças endógenas e exógenas. E não importa se tais alterações são ou não casuais. O programa regulador – que “roda” na rede e não nos organismos, nas partes de organismos ou em outros nodos que a compõem – tende a assimilar as alterações casuais de tal sorte a torná-las adequadas à conservação da adaptação do organismo ao meio. Esse programa é autopoiético e também vai se modificando para dar conta de exercer o seu papel regulador em circunstâncias que vão se modificando. Ou seja, a rede aprende.

 

A rede aprendendo é o sujeito e não o organismo evoluindo.

 

Se adotarmos esse ponto de vista, deixamos para trás a questão de se deve ou não deve haver um paralelo entre o desenvolvimento (social) e a evolução (biológica) e se tal paralelo seria ou não seria legítimo. Sociedades humanas nada têm a ver com organismos, partes de organismos ou ecossistemas a não ser enquanto são, igualmente, reguladas por redes – sistemas complexos que apresentam, como tais, características e propriedades análogas.

 

Desenvolvimento – um conceito aplicado a sociedades humanas – seria, então, um processo de mudança, regulado pelas redes sociais, que depende de estímulos internos e externos, múltiplas interações entre alterações internas e externas, aleatórias ou não, cujo “propósito” é assegurar a conservação dinâmica dessas próprias redes e, nessa medida, dos elementos que a compõem. 

 

Em primeiro lugar é preciso reconhecer que todo desenvolvimento é desenvolvimento social, que o conceito de desenvolvimento se aplica a sociedades e não a quaisquer outros sistemas de seres animados ou inanimados, de entes concretos ou conceituais. Do ponto de vista social propriamente dito, quer dizer, da rede social e da sua fenomenologia, o que chamamos de desenvolvimento é sempre uma mudança na rede social, vale dizer, naquelas variáveis que a caracterizam. Existem mudanças sociais que podemos interpretar como desenvolvimento: são aquelas que alteram disposições no espaço-tempo dos fluxos (da rede) de sorte a produzir determinados efeitos que são vistos, de fora, coletivamente, como criação de ambientes favoráveis à inovação e ao protagonismo de aglomerados de indivíduos e, individualmente, como empoderamento de seus nodos em termos de aumento da capacidade desses indivíduos de empreender. Diga-se o que se quiser dizer sobre o desenvolvimento, tais indicadores são definitivos: não podemos falar da ocorrência do fenômeno do desenvolvimento de um determinado conjunto de seres humanos a não ser enquanto estejam sendo gerados ambientes sociais favoráveis e novas capacidades (ou habilidades ou competências) permanentes dos elementos que constituem tal conjunto. Isso, como sabemos, tem a ver com boa governança e prosperidade econômica, mas não é reflexo mecânico e imediato da expansão econômica (ou do crescimento do produto).

 

Mas esses indicadores, lato sensu, de desenvolvimento, por meio dos quais captamos e interpretamos certas mudanças sociais como desenvolvimento, não revelam o que está acontecendo um nível abaixo. Alguma coisa ocorreu no espaço-tempo dos fluxos para que tais efeitos pudessem ser observados. O encorajamento de que necessita um indivíduo para sonhar e correr atrás dos seus próprios sonhos não é um impulso que nasce da sua propensão intrínseca para inovar ou das suas qualidades inatas para ser um empreendedor e sim de uma espécie de indução exercida por um “campo de força” que é gerado pela configuração das relações que envolvem os outros indivíduos e que depende da sua posição nessa configuração. Ou seja, o chamado empowerment é uma função social, que parte do ambiente para o indivíduo – e não o contrário –, mas que depende de coisas como a inserção desse indivíduo em uma rede com maior densidade (“cluster”), do seu grau de intermediação ou peso como conector (“betweenness”) e da sua proximidade a outros nodos ou do seu peso como atalho (“closeness”).

 

Para quem vê de fora e não percebe o processo endógeno e subterrâneo que ocorre na intimidade da rede social, essas observações podem soar como especulação abstrata. Para quem vê por cima – e, portanto, não vê o que há de propriamente ‘social’ no processo (e o social é o processo…) – uma inovação é fruto das boas idéias (que surgem por acaso quando há um virtuoso casamento com a necessidade) ou dos conhecimentos (capital humano) do inovador. Esse enfoque não permite perceber, como dizia William Irwin Thompson (1987), que as idéias, como as uvas, dão em cachos. Duncan J Watts (aquele jovem pesquisador de Colúmbia e Santa Fé, que anda bisbilhotando a intimidade do social, estudando o “Small World Phenomenon” e verificando os graus de separação da rede social global) poderia fazer pouca coisa em Caruaru, assim como os pós-PHDs dos keiretsu japoneses não conseguem competir, segundo a explicação de Fukuyama (1999), em termos de inovações por minuto, com aquelas turmas de jeans e tênis que andam almoçando juntas nos bares e lanchonetes do Silicon Valley (capital social).

 

No caso do desenvolvimento, alguma coisa que não vemos está acontecendo para “produzir” o que vemos. Essa coisa que não vemos é o ‘social’, uma realidade que, por sua vez, não pode ser operada se não mexermos nos fluxos que a “produzem”. E não há outra maneira de fazer isso a não ser alterando padrões de organização e modos de regulação (quer dizer, fazendo política).

 

Inconsciente e desgraçadamente estamos mexendo o tempo todo nesses fluxos, sobretudo alterando a topologia das redes que configuram, por meio de um tipo de política que impede a sua distribuição. Nossa intervenção no social se dá, em geral, pela colocação de obstáculos à livre fluição, introduzindo todo tipo de filtros, quer dizer de centralizações que impedem que a rede social seja uma rede mais distribuída. O poder político – tal como exercido pelo velho sistema político – é o poder de separar, obstruir e excluir e não o de juntar, desobstruir e incluir. Como dizia Paul Valery, numa frase bastante citada, “a política é a arte de impedir as pessoas de participarem dos assuntos que, propriamente, lhes dizem respeito”.

 

Nossas observações sobre os fatores de insucesso em experiências de indução do desenvolvimento local indicam que, em 90% dos casos (senão mais), tais fatores são de natureza política. O assistencialismo, o clientelismo, a centralização e a criação de um clima adversarial na base da sociedade (em geral por razões político-eleitorais) são responsáveis por boa parte das dificuldades que vêm enfrentando, cotidianamente, indivíduos e instituições dedicados à promoção do desenvolvimento em localidades e setores. Além disso, o sistema político conspira contra a inovação, encara o crescente protagonismo das populações como uma ameaça, despreza (e desperdiça) os recursos novos que poderiam ser aportados por outros grupos e indivíduos que não pertencem à patota daqueles que administram os governos como se fossem condomínios privados (sim, o sistema político privatiza a esfera pública e, assim, obstrui o processo substantivo de democratização da sociedade).

 

Mas do fato de a política ser predominantemente assim, não se pode derivar que ela esteja condenada a ser sempre assim (como quer a realpolitik). Existem fortes evidências de que isso pode ser mudado. Basta ver que em comunidades de projeto – articuladas em rede, sobretudo em redes comunitárias de desenvolvimento – estão ocorrendo as mais notáveis inovações políticas democratizantes da atualidade. Essas evidências apontam para a existência de uma equivalência prática entre três tipos de iniciativas ou tarefas: induzir o desenvolvimento local <=> animar redes sociais distribuídas (P2P) <=> democratizar a política (na base da sociedade e no cotidiano do cidadão). Ou seja, é razoável apostar na hipótese segundo a qual não haverá desenvolvimento (sustentável, é claro; pois que se não for, não é desenvolvimento) diante de graus insuficientes de distribuição das redes sociais e de democratização da sociedade.

 

Resta muita coisa a ser dita para trocar em miúdos as principais alegações contidas aqui, de sorte a mostrar, sobretudo para quem não está familiarizado com os novos conceitos usados no estudo das redes sociais, que o grau de democratização da sociedade (ou de democratização – ou radicalização – da democracia) tem a ver com o grau de desenvolvimento, ou melhor, com a capacidade de desenvolvimento de uma determinada sociedade. Por ora, podemos dizer, que John Dewey estava coberto de razão ao, insistindo no caráter radical da democracia, pressentir as idéias de rede comunitária e de rede social distribuída, antevendo os processos de disseminação “viral” que só podem se efetivar pelos meios próprios de redes P2P (peer-to-peer). Pois é assim – e não de outra forma qualquer – que ele termina a sua principal contribuição à teoria política, o livro “O Público e seus Problemas” (1927):

 

“There is no limit to the liberal expansion and confirmation of limited personal intellectual endowment which may proceed from the flow of social intelligence when that circulates by word of mouth from one to another in the communications of the local community. That and that only gives reality to public opinion. We lie, as Emerson said, in the lap of an immense intelligence. But that intelligence is dormant and its communications are broken, inarticulate and faint until it possesses the local community as its medium”.

 

Quando falam em ‘social’ as pessoas, em geral, querem se referir àquelas condições que permitem a satisfação de necessidades humanas. Não é por acaso que as chamadas políticas sociais, sobretudo para os governos, são aquelas que ofertam produtos (ações, programas e serviços) de educação, de saúde etc; ou seja: componentes do capital humano (ou do desenvolvimento humano) e não do capital social (ou do desenvolvimento social). Há, ainda, um sentido mais restrito – quase pejorativo – do termo social: aquele que se pega emprestado para designar políticas de combate à pobreza ou à desigualdade, sejam políticas de geração de emprego e renda (tomando a pobreza como insuficiência de renda e a desigualdade como desigualdade econômica, quer dizer, verificada na distribuição desigual da renda), sejam políticas ditas de assistência social (em geral compensatórias ou protetivas, quer dizer, ofertadas pelo Estado para compensar defasagens de inserção verificadas no processo econômico, de distribuição da renda e da riqueza ou para proteger setores vulneráveis ou em situação de risco da população, que não poderiam, por seus próprios esforços, lograr uma inserção adequada em uma sociedade mercantil, ter acesso aos recursos mínimos capazes de garantir uma vida digna ou, mesmo, sobreviver).

 

Digo que este último sentido do termo, pelo menos em alguns casos, é pejorativo, porquanto o ‘social’ fica parecendo uma espécie de “sopa dos pobres”, “pãozinho de Santo Antonio”, alguma coisa que deve ser dada a alguém que não tem condições de obtê-la por seus próprios esforços e méritos. É como se desenvolvimento fosse matéria econômica e, para aqueles pobres coitados que não conseguem se inserir no mundo econômico e ficam à margem das suas dinâmicas, então administramos o remédio, paliativo, do ‘social’. Não se pode negar que aqui se encontram aqueles elementos do “pobrismo” – um tipo de ideologia que contaminou os discursos de inclusão social dos que defendem o protagonismo único ou preponderante do Estado na promoção do desenvolvimento social.

 

Por incrível que possa parecer, raramente se pensa na ‘sociedade’ quando se emprega o termo ‘social’. Em geral não se faz esforço para explicitar uma visão da sociedade, da sua morfologia e da sua dinâmica, quando se fala do ‘social’. A sociedade é encarada, para todos os efeitos práticos, como a coleção dos humanos, assumindo-se o pressuposto econômico (sem declará-lo) segundo o qual o desenvolvimento da sociedade (o conjunto) é uma espécie de resultado do desenvolvimento dos indivíduos (os elementos do conjunto). Não se percebe, assim, que o ‘social’ não se refere propriamente aos indivíduos e sim ao que existe ou ocorre (às relações) entre eles.

 

É por isso que grande parte das intervenções sociais (ações e programas governamentais ou não-governamentais) são ações de desenvolvimento humano e não de desenvolvimento social. Se pedirmos a uma pessoa qualquer para dar um exemplo de programa social é improvável que ela cite um programa de telecentros comunitários. Falará do combate a pobreza, falará das ações de assistência social voltadas às populações carentes, falará de educação, saúde, saneamento básico, transporte, habitação… mas não falará de alguma coisa que incida diretamente sobre as relações (entre os elementos) que constituem o “corpo” da sociedade (o conjunto), nem do seu “metabolismo” (quer dizer, da dinâmica da interação entre os elementos desse conjunto).

 

A sociedade, entretanto, não é uma mera coleção de indivíduos humanos, um conjunto que se possa definir pelas características intrínsecas de seus elementos; queremos dizer com isso que os mesmos elementos podem gerar diversos tipos de sociedade, bastando, para tanto, que se mudem as relações entre eles. A sociedade, portanto, é alguma coisa que só pode ser adequadamente designada pela noção de ‘sistema’ (e de sistema complexo, com evidentes características adaptativas; e, se não fosse assim, poderíamos jogar no lixo todas as conversas sobre sustentabilidade).

 

São os padrões de relação que caracterizam a sociedade. Como esses padrões se modificam continuamente (e isso é a dinâmica social), a rigor, são os invariantes encontrados nesses padrões (aquilo que não muda, ou que não muda tão rapidamente quanto as configurações do permanente fluir que constitui as próprias relações) que podem distinguir uma sociedade particular de outra sociedade particular. Tais invariantes nada mais são do que modos de fluir que se tornam recorrentes, caminhos muito trafegados que, por isso, acabam constituindo singularidades topológicas no “tecido social” (ou seja, estou falando sobre aquelas coisas que, vistas de fora, são chamadas de identidades).

 

Cada vez fica mais evidente que esses padrões são padrões de rede (definidos pela existência de múltiplos caminhos entre os nodos). Com o aumento do número de conexões – ou com o aumento da conectividade dessas redes – (impulsionado recentemente pela possibilidade de conexão em tempo-real ou sem-distância), diz-se que está emergindo uma sociedade-rede.

 

Sim, mas, na verdade, toda sociedade propriamente dita é uma sociedade-rede. Sem rede social não subsiste o conceito de sociedade, porquanto o que chamamos de ‘sociedade’ é, propriamente falando, a configuração móvel das relações estabelecidas entre os seus elementos (os indivíduos) e não o simples ajuntamento territorial desses indivíduos. Conquanto, dito assim, tudo pareça tão óbvio, surpreendentemente, não é: uma prova disso é que as pessoas continuam pensando nas sociedades e querendo intervir no ‘social’ como se a rede social não existisse. E não se esforçam por compreender a morfologia e a dinâmica das redes sociais sobre as quais querem intervir.

 

Não é difícil verificar a validade desse meu juízo: bastaria fazer uma pesquisa entre os policymakers governamentais e não-governamentais (de fundações e institutos empresariais ou de ONGs) da chamada “área social”, pedindo-lhes para conceituar rede social, ou para descrever alguns constructs importantes utilizados na análise de redes sociais ou, ainda, para citar meia dúzia de pesquisadores ou de trabalhos científicos importantes nessa área em andamento nos últimos dez anos. Mesmo sem fazer a pesquisa sugerida, já sabemos que o resultado desse survey será decepcionante e, se quisermos preservar a credibilidade dos responsáveis por nossas “políticas sociais”, impublicável.

 

Se o que chamamos de social é, stricto sensu, a rede social, devemos então concentrar nossa atenção no que caracteriza essa rede. Mas não podemos caracterizar uma rede e, mais especificamente, uma rede social, com as ferramentas conceituais e analíticas fornecidas pela velha sociologia, cujas categorias são inadequadas ou impotentes para captar e explicar processos novos (ou só percebidos recentemente) como “closeness“, “betweenness“, “clustering” e “swarming” (e os conceitos criados para captar tais processos são tão recentes que permanecem ainda com suas denominações originais e provisórias).

 

Bom, aqui começa a fazer sentido a necessidade de estudar as redes para compreendê-las e para poder operar sobre elas. E começa a fazer falta o conhecimento que pode ser fornecido por novas disciplinas como a SNA (Social Newtwork Analysis) e os conhecimentos derivantes do estudo dos sistemas complexos aplicados à “nova ciência das redes”: modelagem de redes “real-world”, redes como estruturas e redes como sistemas dinâmicos (um excelente reader sobre isso foi recentemente elaborado por Mark Newman, Albert-László Barabási e Duncan Watts (2006): “The Structure and Dynamics of Networks”).

 

O que caracteriza uma rede são as variáveis ligadas à sua topologia (se – e em que grau – trata-se de uma rede centralizada, descentralizada ou distribuída, ou seja, de uma rede propriamente dita), à sua densidade (ou conectividade), às suas disposições morfológico-dinâmicas (e aqui entram os eventos de “closeness”, “betweenness”, “clustering” etc.), à quantidade maior ou menor e à distribuição de “hubs” (ou conectores), “inovadores” e “netweavers”, à manifestação de processos de “swarming” (ou de “produção” disruptiva de ordem emergente que pode se manifestar num conflito que se dissemina e engaja seus contendores bottom up, por “contaminação viral”) e a várias outras características que indicam sua predisposição para manter ou alterar sua configuração geral.

 

Ora, todas essas variáveis são de tal natureza que alterá-las implica necessariamente mexer em padrões de organização e em modos de regulação de conflitos. Mas isso é, como sabemos, por definição aliás, nada diferente do que aquilo que constitui o objeto mesmo da política. Ou seja, a rede evoca primeiramente o mundo da política e não, como poderia parecer, o mundo da sociologia.

 

Dando um passo adiante na presente reflexão, chegamos assim ao que parece ainda mais surpreendente: não há outra maneira (sistêmica) de intervir no ‘social’ (propriamente dito, i. e., como sistema) a não ser pela política.

 

Do ponto de vista das redes, o mundo da política é o mundo da sociedade, pois tem a ver com a maneira como os indivíduos se conectam entre si e como os fluxos que atravessam tais conexões (a rigor, que as constituem) se combinam e recombinam, se potencializam (gerando múltiplos laços de realimentação de reforço) ou se anulam. Fluxos que se anulam concorrem para gerar estados de equilíbrio, diminuindo o dinamismo da sociedade (e, conseqüentemente, a sua “capacidade de desenvolvimento”; para um sistema poder se desenvolver é preciso que ele tenha estabilidade e que esteja afastado do estado de equilíbrio). Deve-se fazer um esforço para perceber que aqui estamos falando de política, reinterpretando – a luz do olhar sistêmico – conceitos como forças, ofensiva, defensiva, confronto, alianças, correlações de forças (que são idéias deslizadas indevidamente da “arte da guerra” para a política), porém agora como mensagens, fluxos, combinações de fluxos, reverberação, disseminação…

 

Assim, para dar um exemplo, ao invés de falarmos da capacidade de uma determinada força (política) de se impor às demais na correlação, fazendo com que a resultante aponte – após um confronto ou uma negociação qualquer – para uma direção próxima à sua direção original (um cálculo tipicamente político, olhado de uma perspectiva não-sistêmica), podemos falar agora das condições “ambientais” para que uma mensagem, emitida por um nodo da rede social, alcance outros nodos, o que tem a ver com “betweenness”, ou seja, com o grau de intermediação (medido pelo número de vezes que um nodo aparece no caminho mais curto entre outros dois nodos) e que nos dá uma medida do seu peso como conector (como “hub”), quer dizer, da sua importância (ou “peso político”) para que a rede se mantenha unida. E o que tem a ver também com “closeness”, ou seja com a soma das distâncias que separam um nodo dos outros nodos da rede (medindo a sua capacidade de chegar a outro nodo qualquer). E o que tem a ver, ainda, com “clustering”, como tendência de aglomeração que reduz os graus de separação entre os nodos produzindo o efeito chamado “small world”.

 

Tudo isso é político no sentido próprio do termo (escoimado da degeneração conceitual que foi introduzida pela chamada ‘fórmula inversa – e perversa – de Clausewitz’: “a política como continuação da guerra por outros meios”, a qual, na verdade, se refere, não à política, mas à própria guerra, ou a sua continuação por outros meios. Aliás, desde Hobbes (1651) já sabemos que a guerra não é caracterizada pelo emprego de meios violentos e armas, pela “batalha ou pelo ato de lutar”, mas pela “disposição para tal”.

Hubs, inovadores e netweavers: na rede você é importante na medida da sua capacidade de exercer uma dessas três funções e não do seu exibicionismo, da sua desenvoltura em usar os semelhantes como instrumentos para a sua projeção ou da sua auto-reclusão estudada, baseada numa opinião muito favorável sobre si mesmo ou baseada no seu currículo.

 

Fama, glória, riqueza, poder, conhecimento atestado por títulos – que são sinais de sucesso em outros tipos de sociedade – tendem a não ser os atributos mais importantes na sociedade-rede. Vamos ver como é isso.

 

Hubs. Os hubs são os conectores, os nodos da rede social muito conectados, os entroncamentos de fluxos. Um hub não é necessariamente alguém com grande popularidade ou notoriedade e sim alguém com muitas relações, que pode acessar – e ser acessado por – outros nodos com baixo grau de separação.

 

Não é a fama que faz um hub. Pessoas famosas, celebridades, costumam ser, em geral, inacessíveis. Não são, portanto, conectores. Qualquer trabalho na rede social que não conte com seus principais hubs encontrará mais dificuldades para “conversar” com o que venho chamando de “rede-mãe”.

 

Também não é o conhecimento que faz um hub, a não ser que queiramos nos referir ao conhecimento das pessoas, quer dizer, aos contatos de confiança. Às vezes um hub é o chaveiro do bairro, no qual as pessoas têm confiança de que sua segurança residencial não será colocada em risco (e aqui novamente é evocada a imagem do filme Matrix: aquele ‘O Chaveiro’ era um programa; um hub, de certo modo, também é, um programa que “roda” na rede). Tocamos agora num ponto importante da dinâmica das redes: confiança. Para que um hub possa cumprir a sua função é necessário que as pessoas confiem nele.

 

Ao invés de conhecimento individual, um hub precisa do reconhecimento social. Trata-se de um reconhecimento diferente daquele que manifestamos em relação a uma celebridade: não é um reconhecimento das massas, do grande público, das multidões e sim o reconhecimento realizado um-a-um, molecular. Assim, pode-se dizer que o hub é “produzido” socialmente pela rede.

 

Inovadores. Os inovadores são muito diferentes dos hubs. Muitas vezes não são conhecidos – e nem conhecem – muita gente. Nem são, em geral, muito conectados. Às vezes, são até bastante isolados. Podem vir a ser amplamente reconhecidos, mas isso depende de fatores, em geral, fortuitos. A característica principal do inovador é emitir mensagens na rede que acabam produzindo mudanças de comportamento dos agentes (considerando a rede social como um sistema de agentes). Quando esse processo ocorre, em geral o inovador não sabe bem por que, nem o que, aconteceu. Formaram-se laços de realimentação de reforço (feedback positivo) e a mensagem emitida pelo inovador acabou sendo reforçada e amplificada, adquirindo condições de se disseminar pela rede. Tais mensagens podem ser idéias, modos-de-fazer ou estilos (como a moda, por exemplo), atitudes que contenham novos padrões (sim, um padrão é uma mensagem e pode ser transmitido como tal, como já nos ensinava, há tanto tempo, Norbert Wiener).

 

O inovador – tal como o hub – também é “produzido” socialmente pela rede. Ninguém vira inovador colocando sua inovação na TV ou nos jornais ou anunciando-a em um evento massivo. A inovação é uma perturbação no tecido social que vai se espalhando molecularmente, ponto-a-ponto. Pequenas perturbações, mesmo que partam da periferia do sistema (quer dizer, de regiões pouco clusterizadas da rede social) são capazes de se disseminar se conseguirem atingir uma espécie de tipping point (a coisa parece funcionar como na propagação epidemiológica), mas para cada configuração de rede e, a rigor, para cada tipo de mensagem, podemos ter um ‘ponto de desequilíbrio’ diferente (a partir do qual a mensagem passa a se disseminar exponencialmente).

 

Nem sempre, porém, os inovadores vêem os resultados da sua inovação. Muitas vezes eles desencadeiam mudanças de comportamento que só vão aparecer muito depois, quando não se pode mais atribuir a um inovador particular a paternidade pela inovação, pois é próprio da dinâmica da rede social que muitas mensagens se misturem, se combinem e se transformem em outras mensagens.

 

Netweavers. Os netweavers são os “tecelões” (para aproveitar o que poderia ter sido uma feliz expressão de Platão, no diálogo “O Político”, se ele não estivesse se referindo a um sujeito autocrático), e os animadores de redes voluntariamente construídas. Na verdade, eles constroem interfaces para “conversar” com a “rede-mãe”. Os netweavers não são necessariamente os estudiosos das redes, os especialistas em Social Network Analysis ou os que pesquisam ou constroem conhecimento organizado sobre a morfologia e a dinâmica da sociedade-rede. Os netweavers, em geral, são políticos, não sociólogos. E políticos no sentido prático do termo, quer dizer, articuladores políticos, empreendedores políticos e não cientistas ou analistas políticos.

 

Os políticos tradicionais, entretanto, não são netweavers e sim, exatamente, o contrário disso: eles hierarquizam o tecido social, verticalizam as relações, introduzem centralizações, obstruem os caminhos, destroem conexões, derrubam pontes (ou fecham os atalhos que ligam um cluster a outros clusters, separando uma região da rede de outras regiões), excluem nodos; enfim, introduzem toda sorte de anisotropias no espaço-tempo dos fluxos. Fazem tudo isso porque o tipo de poder com o qual lidam – o poder, em suma, de mandar alguém fazer alguma coisa contra a sua vontade – é sempre o poder de obstruir, separar e excluir. E é o poder de introduzir intermediações ampliando o comprimento da corrente, dilatando a extensão característica de caminho da rede social ou aumentando os seus graus de separação (ou seja, diminuindo a conectividade). Não é por outro motivo que os políticos tradicionais funcionam, via de regra, como despachantes de recursos públicos, privatizando continuamente capital social. Pode-se dizer que, nesse sentido, os políticos tradicionais são os anti-netweavers, na medida em que contribuem para tornar a rede social menos distribuída e mais centralizada ou descentralizada (isto é, multicentralizada). Também não é a toa que todas as organizações políticas – mesmo no interior de regimes formalmente democráticos – têm topologia descentralizada (ou mais multicentralizada do que distribuída). Essa também é uma maneira de descrever, pelo avesso, o papel dos netweavers.

 

É claro que a “culpa” por esse comportamento “desenredante” não é dos políticos tradicionais individualmente. Eles são “produzidos” pelo próprio sistema político na medida em que esse sistema não está democratizado. Em outras palavras, quanto mais democratizado estiver o sistema político mais o agente político atuará como um netweaver; e vice-versa.

 

É preciso considerar que os netweavers articulam e animam redes (netweaving) – conectando pessoas-com-pessoas, com o grau máximo de topologia distribuída que for possível alcançar – independentemente do objetivo dessas redes. Podem ser netweavers digitais (ou cybernetweavers), que contribuam, por exemplo, para expandir a blogosfera, quer inaugurando seu próprio blog, quer ajudando outras pessoas a adquirirem essa efetiva condição de inclusão digital, quer criando ambientes interativos e programas que sirvam para agregar blogs por temas de interesse. Mas podem também se dedicar a induzir o desenvolvimento por meio de redes comunitárias ou setoriais. E podem, ainda, assumir um papel político, mais explícito, de experimentar e disseminar inovações políticas (em geral, por enquanto, em pequena escala), ensaiando formas alternativas de democracia – ou de democratização da democracia – ou de governança compartilhada em redes voluntárias de participação cidadã.

 

Ainda percorreremos uma longa jornada antes de assumir mais amplamente esses novos paradigmas, o que não significa que eles já não estejam vigendo. Quem está “na ponta” já se comporta mais ou menos assim. Basta ver o que começa a ocorrer nos meios científicos: antes um pesquisador, para ser reconhecido, precisava se submeter ao conselho editorial de uma publicação autorizada pelas instituições acadêmicas e esperar alguns meses (às vezes muitos) para ter seu trabalho publicado (ou rejeitado). Agora boa parte desse pessoal publica as descobertas que vai fazendo nos seus próprios blogs, imediatamente e sem pedir licença a ninguém. Convenhamos: é uma mudança é tanto!

 

Vai acontecer com os inovadores o que já acontece com algumas atividades intelectuais ou exercidas na área do conhecimento; por exemplo, com os escritores. Escritor é quem escreve. O escritor é reconhecido pelos que lêem o que ele publica e não em virtude de ter obtido um título acadêmico ou uma licença de uma corporação de escribas para escrever ou, ainda, um atestado concedido por uma burocracia qualquer. Podem reprovar-lhe o estilo, podem discordar do conteúdo de suas obras, mas não se pode negar que os (muitos) milhões de leitores de Paulo Coelho (ele é o escritor vivo mais traduzido do mundo, em 67 linguas) – que, até onde se saiba, não possui qualquer título acadêmico – reconhecem-no como um escritor (marca que, aliás, jamais será alcançada pelos críticos que o reprovam, tenham ou não razão no que dele dissentem).

 

A rede é uma oportunidade ótima para quebrar o poder das burocracias do conhecimento. Na verdade para quebrar o poder de qualquer burocracia. ‘Quebrar’ talvez não seja a melhor palavra, pois se trata de desobstruir o que foi entupido.

O chamado terceiro setor está hoje diante de um desafio: ou consegue superar a sua forma de organização predominante (a nova burocracia associacionista que constituiu) ou não vai mais poder cumprir um papel inovador.

 

É forçoso reconhecer que as organizações da sociedade civil, em sua imensa maioria, ainda se estruturam como mainframes e não como networks. Quando se denominam redes, quase sempre tal denominação é indevida porquanto aplicada a estruturas verticais de poder, com topologia descentralizada e não distribuída, com baixíssimo grau de rotatividade nas suas direções e com uma burocracia que, a despeito de ser reduzida pela falta de recursos, não deixa de ser formalmente semelhante a qualquer outra burocracia baseada na opacidade dos procedimentos, na discricionariedade das decisões e na verticalidade do fluxo comando-execução. Também é forçoso reconhecer que o paradigma organizativo que adotam essas organizações ainda é aquele, digamos, das fronteiras fechadas.

 

Existem exceções, é claro. Mas o fato é que aquela geração de ONGs que apareceu como grande novidade no último quarto de século, não poderá mais se manter na ponta da inovação social. Se não se reciclar, a ‘nova burocracia associacionista das ONGs’ poderá virar, em breve uma força francamente regressiva em termos da democratização da democracia e do desenvolvimento humano e social sustentável.

 

Não estamos nos referindo à sociedade civil e sim às chamadas organizações da sociedade civil. Não ver a diferença entre as duas coisas já é um sintoma do problema que está sendo enfocado aqui.

 

Em geral as pessoas perguntam: então o que podemos fazer – nós, que priorizamos a atuação na sociedade civil, no terceiro setor – para dar nossa contribuição à democracia e ao desenvolvimento? A resposta não pode ser outra, senão a seguinte: articulem redes de pessoas ao invés de erigir estruturas burocráticas. Não façam igrejinhas. Não construam castelinhos. Não tentem privatizar o capital social do seu entorno ou do seu setor. Capital social é um bem público: quando privatizado, estraga. E pode dar origem a certas formas perversas de sociabilidade. Sobretudo não tentem jogar usando como cacife as relações alheias, negociando a partir da apropriação da vida social das comunidades, organizando, por exemplo, um “curral de pobres” para conseguir uma verba governamental, para atuar como terceirizados na implantação de uma política de assistência social (não estamos delirando: existem centenas, talvez milhares de organizações fazendo isso neste momento, pelo menos no Brasil e em vários países da América Latina e da Europa).

 

Além disso, evitem se comportar como organizações para-mercantis ou neo-governamentais.

 

Herdeira de uma herança político-cultural não convertida suficientemente à democracia, uma parte significativa das ONGs ainda se comporta como organizações fechadas, com programas proprietários, que não compartilham seus recursos e seus conhecimentos. Mais recentemente, compelidas por razões de sobrevivência, muitas dessas organizações resolveram entrar numa onda, vamos dizer assim, de “profissionalização”, tentando imitar os modelos de gestão mais eficientes das empresas. Mas isso, ao invés de fortalecer, vai acabar enfraquecendo a sociedade civil. As organizações do terceiro setor não têm que imitar as empresas (e, muito menos, os governos) e sim afirmar a sua identidade própria de organizações da sociedade civil, presididas por uma “lógica” e uma racionalidade diferentes daquelas que regem o mercado (e daquelas que regem o Estado).

 

Isso não significa, é claro, não aproveitar o conhecimento acumulado pela iniciativa privada em tudo o que diz respeito à estratégia, à gestão organizacional, à gestão de pessoas e de stakeholders e, mais recentemente, à sustentabilidade (esta última, aliás, uma área em que só agora as empresas começam a engatinhar). Mas significa que as tentativas de aproveitar esses conhecimentos ou ferramentas para a gestão do terceiro setor não podem ser bem sucedidas se simplesmente quisermos transplantá-los do segundo para o terceiro setor. O modo como o mercado trata essas questões é – e deve ser mesmo – bastante diferente do modo como a sociedade civil pode tratá-las.

 

Hoje parece existir um coro apontando as vantagens de aproveitar a expertise de planejamento estratégico das empresas, seus modelos de gestão e seus sistemas de governança corporativa. No entanto, existem bons motivos para sustentar que, talvez, sejam as empresas que devam aprender agora com a sociedade civil, sobretudo quando o tema é a sustentabilidade.

 

Sim, as empresas estão diante de um grande desafio: preparar-se para dar conta das novas exigências da sustentabilidade num mundo onde a velocidade das mudanças é vertiginosa e onde o impacto dessas mudanças em uma aérea de atividade repercute diretamente sobre as demais áreas, gerando uma complexidade muito maior do que a verificada em qualquer outra época da história. Assim, não podem mais tratar de estratégia, gestão organizacional, gestão de pessoas e gestão de stakeholders de modo isolado, como se fossem departamentos estanques. Tudo isso agora deve ser encarado do ponto de vista sistêmico (que é o ponto de vista da sustentabilidade). Sustentabilidade, hoje, exige que a empresa atue como agente de desenvolvimento, que saiba fazer a gestão da sua rede de stakeholders, que tenha uma causa para promover o voluntariado interno e externo e que aprenda a articular politicamente não apenas seus interesses, mas também a sua causa, exercendo, para além da responsabilidade social, a sua responsabilidade política. Como se pode ver, várias dessas exigências (padrão de organização em rede, adesão a uma causa, espírito de voluntariado, exercício gratuito da responsabilidade ou cooperação) já constituíam o dia-a-dia (ou, pelo menos, preocupações) das chamadas organizações da sociedade civil antes de entrar no campo de preocupações das empresas.

 

Sim, as organizações da sociedade civil poderão ajudar muito as empresas nesses temas. Todavia, elas deveriam resistir à tentação de se constituírem como empresas disfarçadas para prestar serviços de consultoria às empresas de verdade. Pois, na verdade, elas não podem (porque não sabem mesmo como fazê-lo) transferir seus conhecimentos, digamos, vivenciais (ou experienciais), para as empresas. Na maior parte dos casos trata-se de conhecimentos tácitos, que não estão sistematizados a ponto de permitir uma transposição não-mecânica para as empresas.

 

Um caso exemplar que serve para mostrar a incipiência da formulação das organizações do chamado terceiro setor é o chamado netweaving (a articulação e animação de redes distribuídas). Esse é um conhecimento importantíssimo, neste momento, para as empresas que querem fazer alguma coisa em termos da conquista de sustentabilidade, começando por aprender como se faz a gestão de redes que conectem todos aqueles direta e indiretamente interessados e afetados pela sua atuação (i. e., os seus stakeholders). No entanto, a imensa maioria (com certeza mais de 90% das ONGs e assemelhadas) não se organizam, elas próprias, segundo um padrão de rede distribuída. Ainda são, como foi dito acima (e como todos sabemos), castelinhos com seus reizinhos (sim, porque é ou não verdade que seus dirigentes costumam ficar no comando para sempre ou quase, mais tempo ainda do que os Secretários-Gerais dos velhos partidos comunistas?).

 

Sabe-se que, dada a sua natureza multifária e a outras características de uma forma de agenciamento que só se organiza a partir da emergência, uma das características da sociedade civil é que ela aprende fazendo, não em sala e aula nem em reflexões teóricas de seus dedicados expoentes. Mas como ela poderá aprender netweaving (inclusive para ensinar às empresas) se não pratica netweaving, nem interna, nem externamente?

 

Outro problema é o padrão de relacionamento adotado por essas organizações, quer no interior da própria sociedade civil, quer em relação ao mercado e ao Estado.

 

Quando, por exemplo, uma organização do terceiro setor quer guardar a sete chaves suas metodologias ou tecnologias (achando que com isso vai assegurar sua vantagem comparativa em relação às suas “concorrentes”), então já está se comportando como uma empresa; ou melhor, já está se constituindo segundo a dinâmica própria de uma forma de agenciamento que caracteriza o mercado, não a sociedade civil. O que caracteriza o terceiro setor não é o fato de ele ser não-governamental (isso as empresas e, a rigor, os parlamentos, também são) e nem o fato de ele ser não-lucrativo (governos e parlamentos também não são lucrativos) e sim o modo como agencia os recursos e se relaciona, entre si e com os outros setores da sociedade.

 

Repito: se uma ONG se relaciona com suas congêneres na base da concorrência ou da competição, então ela está assumindo uma dinâmica que é própria do mercado, não da sociedade civil. Melhor seria, então, que não disfarçasse sua (verdadeira) natureza e se constituísse formalmente como uma empresa mesmo. Qual é o problema? Empresas são legítimas, são boas, não há nada de errado com elas (a não ser para as consciências que foram colonizadas pela idéia de que o lucro é um pecado ou a razão de todo mal que assola a humanidade, como sustentavam as narrativas ideológicas igualitaristas e totalitaristas). Ou será que ONGs que se comportam objetivamente como empresas não querem se formalizar como tais apenas para auferir vantagens fiscais, pagar menos impostos, como é freqüentemente acusado o terceiro setor por aqueles que não vêem razões para a existência de uma sociedade civil subsistente fora da ordem do Estado e da “lógica” do mercado (é o que pensava, por exemplo, Margareth Thatcher, repetindo, aliás, o que reza a crença econômica ortodoxa)?

 

Assim como a forma de agenciamento chamada Estado é normativa e a forma de agenciamento chamada mercado é competitiva, a forma de agenciamento chamada sociedade civil (ou terceiro setor) é cooperativa. Se não for, então não subsiste a própria noção de sociedade civil. Eis o ponto!

 

A característica distintiva do terceiro setor, como diz Silvio Sant’Ana, é o fato dele contar com trabalho voluntário, o que é uma outra maneira de dizer: contar com a cooperação – uma forma gratuita de atividade, de ajuda-mútua ou de doação à uma causa fraterna, gerada, talvez, como supõe Maturana, não propriamente por uma racionalidade (no sentido de cálculo ou escolha racional) mas por uma emocionalidade que está na fundação mesmo daquilo que chamamos, stricto sensu, de ‘social’. (1)

 

Se não há voluntariado (ou se não há cooperação efetivamente praticada) em uma organização do terceiro setor, então alguma coisa está errada. Não basta ensinar aos outros como cooperar ou como promover programas de voluntariado. Isso é útil, por certo. Mas pode ser feito por uma empresa.

 

É claro que a objeção sempre levantada nesses casos é a seguinte: mas como as pessoas vão sobreviver, como os dirigentes e os profissionais das organizações do terceiro setor vão poder se dedicar a sua missão se não receberem alguma remuneração? Sempre aceitamos esse argumento como definitivo, mas não é: é abusivo (no sentido literal do termo). Não que não deva haver pessoas remuneradas na direção de organizações da sociedade civil (como prevê, no Brasil, a Lei das OSCIPs). O sinal de que alguma coisa está errada aparece quando todos são remunerados e, mais do que isso, se comportam como se fossem funcionários de uma empresa… e, conseqüentemente, a própria organização se comporta como uma empresa. Isso me faz lembrar aquela anedota: tem rabo de porco, focinho de porco, orelha de porco, pé de porco, mas… (se não é feijoada), por que não deveria ser porco?