Augusto de Franco (11/10/08)

 

Este artigo tenta responder uma pergunta: por que mesmo fazendo o proselitismo das redes distribuídas, como forma inovadora e contemporânea de organização, temos ainda imensa dificuldade de nos organizar sem centralização?

 

Para responder essa pergunta começo com um depoimento pessoal. Nos últimos 40 anos participei de vários tipos de organização: grêmios estudantis e diretórios acadêmicos, organizações revolucionárias e partidos políticos (clandestinos e legais), grupos de estudo de filosofia e de espiritualidade, movimentos sociais, associações de bairro e uma grande variedade de ONGs, empresas, conselhos diversos e agências de desenvolvimento (públicas e privadas), além de uma infinidade de frentes de entidades (algumas vezes chamadas, impropriamente, de redes). Hoje percebo que todas essas formas de organização eram hierárquicas, quer dizer, centralizadas (a rigor, descentralizadas ou multicentralizadas, com graus de centralização predominantes em relação aos graus de distribuição).

 

Há até bem pouco nunca havia experimentado participar de uma rede propriamente dita – uma estrutura distribuída de pessoas (com graus de distribuição predominantes em relação aos graus de centralização) – sem estatutos, sem patrimônio, sem sede, sem registro cartorial e sem submissão à qualquer norma jurídica específica, sem diretoria ou coordenação, sem postos, cargos, funções definidas ou qualquer tipo de burocracia; enfim, sem hierarquia.

 

Alguns anos atrás não acharia possível estruturar qualquer ação coletiva senão partindo de algum tipo de ordem predeterminada e é provável que muitos ainda pensem assim. Mesmo para falar mal das hierarquias ou lutar contra elas, erigimos hierarquias. Até grupos anarquistas, punks (inclusive ciberpunks) ou comunidades de base que procuram reviver a dimensão de contra-poder contida na mensagem cristã primitiva, volta e meia escolhem seus presidentes e diretores (algumas vezes chamados de coordenadores ou facilitadores para mitigar um certo desconforto com a contradição entre o que pregam e a forma como se organizam). Isso ocorre também – por incrível que pareça – com coletivos de ativistas aglutinados em função do proselitismo das redes distribuídas como novo padrão organizativo: não raro tais grupos constroem seus próprios castelinhos ou igrejinhas, redigem estatutos e constituições, elegem juntas diretivas, governadores ou outros tipos de executivos (algumas vezes conferindo-lhes uma parcela de poder discricionário bem maior do que aquela de que dispõem os dirigentes das organizações centralizadas que tanto criticam).

 

O velho e surrado argumento da sobrevivência

 

Os argumentos utilizados (pelos ativistas, em geral, mas não somente por esses) para justificar a necessidade da centralização são variados, mas, quase todos eles, em última instância, baseiam-se na necessidade de sobrevivência diante de situações emergenciais: uma catástrofe natural, um conflito ou uma guerra, uma perseguição, uma situação de crise e de escassez de recursos que ponha em risco a continuidade da organização. Em tais circunstâncias – diz-se – alguém tem que conduzir o barco, segurando o leme com pulso firme e tomando, unipessoalmente ou no âmbito de um pequeno grupo dirigente, decisões sobre o rumo a seguir que não poderiam esperar o demorado resultado da discussão e da deliberação ou da formação do consenso, ativo ou passivo, de todos os stakeholders.

 

Esconde-se aqui, entretanto, uma operação que inverte o sentido da noção de emergência. Como imprevistos podem ocorrer a qualquer momento, então é como se vivêssemos, permanentemente, em situações de emergência. E muitas vezes não percebemos que a centralização – ou o poder vertical, hierárquico – sempre se justifica dessa maneira. Se está pegando fogo no prédio ou se a escola está sendo bombardeada, ninguém pode pensar em reunir uma assembléia ou desencadear uma ampla consulta para decidir o que fazer: é necessário, imediatamente, evacuar os moradores e salvar as crianças do sinistro. Como se fosse habitual e corriqueiro que os prédios de apartamentos ardessem em chamas diariamente às 4 horas da tarde e as escolas fossem alvos de ataques aéreos matinais.

 

Mas esconde-se aqui também uma outra operação, mais sutil, que visa transformar a organização hierárquica em uma finalidade em si. A centralização é introduzida para que a organização possa sobreviver. Não se percebe, entretanto, que ‘sobrevivência’, no caso, é uma metáfora: significa o mesmo que manter a organização como tal, quer dizer, como uma estrutura centralizada, como uma hierarquia.

 

Ora, em períodos de paz, a menos que você seja o corpo de bombeiros, a rádio-patrulha, o pronto-socorro, o salva-vidas ou uma equipe de resgate, a vida não é feita de emergências.

 

Alguns dirão que não existem realmente períodos de paz, que a vida é uma guerra permanente entre as forças do bem (nós, o nosso deus) e as forças do mal (os outros, os inimigos e seus falsos deuses ou demônios: os judeus, o grande satã imperial, os terroristas, a sociedade de consumo, o capitalismo, o neoliberalismo). Não importa muito a quem atribuímos as culpas por todo mal que supostamente assola a humanidade: os que se orientam por essa metafísica – em geral possuídos por um esquema mítico – podem ser sociopatas ou psicopatas perigosos. Mas eles estão por aí, não apenas militando nos fundamentalismos religiosos, mas também em movimentos políticos. Alguns estão chefiando Estados-nações, comandando ordens religiosas, dirigindo escolas e outras organizações geradoras de programas hierarquizantes.

 

Ocorre que, na vida real, quase tudo pode esperar mais um pouco, quase toda decisão a ser tomada pode ser objeto de conversação prévia, de entendimento, de construção de consenso. Se, muitas vezes, não esperamos um pouco mais, não é porque temos que “tirar o pai da forca” e sim porque reproduzimos um padrão, somos guiados (sem ter consciência disso, muitas vezes como zumbis) por algum programa verticalizador, que está rodando na rede exatamente para criar aquela organização hierárquica que queremos não apenas que sobreviva, mas que sobreviva como é… E para que essa organização sobreviva como é, então – et pour cause – centralizamos as decisões, sob o pretexto de evitar um perigo iminente ou aproveitar tempestivamente uma oportunidade que se esfumaria se nos delongássemos. Ora, quando centralizamos, criamos uma estrutura centralizada, a qual, por sua vez, já tem que admitir estatutariamente ou constitutivamente (não apenas by laws, mas em sua constituency) a centralização, para que nossa ação centralizadora possa ser legitimada.

 

Os falsos argumentos pragmáticos

 

Há ainda uma outra ordem de argumentos, considerados práticos ou pragmáticos. Se alguém quer organizar alguma ação coletiva que envolve sempre captação, posse ou depósito e transferência de recursos, então precisa ter uma personalidade jurídica. A lei exige contrato social e estatutos que designem diretores, conselhos de administração ou cargos equivalentes, responsáveis em juízo ou fora dele pela pessoa jurídica, inscrições nacionais e regionais nos cadastros de contribuintes e em vários outros cadastros, sem o que não se pode contratar, comprar e vender, admitir e dispensar funcionários. Os bancos exigem estatutos e atas de eleição de diretorias para abrir e renovar contas correntes e fazer aplicações financeiras. Os governos locais exigem sedes físicas e concedem alvarás de funcionamento sob condições que devem ser cumpridas. Eventuais financiadores, públicos ou privados, exigem também as provas de que todas essas exigências foram cumpridas, bem como certidões negativas de débito fiscal e previdenciário. Enfim, todo o ordenamento jurídico parece levar à centralização ou à ereção de estruturas hierárquicas.

 

Tudo isso é verdade. Mas também é verdade que nenhuma lei proíbe – pelo menos em uma democracia – que pessoas se conectem livre e autônoma e horizontalmente entre si para fazer qualquer coisa que a lei não proíbe.

 

Mas vamos olhar a questão pelo outro lado: a necessidade de formalização jurídica só aparece quando há o desejo de criar uma organização hierárquica baseada na centralização das decisões, dos fluxos comunicativos internos e externos e dos recursos.

 

Se não pretendo ser o depositário da alienação do poder alheio (tomando decisões em seu nome ou representando-o), nem acumular patrimônio e me apossar de quaisquer recursos (tangíveis ou intangíveis; humanos, sociais, ambientais, materiais ou financeiros), por que precisaria erigir uma estrutura hierárquica (formal ou informal)?

 

Não precisaria. Felizmente (até agora), não há nada, nas constituições e nas demais normas legais dos países democráticos, que nos impeça de fazer amigos. Amigos que atuem – dentro da lei – coletivamente, combinando entre si o que querem fazer.

 

Ou seja, não é a lei que proíbe uma forma de organização horizontal – segundo um padrão de rede distribuída – e sim as nossas crenças (autocráticas) de que uma organização desse tipo não pode funcionar.

 

Quem não quer construir castelos não precisa de reis e rainhas, suseranos e vassalos. Quem não quer erigir igrejas não precisa de sacerdotes e processos de ordenação. Quem não quer travar guerras (de qualquer tipo, “quentes” ou “frias”; tribais, religiosas, étnicas, nacionais, políticas ou comerciais) não precisa de destacamento organizado, de contingente regular de força estruturada para viabilizar o fluxo vertical comando-execução. Quem não quer viver às custas do trabalho alheio, não precisa de escravos, servos ou funcionários. Quem não quer controlar os outros, não precisa de mecanismos de comando-e-controle (baseados, sempre, em ordem, hierarquia, disciplina, obediência, vigilância ou patrulha, e sanção – i. e., punição e recompensa).

 

Sim, quase tudo pode ser organizado em rede

 

Mas como uma coisa assim – estruturada como rede distribuída – poderia funcionar? Ora, poderia funcionar normalmente em tudo – quer dizer, para fazer qualquer coisa – que não exige controle.

 

É um universo infinito de possibilidades de interação. Podemos organizar em rede distribuída quase toda ação coletiva (menos as que exigem controle): desde um programa social até um empreendimento empresarial.

 

Na chamada área social, por exemplo, podemos organizar qualquer coisa em rede, desde um programa de desenvolvimento local, passando por um programa de alfabetização ou de melhoria da qualidade da educação básica, até um programa de educação ambiental ou de democratização do acesso à Internet. Como? É simples. Conectando as pessoas interessadas e trabalhando com elas e a partir delas, não importa se essas pessoas pertençam a governos, sejam funcionárias de empresas ou tenham suas próprias ONGs. Desde que elas não queiram falar em nome de sua instituição hierárquica ou não queiram representar as demais, qualquer indivíduo humano pode se conectar horizontalmente em uma rede distribuída e trabalhar articuladamente com outros seres humanos. Não, não está proibido: nem pelos Dez Mandamentos, nem pela lei!

 

Mas e os recursos? De onde virão? Como a rede os guardará, se não tem personalidade jurídica? Ora, os recursos são aqueles que os conectados à rede conseguirem captar ou alavancar. Em primeiro lugar, os recursos principais são os humanos e sociais (que não podem ser propriamente guardados) e o simples fato de uma pessoa ou um grupo de convivência se dispor voluntariamente a participar de uma ação coletiva já é mais do que o necessário. Em segundo lugar, se tais recursos forem financeiros, eles ficarão depositados onde já estão (na conta bancária de alguma entidade, instituição, empresa ou pessoa que quiser disponibilizá-los para a ação pretendida); ou, então, no bolso, no cofre ou no colchão de quem os captou ou doou. Se forem recursos materiais (como máquinas, prédios, terrenos e outros equipamentos), é a mesma coisa. Qual é o problema? Por que precisamos centralizar os recursos? Precisamos apenas que eles sejam aplicados no programa ou nas ações que estão sendo desenvolvidas.

 

O que não podemos é querer ficar com o crédito por tais ações, usando-as instrumentalmente, por exemplo, para aumentar o nosso capital eleitoral, ou para aumentar o preço da nossa hora de consultoria, ou para ganhar um prêmio da Unesco e ficar famoso em uma localidade ou setor, para, então, aumentar o nosso capital eleitoral ou o preço da nossa hora consultoria.

 

Muitas iniciativas sociais que não se organizam em rede são, na verdade, campanhas para promover seus promotores. É claro que, para tanto, eles têm que apresentar resultados, mas os resultados são utilizados para promover seus promotores mais do que para promover o desenvolvimento dos públicos-alvos de suas ações. Não raro tais movimentos são organizados com base na idéia de que devemos centralizar as ações para somar os recursos ao invés de multiplicá-las, pois que isso levaria à dispersão de esforços e ao desperdício. Mas do ponto de vista das redes – e da sustentabilidade – é exatamente o contrário: devemos multiplicar, pulverizar, dispersar, criar redundâncias, múltiplos overllapings. É assim que tem feito a evolução biológica nos últimos quatro milhões de anos. E os seres vivos, incluindo os organismos, as partes de organismos e os ecossistemas – estruturados em rede – são os melhores exemplos de sustentabilidade de que dispomos. Na verdade, centralizar para aumentar a eficiência, a eficácia e a efetividade das ações é apenas um pretexto para… centralizar. E para ficar com a marca. E para auferir ou se apropriar da reputação a ela associada.

 

A praga do “liderancismo”

 

Alguns reclamam que as redes não enfatizam suficientemente o papel fundamental da liderança. Mas é o contrário. As redes distribuídas são o melhor ambiente para a emergência da multiliderança. Essas pessoas – os arautos do “liderancismo” – não querem, na verdade, lideranças (no plural), mas monoliderança! Querem encontrar ou formar alguém que exerça o papel de líder polivalente, líder em todos os assuntos e em todas as ocasiões, líder permanente. Ou, então, querem exercer, elas próprias, tal papel. Mas se alguém se comporta assim, movido pela compulsão de liderar tudo e a todos em quaisquer circunstâncias, é sinal de que está monopolizando a liderança, usurpando a oportunidade de outros também exercerem a liderança nos assuntos que dominam, de que gostam e nas circunstâncias que lhe são mais favoráveis para exercer esse papel.

 

As ideologias da liderança andaram muito em voga nos últimos anos. E ainda remanescem em certos meios empresariais, onde se misturam à crenças perversas sobre uma suposta disposição inata – que poderia ser desenvolvida com treinamento adequado – de alguns indivíduos para liderar os demais. Essa mesma ideologia é usada para legitimar a centralização, que seria não uma configuração topológica da rede social, mas uma espécie de conseqüência orgânica de um atributo “natural”, da capacidade do líder de ser ouvido, escolhido para um cargo, promovido, seguido e, afinal (que é o que importa mesmo aqui) obedecido. Obediência, entretanto, é o oposto de liderança. E só há obediência em estruturas centralizadas.

 

O cretinismo burocrático-associativo

 

Existem também os que desvalorizam as redes distribuídas de pessoas porque desvalorizam as pessoas. Há, por exemplo, um cretinismo burocrático-associativo, muito comum nos que militam na chamada “sociedade civil organizada”, que supervaloriza as organizações em detrimento das pessoas. Isso tem gerado uma cultura deformada de organização que favorece a centralização. Como a pessoa (física) não vale quase nada diante das organizações, todos querem logo montar uma organização para comandar os outros, falar por eles, representá-los… Porque, aí, sim, serão ouvidos. “ – Não, quem pediu a palavra não foi uma mera pessoa e sim o representante da organização X ou Y… Vamos, portanto, conceder-lhe o direito de emitir sua opinião e ouvi-lo com atenção”. É lamentável.

 

Ora, uma pessoa é muito mais do que qualquer organização hierárquica. Ela é fruto, por um lado, enquanto indivíduo da espécie Homo Sapiens Sapiens, de milhões de anos de evolução biológica e, por outro lado, da interação social e da transmissão não-genética (cultural) multimilenar de padrões de comportamento que se formaram a partir da cooperação, da linguagem, da conversação e de outras interações interpessoais que tiveram o condão de tornar de fato humano o que era apenas geneticamente humanizável. É curioso – e lamentável – que tudo isso seja depreciado em troca de padrões organizativos centralizados, competitivos e desumanizantes, que vêm se replicando por não mais do que alguns poucos milênios, desde que surgiu a primeira Cidade-Estado-Templo sumeriana, murada e fortificada, na antiga Mesopotâmia.

 

As empresas também vão se organizar em rede

 

Na área empresarial, as redes distribuídas também têm sua incidência e comparecerão cada vez mais nas discussões estratégicas diante dos novos desafios da sustentabilidade em um mundo cujas principais formas de agenciamento de recursos (Estado, mercado e sociedade civil) estão ficando cada vez mais interligadas. Não se pode prever como será a empresa do futuro, mas é muito mais provável que ela seja uma comunidade de negócios, móvel e flexível, formada dentro da rede dos seus stakeholders, do que uma rígida unidade administrativo-produtiva isolada. E isso é bem mais provável porquanto existem já fartas evidências indicando que nenhuma empresa poderá alcançar sustentabilidade: a) exclusivamente por razões de mercado; b) em que seus empregados trabalhem apenas em troca de salário ou de outras recompensas materiais; c) sem uma causa capaz de mobilizar seus stakeholders; d) que não invista no capital social; e) que não promova o desenvolvimento (humano, social e sustentável); e, fundamentalmente: f) que não tenha um padrão de rede, uma vez que tudo que é sustentável tem o padrão de rede, como mostram nossos melhores exemplos de sustentabilidade (que são os seres vivos, lato sensu).

 

Mas poderiam as empresas adotar realmente um padrão de rede (distribuída)? A resposta depende, é claro, do que entendemos por empresa. Se imaginarmos as fronteiras que definem a empresa tal como é hoje, parece que não. Mas nada indica que a unidade autocrática de comando-e-controle (que constitui o core da empresa tal como é hoje) ficará imune à transição em curso de uma sociedade hierárquica para uma sociedade em rede. E as empresas que quiserem continuar existindo nesse novo mundo que já está se configurando – ou seja, que quiserem ser sustentáveis – certamente não poderão ser definidas pelas suas fronteiras atuais. Ou seja, a empresa-pirâmide vai ser obrigada a realizar uma transição para a empresa-rede; ou não vai existir.

 

O florescimento das escolas de redes

 

O fato é que um novo tipo de padrão de organização – distribuído – vai substituir os velhos padrões, centralizados (ou multicentralizados, quer dizer, descentralizados). Até agora, 99% de nossas organizações, em todos os setores – governamentais, empresariais e sociais – seguem ainda um padrão predominantemente multicentralizado. Mas os graus de descentralização em direção a mais distribuição estão aumentando rapidamente. Basta ver os novos mundos que se organizam em torno da Internet. Basta ver como se configuram os novos empreendimentos na área do conhecimento, desde a pesquisa científica compartilhada horizontalmente, até o desenvolvimento de novos produtos comerciais por meio de processos cooperativos em larga escala, como os que alguns estão chamando de peering. Basta ver as novas formas de conflito, como o swarming e a feição que vão assumindo as guerras contemporâneas, que estão deixando de ser lutas entre mainframes (como os clássicos enfrentamentos entre Estados-nações) para passar a ser – como é o caso do radicalismo islâmico salafita-jihadita da Al-Qaeda pós-2001 – confrontos pulverizados com numerosos grupos de militantes freelancers, organizados autonomamente em relação a um Estado-Maior central (que, se existiu, já não existe mais) e sem conexão direta e rastreável com qualquer estrutura centralizada.

 

Apesar de percebermos claramente essas tendências, ainda temos grande dificuldade, como assinalei no início deste artigo, de nos organizar em rede. No meu caso, depois de passar por dezenas de experiências organizativas centralizadas, a primeira organização realmente em rede da qual estou participando é a Escola de Redes (uma rede de pessoas dedicadas à investigação teórica e à disseminação de conhecimentos sobre redes sociais e à criação e transferência de tecnologias de netweaving).

 

Para nós, que carregamos a pesada herança das organizações baseadas em comando-e-controle, um árduo aprendizado parece ser necessário. Mas talvez para quem veio ao mundo mais recentemente e não tem tais aderências, as coisas sejam mais fáceis, quase naturais. Sim, nos conectarmos aos amigos que querem conviver, conversar, compartilhar experiências, estudar, pesquisar e – por que não? – empreender e trabalhar conosco, parece ser a coisa certa a fazer.

 

Imagino que haverá um florescimento de escolas de redes, lato sensu, quer dizer, de iniciativas de articulação e animação de redes (netweaving) que conectam pessoas-com-pessoas, com grau máximo de topologia distribuída que for possível alcançar – independentemente dos objetivos dessas redes. Não serão agentes políticos explícitos que farão isso. Não serão militantes dedicados a travar algum tipo de “guerrilha na rede” (pelo computador ou pelo celular) que abraçarão um novo tipo de ativismo digital (embora já existam muitos que façam isso). Serão, simplesmente, agentes sociais que abriram mão de replicar formas organizativas piramidais, verticais, baseadas no fluxo comando-execução. Ou seja, que em vez de engordarem a velha burocracia corporativo-partidária e a nova burocracia associacionista (das ONGs, inclusive), apostarão nas redes de pessoas, que conectem os ‘cidadãos-desorganizados’, uns com os outros, em prol de objetivos comuns.

 

Organizações desse tipo podem ser chamadas genericamente de escolas de redes porque serão as novas escolas de uma sociedade rede, ou seja, comunidades de aprendizagem que reconhecem que a escola é a rede e exploram as inéditas possibilidades relacionais e convivenciais, cognitivas e produtivas, de um novo multiverso de conexões, de um espaço-tempo de fluxos que, afinal, começa a ser desvelado.

 

Para mim, pelo menos, essa deveria ser a maior esperança; quero dizer, a nossa melhor aposta.

 

Nossas lideranças políticas, nossos empreendedores – inclusive os da área social – e, por incrível que pareça, nossos inovadores em todas os campos, até mesmo os que se dedicam ao tema emergente das redes sociais, não têm formação democrática. Não estou falando dos que ficam na retaguarda, cumprindo funções burocráticas, mas sim dos que estão na ponta da inovação, daqueles que estão descobrindo, criando e experimentando novas maneiras de pensar e de fazer as coisas. A situação é mais grave do que parece, pois que a maioria desses pioneiros e desbravadores de caminhos não tem, já não se diria formação, mas, nem mesmo, alfabetização democrática. Repetimos, assim, em nossas organizações, quase sempre inconscientemente, a tradição autocrática em tudo o que diz respeito aos padrões de pensamento, ação e de interação com o mundo à nossa volta.

 

Provavelmente isso ocorre porque não temos propriamente uma tradição democrática. A democracia como regime político ou forma de administração do Estado foi experimentada, até agora, apenas em algumas localidades e somente em 7% da nossa história (durante 96 minutos, se tomarmos como referência a escala de 24 horas para 6 milênios de experiência civilizacional). De experimentação democrática foram, na verdade, pouco menos de duzentos anos na antiguidade (509-322 a. E. C.) e outros duzentos anos na época moderna. Mesmo assim, em meados do século 19, do total de 37 países, apenas 1 (um) podia ser considerado como democrático. E há pouco mais de dez anos, quase 70% de 192 nações do globo ainda não podiam ser consideradas como democráticas (tomando-se como critério o pleno sufrágio).

 

Ora, se não há propriamente uma tradição democrática significativa, por que então não construímos uma? Todas as tradições não se constroem, (é claro – e até por definição –) ex post, projetando linhas imaginárias de continuidade, da frente para trás? Todavia, seria possível construir uma tradição do pensamento democrático? A rigor, talvez não. Mas, se fosse possível, a linha imaginária de continuidade do pensamento democrático seria mais ou menos assim:

 

1) Péricles (e seu think tank ateniense, Protágoras, Aspásia etc.: 449-> 429 a. E. C.)

 

2) Althusius (1603)

 

3) Spinoza (1670 -> 1677)

 

4) Rousseau (1754 -> 1762)

 

5) Jefferson (e o network da Filadélfia: 1776)

 

6) “Públius” (os “federalistas” Hamilton, Jay e Madison: 1787 -> 1788)

 

7) Paine (1791)

 

8) Tocqueville (1835 -> 1856)

 

9) Thoreau (1849)

 

10) Mill (1859 -> 1861)

 

11) Dewey (1927 -> 1939)

 

12) Arendt (1950 -> 1963).

 

E depois? Bem, depois vêm os modernos, que são muitos, mas na lista dos quais não se pode esquecer de Lefort (1981), de Castoriadis (1986), de Maturana (1985->1993), de Putnam (1993), de Rawls (1993), de Levy (1994), de Sen (1994->1999)… E, depois ainda, os pluriarquistas e glocalistas contemporâneos (1). Mas não os deliberacionistas e participacionistas típicos do século 20, que curiosamente remanescem neste início do século 21 (2).

 

Que linha de continuidade seria essa, sugerida pela lista acima? Seria a linha originária (ou que recupera o genos da democracia): a democracia não como um regime determinado, mas como um movimento constante de desconstituição de autocracia. Em outros termos, a democracia como o contrário da guerra (e da política como continuação da guerra por outros meios).

 

Não se pode esquecer que as instituições e os procedimentos democráticos surgiram propositalmente – na Grécia de Clístenes, Efialtes e Péricles – para evitar a volta da tirania dos Psistrátidas. Ou seja, quando surge, a democracia já surge como movimento de desconstituição de autocracia. Surge como exercício de conversação na praça, quer dizer, como publicização dos assuntos comuns que haviam sido privatizados pelo autocrata (surge, assim, coetaneamente com a emersão de uma esfera pública). Esse é o seu genos. Por isso convém trabalhar com a “teoria da brecha”, sugerida por Maturana: a democracia como uma brecha que foi aberta (e que, intermitentemente, é aberta e fechada) nos sistemas de convivência patriarcais e guerreiros da civilização dos predadores. A democracia como uma janela para o simbionte poder respirar (e aqui vale a pena ver Althusius e sua idéia de simbiose) (3).

 

Esse roteiro de formação – na verdade, um itinerário de leituras –  deveria fazer parte da educação para a democracia de qualquer pessoa ou de qualquer comunidade de prática, de aprendizagem e de projeto.

 

É claro que um programa como esse só pode ser seguido por quem já adquiriu a condição de autodidata.

 

Antes disso, nas redes familiares, nas redes comunitárias e nas hierarquias escolares básicas (a escola fundamental nos seus primeiros anos), a criança e o jovem deveriam ser introduzidos à democracia por meio de leituras mais amenas: começando pelo estudo da vida de Péricles e dos seus relacionamentos e das demais tentativas de experimentação de processos democráticos ao longo da história. Um bom itinerário aqui seria estudar as formas de interação política dos cidadãos na Roma dos séculos 6 a 2 antes da Era Comum, nos governos locais de Florença e Veneza dos séculos 12 a 14 e, em especial, nas assembléias populares européias – na Inglaterra, na Escandinávia, nos Países Baixos, na Suiça e em outros pontos ao norte do Mediterrâneo e na Península Ibérica – passando depois pelas primeiras constituições de governos representativos, pela Revolução Francesa e seus rebatimentos em todo o mundo ocidental, com destaque especial para Jefferson e o processo de independência dos Estados Unidos, para os “federalistas” e para Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (de 1789). Depois então viria a democracia realmente existente dos modernos e contemporâneos.

 

Tudo isso, todavia, não bastaria. No nível fundamental, a educação para a democracia deveria compreender, além de leituras e debates, jogos e exercícios de interação democrática e, sobretudo, o engajamento em atividades comunitárias voluntárias. Na verdade, a educação para a democracia e a educação para o desenvolvimento (e para o desenvolvimento local) deveriam vir juntas, como dois aspectos da educação para a sustentabilidade, aos quais deveria se somar a educação ambiental propriamente dita.

 

 

UM ITINERÁRIO DE 40 TEXTOS BÁSICOS (até o final do século 20)

 

A) Sobre a democracia dos gregos

 

A maior parte da literatura da época antiga disponível, ou é contrária à democracia (Platão), ou não é grande entusiasta do regime de Péricles (Aristóteles). Essas duas abordagens, infelizmente, sulcaram o caminho por onde escorreram quase todas as versões posteriores, que raramente deram conta de captar o meme democrático original.

 

Na ausência de qualquer texto autoral de Péricles, é necessário estudar a sua vida. As fontes são pouquíssimas: “A guerra dos peloponesos” de Tucídides, a “Vida de Péricles” (nas “Vidas paralelas”) de Plutarco, além, é claro de “A constituição de Atenas” de Aristóteles (ou a ele atribuída). Dos antigos, temos ainda apenas algumas referências feitas pelos poetas cômicos, “A República dos atenienses” (atribuída a Xenofonte ou a um suposto “Velho Oligarca”) – que não faz referência a Péricles, mas contradiz o relato de Tucidides na célebre “Oração Fúnebre” que teria sido pronunciada por Péricles ao final do primeiro ano da Guerra do Peloponeso – e as “Memoráveis” (sobre os ditos e feitos memoráveis de Sócrates) de Xenofonte.

 

De qualquer modo não se pode deixar de ler:

 

422 Eurípedes: “As Suplicantes”

420? Tucídides: “História da Guerra dos Peloponesos e Atenienses”

400-347 [entre] Platão: “A República”

400-347 [entre] Platão: “O Político”

400-347 [entre] Platão: “As Leis”

350-322 [entre] Aristóteles: “A Política”

322? Aristóteles (atribuída): “A Constituição de Atenas”

 

B) As bases teóricas da reinvenção da democracia pelos modernos

 

Depois de longo interregno, Althusius, Spinoza e Rousseau lançaram os fundamentos para a reinvenção da democracia pelos modernos: a idéia de política como vida simbiótica da comunidade, a idéia de liberdade como sentido da política e a idéia de democracia como regime político capaz de materializar o ideal de liberdade como autonomia. Não se pode, portanto, deixar de ler:

 

1603 Althusius: “Política”

1670 Spinoza: “Tratado Teológico-Político”

1677 Spinoza: “Tratado Político”

1754 Rousseau: “Discurso sobre a origem da desigualdade dos homens”

1762 Rousseau: “O contrato social”

 

C) A experimentação moderna de um pensamento realmente democrático

 

Sob forte influência de um certo pensamento inovador francês, as idéias democráticas germinaram e se materializaram, todavia, na América. Sobre essa experimentação não se pode deixar de ler:

 

1776 Thomas Jefferson et allia: “Declaração de Independência dos Estados Unidos da América”

1787-1788 “Publios” (Alexander Hamilton, John Jay e James Madison): “O Federalista” (em especial Madison (1987) em um comentário sobre a Constituição dos Estados Unidos)

1789 “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”

1791 Thomas Paine: “Direitos do Homem”

1835 Tocqueville: “A Democracia na América”

1849 Thoreau: “Desobediência Civil”

1856 Tocqueville: “O Antigo Regime e a Revolução”

1859 Stuart Mill: “Sobre a Liberdade”

1861 Stuart Mill: “Sobre o Governo Representativo”

 

D) Dois esforços bem-sucedidos de identificação de aspectos do genos (ou do meme original) democrático

 

John Dewey e Hannah Arendt conseguiram identificar o que havia de original na idéia de democracia: a democracia como modo-de-vida comunitária, essencialmente cooperativo, local, na base da sociedade o no cotidiano do cidadão e a democracia como sentido da política (ou como a política propriamente dita). Cabe ler suas principais obras sobre o tema; pelo menos:

 

1927 Dewey: “O Público e seus problemas”

1929 Dewey: “Velho e novo individualismo”

1935 Dewey: “Liberalismo e ação social”

1937 Dewey: “A democracia é radical”

1939 Dewey: “Democracia criativa: a tarefa que temos pela frente”

1950 (c.) Hannah Arendt: “O que é a política?”

1951 Hannah Arendt: “As origens do totalitarismo”

1954 Hannah Arendt: “Que é liberdade”

1958 Hannah Arendt: “A condição humana”

1963 Hannah Arendt: “Sobre a revolução”

 

E) Interpretações e visões democráticas modernas

 

Restaram-nos as interpretações modernas, que repõem, em parte, o sentido original da democracia, como, entre outras, a de Claude Lefort e a de Cornelius Castoriadis, ou que reiventaram tal sentido, como a de Humberto Maturana. Cabe ler, um pouco mais do que isso:

 

1981 Lefort: “A invenção democrática: os limites da dominação totalitária”

1986 Cornelius Castoriadis: “Sobre ‘O Político’ de Platão” (edição póstuma (1999) de seminários realizados em 1986)

1988 Humberto Maturana: “Lenguaje, emociones y ética en el quehacer político”

1993 (?) Humberto Maturana: “La democracia es una obra de arte” (s. /d).

1993 Humberto Maturana: “Amor y Juego: fundamentos olvidados de lo humano – desde el Patriarcado a la Democracia” (com Gerda Verden-Zöller)

1993 John Rawls: “O liberalismo político”

1993 Robert Putnam: “Making Democracy Works”

1994 Levy: “A inteligência coletiva”

1998 I. F. Stone: “O julgamento de Sócrates”

1999 Amartya Sen: “Democracia como um valor universal”

1999 Amartya Sen: “Desenvolvimento como liberdade”

 

É claro que uma lista mais completa de obras políticas que têm a ver com a democracia (ou com a sua negação) seria bem maior (4), mas – dado o quadro de analfabetismo atual – talvez seja pedir demais que se leve em consideração o repositório completo do que se escreveu, nos séculos passados, sobre a democracia (inclusive pelo avesso).

 

Creio que o itinerário das 40 leituras listadas acima deveria ser parte de qualquer currículo de educação para a democracia – disciplina que deveria ser obrigatória nas escolas e universidades, mas não é e tudo indica que não será. Cabe-nos, portanto, propagandeá-lo como um novo programa autodidático (5).

 

 

UM CURSO AUTODIDÁTICO DE POLÍTICA DEMOCRÁTICA

 

Para quem está interessado na política democrática, imagino que seja melhor fazer um esforço autodidático para ler as obras fundamentais do que se matricular em um curso superior de política e ficar assistindo aulas de professores que reproduzem as modas da época, indicam bibliografias (em geral fotocópias de partes de textos clássicos, resenhas e análises que interessam mais aos trabalhos acadêmicos que eles estão fazendo no momento do que ao aluno) e que, via de regra, não leram, eles próprios, a maioria dos textos básicos.

 

Sim, é necessário ler pelo menos uma parte dos textos básicos: alguns clássicos, com certeza, mas também alguma coisa contemporânea. A lista completa pode chegar a uns 200 textos (mas não ultrapassará esse número). Digerir tudo isso é meio impraticável, sobretudo se considerarmos que não basta ler os textos. O estudante deve procurar se informar sobre o autor e sobre as circunstâncias em que produziu sua obra. Deve ler um ou dois artigos de especialistas contextualizando a obra. E não pode trocar a leitura dos textos (fontes) pela leitura do que disseram sobre esses textos. Ao contrário do que se pratica nas academias, é preciso que o estudante vá primeiro beber direto na fonte para depois fazer o que quiser (ou puder).

 

Aulas não servem para muita coisa. Se houver um grupo de meia dúzia a uma dúzia de estudantes interessados e esse grupo puder organizar um seminário de dez em dez dias sobre cada um dos textos, será o ideal. Leitura individual (2 a 3 horas por dia), três discussões (de 6 horas cada, por mês) e pronto. Ou quase.

 

Por último, é bom que o estudante escreva um pequeno artigo (de, no máximo, uns 5 mil caracteres, pois a capacidade de produzir uma síntese é um dos indicadores de compreensão) sobre o texto que leu. Não é para resumir, resenhar, “fichar” ou copiar (ou repetir com outras palavras) o que disseram o autor ou seus comentadores e críticos. É para descobrir coisas novas, formar uma opinião própria que tente acrescentar alguma coisa ao que já foi dito.

 

A rigor nenhum conhecimento pode ser transferido. O conhecimento é sempre criado e recriado ou reconstruído; de certo modo, inventado. Quem não inventa nada, não aprende nada.

 

Considerando nosso analfabetismo democrático, seria recomendável começar pelo itinerário proposto acima, que compõe aquela linha imaginária que tenta recuperar a idéia de democracia (no sentido em que John Dewey falava da “democracia como idéia”). A partir daí o estudante, certamente, saberá o que fazer.

 

A “prova” final de um curso autodidático como esse é escrever alguma coisa original, inventada. Inventada, sim: não acredite nos que vão dizer que isso é “assim” ou não pode ser “assado”. Produza, publique sem pedir autorização a ninguém e depois arque com as conseqüências expondo-se a crítica.

 

A árvore se conhece pelos frutos. Não é necessário um fiscal para dizer se o fruto é bom ou ruim segundo suas concepções e seus gostos. Se as pessoas puderem chegar até a árvore, colher os frutos e experimentá-los, saberão se vale a pena comê-los até o fim. Ponto.

 

 

APRENDER DEMOCRACIA É DESAPRENDER AUTOCRACIA

 

No entanto, não basta conhecer as reflexões teóricas sobre as diversas experiências de democracia e as teorias normativas inspiradas por tais reflexões. A democracia não é um regime determinado, não é um modelo aplicável a várias circunstâncias, mas um movimento ou uma atitude constante de desconstituição de autocracia. Assim, segundo o conceito (“forte”) de democracia apresentado por tal itinerário de leituras, aprender democracia é desaprender autocracia.

 

Uma das posturas mais importantes na formação de lideranças para o exercício da política democrática é aprender a perceber os sinais da mentalidade e das práticas autoritárias e os sintomas dos processos de autocratização da política. Não se trata apenas de conhecer as teorias e o que disseram os clássicos da chamada ciência política sobre o assunto. Trata-se da capacidade de identificar padrões, o que faz parte daqueles conhecimentos tácitos da “arte” da política que devem ser adquiridos pela observação atenta da própria experiência e das experiências alheias.

 

Pequeno ou grande, o poder autoritário se comporta sempre de maneira semelhante. Não importa se o agente não convencido do valor da democracia está dirigindo uma pequena ONG de bairro, um partido ou um governo. Há um padrão de comportamento que se faz presente em todas as práticas antidemocráticas e que se revela como poder de obstruir, separar e excluir. Nos casos mais exacerbados, o poder exercido de tal maneira pode perseguir, prender, torturar e matar, só não o fazendo, em muitas situações, em virtude da falta de condições para tanto.

 

Um processo de formação política democrática deveria contemplar o estudo cuidadoso desse “padrão Darth Vader” (para usar a excelente metáfora da série “Star Wars”, de George Lucas). Nesse sentido, pode-se aprender muito lendo, por exemplo, Ryszard Kapuscinski: “Cesarz” (1978), que foi publicado no Brasil sob o título “O Imperador: a queda de um autocrata”. Por meio de uma narrativa impressionante, baseada em entrevistas feitas pelo autor – o jornalista polonês Kapuscinski – com antigos colaboradores de Hailé Selassié I, ele descreve os bastidores do palácio do tirano que governou a Etiópia por 44 anos (6). Ou com Simon Sebag Montefiore: “Stálin: a corte do czar vermelho” (2003), também baseado em entrevistas feitas pelo jornalista Montefiore com os sobreviventes e os descendentes da era stalinista e em pesquisas em cartas e outros documentos que só recentemente foram liberados, o livro descreve a intimidade do poder despótico que até há pouco era meio desconhecida, revelando a sua face brutal (7). Ou, ainda, com Jung Chang e Jon Halliday: “Mao: a história desconhecida” (2005), no qual Chang (já conhecida pelo seu excelente “Cisnes selvagens”) e seu marido Halliday, empreenderam uma pesquisa monumental para descrever a outra face da vida de Mao Tse-Tung, que – segundo a palavra dos autores – “durante décadas deteve o poder absoluto sobre a vida de um quarto da população mundial e foi responsável por bem mais de 70 milhões de mortes em tempos de paz, mais do que qualquer outro líder do século 20” (8). Este último é, de todos, o livro mais impressionante que talvez já tenha sido escrito sobre as conseqüências maléficas da direção do Estado nas mãos de um líder determinado a conquistar e a manter o poder a qualquer custo (9).

 

Pode-se dizer que as tragédias desses regimes comandados por Selassié, Stálin e Mao são coisas muito distantes da situação em que vivem os países democráticos atuais. Mas as coisas não são bem assim. O “padrão Darth Vader” que se manifestou em alto grau no comportamento desses três autocratas pode também estar presente em outros líderes, pequenos ou grandes, muitas vezes não conseguindo se desenvolver em virtude de circunstâncias ambientais ou institucionais adversas. Tais circunstâncias, que decorrem de configurações sociais coletivas, quando são favoráveis à ereção de sistemas de dominação tendem a reforçar e a retroalimentar atitudes míticas diante da história, sacerdotais diante do saber, hierárquicas diante do poder e autocráticas diante da política. Toda vez que a rede social é obstruída, toda vez que se introduzem centralizações na teia de conexões ou de caminhos que ligam os nodos dessa rede distribuída, gera-se uma configuração mais favorável ao crescimento e a manifestação desse poder vertical que está no “DNA” da civilização patriarcal e guerreira. A democracia, como percebeu Humberto Maturana (1993), é uma brecha nesse paradigma civilizatório (10).

 

Compreendendo o que pode florescer em ambientes sociais fortemente centralizados e nos quais os modos de regulação de conflitos não são democráticos, podemos perceber os sinais e interpretar os sintomas do processo de autocratização da política onde quer que eles surjam, inclusive no interior de regimes formalmente democráticos. Pode-se, inclusive, aprender a detectar as tentativas contemporâneas de autocratização da democracia, baseadas no uso instrumental da democracia no sentido “fraco” do conceito (quer dizer, na utilização de alguns dos mecanismos, instituições e procedimentos da democracia representativa, como o sistema eleitoral), para enfrear o processo de democratização das sociedades, seja pela via da protoditadura (que se caracteriza, fundamentalmente, pela abolição legal ou de facto da rotatividade democrática), seja pelo emprego da manipulação em larga escala, como ocorre nas novas vertentes do populismo que vêm sempre acompanhadas do banditismo de Estado, da corrupção de Estado, da perversão da política e da degeneração das instituições por meio da privatização partidária da esfera pública e do aparelhamento da administração governamental (11).

 

De qualquer modo, para conhecer o poder vertical – a sua “anatomia” e a sua “fisiologia”, vamos dizer assim – devemos estudá-lo em estado puro (ou quase), como ocorreu na Etiópia de Selassié, na União Soviética de Stálin e na China de Mao. Depois será mais fácil perceber seus indícios em nosso cotidiano, inclusive quando surgem em uma pequena organização (12).

 

 

Notas e referências

 

(1) Isso não deixa de ser um problema na medida em que boa parte dos críticos não-autocráticos da democracia representativa, que lhe apontam corretamente as insuficiências e mazelas, procurando superá-las com a adoção de novas formas de convivência e interação baseadas na abundância dos meios de comunicação disponíveis em uma sociedade-rede (como os pluriarquistas digitais, por exemplo) não conseguiu formar um conceito de esfera pública e, para falar a verdade, não conseguiram sequer vivenciar, em suas experiências comunitárias inovadoras, uma cultura democrática.

 

(2) Quase todo pensamento contemporâneo ligado à radicalização da democracia (um conceito originalmente deweyano, deformado ou pervertido pelo pensamento marxista, nas suas vertentes leninistas ou gramscianas) e à chamada democracia deliberativa ou à democracia participativa, representa a negação da “tradição” democrática como pazeamento (quer dizer, aquela que toma a política como o contrário da guerra, como percebeu Arendt). A chamada “esquerda democrática” é composta, em sua maioria, por novos defensores da política como uma continuação da guerra por outros meios: a fórmula inversa de Clausewitz-Lenin (quer dizer, nos termos que Arendt julgou ser o dos democratas gregos, da não-política). São, assim, até certo ponto paradoxalmente, os novos teóricos da autocracia (não da democracia) que a compõem.

 

(3) Há uma mistura (um deslizamento epistemológico, se quisermos) entre conceitos com stati diferentes nos discursos que tentam captar e comparar diversos meanings da democracia. Em Alfabetização Democrática (2007) (disponível em http://alfademo.blogspot.com) tentei resolver esse problema falando de dois sentidos do conceito de democracia: um “forte” (deweyano) e um “fraco” (dos que tomam a democracia como forma de administração política do Estado). É, mutatis mutandis, a mesma diferença entre as visões de soberania de Althusius e Bodin; ou, entre as visões do sentido da política de Hobbes e de Spinoza. Da visão hobbesiana (ainda francamente hegemônica, no pensamento político e, sobretudo, naquilo que foi chamado de Economics) decorre necessariamente uma visão de governo (controle) e não de liberdade (como em Arendt).

 

(4) Eis uma lista mais completa – até o final do século 20 – contendo cerca de 160 textos (incluindo pontos de vista autocráticos e democráticos sobre a política):

 

604 (c.) “Tao-te King” de Lao Tzu

500 (c.) Sun Tzu:“A Arte da Guerra”

490 Confúcio: “Os Analectos”

472 Ésquilo: “Os Persas”

422 Eurípedes: “As Suplicantes”

425 Tucídides: “História da Guerra dos Peloponesos e Atenienses”

427-347 Platão: “A República”

427-347 Platão: “O Político”

427-347 Platão: “As Leis”

383-322 Aristóteles: “A Política”

383-322 Aristóteles: “A Constituição de Atenas”

280-234 Han Fei Zi: “A Arte da Política (Os homens e a lei)”

106-43 Cícero: “Da República”

106-43 Cícero: “Das Leis”

106-43 Cícero: “Dos Deveres”

1225-1274 Tomás de Aquino: “Do Governo dos Príncipes”

1312 Dante Alighieri: “Da Monarquia”

1324 Marcílio de Pádua: “Defensor da paz”

1513 Maquiavel: “O Príncipe”

1516 Thomas Morus: “A Utopia”

1519 Maquiavel: “Discursos sobre a primeira década de Tito Livio”

1548 La Boétie: “Discurso da servidão voluntária”

1576 Francesco Guicciardini: “Recordações Políticas e Civis”

1576 Jean Bodin: “Os Seis Livros do Estado (ou da República)”

1589 Giovanni Botero: “A Razão de Estado”

1602 Tommaso Campanella: “A Cidade do Sol”

1603 Althusius: “Política”

1625 Grotius: “Direito da Guerra e da Paz”

1632-1639 (c.) Richelieu: “Testamento político”

1642 Hobbes: “Do Cidadão”

1647 Baltazar Gracián :“A Arte da Prudência”

1651 Hobbes: “Leviatã”

1670 Spinoza: “Tratado Teológico-Político”

1677 Spinoza: “Tratado Político”

1683 Cardeal Mazarin: “Breviário dos Políticos”

1688 Leibniz: “Elementos do Direito Natural”

1690 Locke: “Dois Tratados sobre o Governo”

1716 François de Callières: “Como negociar com Príncipes”

1748 Hume: “Investigação sobre o Entendimento Humano”

1749 Montesquieu: “O Espírito das Leis”

1754 Rousseau: “Discurso sobre a origem da desigualdade dos homens”

1762 Rousseau: “O contrato social”

1764 Beccaria: “Dos Delitos e das Penas”

1776 Thomas Jefferson:“Declaração de Independência dos Estados Unidos da América”

1787-1788 “Publios” (Alexander Hamilton, John Jay e James Madison): “O Federalista” (em especial Madison (1987) em um comentário sobre a Constituição dos Estados Unidos)

1789 “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”

1789 Bentham: “Introdução aos princípios da moral e da legislação”

1789 Sieyès: “O que é o Terceiro Estado”

1790 Burke: “Reflexões sobre a Revolução Francesa”

1791 Thomas Paine: “Direitos do Homem”

1792 von Humbolt: “Ensaio sobre os limites da atividade do Estado”

1795 Kant: “A paz perpétua”

1797 Kant: “Metafísica dos Costumes”

1808 Ficht: “Discursos à Nação Alemã”

1815 Benjamin Constant: “Princípios da política”

1816 Bentham: “Sofismas Políticos”

1819 Benjamin Constant: “Discurso sobre a Liberdade dos Antigos Comparada com a dos Modernos”

1821 Hegel: “Princípios de Filosofia do Direito”

1832 Carl von Clausewitz: “Da Guerra”

1835 Tocqueville: “A Democracia na América”

1840 Proudhon: “O que é a Propriedade”

1843 Marx: “A questão judaica”

1843 Marx: “Crítica da filosofia hegeliana do direito”

1849 Thoreau: “Desobediência Civil”

1856 Tocqueville: “O Antigo Regime e a Revolução”

1859 Stuart Mill: “Sobre a Liberdade”

1861 Stuart Mill: “Sobre o Governo Representativo”

1896 Mosca: “Elementos de Ciência Política”

1908 Sorel: “Reflexões sobre a Violência”

1909 Croce: “Filosofia da Prática”

1911 Michels: “Os partidos políticos: ensaios sobre as tendências oligárquicas das democracias”

1916 Gentile: “Fundamentos da Filosofia do Direito”

1919 Pareto: “As Transformações da Democracia”

1922 Weber: “Economia e Sociedade”

1927 Dewey: “O Público e seus Problemas”

1929 Dewey: “Velho e novo individualismo”

1932 Carl Schmitt: “O Conceito do Político”

1935 Dewey: “Liberalismo e ação social”

1937 Dewey: “A democracia é radical”

1937 Horkheimer: “Teoria tradicional e teoria crítica”

1939 Dewey: “Democracia criativa: a tarefa que temos pela frente”

1942 Horkheimer: “O Estado autoritário”

1942 Schumpeter: “Capitalismo, socialismo e democracia”

1944 Hayek: “O caminho da servidão”

1944 Polanyi: “A Grande Transformação”

1945 Kelsen: “Teoria geral do Direito e do Estado”

1947 Gramsci: “Cadernos do Cárcere”

1950 (c.) Hannah Arendt: “O que é a política?”

1951 Hannah Arendt: “As Origens do Totalitarismo”

1954 Hannah Arendt: “Que é liberdade”

1955 Sartori: “Os Fundamentos da Democracia”

1957 Jones: “Athenian Democracy”

1957 Sartori: “Democracia e definição”

1958 Hannah Arendt: “A condição humana”

1961 Jane Jacobs: “Morte e vida das grandes cidades”

1962 Aron: “Paz e guerra entre as nações”

1963 Hannah Arendt: “Sobre a revolução”

1965 Agard: “What Democracy Meant to the Greeks”

1965 Aron: “Democracia e totalitarismo”

1968 Christophersen: “The Meaning of “Democracy” as Used in European Ideologies from the French to the Russian Revolution”

1969 Berlin: “Quatro ensaios sobre a liberdade”

1973 Macpherson: “Teoria democrática”

1974 Clastres: “A sociedade contra o Estado”

1977 Macpherson: “A democracia liberal e sua época”

1980 Gutman: “Liberal Equality”

1981 Lefort: “A invenção democrática: os limites da dominação totalitária”

1984 Barber: “Strong democracy: participatory politics for a New Age”

1984 Bobbio: “Ética e Política”

1984 Bobbio: “O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo”

1984 Robert Axelrod: “The evolution of cooperation”

1985 Bobbio: “Estado, governo, sociedade: para uma teoria geral da política”

1985 Burnheim: “Is democracy possible? The alternative to electoral politics”

1985 Przeworski: “Capitalismo e social democracia”

1986 Cornelius Castoriadis: “Sobre ‘O Político’ de Platão” (edição póstuma (1999) de seminários realizados em 1986)

1987 Agnes Heller: “Princípios Políticos”

1987 Gutman: “Democratic Education”

1987 Sartori: “A teoria democrática revisitada”

1988 Coleman: “Social Capital in the creation of Human Capital”

1988 Humberto Maturana: “Lenguaje, emociones y ética en el quehacer político”

1989 Robert Dahl: “A democracia e os seus críticos”

1991 Fishkin: “Democracy and deliberation”

1991 Huntington: “A terceira onda”

1991 Morgens Hansen: “The Athenian Democracy in the Age of Demosthenes: Structure, Principles, and Ideology”

1991 Przeworski: “Democracia e mercado”

1992 Jürgen Habermas: “Direito e democracia entre facticidade e validade”

1993 (?) Humberto Maturana: “La democracia es una obra de arte” (s. /d).

1993 Chantal Mouffe: “The return of the Political”

1993 Guéhenno: “O fim da democracia”

1993 Humberto Maturana: “Amor y Juego: fundamentos olvidados de lo humano – desde el Patriarcado a la Democracia” (com Gerda Verden-Zöller)

1993 John Rawls: “O liberalismo político”

1993 Robert Putnam: “Making Democracy Works”

1993 Sunstein: “The Partial Constitution”

1994 Andrew Arato & Jean Cohen: “Civil Society and Political Theory”

1994 Hirst: “Associative Democracy: new forms of social and economic governance”

1994 Levy: “A inteligência coletiva”

1996 Bohman: “Public Deliberation”

1996 Budge: “The new challenge of direct democracy”

1996 e ss. Castells: “A Era da Informação: economia, sociedade: A sociedade em rede, O poder da identidade e Fim de milênio”

1996 David Held: “Models of Democracy”

1996 Joshua Cohen: “Procedure and Substance in Deliberative Democracy”

1996 Jürgen Habermas: “Between Facts and Norms: Contributions to a Discourse Theory of Law and Democracy”

1996 Nino: “The Constitution of Deliberative Democracy”

1997 Fishkin: “The voice of the people: public opinion and democracy”

1997 O’Donnell: “¿Democracia delegativa? Contrapuntos. Ensayos escogidos sobre autoritarismo y democratización”

1997 Robert Axelrod: “The complexity of cooperation: agent-based models of competition and collaboration”

1997 Walzer: “On toleration”

1998 Axel Honneth: “Democracia como cooperação reflexiva. John Dewey e a teoria democrática hoje”

1998 Finley: “O Legado da Grécia”

1998 I. F. Stone: “O julgamento de Sócrates”

1998 Joshua Cohen: “Democracy and Liberty”

1998 Robert Dahl: “Sobre a democracia”

1998 John Holland: “Emergence: from chaos to order”

1999 Amartya Sen: “Democracia como um valor universal”

1999 Amartya Sen: “Desenvolvimento como liberdade”

1999 Claus Offe: “A atual transição da história e algumas opções básicas para as instituições da sociedade”

1999 Fukuyama: “A grande ruptura: a natureza humana e a reconstituição da ordem social”

1999 Guéhenno: “O futuro da liberdade”

2000 Chantal Mouffe: “The Democratic Paradox”

 

(5) Sei que nem sempre é possível, mas minhas experiências passadas e recentes com projetos coletivos sugerem que seria bom colocar como condição prévia para qualquer empreendimento conjunto a formação ou, pelo menos, a alfabetização democrática dos participantes.

 

(6) Kapuscinski, Ryszard (1978). O Imperador: a queda de um autocrata. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

 

(7) Montefiore, Simon Sebag (2003). Stálin: a corte do czar vermelho. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

 

(8) Chang, Jung e Halliday, Jon (2005). Mao: a história desconhecida. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

 

(9) Sobre isso, valeria a pena conhecer também o livro de Robert Service (2000), “Lênin, a Biography” (traduzido no Brasil como “Lênin: a biografia definitiva”. Rio de Janeiro: Difel, 2007).

 

(10) Cf. Maturana, Humberto & Verden-Zöller, Gerda (1993). Amor y Juego: fundamentos olvidados de lo humano – desde el Patriarcado a la Democracia. Santiago: Editorial Instituto de Terapia Cognitiva, 1997.

 

(11) Tal uso da democracia contra a democracia (tomada como regime eleitoral baseado no voto da maioria), substituindo os clássicos golpes de Estado dos anos 60 e 70 do século passado, constitui hoje a nova ameaça à democracia que precisa ser estudada. O banditismo de Estado, em sua forma hard, como na Rússia de Putin, constitui um excelente exemplo da via protoditatorial, mas existem também as formas brandas. Ainda sobre a via protoditarial russa vale a pena ler o excelente livro da jornalista Anna Politkovskaya (2007), recentemente assassinada pelo regime de Putin, intitulado “Um diário russo” (Rio de Janeiro: Rocco, 2007).

 

(12) Existem também algumas obras de ficção que ajudam a compreender a natureza e perceber as manifestações – explícitas ou implícitas – do poder vertical. Pouca gente se dá conta de que é possível aprender mais sobre política democrática lendo atentamente esses livros do que estudando volumosos tratados teóricos sobre política. Para quem está interessado na “arte” da política democrática é importantíssimo ler, por exemplo, a série de livros de Frank Herbert, que se inicia com o clássico “Duna”. Um curso prático de política democrática deveria recomendar a leitura dos seis volumes que compõem essa série: Dune (1965), Dune Messiah (1969), Children of Dune (1976), God Emperor of Dune (1981), Heretics of Dune (1984) e Chapterhouse: Dune (1985). Herbert faleceu em 1986, quando estava trabalhando no sétimo volume da série. Seus livros foram publicados no Brasil pela Nova Fronteira, com os respectivos títulos: Duna, O Messias de Duna, Os Filhos de Duna, O Imperador-Deus de Duna, Os Hereges de Duna e As Herdeiras de Duna. Um bom – e além de tudo prazeroso – exercício de formação política seria tentar desvendar Duna, do ponto de vista daquelas manifestações do poder vertical que se contrapõem à prática da democracia – quer dizer, das atitudes míticas diante da história, sacerdotais diante do saber, hierárquicas diante do poder e autocráticas diante da política – realizando explorações nesse maravilhoso universo ficcional de Frank Herbert. Existem outras séries de ficção em que se pode aprender muita coisa que os livros de política não ensinam. Destaca-se, em especial, essa formidável mitologia de nossos tempos que consagrou o personagem Darth Vader: a série “Star Wars“. Sobre essa série vale a pena ler Decker, Kevin (2005). “Por qualquer meio necessário: tirania, democracia, república e império” in Irwin, William (2005). Star Wars e a filosofia: mais poderoso do que você imagina. São Paulo: Madras, 2005.

“A cidade inteira é a escola da Grécia e creio que qualquer ateniense pode formar uma personalidade completa nos mais distintos aspectos, dotada da maior flexibilidade e, ao mesmo tempo, de encanto pessoal”.

 

Péricles, segundo Tucídides, na oração fúnebre proferida no final do primeiro ano da guerra do Peloponeso.

Como o livro que vinha escrevendo aqui está concluído*, Nan Dai tem agora uma nova destinação. O artigo abaixo, sobre o AUTODIDATISMO, constitui o novo tema de elaboração e interação. Por favor, não deixem de comentar.

(*) Neste momento o livro está no prelo, aguardando apenas a inserção das 39 ilustrações. O título final ficou assim: “Escola de Redes: Novas visões sobre a sociedade, o desenvolvimento, a Internet, a política e o mundo glocalizado”. Curitiba: Escola-de-Redes, 2008.

Já está passando da hora de recuperar Ivan Illicht, que publicou, há quase quatro décadas – em uma época em que as pessoas não podiam captar plenamente o alcance de sua visão inovadora –, o célebre Deschooling Society (1971) (1).

 

Trata-se hoje de investir nos processos e programas educacionais extra-escolares – como o homeschooling, o communityschooling, o unschooling e o autodidatismo (2).

 

As razões são quase óbvias e já foram expostas na minha ‘Carta Rede Social 170’ (14/08/08) (3). Retomo aqui, de forma resumida.

 

Embora se declarem instituições laicas, as escolas são, no fundo, igrejas; ou seja, ordens hierárquicas (sacerdotais) que decidem o que as pessoas devem (saber) reproduzir. Graus de aprendizagem (na verdade, de ensino) são ordenações: medem a sua capacidade de replicar uma determinada ordem. Não é por acaso que a educação a distância encontrou fortíssima resistência na academia. Pelos mesmos motivos, os citados processos e programas educacionais extra-escolares são duramente combatidos pelas corporações de professores, que argumentam – sem se darem conta de que, com isso, estão apenas revelando seu caráter sacerdotal – que não se pode deixar a educação nas mãos de leigos…

 

Todo aprendizado depende da capacidade de estabelecer conexões e reconhecer padrões. Nos dias de hoje, uma criança com acesso à Internet em casa e noções rudimentares de um ou dois idiomas falados por grandes contingentes populacionais (como o inglês ou o espanhol, por exemplo), já é capaz de aprender muito mais – e com mais velocidade – do que um jovem com o dobro da sua idade que, há dez anos, estivesse matriculado em uma instituição de ensino altamente conceituada. Se souber ler (e interpretar o que leu), escrever, aplicar conhecimentos básicos de matemática na solução de problemas cotidianos e… banda larga, qualquer um vai sozinho. Ora, isso é terrível para os que querem adestrar as pessoas com o propósito de fazê-las executar certos papéis predeterminados. Isso é um horror para os que querem formar o caráter dos outros e inculcar seus valores nos filhos alheios.

 

Em uma sociedade-rede, a educação é uma conseqüência dos meios interativos disponíveis na rede. São esses meios que conformam ambientes sociais (clusters) capazes de ensejar aquele tipo de interação caracterizada como educativa. Ou seja: a escola é a rede!

 

Dominar a leitura e a escrita, saber calcular e resolver problemas, ter condições de compreender e atuar em seu entorno social, ter habilidade para analisar fatos e situações e ter capacidade de acessar informações e de trabalhar em grupo, são geralmente apresentados como objetivos do processo educacional básico. No entanto, para além, muito além, disso, os novos ambientes educativos em uma sociedade-rede tendem a valorizar outras competências ou habilidades, como a de identificar homologias entre configurações recorrentes de interação que caracterizam clusters (e, conseqüentemente, reconhecer potenciais sinergias e aproveitar oportunidades de simbiose), saber não apenas acessar, mas produzir e disseminar informações e conseguir não apenas trabalhar em grupo, mas fazer amigos e viver e atuar em comunidade.

 

Sociedades em que as redes são as escolas serão sociedades desescolarizadas, como queria o visionário Ivan Illitch.

 

De certo modo, tudo o que parece realmente necessário para a convivência ou a vida em rede, como a educação para a democracia, a educação para o empreendedorismo e para o desenvolvimento ou a sustentabilidade, não comparece nos currículos das escolas. Não pode ser por acaso. Isso talvez corrobore a constatação de que a escola é uma das instituições que mais resistem ao surgimento da sociedade-rede.

 

Sobre o homeschooling, o communityschooling e o unschooling, o leitor pode encontrar mais detalhes na nota (2).

 

Vou falar agora da necessidade de investir em uma velha-nova modalidade educativa: o autodidatismo. Velha porque foi assim que tudo começou. Nova porque, nos dias que correm, uma criança, uma pessoa adulta ou idosa navegando, lendo e publicando na Web é, fundamentalmente, um autodidata.

 

Não adianta torcer o nariz. Na sociedade que está vindo, todos serão autodidatas, por mais que queiramos condicionar a empregabilidade à formação escolar e acadêmica.

 

Como escrevi recentemente, em Escola de Redes: Novas Visões (2008), na sociedade-rede “você é importante na medida de sua capacidade de exercer uma dessas três funções [hub, inovador ou netweaver] e não de seu exibicionismo, de sua desenvoltura em usar os semelhantes como instrumentos para sua projeção ou de sua auto-reclusão estudada, baseada em uma opinião muito favorável sobre si mesmo ou baseada em seu currículo” (4).

 

Colecionadores de diplomas e títulos acadêmicos não terão muitas vantagens em uma sociedade inteligente. Suas vantagens provêem da idéia de que a sociedade é burra (e eles, portanto – que compõem a burocracia sacerdotal do conhecimento – são os inteligentes). Para se destacar dos demais – quando o desejável seria que se aproximassem dos semelhantes – os sábios precisam que a sociedade continue burra.

 

Estamos vivendo há séculos sob o controle de uma burocracia sacerdotal do conhecimento. Permita-se-me uma outra auto-citação, ainda do Escola de Redes: Novas Visões. “Você fez um estudo interessante sobre determinado assunto, mas a burocracia sacerdotal do conhecimento acadêmico não lhe dá crédito; você tenta ler (ou escrever) alguma coisa inédita, mas não consegue entender (ou ser entendido) por razões estranhas à racionalidade formal (lógica e metodológica) ou substantiva (semântica incluída) do texto: certamente está havendo algum tipo de intervenção hierárquica, que seleciona alguns caminhos na rede em detrimento de outros. Algum programa particularizou uma região da rede instaurando códigos de reconhecimento e permissões. Se você não possui as credenciais (um título, por exemplo, com o qual os mesmos de sempre se condecoram mutuamente em um circuito fechado de quem leu as mesmas coisas, participou das mesmas conversas, quer dizer, compartilhou voltas em torno do mesmo assunto ou da mesma maneira de abordá-lo), seu acesso é proibido. Para esse tribunal epistemológico — que se arroga o direito de dizer o que é e o que não é válido em termos de pensamento — todos são culpados de heresia em princípio. Você tem que ser absolvido por ele, de antemão, para ser aceito” (4).

 

É assim que a escola, nos últimos séculos, não foi um meio de inclusão, mas de exclusão. Nesse tipo de platonismo (como todo platonismo, autocrático), o “doutor” (o sábio) era um representante do mundo dos incluídos, que se destacava do mundo dos excluídos (os ignorantes). Até hoje, no Brasil, se for pego cometendo um crime, quem tem curso superior merece prisão especial: seu diploma lhe confere o direito de não ficar na mesma cela que os sem-diploma (os ignorantes). Sim, o seu suposto conhecimento atestado por títulos lhe dá uma condição superior e é a própria lei que lhe reconhece o direito de se destacar dos semelhantes. Barbaridade!

 

É claro que hoje as coisas devem – e já podem – ser colocadas de outra maneira, envolvendo redes ou comunidades de aprendizagem, sobretudo no que se refere à educação em casa (homeschooling) e à educação comunitária (communityschooling), esta última em um sentido mais abrangente do que o da comunidade sócio-territorial, envolvendo clusters de aprendizagem (ou seja, comunidades como redes com alto grau de distribuição e conectividade). Fala-se até, por analogia com os APL (arranjos produtivos locais), de “AEL” (arranjos educacionais locais), mas o sentido de local aqui deve ser estendido para abarcar, além de comunidades territoriais, todos os tipos de redes identitárias.

 

A sociedade sem escola de Illicht deveria ser, assim, renomeada como a sociedade-escola, desde que fique claro que se trata da sociedade-rede; ou seja, estamos falando da cidade educadora, ou, mais precisamente ainda, das comunidades educadoras que se formam na sociedade-rede.

 

Nesse sentido, não são os aparatos educativos hierárquicos, enquistadas dentro da sociedade, que educam basicamente: na medida em que a sociedade de massa vai dando lugar à sociedade em rede, é a própria sociedade (local, no sentido ampliado) que educa, por meio das comunidades (clusters) que necessariamente se formam em seu seio.

 

Comunidades educadoras são, antes de qualquer coisa, comunidades de aprendizagem, quer dizer, comunidades-que-aprendem. E a pessoa, como continuum de experiências pessoais intransferíveis e, ao mesmo tempo, como série de relacionamentos, aprende por estar imersa (conectada) em um ambiente educativo (5).

 

A educação básica não deveria ser baseada na transferência de conteúdos temáticos secundários e sim na disponibilização de ferramentas de auto-aprendizagem e de comum-aprendizagem. Para reprogramar a educação básica deveríamos começar perguntando o que é necessário para que um indivíduo e uma comunidade possam fazer o seu próprio roteiro de aprendizagem. Do ponto de vista do autodidatismo, temos então uma resposta em 10 pontos:

 

ü      1 – Reconhecer padrões

ü      2 – Estabelecer conexões

ü      3 – Ler na sua língua natal

ü      4 – Interpretar o que leu

ü      5 – Escrever na sua língua natal

ü      6 – Fazer contas (as operações matemáticas básicas)

ü      7 – Aplicar os conhecimentos básicos de matemática na sua vida cotidiana

ü      8 – Ler em outra língua (da globalização, quer dizer, falada por um grande contingente populacional espalhado por vários países e mais de um continente)

ü      9 – Argumentar (rudimentos de lógica)

ü      10 – Navegar e publicar na Internet

 

Esses são os requisitos e as ferramentas contemporâneas da inclusão educacional. Quem dispõe deles pode caminhar sozinho; ou seja, de posse de tais instrumentos, cada um, em função de suas opções pessoais, pode traçar seus próprios itinerários de formação e compartilhá-los com suas redes de aprendizagem. Esses são os requisitos para o autodidatismo.

 

A chamada pré-escola (ou melhor, a educação da primeira infância) deveria se concentrar nos dois primeiros itens (além da fala, é claro). E o passo seguinte deveria ser – quer por meio da escola básica, quer por meio da educação extra-escolar: na educação em casa (homeschooling) e na educação comunitária (communityschooling) – promover o aprendizado dos oito itens restantes. Mas mesmo que a escola básica se dedicasse precipuamente a isso, mesmo assim não se poderia abrir mão da educação em casa (a primeira rede na qual o ser humano se conecta), nem da educação comunitária (a primeira expansão dessa rede, envolvendo os vizinhos, os amigos e conhecidos mais próximos).

 

Para além da escola, essas duas redes serão também indispensáveis na próxima etapa curricular, na qual devem comparecer os primeiros conteúdos temáticos substantivos. Não, não se trata de nada (ou quase nada) do que atualmente compõe os currículos escolares. Trata-se, por incrível que possa parecer, da educação para a sustentabilidade, quer dizer, para a vida (em um sentido ampliado, envolvendo os ecossistemas, inclusive o ecossistema planetário) e para convivência social. Isso compreende duas “disciplinas” (se for possível falar desse modo) interligadas: a educação para a democracia e a educação para o desenvolvimento.

 

A educação para a democracia (em um sentido deweyano do termo) compreende a educação para vida comunitária, para os modos cooperativos de resolução de conflitos e para as formas de relacionamento que ensejam a regulação social emergente (as redes).

 

A educação para o desenvolvimento (humano, social e sustentável) deve compreender, por sua vez, o empreendedorismo (e a chamada pedagogia empreendedora) e o desenvolvimento local (ou comunitário).

 

Todo o restante é suplementar. Pasmem! Mas é isso mesmo. Saúde (incluindo educação física, alimentação e nutrição), artes e literatura, ofícios, história, ciências, filosofia e espiritualidade – são conteúdos importantes, mas não são educação básica em um sentido sistêmico, de acesso a ambientes favoráveis a aprendizagem. Isso não quer dizer que as pessoas não devam aprender essas coisas. Cada um deve aprender o que quiser, o que for necessário para o desenvolvimento de suas potencialidades e para a execução dos papéis sociais que optou por desempenhar. Mas à educação societária (ou comunitária) – à educação como domínio público – cabe se concentrar naqueles dez requisitos para a auto-aprendizagem e naquelas duas dimensões temáticas da educação para a sustentabilidade (democracia e desenvolvimento) que têm a ver com os padrões de vida e de convivência social.

 

A educação para o autodidatismo deve se preocupar basicamente com isso, com a educação como domínio público. Essa a “formação básica” do autodidata – que constituirá o ser humano inteligente em uma sociedade inteligente do futuro – que deveria ser priorizada pela rede familiar, pelas redes comunitárias e pelas hierarquias escolares básicas (a escola fundamental nos seus primeiros anos).

 

E depois? Bem, depois serão os autodidatas que – eles próprios tendo condições de caminhar com suas próprias pernas, desde que aprenderam a aprender – vão dizer o que querem aprender e o que não querem. Em uma sociedade livre, não podemos ficar enfiando conteúdos na cabeça dos outros para cumprir os papéis que desejamos que eles cumpram. Sobretudo não deveríamos, com base na falta de possibilidade (em geral econômica e social) da maioria da população, de fazer escolhas em um leque mais amplo de alternativas, ficar ensinando corte-e-costura para as meninas e carpintaria ou mecânica para os meninos. Isso pode interessar ao dono da fábrica de confecções, de móveis ou da fábrica metalúrgica e da montadora de automóveis, que quer que os filhos alheios aprendam tais ofícios, mas raramente se dispõe a matricular seus próprios filhos nessas escolas técnicas, reservando-lhes um lugar em alguma carreira acadêmica, “superior”, na qual eles vão aprender a mandar nos outros ou a ter melhores condições de auferir altos salários, lucros e benefícios. Como se pode ver, aqui não estamos mais no terreno da educação como domínio público, ainda que muitas das escolas (estatais) que se dedicam ao adestramento da força de trabalho sejam (ditas) públicas.

 

Alguns retrucam que esse tipo de educação para o autodidatismo não pode ter avaliação da aprendizagem, mas isso é falso. A avaliação passa a ser feita em coletivos mais amplos, passa a ser uma avaliação da sociedade – uma avaliação pública stricto sensu – e não a avaliação privada de uma confraria sacerdotal. Em vez das notas e dos títulos conferidos por uma corporação de professores, por uma banca acadêmica, os autodidatas serão avaliados pelo que produzem. É a árvore avaliada por seus frutos e não pelos certificados que recebeu da organização dos botânicos.

 

Isso já acontece com os escritores. Escritor é quem escreve e quem é reconhecido pelos leitores (que lêem seus livros e os recomendam) e não quem recebe autorização para escrever de uma corporação qualquer de escribas ou um conjunto de opiniões favoráveis dos críticos literários. Somente em regimes autocráticos as pessoas têm que ter autorização para publicar o que escrevem. Mas mesmo em regimes formalmente democráticos existem quistos autocráticos (como corporações profissionais ou acadêmicas) querendo impor proibições para tal exercício (como ocorre hoje, por exemplo, com a obrigatoriedade do diploma de curso superior de jornalismo para exercer a função jornalística).

 

As academias científicas também impõem restrições autocráticas. As revistas científicas reconhecidas são dirigidas por conselhos editoriais – que se constituem, como vimos, como verdadeiros tribunais epistemológicos (e freqüentemente também como alfândegas ideológicas) – aos quais cabe dizer o que um estudioso pode ou não pode publicar (a começar pela exigência de diplomas do autor como condição prévia para aceitar sequer receber e examinar o seu paper). Muitas vezes um jovem estudante de astrofísica fica meses esperando um parecer favorável à publicação de um artigo em que relata importantes descobertas que fez.

 

Tudo isso faz parte da organização sacerdotal do conhecimento (etimologicamente, uma hierarquia), que não é mais compatível com a sociedade em rede que está emergindo.

 

Mas na sociedade-rede que está emergindo, nosso astrofísico já encontrou uma saída: agora ele publica suas descobertas imediatamente em seu próprio blog, sem pedir autorização a ninguém. Outros astrofísicos, que também têm seus blogs, lêem o que ele escreveu e interagem com ele. O único resultado é que enquanto o tribunal espistemológico dos pós-PHDs em astrofísica estão pensando se aceitam ou não aceitam seu artigo, a ciência avançou pela polinização mútua das idéias e dez novos artigos sobre o mesmo tema apareceram sucessivamente. Formou-se uma rede. E a rede avaliou a aprendizagem daquele jovem astrofísico por meio de um processo criativo, gerando mais aprendizagem coletiva.

 

Se não houver retrocesso no processo de emergência da sociedade-rede, tudo será assim. As notas, os certificados, os diplomas e os títulos continuarão existindo, mas as pessoas que realmente importam – quer dizer, que se conectam para aprender e produzir juntas – darão cada vez menos bola para essas autorizações hierárquicas.

 

Já há bastante gente pensando assim. Headhunters inteligentes se impressionam muito pouco com a coleção de diplomas apresentados por um candidato a ocupar uma vaga em uma instituição qualquer.Querem saber o que a pessoa está fazendo. Querem saber o que ela pode ser a partir do que pretende (do seu projeto de futuro) e não o que ela é como continuidade do que foi (da repetição do seu passado). Está certo: como se diz, o passado “já era”. O novo posto pretendido não será ocupado no passado e sim no futuro. Então o que é necessário avaliar é a linha de atuação ou de pensamento que está sendo seguida pelo candidato.

 

Em breve, as avaliações de aprendizagem serão feitas diretamente pelos interessados em se associar ou em contratar (latu sensu) uma pessoa. Redes de especialistas de uma área ou setor continuarão avaliando os especialistas da sua área ou setor. Mas essa avaliação será cada vez horizontal. E, além disso, pessoas avaliarão outras pessoas a partir do exame das suas expressões de vida e conhecimento, pois que tudo isso estará disponível, será de domínio público e não ficará mais guardado por uma corporação que tem autorização para acessar e licença oficial para interpretar tais dados.

 

Cada pessoa terá a sua própria Wikipedia. Ao invés de aceitar apenas as oblíquas interpretações doutas, passaremos a verificar diretamente a wikipedia de cada um, aquilo que David de Ugarte (2007) chamou de contextopédia: o arquivo-vivo que contém as definições dos termos habituais, os pontos de vista, as referências, os trabalhos e as conclusões sobre os assuntos da sua esfera de conhecimento e de atuação (6). Quem gostar do que viu, que contrate ou se associe ao autor daquela contextopédia. Ponto final.

 

 

Notas e referências

 

(1) ILLICHT, Ivan (1971). Deschooling society. New York: Marion Boyars, 1971. O original está disponível on line no link abaixo:

 

http://en.wikiversity.org/wiki/Ivan_Illich:_Deschooling_Society

 

Existe tradução brasileira: Sociedade sem escolas. Petrópolis: Vozes, 1985. A íntegra já está disponível no link abaixo:

 

http://www.4shared.com/file/57047554/c83bde51/Ivan_Illich_-_Sociedade_sem_Escolas.html

 

(2) Sobre o homeschooling, saiba mais clicando no link abaixo:

 

http://pessoas.hsw.uol.com.br/homeschooling.htm

 

Sobre o communityschooling, saiba mais lendo o artigo de Erwin Flaxman (disponível em inglês apenas): “The promise of urban community schooling” em The Eric Review vol. 8, Winter 2001, que pode ser acessado pelo endereço abaixo:

 

http://permanent.access.gpo.gov/lps50000/ERIC%20REVIEW%20ARCHIVE/vol8no2.pdf

 

Sobre o unschooling, consulte o site:

 

http://www.unschooling.com/index.shtml

 

(3) Para ler clique no link abaixo:

 

http://augustodefranco.locaweb.com.br/cartas_comments.php?id=255_0_2_0_C

 

(4) FRANCO, Augusto (2008). Escola de Redes: Novas Visões sobre a sociedade, o desenvolvimento, a Internet, a política e o mundo glocalizado. Curitiba: Escola-de-Redes, 2008.

 

(5) Como articulador do Comitê Científico do X Congresso Internacional de Cidades Educadoras (São Paulo, 24 a 26 de abril de 2008), propus um conjunto de 27 questões provocativa para o debate dos participantes, cujo sentido geral era explicitar duas dimensões ainda não suficientemente exploradas ao longo de quase duas décadas de experiências desse interessante movimento surgido em 1990 em Barcelona: a) as relações entre cidade educadora e democracia (democracia entendida aqui quer como regime político formal, quer como experiência de convivência social, na base da sociedade e no cotidiano do cidadão); e b) as relações entre cidade educadora e os processos individuais e coletivos de aprendizagem potencializados pela emergência das redes sociais distribuídas.

 

Em uma proposta de resolução – que não foi objeto de apreciação pela plenária final do Congresso – propus, entre vários outros, os seguintes pontos como conclusões:

 

1) As cidades sempre foram educadoras, assim como o foram também os habitats considerados não-urbanos. Em todas as épocas e lugares a convivência social gerou processos de socialização de seus membros como elementos básicos da própria existência humana em sociedade.

 

2) Nem toda cidade que prioriza políticas públicas, programas e ações governamentais e não-governamentais de educação (ou voltadas à educação) pode ser considerada uma cidade educadora no sentido apontado pelos congressos de Cidades Educadoras. Se fosse assim, não haveria necessidade de construir um novo conceito. Cabe, portanto, identificar os elementos distintivos a partir dos quais se poderia caracterizar uma cidade como educadora.

 

3) O que é propriamente educador na Cidade Educadora é o ambiente favorável à interação educadora. Isso não significa que não são importantes as políticas, os programas e as ações governamentais de educação. Nem que não sejam importantes as escolas e universidades. Nem que não sejam importantes os programas e ações de educação não-governamentais. Tudo isso é importante, mas a sinergia entre essas diversas ações, processos e instituições formais, não-formais ou informais, depende de como elas interagem virtuosamente para produzir um efeito sistêmico. O ambiente educador, portanto, é a chave da questão.

 

4) Somente seres humanos podem educar seres humanos, ou seja, a educação é o resultado de uma interação entre humanos. Cabe identificar quais os novos arranjos sociais capazes de favorecer tais interações, ensejando a multiplicação de atividades educadoras na cidade.

 

5) Toda cidade é educadora na medida em que seu tecido urbano é composto por múltiplas redes sociais que aprendem e promovem interações educativas entre as pessoas conectadas nessas redes. São essas redes que educam em uma cidade educadora. Para além dos necessários programas formais e das estruturas educativas, são essas redes que conformam o ambiente propício à função educadora do processo democrático. São essas redes que educam a própria cidade para que ela possa ser caracterizada como uma cidade educadora no sentido da Carta das Cidades Educadoras.

 

6) A proposta de Cidade Educadora implica a existência de novas institucionalidades educadoras na cidade. Essas novas institucionalidades serão de várias naturezas: governamentais, empresariais e sociais. Parte significa delas deverá ser pública, em um sentido mais amplo do que aquele compreendido pelo Estado. Deverão ser formadas por parcerias entre setores governamentais, empresariais e sociais para buscar extrair sinergias da interação entre esses diversos tipos de agenciamento.

 

7) Cidade Educadora não é uma cidade escolarizada. Ao focalizar prioritária e exclusivamente as escolas como instrumentos ou espaços educativos, pode-se estar contribuindo para uma indesejável escolarização da sociedade ao invés de promover uma necessária socialização das escolas e diminuindo a importância dos ambientes sociais coletivos que deveriam caracterizar uma Cidade Educadora. Cidades Educadoras são cidades nas quais proliferam, além de um sistema escolar eficiente e inclusivo, ambientes educadores extra-escolares.

 

8) O mais importante, porém, é a cidade como espaço de aprendizagem. Cidade Educadora, antes de ser uma cidade-que-ensina é uma cidade-que-aprende e enseja a aprendizagem contínua de seus cidadãos. Assim, antes de perguntar o que é uma ‘Cidade Educadora’, deveríamos perguntar o que é uma ‘Cidade que Aprende’. Uma cidade não pode ser Educadora se não for, antes, uma cidade capaz de aprender ou uma cidade-que-aprende.

 

9) As Cidades Educadoras promovem a educação, transformando-a numa força da cidade na conquista de inclusão, equidade e direitos para todos. Todavia, a idéia de inclusão social não pode ser adequadamente expressada somente como o direito dos cidadãos a receberem algo do Estado. As pessoas devem fazer alguma coisa a mais em favor da sua própria inserção, além de exigirem os seus direitos do Estado protestando, demandando e monitorando as políticas governamentais. As pessoas devem assumir por si próprias responsabilidades com a promoção da sua real inclusão social. Isso faz parte do aprendizado dos cidadãos e do aprendizado da cidade como um todo, sem o qual a cidade não poderá se caracterizar como uma cidade educadora. Ao lado da noção de igualdade, sempre enfatizada quando falamos sobre as necessidades de inclusão social, também deve ser enfatizada a noção de liberdade para inovar, criar, arriscar e empreender e propor ações coletivas que resultem em uma maior participação democrática da sociedade para promover, por via de suas iniciativas endógenas, a inclusão dos excluídos.

 

10) As tendências atuais indicam que em um mundo cada vez mais interconectado culturalmente, terão uma inserção mais adequada às experiências de miscigenação (cultural) do que de multiculturalismo. Multiculturalismo sem interculturalidade não é desejável. O que é desejável, do ponto de vista das Cidades Educadoras, é uma relação entre pessoas e coletivos culturalmente diferenciados que implique a promoção sistemática e gradual de espaços e processos de interação positiva capazes de generalizar relações de confiança, reconhecimento mútuo, comunicação efetiva, diálogo e debate, aprendizagem e intercâmbio, regulação pacífica dos conflitos, cooperação e convivência. Iniciativas de prevenir conflitos (sejam estes de caráter distributivo, inter-geracional, inter-étnico ou inter-religioso) devem articular-se por meio da aplicação de políticas urbanas e iniciativas de instaurar modos democráticos de regulação de conflitos na base da sociedade e no cotidiano dos cidadãos.

 

11) Péricles, talvez o principal expoente da democracia grega, afirmou – segundo Tucídides, na oração fúnebre proferida no final do primeiro ano da guerra do Peloponeso – “que a cidade inteira é a escola da Grécia e creio que qualquer ateniense pode formar uma personalidade completa nos mais distintos aspectos, dotada da maior flexibilidade e, ao mesmo tempo, de encanto pessoal“. Tal relação entre a educação e a vida democrática da polis, está na raiz do conceito de cidade educadora. Essa visão pode ser apresentada em termos contemporâneos, pois continua válida em essência. Poder-se afirmar hoje que o investimento na educação do indivíduo para melhorar a sua vida depende do investimento em ambientes coletivos favoráveis à boa governança, à prosperidade econômica e à expansão de uma cultura cívica capaz de melhorar suas condições de convivência social. No conceito fundante de Péricles, quem educa não é propriamente a Cidade-Estado e sim a koinomia (a comunidade) política (democrática). Na ausência de democracia (mesmo que limitada aos mecanismos e processos formais de representação, isto é, como regime político ou forma de administração do Estado), uma cidade não pode alcançar a condição de Cidade Educadora.

 

12) Cidades educadoras ensejam o surgimento de novos atores públicos para além dos atores estatais ou governamentais. O cidadão conectado em redes de participação cidadã pode, como tal, fazer política pública. A política pública não é mais monopólio do Estado, mas inclui também os atores sociais que operam com um sentido público. A sociedade civil pode, como tal, tomar iniciativas públicas coletivas, aumentando o seu protagonismo e o seu empreendedorismo. E nada disso constitui privilégio das formas de organização tradicionais e burocráticas (da chamada “sociedade civil organizada”). Os cidadãos desorganizados (segundo os antigos padrões de organização), porém conectados horizontalmente uns com outros em prol de objetivos comuns, podem participar da composição de uma nova esfera pública não-estatal.

 

13) Se cidades podem aprender, como elas podem aprender? Eis a grande questão colocada pela contemporaneidade para as Cidades Educadoras. Quem aprende na cidade não são apenas os cidadãos, individualmente, mas também as redes sociais nas quais tais cidadãos estão conectados. Podemos dizer que a comunidade se desenvolvendo é sinônimo de sua rede social aprendendo. Quando se diz que a cidade educa, o que se está dizendo, a rigor, é que são as diversas comunidades de aprendizagem, de prática e de projeto que se formam dentro da cidade que estão aprendendo. Apenas estruturas complexas que apresentam a morfologia e a dinâmica de rede podem aprender. Uma cidade será cada vez mais educadora na medida em que for também, cada vez mais, uma cidade-rede.

 

(6) Cf. UGARTE, David (2007). O poder das redes. Porto Alegre: CMDC/ediPUCRS, 2008.

O livro que vinha escrevendo aqui está concluído. Neste momento está no prelo, aguardando apenas a inserção das 39 ilustrações. O título final ficou assim: “Escola de Redes: Novas visões sobre a sociedade, o desenvolvimento, a Internet, a política e o mundo glocalizado”. Curitiba: Escola-de-Redes, 2008.

Eis o índice do novo livro:

Apresentação

O que ler sobre redes

Introdução

Parte 1 | Explorando as redes sociais

O que são redes sociais
 Redes sociais

Topologias de rede
 Redes distribuídas e redes centralizadas
 Fenômenos que ocorrem nas redes distribuídas

As redes na ordem hierárquica
 Programas verticalizadores

Parte 2 | Colocando os “óculos de ver redes”

A sociedade
 No princípio era a rede…
 A “rede-mãe”
 Na sociedade-rede

A nova sociedade civil
 A velha “sociedade civil organizada”
 A nova sociedade civil “desorganizada”
 O grande desafio do chamado terceiro setor

O desenvolvimento
 Modelos de desenvolvimento
 Redes e sustentabilidade
 A rede aprendendo
 Capital social

A Internet
 Redes distribuídas na Internet
 As redes sociais não existem na Internet

A política
 As relações entre redes sociais e democracia
 A democracia como um erro no script da Matrix
 A política na sociedade em rede

O mundo glocalizado
 O local como mundo pequeno
 O local como cluster
 O local como terreno da emergência
 O local como comunidade

Anexo A | Graus de distribuição de rede

Anexo B | Matriz topológica de rede

Anexo C | Um estudo experimental de busca em redes sociais globais (excertos)

Anexo D | Redes e hierarquias

Referências bibliográficas

O projeto do livro “A REDE” sofreu modificações. O livro agora passará a se chamar “Escola de Redes: Novas visões. Sobre a sociedade, o desenvolvimento, a internet, a política e o mundo glocalizado”. O Índice está no post acima. O conteúdo está sendo concluído e logo será postado aqui.

No post anterior descrevi alguns resultados das investigações que venho fazendo sobre topologias de rede a propósito da elaboração do meu livro “A Rede”, que entrou agora na sua fase final.

 

Terminei indagando para que serve esse conhecimento (no caso, das topologias de rede) para os que estão interessados não apenas em compreender as redes, mas em aplicar tal compreensão para entender melhor o funcionamento da sociedade e poder elaborar e aplicar tecnologias de netweaving. Prometi fornecer algumas respostas nesta oportunidade.

 

Embora o livro que estou escrevendo seja sobre visões e não sobre análise, fui obrigado a tratar um pouco da análise de redes para entender como a topologia pode influenciar a fenomenologia.

 

Vou tentar recolocar a questão de maneira simples. Seres humanos vivendo em coletividades estabelecem relações entre si. Tais relações podem ser vistas como conexões, caminhos ou dutos pelos quais trafegam mensagens. Qualquer coletivo de três ou mais seres humanos pode conformar uma rede social, que nada mais é do que um conjunto de relações, conexões ou caminhos (graficamente representáveis por arestas) e de nodos (vértices). Há rede quando são múltiplos (a rigor mais de um) os caminhos entre dois nodos.

 

A partir de certo número de conexões em relação ao número de nodos, entretanto, começam a ocorrer na rede fenômenos surpreendentes, que não dependem, ao contrário do que se acredita, do conteúdo das mensagens que trafegam por essas conexões. Quanto mais distribuída ou menos centralizada ou descentralizada (i. e., multicentralizada) for a topologia da rede, maiores são as chances de tais fenômenos ocorrerem. Esses fenômenos – como o clustering e o swarming (enxameamento), a autoregulação sistêmica, a produção de ordem emergente e/ou a desconstituição de ordem pré-existente (ou remanescente) e a redução do tamanho (social) do mundo (crunch) – não podem ser adequadamente captados e explicados pelas categorias e hipóteses (que compõem as teorias) tradicionais das ciências sociais.

 

O mesmo se pode dizer da dinâmica endógena das redes, que também envolve uma fenomenologia ainda não compreendida, como a pulsação e a intermitência, os múltiplos laços de realimentação de reforço (feedback positivo), a iteração (ou reiteração), o “relâmpago” e o assembleiamento, o loop e a reverberação.

 

Como todos esses eventos dependem, dentre vários outros fatores, do número de conexões e de nodos e do grau de distribuição da rede, para investigá-los é necessário discutir as topologias de rede. No espaço-tempo dos fluxos, a topologia, se não determina, pelo menos condiciona fortemente a fenomenologia.

 

Algum esforço meritório tem sido feito, mas não podemos ainda estabelecer as condições em que surgem cada um dos fenômenos, aqui mencionados, que podem ocorrer em uma rede, conquanto nos deparemos com eles freqüentemente quando passamos da fria análise sociológica para a percepção da dinâmica das redes sociais. Ainda não podemos inferir essa fenomenologia da topologia, mas já sabemos que ela depende da topologia. Isso é tão importante quanto surpreendente para nós que fomos acostumados a pensar que o decisivo são os conteúdos (como os valores). Vamos ver alguns exemplos:

 

Clustering. As idéias – como dizia William Irwing Thompson (1987) – dão em cachos, como as uvas (1). Grupos criativos se formam e produzem alucinadamente durante um período. Mas depois, quando se desfazem, seus integrantes, por mais que se esforcem, não conseguem atingir o mesmo nível de criatividade. Pacientes de uma mesma doença auto-imune (não-contagiosa, portanto; nem dependente de condições ambientais visíveis ou conhecidas), se aglomeram (!) em certas regiões do planeta. Populações de certas localidades parecem congeladas no tempo e continuam reproduzindo, nas praças de suas cidades, as mesmas conversas de seus ancestrais (dando a impressão de que sua cultura está presa em um looping). Pobres que só têm amigos pobres tendem a continuar pobres. E, como diz o subtítulo de um interessante livro de Mark Buchanan (2007), “rich get richer, cheaters get caught and your neighbor usually looks like you” (2). É assim que as pessoas que vivem em um lugar, pertencem a uma comunidade, acabam adquirindo os mesmos hábitos e comportamentos, vestindo as mesmas roupas, gesticulando de modo parecido, usando as mesmas expressões. Isso tem a ver com a capacidade da rede social (ou do cluster particular) a que pertencem tais pessoas de induzir comportamentos… O mecanismo parece ser semelhante ao da replicação dos memes (por imitação) (3). O que chamamos de local já é o resultado de uma clusterização.

 

Swarming. Uma pessoa, indignada com certo comportamento do governo, sentada, talvez, em um bar numa rua periférica da capital, começa a mandar mensagens por SMS (Short Message Service, também conhecido como “torpedo”) para seus conhecidos, que reproduzem tais mensagens por celular e por e-mail para seus próprios amigos e… de repente, irrompe um movimento de milhões de pessoas que ocupam praças e ruas do país e mudam a conjuntura política nacional em poucas horas, alterando um resultado eleitoral tido como certo. Sim, foi o que aconteceu entre 11 e 13 de março de 2004 na Espanha, nas vésperas da eleição que levou Zapatero ao poder pela primeira vez (4). Outro exemplo: contra as opiniões dos grandes líderes políticos, de respeitados intelectuais e de famosos artistas e desportistas, intensamente veiculadas pela mídia, você dá sua opinião, sobre uma questão que está sendo submetida a referendo, para uma pessoa na fila de um banco. Daqui a pouco, passados poucos dias, milhares de pessoas estão emitindo também suas próprias opiniões em todas as filas, dos pontos de ônibus aos salões de embarque nos aeroportos. O boca-a-boca se espalha e se amplifica pelo celular, ganha as listas de e-mails, os blogs e os sites de relacionamento na Internet. Em poucos dias, há uma reviravolta. O resultado esperado da consulta se inverte. Sim, foi mais ou menos o que aconteceu em 2005 no Brasil, na segunda metade da campanha do referendo sobre a proibição da comercialização de armas e munições (5). Swarming é, a rigor, a “produção” disruptiva de ordem emergente que pode se manifestar em um conflito que se dissemina e engaja seus contendores bottom up, por “contaminação viral”.

 

Autoregulação sistêmica e ordem emergente. Uma rede, em certas condições, pode enxamear (swarming) e pode manifestar inteligência de enxame (swarm-intelligence) ainda que seus nodos, individualmente, não tenham mais do que a inteligência de um inseto. Por exemplo, a partir de regras relativamente simples, que cada indivíduo segue em relação uns aos outros, os cupins africanos conseguem erigir uma construção arquitetônica mais complexa do que qualquer criação humana (6). É difícil compreender isso porquanto fomos educados para entender “o comportamento complexo como sendo o resultado de inteligência complexa”, como escreveu Michael Crichton (2002), no seu romance intitulado Presa: esperamos “encontrar um comando central em qualquer organização. Os países possuem governos. As empresas possuem CEOs. As escolas possuem diretores. Os exércitos possuem generais. Os seres humanos têm a tendência de acreditar que sem um comando central, o caos tomaria conta da organização e nada significativo poderia ser realizado” (7). Mas a natureza está mostrando que as coisas não são bem assim. E isso não acontece somente na, vamos dizer, na “natureza não-humana”. Como percebeu Joël de Rosnay (1995) em O homem simbiótico, “um dos pontos fundamentais da ação em rede… [é que] milhares de agentes atuando em paralelo, a partir de regras simples, podem resolver coletivamente problemas complexos… [e que] enquanto as grandes manifestações públicas mostram que as multidões estão longe de dar prova de uma inteligência significativa, determinados sistemas adaptados de retroação societal podem fazer emergir uma inteligência coletiva superior à dos indivíduos isolados” (8). E nesse caso a regra básica da emergência, como salientou Steven Johnson, é aquela mesma dos cupins: ‘aprender com os vizinhos’ (9).

 

Crunch. Pessoas em uma localidade, em uma organização social ou em uma empresa começam a se conectar umas com as outras em torno de propósitos comuns (como um sonho de futuro que passa a ser coletivamente desejado) ou simplesmente para compartilhar idéias, músicas, filmes ou outra coisa qualquer. A partir de certo momento começam a acontecer coisas surpreendentes que modificam profundamente essas pessoas, tornando-as e às suas organizações, mais confiantes no seu próprio futuro e mais encorajadas a empreender e a inovar. Passado algum tempo, a localidade, a entidade ou a empresa a que pertecem tais pessoas mudam radicalmente a sua estrutura e a sua dinâmica e passam a se comportar como coletivos que aprendem, se adaptam mais facilmente às mudanças que ocorrem no ambiente em que estão inseridas, ou seja, passam a ser comunidades (redes identitárias) que se desenvolvem. Mais do que isso, passam a ser comunalidades que se comportam como se fossem um indivíduo. Ocorreu um crunch, que é como chamamos à redução do tamanho (social) do mundo provocada por um aumento acelerado do grau de distribuição (incluindo aqui o aumento de conectividade) de uma rede. E isso tem tudo a ver com o que chamamos nos últimos anos de empoderamento: aliás, essa é a única maneira intrínseca de explicar como ocorre esse efeito (empowerment).

 

Estamos aqui diante do fenômeno mais surpreendente e mais promissor do ponto de vista da emergência de uma nova sociedade-rede, ligado ao que estudiosos como Duncan Watts e Steven Strogatz chamam de “Small World Phenomenon”. Watts, Strogatz e outros pesquisadores que trabalham com o tema não extraem, por certo, as mesmas conclusões que vamos apontar aqui (10).

 

Quanto mais distribuído (e conectado) é um mundo, quanto mais caminhos existirem entre seus elementos (nodos de uma rede), menor ele é, porém mais potente socialmente ele é (small is powerful). Do ponto de vista do padrão de organização, as hierarquias aumentam o ‘tamanho do mundo’, enquanto as redes diminuem. Desse ponto de vista, ‘mundo pequeno’ é sinônimo de mundo muito distribuído-conectado (11).

 

Se quanto maior a tessitura social, ou seja, quanto mais conexões ou caminhos puderem ser estabelecidos, menor o ‘tamanho do mundo’, então ‘pequeno’, do ponto de vista (e por força) de uma alta “tramatura” do tecido social, é uma força poderosíssima. Porque quanto mais caminhos existirem, mais possibilidades existirão de um pequeno estímulo, proveniente de qualquer lugar do mundo, se propagar e se amplificar por “reverberação”, por feedback positivo, i.e., pela ocorrência de múltiplos laços de realimentação de reforço, atingindo o mundo todo. Ora, isso significa, por um lado, que os elementos do mundo (os nodos da rede) terão mais chances de verem suas idéias – ou os seus “memes” – se replicarem; ou seja, eles estarão mais empoderados. Mas significa também, por outro lado, em primeiro lugar, que é o sistema como um todo que empodera seus componentes e, em segundo lugar, que tal sistema funciona como amplificador e macroprocessador dos estímulos recebidos/emitidos por seus componentes.

 

Dizer que small is powerful significa dizer que o mundo pequeno (no sentido de muito distribuído-tramado socialmente) é mais empoderante de seus componentes do que o mundo grande e que ele tem mais capacidade de usinar softwares que instruem a construção de comportamentos e de replicar tais programas. Porém, muito além disso tudo, significa dizer que uma mudança de comportamento, mesmo periférica, ensaiada no mundo pequeno, tem mais chances de se propagar para o sistema como um todo afetando o comportamento dos outros agentes que o compõem. Ou seja, mundos pequenos são mundos mais susceptíveis à mudança social do que mundos grandes.

 

Parece evidente que o crunch tem a ver com os outros fenômenos de rede mencionados anteriormente, quer dizer, com o clustering (que está na raiz do Small World), com a produção de ordem emergente e com o swarming: sim, porquanto a produção de ordem emergente é também a desconstituição de ordem pré-existente (ou remanescente). É aqui que nos deparamos com aquela Matrix do filme, o mainframe cujo objetivo é: controle.

Notas e referências

 

(1) Parece que as idéias brotam ou emergem (ou imergem?) em complexos. É por isso que, como dizia Thompson em 1987 (no Prefácio de “Gaia: uma teoria do conhecimento”), “as idéias, da mesma forma que as uvas, crescem em cachos. As pessoas gostam de se agregar pelo simples fato de sentir que, na videira, suas idéias se tornam mais completas e mais enriquecidas” e são, freqüentemente, o resultado do “trabalho de uma comunidade intelectual que reflete as idéias, reuniões, discussões, cartas e comunicações… acontecidas a partir do momento em que cada um de seus membros reconhece que o seu trabalho está sendo descrito e desenvolvido não mais individualmente, mas por outros colegas” (cf. Thompson, William Irwin (org.) (1987). “Prefácio” in Gaia: uma teoria do conhecimento. São Paulo, Gaia/Global, 1990).

 

(2) Cf. Buchanan, Mark (2007). The social atom. New York: Bloomsbury, 2007.

 

(3) O problema com as teorias dos memes é que elas não trabalham com a noção de rede, preferindo derivar uma espécie de padrão variacional de mudança usado pelo darwinismo e pelo neodarwinismo ao invés de adotar o padrão regulacional de mudança. Isso pode levar a uma espécie de determinismo memético (decalcado do determinismo genético): assim como não são os genes que explicam disposições inatas e comportamentos biológicos derivados, também não são os memes que podem fazer isso no plano cultural. São as redes.

 

(4) O atentado terrorista de 11 de março de 2004, na Espanha, ocorreu às vésperas de uma eleição presidencial, na qual o candidato de Aznar, do PP (Partido Popular), Mariano Rajoy, já estava cotado em todas as pesquisas como o virtual vencedor. Mesmo assim, para fazer mais um movimento que garantisse sua vitória, o governo de Aznar resolveu vir a público apontando o ETA como responsável pelo atentado. Rafael Estrella, deputado por Granada, ex-Presidente de Assembléia Parlamentar da OTAN, assim descreveu a situação: “Parece evidente que, en la mañana del 11-M, Aznar, sus spin doctors y la dirección de la campaña tomaron una decisión tan coherente como miserable: el atentado encajaba plenamente en la estrategia de campaña del PP. Con el atentado, la ecuación creada en torno a ETA se hacía realidad y adquiría toda su potencia dada la dimensión de la masacre. Por tanto, no sólo se suponía que era ETA la autora, sino que… «tenía que ser ETA». Con ello, la mayoría absoluta que las encuestas descartaban volvía a estar al alcance de la mano. La hipótesis plausible se convirtió así en certeza y en verdad incuestionable, incluso cuando la auténtica verdad se abrió paso. El resto es conocido: la manipulación interesada, la ocultación y el falseamiento de la información, llevado hasta el extremo por Ana Palacio cuando todavía el 14-M mantenía ante la prensa internacional la hipótesis de ETA. Pero a esa hora la evidencia del engaño había atravesado ya prácticamente todas las barreras, desde Sydney a Londres o Nueva York, desde Madrid a Barcelona, Bilbao o Granada. No fue el atentado lo que provocó el giro electoral que dio lugar a una contundente victoria socialista. Tampoco fue la evidencia de que había sido provocado por AlQaida ni la relación del atentado con la guerra de Iraq. Fue el intento irresponsable de ocultar y falsear la verdad lo que activó con virulencia todos los elementos, incluido el rechazo por la guerra y las mentiras de Iraq”. (1) (Cf. Estrela, Rafael (2004). “Un prólogo y una visión sobre el 11-M y Españain Ugarte, David (2004). 11M: redes para ganar una guerra. Barcelona: Icaria, 2004). E David de Ugarte (2004), nesse mesmo livro que escreveu sobre o assunto, conta em detalhes o momento em que começou o crescimento exponencial da mobilização: “Sábado, hora de comer. Justo antes de la hora en que las cuadrillas de amigos quedan y organizan la tarde. Suena el móvil. Mensaje de texto: ‘¿Aznar de rositas? ¿Lo llaman jornada de reflexión y Urdazi trabajando? Hoy 13M, a las 18h. Sede PP C/ Génova 13. Sin partidos. Silencio por la verdad. ¡Pásalo!’ En menos de una hora el mensaje ha llegado ya a Barcelona y una red informal de gente se pone a convocar una movilización equivalente. Allí el teléfono fijo también movilizará redes de amigos. Los foros, la mensajería instantánea, las bitácoras, las listas de correo, trabajarán a pleno rendimiento hasta las seis. A esa hora ya hay más de doscientas personas en la calle Génova de Madrid. La prensa digital lo recoge. Conforme pasan las horas el número va creciendo, mil, dos mil, tres mil. La radio se hace eco y se alcanzan as cinco mil personas. En Barcelona se convierte en una cacerolada masiva. El fenómeno está saltando de ciudad en ciudad: Bilbao, Gijón,Oviedo, Valencia, Palma de Mallorca, Santiago de Compostela, Alicante, Granada, Las Palmas, Sevilla, Zaragoza, Burgos, Badajoz… El stablishment tiene miedo. Su Majestad el Rey llama al candidato socialista, Zapatero, para pedirle que llame a la cadena SER y pida que no dé más cancha a la manifestaciones. Este lo hace. Pero no siendo el motor de la movilización tiene difícil pararla. El candidato popular, Rajoy, que ha dejado durante toda la campana la cara más autoritaria para sus lugartenientes da una rueda de prensa en la sede de su partido pidiendo la represión de las manifestaciones. Al recogerlo los medios y aparecer en televisión, lo que quiere sea una sutil combinación de victimismo y firmeza se le vuelve en contra: aparece crispado, violento, patético, buscando convocantes inexistentes… fuera definitivamente del tiempo histórico. Este tipo no sabe ni lo que es una cadena de mensajes, que decir de um flash-mob, comenta un manifestante en un bar cercano a la zona de protestas. En ese momento se percibe en el aire la indignación: una nueva cadena masiva recorre España Contra el golpe de estado del PP, con nuevos puntos de cita. Desde sus casas, con móviles, algunos conectores de la naciente red informal se dedican a avisar a la prensa y llamar a radios y sitios de noticias. La noticia se amplifica una y otra vez. El mensaje funciona: España percibe que alguien cuyas respuestas son tan extemporáneas no puede ser el Presidente en los nuevos tiempos que el horror ha abierto. Rajoy ha perdido, él solito, las elecciones. El guerracivilismo autoritario del PP, que había optado como estrategia por asociar al terrorismo a todos los que no compartían su visión de la identidad nacional, há acabado cobrándose al delfín de Aznar como víctima.” (Idem)

 

(5) No dia 23 de outubro de 2005, pouco menos de 100 milhões de brasileiros foram às urnas para decidir se o comércio de armas para civis seria proibido ou não no país, no primeiro referendo da história da República. O “sim” à proibição estava, segundo a maioria dos analistas (e inclusive dos institutos de pesquisa da opinião), com a vitória praticamente garantida. Não foi o que se viu no final do dia, quando saiu o resultado das urnas. O “não” à proibição teve 64% dos votos, enquanto que o “sim” ficou com 36%, mostrando que a maioria da população brasileira não é a favor da proibição de armas de fogo aos civis e, supreendentemente, contrariando a opinião do principal líder da situação (o presidente Lula), do principal líder da oposição (o então prefeito de São Paulo, José Serra) e da maior parte dos intelectuais, artistas, desportistas e outros ícones da mídia que se engajaram, infrutiferamente, na campanha do “sim”. Alguns analistas botaram a culpa pelo resultado no fato dos partidários do “sim” não terem sabido usar a Internet tão bem quanto os partidários do “não”…

 

(6) “Os cupins africanos são um exemplo clássico. Esses insetos constroem montículos de terra semelhantes a um castelo com trinta metros de diâmetro e espirais que se projetam seis metros no ar. Para apreciar sua realização é preciso imaginar que, se os cupins tivessem o tamanho de pessoas, esses montes de terra seriam arranha-céus com um quilômetro e meio de altura e oito quilômetros de diâmetro. Assim como um arranha-céu, o cupinzeiro possuía uma intricada arquitetura interna para proporcionar ar fresco, remover o excesso de calor e CO2, e assim por diante. Dentro da estrutura, há local apropriado para o cultivo de alimentos, aposentos para a realeza e espaço para até dois milhões de cupins. Não há dois cupinzeiros exatamente iguais; cada qual é construído individualmente para se adequar às exigências e vantagens de um determinado local. Tudo isso é conseguido sem nenhum arquiteto, nenhum mestre-de-obra, nenhuma autoridade central. Não há nem mesmo uma planta de construção codificada nos genes do cupim. Em vez disso, essas enormes criações são o resultado de regras relativamente simples que cada cupim segue em relação uns aos outros. (Regras como: “Se sentiro cheiro de que outro cupim esteve aqui, coloque um grão de areia neste lugar”). No entanto, o resultado poderia ser considerado mais complexo do que qualquer criação humana.” (Cf. Crichton, Michael (2002). Presa. Rio de Janeiro: Rocco, 2003).

 

(7) Cf. Crichton: op. cit.

 

(8) Cf. Capítulo 5 do livro de Rosnay, Joël (1995). O homem simbiótico. Petrópolis: Vozes, 1997 – sobretudo a seção “Democracia participativa e retroação societal”.

 

(9) Cf. Johnson, Steven (2001). “Only connect”, publicado no jornal The Guardian (Monday October 15, 2001) e disponível no link abaixo:

http//books.guardian.co.uk/departments/politicsphilosophyandsociety/story/0,6000,574534,00.html

 

(10) No final de 2002, Peter Sheridan Dodds, Roby Muhamad e Duncan Watts, da Universidade de Colúmbia, apresentaram à revista Science os resultados de um estudo experimental de busca em redes sociais globais. Utilizando programas de e-mail, eles, de certo modo, buscaram refazer o trabalho experimental pioneiro realizado por Travers e Milgram no final dos anos 60. As conclusões da pesquisa são surpreendentes. Duncan e seus colegas encontraram, para o mundo inteiro – e 35 anos depois –, um resultado muito parecido com o de Milgram, que focalizou apenas a sociedade americana. Isso sugere que o ‘tamanho de mundo’ do mundo inteiro no final de 2002 é mais ou menos o mesmo do ‘tamanho de mundo’ dos USA em 1967. Mas talvez não seja possível afirmar isso a partir (ou somente a partir) do experimento de Duncan. Travers e Milgram encontraram, em média, seis graus de separação. Duncan e sua turma, que pareciam já conhecer o resultado antes mesmo do experimento, encontraram cinco a sete graus de separação! Se o experimento de Duncan tivesse sido feito, com outros meios não-eletrônicos, no final dos anos 60, provavelmente seria encontrado um grande intervalo entre os valores mundiais e os americanos. Como não é possível inferir isso do experimento que fizeram, resta a Duncan e sua equipe refazer o trabalho para algumas sociedades escolhidas, inclusive a americana. De qualquer modo, o experimento revelou, entre outros, quatro resultados importantes: a) existe mesmo o efeito ‘Small-World Network’. Esta é a principal conclusão; b) os laços “fracos” são mais relevantes que os “fortes”; ou seja, cooperação social vale mais do que laços de sangue ou parentais (confirmando as hipóteses das teorias do capital social). Como eles próprios escreveram: “Laços “fracos” são desproporcionalmente responsáveis pela conectividade social”; c) nas palavras dos próprios autores,””a busca social parece ser um exercício geralmente igualitário, cujo sucesso não depende de uma pequena minoria de indivíduos excepcionais”; e d) “um ligeiro incremento de incentivos pode levar as buscas sociais ao sucesso sob diferentes condições”. Ou seja, como eles dizem, “a rede não é tudo”, porém, existindo a rede, basta um peteleco… As conclusões desse trabalho, intitulado “Um estudo experimental de busca em redes sociais globais”, foram publicadas pela revista Science (maio, 2003).

 

(11) Cf. Franco, Augusto (2003). A revolução do local: globalização, glocalização, localização. Brasília/São Paulo: AED/Cultura, 2003.

A rigor, não podemos falar em redes distribuídas ou redes centralizadas (monocentralizadas ou multicentralizadas, quer dizer, descentralizadas). Deveríamos falar em graus de distribuição (ou, inversamente, em graus de centralização).

 

Vamos retomar, para começar, os diagramas propostos originalmente por Paul Baran em um documento em que descrevia a estrutura de um projeto que mais tarde se converteria na Internet:

 

Baran, Paul (1964). “On distributed communications: I. Introduction to distributed communications networks” in Memorandum RM-3420-PR, August 1964. Santa Mônica: The Rand Corporation, 1964.

 

 

Os mencionados diagramas foram reunidos e melhorados por Rodrigo Araya e divulgados por David de Ugarte (2007) no livro “O poder das redes” (Porto Alegre: ediPUCRS/CMDC, 2008):

 

 

Para saber mais sobre Paul Baran clique no link abaixo:

 

http://www.ibiblio.org/pioneers/baran.html

 

Para ler o trabalho original de Paul Baran (1964), onde aparecem pela primeira vez seus famosos diagramas, faça o download do memorandum clicando no link abaixo:

 

http://www.rand.org/pubs/research_memoranda/2006/RM3420.pdf

 

Pois bem. Rede centralizada é aquela que configura o padrão um-com-todos, enquanto que rede distribuída é aquela que configura o padrão todos-com-todos.

 

Entre a monocentralização (o grau máximo de centralização, que no diagrama de Baran aparece como rede centralizada) e a distribuição máxima (todos os caminhos possíveis, correspondendo ao número máximo de conexões para um dado número de nodos – que não aparece no terceiro grafo do diagrama de Paul Baran, por razões de clareza de visualização), existem muitos graus de distribuição. É entre esses dois limites que se realiza a maioria das redes realmente existentes.

 

Portanto, não parece muito consistente falar de rede centralizada ou rede distribuída, a não ser, em termos matemáticos, como limites. A partir de certo número de nodos, nenhuma rede social real consegue ser totalmente centralizada (isso seria supor a inexistência de conexões entre os nodos, mas apenas de conexões entre o nodo central e os outros nodos). Ora, a partir de certo número de nodos é impossível que isso aconteça, pois é o próprio tamanho (social) do mundo que impõe um determinado número mínimo de conexões entre quaisquer nodos escolhidos aleatoriamente. Assim, mesmo que não queiramos, os nodos ligados a um centro tendem também a estar ligados entre si em alguma medida. Esse número de nodos a partir do qual uma rede não conseguirá mais permanecer centralizada depende do mundo em que se está, dos seus graus de separação.

 

O mesmo vale, mutatis mutandis, para as redes com topologia considerada descentralizada. Existem diferentes graus de descentralização. Mas o menor grau de descentralização já é (localmente falando) um grau de distribuição. A descentralização máxima coincide com a distribuição (quando cada centro coincidir com cada nodo, é óbvio). Distribuir é des-con-centrar. A rigor, portanto, mais de um centro já des-con-centra. Há um problema com o segundo grafo de Baran (o da rede descentralizada). Os nodos conectados a cada um dos múltiplos centros não costumam estar totalmente desconectados entre si como aparece no segundo grafo de Baran (quer pensemos em filiais de uma empresa multinacional, quer pensemos em um partido de células).

 

Não se trata apenas de encontrar uma fórmula matemática, porque não existe um número ideal para uma rede poder ser considerada distribuída (a não ser o número total de conexões possíveis entre seus nodos, correspondendo ao grau máximo de distribuição).

 

O assunto merece um tratamento mais cuidadoso. Precisamos de um índice de distribuição de rede e, além disso, de uma maneira inequívoca de caracterizar uma topologia de rede.

 

ÍNDICE DE DISTRIBUIÇÃO DE REDE

 

As investigações que venho fazendo me levaram a propor um Índice de Distribuição de Rede (I):

 

I = (C – D).C/E —-> [Equação 1]

 

Na equação acima:

 

C = Número de conexões

D = Número de nodos desconectados com a eliminação do nodo mais conectado (sem contar este último)

 

E = Número de conexões eliminadas com a eliminação do nodo mais conectado.

 

Quando esse índice é mínimo (I = 0) temos uma rede centralizada (o caso limite de uma rede totalmente centralizada).

 

Quando esse índice é máximo (I = Imax) temos uma rede distribuída (é o caso limite de uma rede totalmente distribuída).

 

É claro que o Índice Máximo de Distribuição (Imax) pode ser calculado a partir do número de conexões (independentemente da configuração particular que assume a rede). Enquanto que o Índice Mínimo de Distribuição (Imin) será sempre igual a zero (correspondendo a uma rede totalmente centralizada).

 

Assim, para calcular o Imax (rede totalmente distribuída), pode-se aplicar a mesma equação acima (Equação 1), colocando no lugar de C (Número de Conexões), o Número Máximo de Conexões (Cmax), calculado, por sua vez, a partir da Equação 2 (abaixo):

 

Cmax = (N – 1).N/2 —-> [Equação 2]

 

onde N = Número de nodos.

 

As duas equações são válidas para quaisquer números de nodos, inclusive para o caso limite de um mundo com dois nodos, no qual não há diferença entre rede distribuída e rede centralizada (hierarquia) e, portanto, não se pode falar propriamente de rede. Com efeito, para um mundo de dois elementos (N = 2): Cmax = 1. Neste caso, o Índice de Distribuição Máxima (Imax) será: Imax = 0 (ou seja, será nulo, indicando uma rede totalmente centralizada).

 

Vejamos alguns exemplos simples, de redes com pouquíssimos nodos. Para um mundo de três elementos (N = 3): Cmax = 3 e, conseqüentemente, Imax = 0,5; para um mundo de quatro elementos: Cmax = 6 e Imax = 12; para um mundo de cinco elementos: Cmax = 10 e Imax = 25; e assim por diante.

 

Para cada um dos diferentes números de nodos considerados acima (2; 3; 4; e 5), os valores de Imax (respectivamente 0; 0,5; 12; e 25) correspondem a 100% de distribuição. A partir daí podemos atribuir porcentagens a cada configuração possível da rede.

 

Por exemplo, no caso de um mundo de 4 elementos (N = 4), temos os seguintes valores de I: I = 0 (rede totalmente centralizada, correspondendo a 0% de distribuição); I = 3 (rede com 25% de distribuição); I = 4 (rede com 33% de distribuição); I = 8 (rede com 67% de distribuição); I = 8,3 (rede com 69% de distribuição); e, finalmente, I = 12 (rede com 100% de distribuição; ou seja, rede totalmente distribuída). E, nesse mundo (de quatro elementos), portanto, só temos 6 configurações possíveis de rede, seis topologias distintas.

 

Cabe repetir que uma rede totalmente distribuída (Imax) é um caso matemático limite, no qual a eliminação do nodo mais conectado não desconecta nenhum outro nodo da rede (ou seja, em que D = 0).

 

Não basta, entretanto, que D seja igual a zero para caracterizar uma rede totalmente distribuída. Também é necessário que C (número de conexões) seja máximo: C = Cmax (e essa variável, como vimos, depende apenas do número de nodos) e que E (número de conexões eliminadas com a eliminação do nodo mais conectado) seja mínimo.

 

A distribuição (medida pelo índice I) cresce com o número de conexões (C). E descresce com o crescimento de nodos desconectados e de conexões eliminadas, porém em razões distintas. Eliminar um nodo pode, em alguns casos, desconectar apenas mais um nodo e, simultaneamente, muitas conexões. O número de conexões eliminadas com a eliminação de um nodo é – na razão direta do número de nodos da rede (N) – muito maior do que o número de nodos desconectados. As duas variáveis – D e E – comportam-se, assim, de modo diferente para efeitos de distribuição.

 

Enquanto a Equação 2 é rigorosamente correta em termos matemáticos, a Equação 1, que estabelece um Índice de Distribuição, é uma definição, e, como tal, é uma convenção (arbitrária, portanto, como ocorre com qualquer índice). No entanto, ela pode ser muito útil à análise das topologias de rede na medida em que fornece os graus possíveis de distribuição, que vai de zero (Imin = 0, rede totalmente centralizada) até um Imax (correspondendo à rede totalmente distribuída).

 

Destarte, alguns teoremas sugestivos podem ser demonstrados com o auxílio dessa equação. Por exemplo, na rede com grau máximo de distribuição cada nodo tem o mesmo número de conexões do que o nodo central da rede com grau máximo de centralização. Não há aqui uma grande descoberta. Mas o tratamento adotado é sugestivo porquanto deixa claro que, em geral, toda vez que eliminamos nodos ou caminhos (conexões), criamos centralização (ou acrescentamos à rede algum grau de centralização, reduzindo o valor de I).

 

Um outro exemplo interessante do efeito ilustrativo do presente tratamento é o cálculo do número de configurações que correspondem a graus diferentes de distribuição. Em um mundo de cinco elementos conectados em rede, temos, entre a centralização máxima (Imin = 0 => 4 conexões) e a distribuição máxima (Imax = 25 => 10 conexões), 16 configurações intermediárias diferentes.

 

Entretanto, configurações diferentes não correspondem necessariamente a graus de distribuição diferentes. Para tratar desse assunto temos que introduzir um outro recurso descritivo: o que chamei de Matriz Topológica de Rede.

 

MATRIZ TOPOLÓGICA DE REDE

 

Não podemos determinar uma topologia de rede partindo apenas do número de nodos e do número de conexões. É necessário, para tanto, construir uma matriz que indique o número de conexões para cada nodo:

 

(N – n | Nx) —-> [Matriz 1]

 

onde N = Número de nodos;

 

n é um número inteiro que varia no intervalo (1, N -1); e,

 

x = N – n (esse formalismo abstruso foi introduzido aqui em virtude das limitações do editor de texto).

 

Por exemplo, para um mundo de cinco elementos em rede, usando a Matriz 1 geramos um total de 45 matrizes específicas, indicando, porém, vários conjuntos de números que não correspondem, todos, a configurações topologicamente possíveis, além de configurações diferentes para um mesmo índice de distribuição. Vamos examinar em separado cada um desses problemas.

 

Para um mundo de 5 elementos em rede temos:

 

N = 5; logo: N – 1 = 4; N – 2 = 3; N – 3 = 2; e N – 4 = 1. Assim, vamos, desde a rede totalmente centralizada, onde 4 nodos têm apenas 1 conexão e 1 nodo (central) tem 4 conexões:

 

Matriz N=5 (Centralizada)

(4 | 1)

(3 | 0)

(2 | 0)

(1 | 4)

 

até a rede totalmente distribuída, onde temos 4 nodos com 5 conexões e nenhum nodo com 3, 2 ou 1 conexões:

 

Matriz N=5 (Distribuída)

(4 | 5)

(3 | 0)

(2 | 0)

(1 | 0)

 

Entre esses dois limites, temos 43 possibilidades “algébricas” (vamos dizer assim), que não correspondem necessariamente a possibilidades topológicas.

 

Além disso, temos matrizes que apresentam um número ímpar de conexões totais, o que não é possível, pois todas as conexões são pares (P2P) ou transitivas e, assim, o resultado da divisão por 2 deve dar um número inteiro. Eliminadas tais impossibilidades (conexões com frações), restam:

 

1 configuração com 10 conexões = 1 topologia; 2 com 9 conexões (mas somente 1 é topologicamente possível) = 1; 4 com 8 (mas 2 são impossíveis) = 2; 5 com 7 (mas 1 é impossível) = 4; 5 com 6 (mas 2 são impossíveis) = 3; 4 com 5 = 4; 3 com 4 = 3; 1 com 3 (impossível) = 0.

 

Ou seja, temos aqui um total de 18 topologias possíveis, que não podem ser caracterizadas apenas pelo número de nodos e de conexões, mas se referem, em geral, a índices distintos de distribuição.

 

Nem sempre, porém. Continuando com nosso exemplo de um mundo de 5 elementos conectados em rede, podemos ter, com 5 conexões, quatro topologias distintas:

 

Matriz N = 5 | 5A

(4 | 1)

(3 | 0)

(2 | 2)

(1 | 2)

 

Para a topologia 5A, temos I = 3,75 (ou seja, 15% de distribuição).

 

Matriz N = 5 | 5B

(4 | 0)

(3 | 0)

(2 | 5)

(1 | 0)

 

Para essa topologia 5B, que poderia ser representada geometricamente pelo pentágono, temos I = 12,50 (ou seja, 50% de distribuição).

 

Matriz N=5 | 5C

(4 | 0)

(3 | 2)

(2 | 1)

(1 | 2)

 

Para a topologia 5C, temos I = 6,66 (ou seja 26,64% de distribuição).

 

Matriz N=5 | 5D

(4 | 0)

(3 | 1)

(2 | 3)

(1 | 1)

 

Para a topologia 5D, temos, igualmente, I = 6,66 (ou seja, como na topologia C, 26,64% de distribuição).

 

Ou seja, conquanto a Matriz 5C e a Matriz 5D representem sistemas com distribuições diferentes de conexões, elas têm o mesmo índice de distribuição. E conquanto possam ser representadas por grafos distintos, são redes equivalentes do ponto de vista da distribuição.

 

Brevemente quem tiver interesse no assunto vai encontrar uma exposição mais detalhada – e ilustrada com diagramas – no meu livro “A Rede: um índice de explorações imaginativas no multiverso das conexões ocultas que configuram o que chamamos de social”, previsto para vir à luz no segundo semestre deste ano.

 

Há aqui algum conhecimento novo, por certo. Mas caberia perguntar agora para que serve tal conhecimento. Essa é uma pergunta que matemáticos não fariam; não, pelo menos, dessa forma. Entretanto, os que estão interessados não apenas em compreender as redes, mas em aplicar tal compreensão para entender melhor o funcionamento da sociedade e poder elaborar e aplicar tecnologias de netweaving precisam fazer tal pergunta. 

Discute-se hoje o tamanho de uma rede distribuída, até onde ela pode crescer.

 

Em geral quando nos preocupamos com o tamanho de uma rede (de uma rede propriamente dita, quer dizer, distribuída), estamos pensando em redes voluntariamente construídas e não na chamada rede-mãe (a rede que existe independentemente de nossos esforços conectivos).

 

Tomamos freqüentemente a perspectiva de quem quer ver uma rede voluntariamente articulada crescer. Mas crescer para que? Por que, por exemplo, uma rede distribuída de 50 pessoas precisaria crescer? Para fazer alguma coisa? Mas as redes não são para fazer coisa alguma: elas são simplesmente para ser. Elas são o que qualquer sociedade seria se não tivesse sido invadida por programas centralizadores.

 

Estamos falando de crescer, mas uma rede não “cresce” apenas aumentando seus nodos e sim também aumentando a sua conectividade (ou o seu grau de distribuição). Além disso, é possível que a rede “cresça” ainda em outro sentido: aumentando a “largura de banda” das suas conexões. Talvez a rede, além de crescer (mudança quantitativa), se desenvolva (mudança qualitativa). E talvez seja mais importante se desenvolver (quer dizer, promover mudanças regulacionais) do que propriamente crescer (em número de nodos). E, por último, talvez estejamos um pouco hipnotizados pelo fetiche do número (como os economistas; como se sabe a economics nasceu como uma “ciência do crescimento”).

 

Freqüentemente, também, nos preocupamos com as redes que param de crescer, mas as redes são móveis mesmo. Crescem até certo ponto, ou melhor, dentro de um certo tempo (o seu tempo) e depois tendem a diminuir ou até a desaparecer. Ora, se não estamos querendo usar a rede como um instrumento para fazer alguma coisa, qual o problema aqui? Só haverá problema se precisarmos da rede durante um tempo que não é o dela.

 

Ocorre que as redes voluntariamente construídas em torno de uma causa, de uma idéia, de um motivo contingente, são fenômenos restritos no tempo mesmo. No seu tempo, porém, elas podem fazer muitas coisas que não conseguimos ver. Cada rede mais distribuída do que seu universo-entorno que se forma, funciona como uma espécie de anti-virus em relação aos programas centralizadores que rodam nesse universo… Na medida em que mais redes distribuídas vão se formando é como se mais antivírus fossem rodando (e cada rede representa nessa metáfora uma nova edição de antivírus), mais e mais obstruções de fluxos, separações entre clusters e exclusões de nodos vão sendo desativadas. Mais mundo velho vai sendo substituído. Isso significa que a rede não existe para fazer qualquer mudança. Quando a rede existe, ela já é a mudança naquele mundo (estamos em um multiverso, não em um universo). Cada mundo distribuído é um mundo que tem validade em si, é uma experiência coletiva de vida, é a afirmação de uma nova identidade no mundo, é uma segunda criação naquilo que diz respeito ao seu âmbito local. O mundo distribuído é uma nova criação local.

 

Se tomarmos um conceito mais abrangente – e mais preciso – de local como cluster (abarcando não as localidades geográficas, mas as sócio-territorialidades ou comunidades), veremos que redes distribuídas são, na verdade, sempre redes locais.

A rigor, não podemos falar em redes distribuídas ou redes centralizadas (monocentralizadas ou multicentralizadas, quer dizer, descentralizadas). Deveríamos falar em graus de distribuição (ou, inversamente, em graus de centralização). Entre a monocentralização (o grau máximo de centralização, que no diagrama de Baran aparece como rede centralizada) e a distribuição máxima (todos os caminhos possíveis, correspondendo ao número máximo de conexões para um dado número de nodos – que não aparece no terceiro grafo do diagrama de Paul Baran, por razões de clareza na visualização), existem muitos graus de distribuição. É entre esses dois limites que se realiza a maioria das redes realmente existentes.

 

Portanto, não parece muito consistente falar de rede centralizada ou rede distribuída, a não ser como limites. A partir de certo número de nodos, nenhuma rede social real consegue ser totalmente centralizada (isso seria supor a inexistência de conexões entre os nodos, mas apenas de conexões entre o nodo central e os outros nodos). Ora, a partir de certo número de nodos é impossível que isso aconteça, pois é o próprio tamanho (social) do mundo que impõe um determinado número mínimo de conexões entre quaisquer nodos escolhidos aleatoriamente. Assim, mesmo que não queiramos, os nodos ligados a um centro tendem também a estar ligados entre si em alguma medida. Portanto, esse número de nodos a partir do qual uma rede não conseguirá mais permanecer centralizada (stricto sensu) depende do mundo em que se está, dos seus graus de separação.

 

O mesmo vale, mutatis mutandis, para as redes com topologia considerada descentralizada. Existem diferentes graus de descentralização. Mas o menor grau de descentralização já é (localmente falando) um grau de distribuição. A descentralização máxima coincide com a distribuição (quando cada centro coincidir com cada nodo, é óbvio). Distribuir é des-con-centrar. A rigor, portanto, mais de um centro já des-con-centra. Há um problema com o segundo grafo de Baran (o da rede descentralizada). Os nodos de cada um dos múltiplos centros não costumam estar totalmente desconectados entre si como aparece no grafo (quer pensemos em filiais de uma empresa multinacional, quer pensemos em um partido de células).

 

Não se trata apenas de encontrar uma fórmula matemática, porque não existe um número ideal para uma rede poder ser considerada distribuída (a não ser o número total de conexões possíveis entre seus nodos, correspondendo ao grau máximo de distribuição). Mas uma rede distribuída em si não é distribuída para si. Talvez exista um número mínimo para que uma rede distribuída possa reduzir para 1 a extensão característica de caminho do cluster no qual se insere. Para um certo universo potencial de conexões (por exemplo, um cluster com até 50 mil pessoas), temos motivos para supor que esse número seja o de 1% dos nodos com grau de distribuição máxima (todos conectados com todos). Significa que em uma localidade de 20 mil pessoas, 200 pessoas (1%) conectadas em uma rede totalmente distribuída, consegue reduzir o tamanho social do mundo onde está inserida para 1 (um grau de separação). Será? Esse insight ainda carece de justificação matemática. De qualquer modo, parece que é o efeito da rede distribuída sobre o mundo no qual se insere que determina o efeito-distribuição. Uma rede distribuída provoca um crunch no mundo (isso é o mais importante: significa que ela aumenta o “poder social” ou empowerment induzido pelo campo). Para que uma rede tenha tal efeito é necessário que ela tenha o grau máximo de distribuição? O mais correto, talvez, seria dizer que ela terá sempre esse efeito, na razão direta do seu próprio grau de distribuição. Uma rede distribuída pode, assim, reduzir os graus de separação do mundo em que se insere, por exemplo, de 5 para 3. Mas ela só reduzirá esse grau para 1 se – dentro de certos limites, determinados pelo relação entre o número efetivo de nodos conectados e o número potencial de nodos do mundo – apresentar, ela mesma, um grau máximo de conexão (todos conectados com todos). Pode haver um importante conhecimento aqui para o netweaving. Não é necessário trabalhar com todos os nodos potenciais (a população de uma localidade, por exemplo). Basta trabalhar com uma porcentagem (1%?) dessa população (aquele insight luminoso de Jane Jacobs em 1961, mas ela errou a conta, talvez, por um zero).

Em breve a metáfora do “capital” social já poderá (ou deverá) ser abandonada. Usar a expressão ‘capital social’ é – como se diz na roça – “bater na canga pro boi ouvir” (o boi, no caso, são os policymakers que tiveram suas cabeças feitas pelos economistas ou, então, aqueles sociólogos cujo maior desejo é serem levados a sério pelos economistas…). Dizer que aquela externalidade que conotamos com a expressão capital social é um capital – em sentido metafórico – significa chamar a atenção das pessoas para o fato de que estamos diante de um recurso para o desenvolvimento tão importante como se fosse um capital (propriamente dito, físico ou financeiro). A metáfora – como qualquer metáfora – não é perfeita. Pois o chamado capital social é um recurso público que costuma assumir um papel inverso na equação do desenvolvimento quando é privatizado (como ocorre, por exemplo, no familismo amoral mafioso, coisa que não acontece com outros capitais em sentido estrito e mesmo em sentido metafórico, como o ‘capital humano’ – talvez com exceção do ‘capital natural’).

 

Tem gente que, por motivos ideológicos, rejeita a noção de ‘capital social’. Muitos acham que é uma tentativa neoliberal de mercantilizar relações sociais e, não raro, confundem capital com capitalismo e cometem outras besteiras semelhantes. Não é por consideração a essas posições que devemos ir abandonando a metáfora e sim para avançar na compreensão da natureza desse novo recurso político que foi aventado há tanto tempo (desde Tocqueville, pelo menos) mas que só se tornou presente nas preocupações dos teóricos do desenvolvimento há menos de vinte anos. A natureza em questão é a natureza da sociedade humana (ora, se se discute tanto hoje em dia sobre a natureza da natureza humana, por que não se pode discutir também sobre a natureza da sociedade humana?). Sim, porquanto o que chamamos de capital social é, na verdade, a sociedade (no sentido tocquevilliano do termo).

 

Pois bem. A natureza da sociedade é… a rede social. O que chamamos de social é a rede social, conquanto comumente atribuamos o qualificativo (ou o designativo) de ‘social’ para qualquer realidade humana. Humano e social não são sinônimos. Ao contrário do que parece, ‘social’ não é a coleção de elementos humanos. Humanos vistos individualmente, naquilo que aportam de recursos para o desenvolvimento em virtude das suas qualidades e potencialidades humanas intrínsecas, não compõem o social se não se incluir também no conjunto as relações que tais humanos estabelecem entre si.

 

Pode-se dizer que esta discussão é ociosa na medida em que o humano não se constitui como tal na ausência do social. Isso parece certo. Entretanto, se focalizarmos apenas os componentes do capital humano stricto sensu, não poderemos deles derivar o capital social. Ou seja, não há nenhuma equação que permita “calcular” o capital social a partir do capital humano. Vai daí que o que chamamos de políticas sociais são, na verdade, políticas humanas, no sentido de políticas de proteção ou promoção do desenvolvimento humano (como saúde e educação, por exemplo). Por outro lado, políticas de indução do desenvolvimento social propriamente dito, como aquelas que têm como objetivo aumentar a conectividade (inspirando, por exemplo, programas de instalação de telecentros comunitários), muitas vezes não são percebidas, nem consideradas, como políticas sociais (quando é somente isso o que são!).

 

Capital social é um tipo de recurso bastante diferente do capital humano, na medida em que não pode ser individualizado, internalizado por um sujeito, identificado com atributos isoláveis do ambiente ou do campo social (no sentido de que tal recurso continue existindo na ausência desse “campo de força”). É claro que capital humano gera capital social se acrescentarmos as colisões, num modelo análogo ao que se emprega para observar um gás aquecido: Singapura tem muita densidade de capital humano que, como moléculas de um gás, vão se chocar numa freqüência muito maior do que no Afeganistão ou na Amazônia. Essas colisões são, na verdade, uma imagem das conexões. Se trombarmos com muitas pessoas o gás vai se aquecer. Num mundo pequeno (Small World Network) – quer dizer, com alta conectividade, baixa extensão característica de caminho (ou graus de separação reduzidos) – vai haver maior produção de capital social.

 

Tudo isso sugere que o fundamental não está na metáfora do capital social como se fosse um recurso misterioso, produzido pela cooperação ampliada socialmente ou pelos níveis sociais de confiança emitidos, sei lá, por corações humanos que, incontidos em sua generosidade, querem sair do peito (não é da sociedade dos anjos que falamos aqui), e sim nos fenômenos que ocorrem na intimidade mais profunda disso que chamamos de sociedade. O fundamental é o multiverso das conexões ocultas que configuram o que chamamos de social. O fundamental é descobrir quais padrões de convivência social são mais favoráveis à criação de um campo empoderante… (Ah! Sim, o capital social encoraja o capital humano a realizar suas promessas). Ou, em outras palavras, o fundamental é captar aquelas configurações e dinâmicas de rede que favorecem a emergência, a geração espontânea de ordem.

 

As conexões representadas por linhas fixas são apenas rastros de fluições. A rede não é o grafo, o emaranhado das linhas é apenas a trajetória de algo que já fluiu por ali, não no espaço físico ou sobre o território geográfico e sim no espaço-tempo dos fluxos. É claro que um fluir repetido cria um sulco por onde acabam escorrendo as coisas que ainda virão: nesse caso a conexão vira estrada, a aresta vira trilha por onde outros caminharão. É assim que nascem as ruas numa cidade; antes nasceram no espaço-tempo dos fluxos para, só depois, virarem construção urbana.

 

No espaço-tempo dos fluxos cada caminho novo que se abre é uma possibilidade de futuro que não havia. O desenvolvimento, desse ponto de vista, é a abertura de novos caminhos, de novos futuros. Poucos futuros, pouco desenvolvimento (e imagine que explicações inovadoras podem surgir daqui: o estoque – ou o fluxo, melhor dizendo – de futuros disponíveis é o reservatório dos futuros possíveis; ou o desenvolvimento não é um caminhar de volta ao presente passando pelos futuros disponíveis?).

 

Em breve reescreveremos as metodologias de indução do desenvolvimento baseadas no investimento em capital social como um conjunto de técnicas e atividades que têm por objetivo a criação (e a animação) de redes sociais; ou seja, netweaving.

 

Em geral o conceito de desenvolvimento é tomado no sentido transformacional ou variacional. São dois modelos. O modelo transformacional evoca a idéia de desdobramento de qualidades ou dinamização de potencialidades contidas em gérmen. É o desenrolar. Em certo sentido, o termo ‘evoluir’ ficou muito marcado por essa idéia. O pinto está contido no ovo. Há uma transformação pela qual a “forma” contida em gérmen (no conteúdo do ovo) vira outra “forma” (a ave). Já o modelo variacional evoca a idéia de mudança acarretada por uma interação com as circunstâncias. Nada está totalmente contido em gérmen. O que está contido muda de acordo com as variações aleatórias que ocorrerão, sobretudo, na interação com o meio.

 

O primeiro modelo de mudança – o modelo transformacional – foi muito usado pelos que conferiam um papel preponderante ao Estado (ou a um sujeito coletivo, munido de um projeto, de uma vontade) no processo de desenvolvimento. O segundo – o modelo variacional – foi usado pelos que atribuíam ao mercado um papel principal como motor do desenvolvimento. Com efeito, o mercado parece ter um comportamento que é mais bem explicado pelo modelo variacional do que pelo modelo transformacional.

 

Nenhum desses dois modelos de mudança é inteiramente compatível com uma visão de sustentabilidade. Sugerimos, por isso, um terceiro modelo, o modelo regulacional. O modelo regulacional parte da idéia de que existe uma rede que regula a mudança. Ele não nega a transformação nem a variação, mas não atribui papel determinante à criação de condições para que a transformação aconteça, nem deixa a mudança ao léu das variações aleatórias.

 

Falar de desenvolvimento sustentável é a mesma coisa que falar de desenvolvimento de uma perspectiva regulacional ou sistêmica. Só é sustentável (e, nesse sentido, só se desenvolve) aquilo que permanece (como o que é, como o que se identifica de um modo particular e único) e muda ao mesmo tempo (de acordo com a mudança das circunstâncias). Em outras palavras, isso significa conservar a adaptação. Para se adaptar, é necessário mudar. Mas o padrão de mudança deve ser conservado pois, do contrário, o ser em mudança deixa de ser o que é.

 

Para que isso seja possível é necessário reconstruir programas de adaptação a partir de um padrão que defina uma identidade. Pois bem. Essa identidade é a identidade da rede social onde o processo de mudança de verifica e não a identidade particular desse ou daquele indivíduo, ou desse ou daquele grupo de indivíduos.

 

Não apenas em termos ambientais, mas também em termos sociais, desenvolvimento é a mesma coisa que sustentabilidade. Quando falamos em mudanças em um ecossistema, estamos falando da teia de conexões que regula o fluxo de energia e matéria dentro do sistema e das suas relações com o meio. Se esse fluxo for regulado – incluindo o aparecimento de novos indivíduos, organismos e espécies e o seu desaparecimento, bem como as mudanças físicas – por essa teia de conexões, o ecossistema se mantém. Muda para permanecer como tal, muda – apesar de ser um pouco estranha a formulação – para permanecer o que é, e só permanece se estiver em contínua mudança. É igual (ao que é), quando, a cada momento, consegue ser diferente (do que era).

 

Esse é o aparente paradoxo da sustentabilidade. E é por causa disso que é tão difícil entender esse conceito.

 

Estamos afirmando que isso pode igualmente ser observado em termos sociais. A rede social – a verdadeira Matrix, não o mainframe do filme dos irmãos Wachowski, mas a network, a teia invisível, móvel, pulsante, de conexões entre indivíduos e grupos em uma sociedade, também denominada – do ponto de vista dos recursos necessários ao desenvolvimento – pela expressão ‘capital social’ – tem o papel de mudar os programas de adaptação a partir do seu próprio padrão de identidade.

 

Ainda não temos instrumentos teóricos e condições técnicas para mapear os padrões de identidade de uma rede social. Mas estamos nos aproximando velozmente desse conhecimento. Experiências recentes com trânsitos de mensagens e monitoramento das interações entre indivíduos em um pequeno grupo, já estão permitindo desenhar configurações complexas de conexões. O problema agora é identificar, nesses intricados desenhos, os invariantes, as formas que não mudam quando tudo muda. No momento em que conseguirmos fazer isso teremos descoberto a “impressão digital” de uma particular sociedade.

 

O que chamamos de desenvolvimento, de um ponto de vista regulacional é, assim, apenas “a dança conforme a música”. Isso pode significar crescimento, expansão de uma ou várias características ou fatores, mas pode também não significar. Significa sempre mudanças relativas de fatores, uns em relação aos outros, em torno de valores ótimos. Crescimento de um fator (por exemplo, o econômico) não acompanhado por movimentos correspondentes de outros fatores (humanos, sociais, ambientais) em geral leva à insustentabilidade. Mas os economistas ainda vão levar algum tempo para perceber essas coisas.

 

Maturana e Varela, nos anos 80, já estabeleceram um importante paralelo entre o processo de vida e o processo de conhecimento. A chamada, por alguns, “Teoria do Conhecimento de Santiago”, é um conjunto de hipóteses sobre tal paralelo. Os ecologistas já haviam estabelecido um paralelo semelhante, entre o processo de vida – sobretudo em ecossistemas, mais do que em organismos e partes de organismos – e o processo de desenvolvimento. É daí, aliás, que nasce a idéia de desenvolvimento sustentável. Aventamos então a possibilidade de um paralelo entre o processo de conhecimento e o processo de desenvolvimento. Não se trata de uma grande descoberta. Qualquer um que estabelecesse uma relação lógica (na verdade, analógica) simples poderia chegar à mesma hipótese. Se ‘vida’ é análoga a ‘desenvolvimento’ e ‘vida’ é análoga a ‘conhecimento’, então ‘desenvolvimento’ é análogo a ‘conhecimento’.

 

Mas dizer que tanto o processo de vida quanto o processo de conhecimento são análogos ao processo de desenvolvimento admite alguns pressupostos e tem conseqüências importantes. Um desses pressupostos é o de que deve haver uma estrutura comum, que vive e aprende e se desenvolve – sendo essas três coisas, talvez, três maneiras de olhar um mesmo processo estrutural (estrutural no sentido em que Maturana emprega essa expressão e não nos sentidos em que a filosofia estruturalista ou o marxismo a empregaram). Essa estrutura é a rede. Só pode viver o que está conectado em rede. Só pode aprender o que tem o padrão de rede. Só pode se desenvolver o que tem a configuração de rede.

 

Se o cérebro é capaz de aprender é porque ele não é uma CPU de computador, mas tem a estrutura de rede. Se um acidente destruir uma parte do cérebro, sendo tal dano irreversível na medida em que o componente destruído não poderá ser refeito, isso não significa que não possa ser compensável, isto é, que sua função não seja assumida por outro nodo da rede ou por uma nova combinação de conexões entre esse nodo e os demais. Estamos falando de regulação. Não da regulação operada por uma instância superior, top down ou de fora para dentro. Estou falando da regulação própria que só pode ser operada por uma rede. Os estímulos podem vir de fora, mas o seu processamento ocorre dentro. Trata-se de autoregulação.

 

Uma conseqüência importante dessa concepção é que o sujeito deixa de ser o indivíduo evoluindo e passa a ser a rede aprendendo. A rede aprende, entretanto, de um modo bastante diferente daquele que (imaginávamos) ocorre com os indivíduos. A rede aprende toda a vez que é obrigada a se autoregular. A rede aprende toda vez que gera nova ordem, toda a vez que se manifesta o fenômeno da emergência.

Sustentabilidade é o que chamamos de desenvolvimento com base em um modelo regulacional da mudança, ou seja, um modelo que não é nem (apenas) transformacional, nem (apenas) variacional. Transformações e variações acontecem o tempo todo. Mas transformações não são unicamente o desdobramento de um projeto prefigurado, contido em germe, em um programa arquivado em um genoma. E variações não são o resultado da replicação imperfeita desse projeto diante da mudança totalmente aleatória das circunstâncias. A nova ordem implicada na mudança só pode emergir porque a transformação e a variação passam a ser reguladas. Essa nova ordem emerge quando há regulação da mudança. Quem regula a mudança, desse ponto de vista, é a rede social. Ela se adapta e conserva seus padrões de adaptação. Ela só consegue conservar a adaptação porque reconstrói (ou seja, muda) seus programas de adaptação a partir desse padrão (a identidade de uma rede social). Sustentabilidade, isto é, desse ponto de vista, desenvolvimento, só pode existir quando existe ordem emergente, quer dizer, auto-regulada.

 

Novamente aqui é evocado um poderoso paralelo heurístico. Se em termos biológicos sustentabilidade é a mesma coisa que vida, em termos sociais sustentabilidade é a mesma coisa que desenvolvimento. A vida cessa quando se rompe a congruência entre o indivíduo e o meio, o que significa incapacidade de manter uma correspondência dinâmica com os outros elementos da rede que possibilite a autopoiese. O desenvolvimento (sustentável) ocorre a não ser enquanto exista auto-regulação social.

 

Mas há ainda um outro paralelo heurístico. Assim como o processo de vida é análogo ao processo de conhecimento, o processo social – ou seja, o processo de desenvolvimento social de um ponto de vista regulacional (ou para uma teoria sistêmica do desenvolvimento, poder-se-ia dizer) – é também comparável ao processo de conhecimento. É assim que se pode então dizer que a sociedade se desenvolvendo é sinônimo de sua rede social aprendendo. Aprendendo o quê? Aprendendo a se auto-regular. Aprender, aqui, significa ser capaz de reconstruir seu programa de adaptação; ou seja, ser capaz de construir um outro (novo) programa a partir da (mesma) matriz de identidade, quer dizer, do mesmo padrão que caracteriza uma sociedade particular porque contém os invariantes da configuração e da dinâmica de sua rede social.

 

Ocorre que uma sociedade particular capaz de fazer isso é sempre uma sociedade local. É por isso que se diz que todo desenvolvimento (sustentável) é local, porque ‘todo bottom up é local’, porque todos os conhecimentos tomados (a partir de baixo) são locais, quer dizer, são tomados com base em avaliações locais das circunstâncias mais amplas ou das condições mais gerais. A emergência (quer dizer, o surgimento de uma nova ordem por auto-regulação) se dá a partir do local; inclusive uma ordem emergente de caráter mais global é construída a partir de interações locais.

 

Sistemas complexos são capazes de fazer isso, ou seja, de configurar ordem mais global (macrocomportamentos) a partir de regras locais, tornando-se capazes de comportamento emergente, de inteligência coletiva, de swarm intelligence, quando seus elementos se concentram na solução dos mesmos problemas (que são, então, forçosamente, problemas locais).

 

Sociedades (de massa) não são capazes de fazer isso, mas comunidades (de projeto) sim. Ou melhor, sociedades só são capazes de fazer isso se as comunidades de projeto que se formaram no seu seio fizerem isso, como percebeu Jane Jacobs, em outros termos, há 40 anos. Só comunidades de projeto – que se dedicam, por milhares de micromotivos diferentes das pessoas e grupos que as compõem – à resolução dos mesmos problemas locais, podem ser capazes de adquirir a dinâmica de sistemas complexos adaptativos e, assim, podem ser sustentáveis. É por isso que uma nova visão do desenvolvimento como a que está sendo cogitada aqui aponta para o desenvolvimento local. Desenvolvimento local, nesse sentido, não é uma redução, não é uma particularização. Desenvolvimento local nada mais é do que desenvolvimento comunitário, ou seja, desenvolvimento de comunidades de projeto a partir dessas próprias comunidades. Desenvolvimento, nesse sentido, é uma emergência. E o terreno da emergência é o local.

 

Só redes podem aprender, mas não é qualquer rede que aprende. Só redes podem ser sustentáveis, mas não é qualquer rede que pode ser sustentável. No que tange a sociedades humanas, só em comunidades de projeto o tecido social pode atingir o grau de tramatura suficiente para ensejar a fenômeno da autoregulação. Comunidades são sociedades que atingiram certo grau de tramatura do seu tecido social. Uma ordem na sociedade global – se não for autocrática – só poderá emergir, quer dizer, vir de baixo, do local.

 

Tudo isso pode ser analisado por teorias do capital social se considerarmos que o fator do desenvolvimento designado pela noção de capital social nada mais é do que a rede social. É o grau de conectividade, o número de caminhos (medido, se quisermos, pela ‘extensão característica de caminho’ ou pelo ‘comprimento de corrente’) existentes entre os nodos de uma rede social que dá o poder social de uma sociedade, ou seja, a sua capacidade de empoderar os seus elementos para que eles criem, inovem, empreendam, assumam protagonismo – enfim, se desenvolvam na medida em que desenvolvem o coletivo do qual fazem parte. Desenvolvimento (sustentável) é, assim, a coincidência de auto-desenvolvimento e comum-desenvolvimento. Em outras palavras, como dizia Jacobs (2000), desenvolvimento é sempre a operação de uma rede de co-desenvolvimentos interdependentes.

 

Qualquer ordem não-autocrática só pode existir se for emergente. Temos aqui uma pista para estabelecer um nexo conotativo entre desenvolvimento e democracia. Assim como o desenvolvimento é o ‘aprender’ de uma comunidade, a democracia é um ‘deixar aprender’. Como pacto de convivência, a democracia é um modo de regulação de conflitos que preserva a existência dos conflitantes, que permite a continuidade de sua experiência de convivência social, que possibilita a expansão continuada dos graus de liberdade para que possa haver cada vez mais experimentação e mais aprendizagem e, por conseguinte, mais desenvolvimento.

 

É por isso que não pode haver desenvolvimento (tomado em termos regulacionais, na visão proposta aqui, ou seja, desenvolvimento sustentável ou sustentabilidade) sem democracia. Ou melhor, é por isso que mais desenvolvimento (ou sustentabilidade) implica mais democracia, avanço do processo de democratização, de democratização da democracia. Pode haver crescimento (da renda, da riqueza ou de qualquer outra variável extra-econômica da equação do desenvolvimento, como o conhecimento, por exemplo) sem democracia, mas não pode haver, nesse sentido, desenvolvimento.

 

E é por isso que desenvolvimento depende da produção de capital social, ou seja, da capacidade de uma sociedade de gerar ordem espontaneamente a partir da cooperação. Em outras palavras, é por isso que desenvolvimento depende da capacidade de uma sociedade de constituir comunidade, de tramar o seu tecido social a ponto de permitir a eclosão dos fenômenos associados à emergência (multiplicidade, diversidade, reverberação, circuitos de retroalimentação de reforço ou de feedback positivo etc.).

O grande estadista grego Péricles (495-429 a. C.) – considerado um dos pais da democracia – usava a palavra “idiotes” para designar os atenienses que, alegando ter de cuidar de seus próprios assuntos, não participavam das reuniões para tratar de questões de interesse coletivo.

 

É incrível como, dois mil e quinhentos anos depois, continuamos cultuando uma cultura econômica que produz idiotas (no sentido grego – e original – do termo).

 

Tal é a cultura, ainda predominante, do desenvolvimento. Imaginamos que desenvolvimento é o resultado de crescimento econômico que se atinge em virtude de um dinamismo que se instala na sociedade quando cada indivíduo se lança na busca desenfreada pela satisfação de seus interesses materiais egoístas.

 

Modernamente justificamos essa crença lançando mão de uma teoria (darwiniana) da evolução, baseada em um modelo variacional da mudança. Trata-se de uma perspectiva mercadocêntrica, quer dizer, centrada no mercado e que imagina que a “lógica” e a racionalidade do mercado dão conta de explicar o funcionamento das outras esferas da realidade social (ou dos outros tipos de agenciamento), como o Estado e a sociedade civil.

 

Vamos ver melhor o que é isso.

 

O modelo variacional se opõe ao modelo transformacional da mudança. Richard Lewontin (1998), em “A tripla hélice”, aborda tal diferença da seguinte maneira:

 

“O termo desenvolvimento é uma metáfora que traz consigo um compromisso anterior quanto à natureza do processo. Desenvolvimento (development em inglês; Entwicklung em alemão; desarrollo em espanhol e sviluppo em italiano) é, literalmente, o desdobrar ou o desenrolar de algo que já está presente e em certo sentido pré-formado. Essa mesma palavra é utilizada em inglês para nomear o processo de revelar uma imagem fotográfica. A imagem já está imanente no filme, no interior da câmera, e o processo de revelação – development, em inglês – simplesmente torna visível a imagem latente. É exatamente essa a visão da biologia do desenvolvimento a respeito do desenvolvimento de um organismo. A moderna biologia do desenvolvimento é totalmente concebida em termos de genes e organelas celulares, cabendo ao ambiente apenas fazer as vezes de cenário. Considera-se que os genes no ovo fertilizado determinam o estado final do organismo, enquanto o ambiente em que o desenvolvimento ocorre é tão-somente um conjunto de condições propícias a que os genes se expressem, assim como o filme fotográfico, ao ser exposto, produzirá a imagem que nele já está imanente, quando colocado nos líquidos apropriados e na temperatura adequada”.

 

Lewontin prossegue afirmando que:

 

“O emprego do conceito de desenvolvimento para designar as mudanças pelas quais um organismo passa durante a sua vida não é simplesmente um caso em que a linguagem disponível influencia o conteúdo das idéias. Quando se decidiu transformar uma língua antiga, o hebreu, em língua moderna, dotada de vocabulário técnico, a palavra escolhida para designar o desenvolvimento de um organismo – Lehitpateach – foi a mesma que se escolheu para nomear o processo de revelação de um filme, mas na forma reflexiva, de modo que um organismo literalmente “desenvolve a si próprio”. Além disso, a palavra evolução tem o mesmo significado original de desdobramento, e por essa razão Darwin não a empregou na primeira edição da “Origem das Espécies”. Antes de Darwin, toda a história da vida na Terra era vista como uma progressão ordenada de estágios imanentes. Ainda que Darwin tenha libertado a teoria desse elemento de predeterminação, sua história intelectual deixou a sua marca na palavra.

 

O uso desses termos reflete um comprometimento profundo com a idéia de que os organismos, tanto em suas histórias individuais de vida como em sua história evolutiva coletiva, são determinados por forças internas, por um programa interno, do qual os seres vivos reais são apenas manifestações exteriores. Esse comprometimento é uma herança da visão tipológica da natureza, de origem platônica, segundo a qual eventos materiais reais, que podem diferir uns dos outros em graus variados, são realizações imperfeitas e acidentais de tipos idealizados. O real é o ideal visto “através de um espelho, indistintamente”. Essa foi a visão das espécies que predominou até o século XX. Cada espécie era representada por uma descrição de “tipo” e um espécime real era depositado em alguma coleção como representativo desse tipo, enquanto todos os outros indivíduos da espécie, variando com relação ao “tipo”, eram vistos como realizações imperfeitas do ideal subjacente. O problema da biologia consistia, então, em dar uma descrição anatômica e funcionalmente correta dos “tipos” e explicar as suas origens. A biologia evolutiva moderna rejeita esses ideais platônicos e sustenta que a variação efetiva entre os organismos é a realidade que precisa ser explicada. Essa mudança de orientação é conseqüência da ascensão da visão darwiniana de que a variação efetiva entre os organismos é a base material de que depende a mudança evolutiva.

 

O contraste entre a teoria platônica moderna do desenvolvimento e a teoria evolutiva darwiniana reflete o contraste entre duas maneiras de explicar as modificações dos sistemas através do tempo. O desenvolvimento é uma teoria transformacional da mudança. Nas teorias transformacionais todo o conjunto dos objetos modifica-se porque cada objeto individual sofre durante o seu tempo de vida os efeitos de uma mesma história geral. O cosmos evolui porque todas as estrelas que têm a mesma massa inicial passam pela mesma série de modificações termonucleares e gravitacionais em um caminho que as leva a uma posição previsível na seqüência principal. Como grupo, as pessoas de setenta anos são mais grisalhas e mais esquecidas do que o conjunto das que têm 37 anos, porque a mente e o corpo de todos os indivíduos envelheceram. Por outro lado, a teoria darwiniana da evolução orgânica baseia-se em um modelo variacional da mudança. O conjunto dos indivíduos modifica-se não porque cada indivíduo passe por desenvolvimentos paralelos durante a vida, e sim porque existe variação entre os indivíduos e algumas variantes produzem mais descendentes do que outras. Assim, o conjunto como um todo se modifica por causa de uma alteração na representação proporcional das diferentes variantes, cujas propriedades específicas permanecem inalteradas. Se os insetos estão se tornando mais resistentes aos inseticidas não é porque cada indivíduo adquire níveis cada vez mais altos de resistência durante a sua vida, mas sim porque as variantes resistentes sobrevivem e se reproduzem, enquanto os organismos suscetíveis morrem”.

 

Lewontin, portanto, defende a idéia de que “o organismo não é determinado nem pelos seus genes, nem pelo seu ambiente, nem mesmo pela interação entre eles, mas carrega uma marca significativa de processos aleatórios”.

 

Mas o fato de que ele possa ter razão no que tange a evolução de organismos, não significa que teorias transformacionais da mudança não se apliquem às sociedades humanas. Pode significar, simplesmente, que sociedades humanas não são como organismos que evoluem segundo um modelo variacional. E que sociedades humanas passam por processos transformacionais de mudança. Ora, como ele mesmo ressalta, “o desenvolvimento é uma teoria transformacional da mudança”. E, ou admitimos que o desenvolvimento se aplica a sociedades humanas ou, então, é melhor abandonar o conceito de desenvolvimento.

 

Afirmamos que o modelo variacional, quando aplicado a sociedades humanas, corresponde a uma perspectiva mercadocêntrica, porque é possível que modelos variacionais se apliquem, dentro de certos limites, a algumas realidades sociais, como mercados. É mesmo possível, ademais, que Darwin tenha se aproximado de uma hipótese variacional a partir da observação do que ocorria em sociedades humanas sob forte influxo da dinâmica mercantil, como a sociedade inglesa da sua época. E que, então, sua compreensão da evolução biológica tenha sido, em alguma medida, decalcada dessa observação, como sugere a idéia de luta pela vida com toda aquela visão competitiva embutida.

 

Por outro lado, outras visões biológicas (como, por exemplo, as de Humberto Maturana, Lynn Margulis, Richard Strohman e Mae-Wan Ho) indicam que para explicar a mudança evolutiva não se pode olhar somente para o organismo ou para o gene e sim para as redes que regulam tal mudança. Tais redes celulares são sistemas complexos, com múltiplos laços de realimentação que fazem com que os padrões de atividade genética mudem continuamente com a mudança das circunstâncias, para manter o tempo todo uma congruência dinâmica com o meio, sem o que não poderia haver o que chamamos de vida.

 

Assim, é possível que mesmo a teoria variacional não explique totalmente o que acontece na evolução biológica e tenhamos de lançar mão do modelo das redes reguladoras. E que tal modelo possa também se aplicar a redes sociais para explicar o fenômeno chamado de desenvolvimento. Neste caso, o desenvolvimento social seria um fenômeno próprio das redes sociais: sistemas complexos que apresentam características formalmente semelhantes às redes celulares. Segundo essa perspectiva, os padrões de comportamento surgiriam e se modificariam na interação com o meio, sem o que não poderia haver isso que chamamos de cultura. Ou seja, a forma e o comportamento culturais manifestar-se-iam como propriedades que emergem da dinâmica complexa das redes sociais.

 

Portanto, pode existir um outro modelo para a mudança, além do modelo variacional e do modelo transformacional: o modelo sistêmico regulacional, que não exclui, no caso dos organismos biológicos, nem os genes, nem o ambiente, nem a interação entre eles, nem os processos aleatórios. Mas que acrescenta um outro elemento: as redes compostas por genes, proteínas, hormônios, enzimas e complexos moleculares. A diferença é que o “programa” não estaria arquivado no genoma e sim nessa rede. No caso das sociedades humanas, haveria também essa rede, composta, é claro, por outros nodos; e. g., pessoas e organizações.

 

A rede não predetermina o que vai acontecer, mas combina e recombina, continuamente, eventos e relações já existentes com novos eventos e novas relações introduzidas pelas mudanças endógenas e exógenas. E não importa se tais alterações são ou não casuais. O programa regulador – que “roda” na rede e não nos organismos, nas partes de organismos ou em outros nodos que a compõem – tende a assimilar as alterações casuais de tal sorte a torná-las adequadas à conservação da adaptação do organismo ao meio. Esse programa é autopoiético e também vai se modificando para dar conta de exercer o seu papel regulador em circunstâncias que vão se modificando. Ou seja, a rede aprende.

 

A rede aprendendo é o sujeito e não o organismo evoluindo.

 

Se adotarmos esse ponto de vista, deixamos para trás a questão de se deve ou não deve haver um paralelo entre o desenvolvimento (social) e a evolução (biológica) e se tal paralelo seria ou não seria legítimo. Sociedades humanas nada têm a ver com organismos, partes de organismos ou ecossistemas a não ser enquanto são, igualmente, reguladas por redes – sistemas complexos que apresentam, como tais, características e propriedades análogas.

 

Desenvolvimento – um conceito aplicado a sociedades humanas – seria, então, um processo de mudança, regulado pelas redes sociais, que depende de estímulos internos e externos, múltiplas interações entre alterações internas e externas, aleatórias ou não, cujo “propósito” é assegurar a conservação dinâmica dessas próprias redes e, nessa medida, dos elementos que a compõem. 

 

Em primeiro lugar é preciso reconhecer que todo desenvolvimento é desenvolvimento social, que o conceito de desenvolvimento se aplica a sociedades e não a quaisquer outros sistemas de seres animados ou inanimados, de entes concretos ou conceituais. Do ponto de vista social propriamente dito, quer dizer, da rede social e da sua fenomenologia, o que chamamos de desenvolvimento é sempre uma mudança na rede social, vale dizer, naquelas variáveis que a caracterizam. Existem mudanças sociais que podemos interpretar como desenvolvimento: são aquelas que alteram disposições no espaço-tempo dos fluxos (da rede) de sorte a produzir determinados efeitos que são vistos, de fora, coletivamente, como criação de ambientes favoráveis à inovação e ao protagonismo de aglomerados de indivíduos e, individualmente, como empoderamento de seus nodos em termos de aumento da capacidade desses indivíduos de empreender. Diga-se o que se quiser dizer sobre o desenvolvimento, tais indicadores são definitivos: não podemos falar da ocorrência do fenômeno do desenvolvimento de um determinado conjunto de seres humanos a não ser enquanto estejam sendo gerados ambientes sociais favoráveis e novas capacidades (ou habilidades ou competências) permanentes dos elementos que constituem tal conjunto. Isso, como sabemos, tem a ver com boa governança e prosperidade econômica, mas não é reflexo mecânico e imediato da expansão econômica (ou do crescimento do produto).

 

Mas esses indicadores, lato sensu, de desenvolvimento, por meio dos quais captamos e interpretamos certas mudanças sociais como desenvolvimento, não revelam o que está acontecendo um nível abaixo. Alguma coisa ocorreu no espaço-tempo dos fluxos para que tais efeitos pudessem ser observados. O encorajamento de que necessita um indivíduo para sonhar e correr atrás dos seus próprios sonhos não é um impulso que nasce da sua propensão intrínseca para inovar ou das suas qualidades inatas para ser um empreendedor e sim de uma espécie de indução exercida por um “campo de força” que é gerado pela configuração das relações que envolvem os outros indivíduos e que depende da sua posição nessa configuração. Ou seja, o chamado empowerment é uma função social, que parte do ambiente para o indivíduo – e não o contrário –, mas que depende de coisas como a inserção desse indivíduo em uma rede com maior densidade (“cluster”), do seu grau de intermediação ou peso como conector (“betweenness”) e da sua proximidade a outros nodos ou do seu peso como atalho (“closeness”).

 

Para quem vê de fora e não percebe o processo endógeno e subterrâneo que ocorre na intimidade da rede social, essas observações podem soar como especulação abstrata. Para quem vê por cima – e, portanto, não vê o que há de propriamente ‘social’ no processo (e o social é o processo…) – uma inovação é fruto das boas idéias (que surgem por acaso quando há um virtuoso casamento com a necessidade) ou dos conhecimentos (capital humano) do inovador. Esse enfoque não permite perceber, como dizia William Irwin Thompson (1987), que as idéias, como as uvas, dão em cachos. Duncan J Watts (aquele jovem pesquisador de Colúmbia e Santa Fé, que anda bisbilhotando a intimidade do social, estudando o “Small World Phenomenon” e verificando os graus de separação da rede social global) poderia fazer pouca coisa em Caruaru, assim como os pós-PHDs dos keiretsu japoneses não conseguem competir, segundo a explicação de Fukuyama (1999), em termos de inovações por minuto, com aquelas turmas de jeans e tênis que andam almoçando juntas nos bares e lanchonetes do Silicon Valley (capital social).

 

No caso do desenvolvimento, alguma coisa que não vemos está acontecendo para “produzir” o que vemos. Essa coisa que não vemos é o ‘social’, uma realidade que, por sua vez, não pode ser operada se não mexermos nos fluxos que a “produzem”. E não há outra maneira de fazer isso a não ser alterando padrões de organização e modos de regulação (quer dizer, fazendo política).

 

Inconsciente e desgraçadamente estamos mexendo o tempo todo nesses fluxos, sobretudo alterando a topologia das redes que configuram, por meio de um tipo de política que impede a sua distribuição. Nossa intervenção no social se dá, em geral, pela colocação de obstáculos à livre fluição, introduzindo todo tipo de filtros, quer dizer de centralizações que impedem que a rede social seja uma rede mais distribuída. O poder político – tal como exercido pelo velho sistema político – é o poder de separar, obstruir e excluir e não o de juntar, desobstruir e incluir. Como dizia Paul Valery, numa frase bastante citada, “a política é a arte de impedir as pessoas de participarem dos assuntos que, propriamente, lhes dizem respeito”.

 

Nossas observações sobre os fatores de insucesso em experiências de indução do desenvolvimento local indicam que, em 90% dos casos (senão mais), tais fatores são de natureza política. O assistencialismo, o clientelismo, a centralização e a criação de um clima adversarial na base da sociedade (em geral por razões político-eleitorais) são responsáveis por boa parte das dificuldades que vêm enfrentando, cotidianamente, indivíduos e instituições dedicados à promoção do desenvolvimento em localidades e setores. Além disso, o sistema político conspira contra a inovação, encara o crescente protagonismo das populações como uma ameaça, despreza (e desperdiça) os recursos novos que poderiam ser aportados por outros grupos e indivíduos que não pertencem à patota daqueles que administram os governos como se fossem condomínios privados (sim, o sistema político privatiza a esfera pública e, assim, obstrui o processo substantivo de democratização da sociedade).

 

Mas do fato de a política ser predominantemente assim, não se pode derivar que ela esteja condenada a ser sempre assim (como quer a realpolitik). Existem fortes evidências de que isso pode ser mudado. Basta ver que em comunidades de projeto – articuladas em rede, sobretudo em redes comunitárias de desenvolvimento – estão ocorrendo as mais notáveis inovações políticas democratizantes da atualidade. Essas evidências apontam para a existência de uma equivalência prática entre três tipos de iniciativas ou tarefas: induzir o desenvolvimento local <=> animar redes sociais distribuídas (P2P) <=> democratizar a política (na base da sociedade e no cotidiano do cidadão). Ou seja, é razoável apostar na hipótese segundo a qual não haverá desenvolvimento (sustentável, é claro; pois que se não for, não é desenvolvimento) diante de graus insuficientes de distribuição das redes sociais e de democratização da sociedade.

 

Resta muita coisa a ser dita para trocar em miúdos as principais alegações contidas aqui, de sorte a mostrar, sobretudo para quem não está familiarizado com os novos conceitos usados no estudo das redes sociais, que o grau de democratização da sociedade (ou de democratização – ou radicalização – da democracia) tem a ver com o grau de desenvolvimento, ou melhor, com a capacidade de desenvolvimento de uma determinada sociedade. Por ora, podemos dizer, que John Dewey estava coberto de razão ao, insistindo no caráter radical da democracia, pressentir as idéias de rede comunitária e de rede social distribuída, antevendo os processos de disseminação “viral” que só podem se efetivar pelos meios próprios de redes P2P (peer-to-peer). Pois é assim – e não de outra forma qualquer – que ele termina a sua principal contribuição à teoria política, o livro “O Público e seus Problemas” (1927):

 

“There is no limit to the liberal expansion and confirmation of limited personal intellectual endowment which may proceed from the flow of social intelligence when that circulates by word of mouth from one to another in the communications of the local community. That and that only gives reality to public opinion. We lie, as Emerson said, in the lap of an immense intelligence. But that intelligence is dormant and its communications are broken, inarticulate and faint until it possesses the local community as its medium”.

 

Quando falam em ‘social’ as pessoas, em geral, querem se referir àquelas condições que permitem a satisfação de necessidades humanas. Não é por acaso que as chamadas políticas sociais, sobretudo para os governos, são aquelas que ofertam produtos (ações, programas e serviços) de educação, de saúde etc; ou seja: componentes do capital humano (ou do desenvolvimento humano) e não do capital social (ou do desenvolvimento social). Há, ainda, um sentido mais restrito – quase pejorativo – do termo social: aquele que se pega emprestado para designar políticas de combate à pobreza ou à desigualdade, sejam políticas de geração de emprego e renda (tomando a pobreza como insuficiência de renda e a desigualdade como desigualdade econômica, quer dizer, verificada na distribuição desigual da renda), sejam políticas ditas de assistência social (em geral compensatórias ou protetivas, quer dizer, ofertadas pelo Estado para compensar defasagens de inserção verificadas no processo econômico, de distribuição da renda e da riqueza ou para proteger setores vulneráveis ou em situação de risco da população, que não poderiam, por seus próprios esforços, lograr uma inserção adequada em uma sociedade mercantil, ter acesso aos recursos mínimos capazes de garantir uma vida digna ou, mesmo, sobreviver).

 

Digo que este último sentido do termo, pelo menos em alguns casos, é pejorativo, porquanto o ‘social’ fica parecendo uma espécie de “sopa dos pobres”, “pãozinho de Santo Antonio”, alguma coisa que deve ser dada a alguém que não tem condições de obtê-la por seus próprios esforços e méritos. É como se desenvolvimento fosse matéria econômica e, para aqueles pobres coitados que não conseguem se inserir no mundo econômico e ficam à margem das suas dinâmicas, então administramos o remédio, paliativo, do ‘social’. Não se pode negar que aqui se encontram aqueles elementos do “pobrismo” – um tipo de ideologia que contaminou os discursos de inclusão social dos que defendem o protagonismo único ou preponderante do Estado na promoção do desenvolvimento social.

 

Por incrível que possa parecer, raramente se pensa na ‘sociedade’ quando se emprega o termo ‘social’. Em geral não se faz esforço para explicitar uma visão da sociedade, da sua morfologia e da sua dinâmica, quando se fala do ‘social’. A sociedade é encarada, para todos os efeitos práticos, como a coleção dos humanos, assumindo-se o pressuposto econômico (sem declará-lo) segundo o qual o desenvolvimento da sociedade (o conjunto) é uma espécie de resultado do desenvolvimento dos indivíduos (os elementos do conjunto). Não se percebe, assim, que o ‘social’ não se refere propriamente aos indivíduos e sim ao que existe ou ocorre (às relações) entre eles.

 

É por isso que grande parte das intervenções sociais (ações e programas governamentais ou não-governamentais) são ações de desenvolvimento humano e não de desenvolvimento social. Se pedirmos a uma pessoa qualquer para dar um exemplo de programa social é improvável que ela cite um programa de telecentros comunitários. Falará do combate a pobreza, falará das ações de assistência social voltadas às populações carentes, falará de educação, saúde, saneamento básico, transporte, habitação… mas não falará de alguma coisa que incida diretamente sobre as relações (entre os elementos) que constituem o “corpo” da sociedade (o conjunto), nem do seu “metabolismo” (quer dizer, da dinâmica da interação entre os elementos desse conjunto).

 

A sociedade, entretanto, não é uma mera coleção de indivíduos humanos, um conjunto que se possa definir pelas características intrínsecas de seus elementos; queremos dizer com isso que os mesmos elementos podem gerar diversos tipos de sociedade, bastando, para tanto, que se mudem as relações entre eles. A sociedade, portanto, é alguma coisa que só pode ser adequadamente designada pela noção de ‘sistema’ (e de sistema complexo, com evidentes características adaptativas; e, se não fosse assim, poderíamos jogar no lixo todas as conversas sobre sustentabilidade).

 

São os padrões de relação que caracterizam a sociedade. Como esses padrões se modificam continuamente (e isso é a dinâmica social), a rigor, são os invariantes encontrados nesses padrões (aquilo que não muda, ou que não muda tão rapidamente quanto as configurações do permanente fluir que constitui as próprias relações) que podem distinguir uma sociedade particular de outra sociedade particular. Tais invariantes nada mais são do que modos de fluir que se tornam recorrentes, caminhos muito trafegados que, por isso, acabam constituindo singularidades topológicas no “tecido social” (ou seja, estou falando sobre aquelas coisas que, vistas de fora, são chamadas de identidades).

 

Cada vez fica mais evidente que esses padrões são padrões de rede (definidos pela existência de múltiplos caminhos entre os nodos). Com o aumento do número de conexões – ou com o aumento da conectividade dessas redes – (impulsionado recentemente pela possibilidade de conexão em tempo-real ou sem-distância), diz-se que está emergindo uma sociedade-rede.

 

Sim, mas, na verdade, toda sociedade propriamente dita é uma sociedade-rede. Sem rede social não subsiste o conceito de sociedade, porquanto o que chamamos de ‘sociedade’ é, propriamente falando, a configuração móvel das relações estabelecidas entre os seus elementos (os indivíduos) e não o simples ajuntamento territorial desses indivíduos. Conquanto, dito assim, tudo pareça tão óbvio, surpreendentemente, não é: uma prova disso é que as pessoas continuam pensando nas sociedades e querendo intervir no ‘social’ como se a rede social não existisse. E não se esforçam por compreender a morfologia e a dinâmica das redes sociais sobre as quais querem intervir.

 

Não é difícil verificar a validade desse meu juízo: bastaria fazer uma pesquisa entre os policymakers governamentais e não-governamentais (de fundações e institutos empresariais ou de ONGs) da chamada “área social”, pedindo-lhes para conceituar rede social, ou para descrever alguns constructs importantes utilizados na análise de redes sociais ou, ainda, para citar meia dúzia de pesquisadores ou de trabalhos científicos importantes nessa área em andamento nos últimos dez anos. Mesmo sem fazer a pesquisa sugerida, já sabemos que o resultado desse survey será decepcionante e, se quisermos preservar a credibilidade dos responsáveis por nossas “políticas sociais”, impublicável.

 

Se o que chamamos de social é, stricto sensu, a rede social, devemos então concentrar nossa atenção no que caracteriza essa rede. Mas não podemos caracterizar uma rede e, mais especificamente, uma rede social, com as ferramentas conceituais e analíticas fornecidas pela velha sociologia, cujas categorias são inadequadas ou impotentes para captar e explicar processos novos (ou só percebidos recentemente) como “closeness“, “betweenness“, “clustering” e “swarming” (e os conceitos criados para captar tais processos são tão recentes que permanecem ainda com suas denominações originais e provisórias).

 

Bom, aqui começa a fazer sentido a necessidade de estudar as redes para compreendê-las e para poder operar sobre elas. E começa a fazer falta o conhecimento que pode ser fornecido por novas disciplinas como a SNA (Social Newtwork Analysis) e os conhecimentos derivantes do estudo dos sistemas complexos aplicados à “nova ciência das redes”: modelagem de redes “real-world”, redes como estruturas e redes como sistemas dinâmicos (um excelente reader sobre isso foi recentemente elaborado por Mark Newman, Albert-László Barabási e Duncan Watts (2006): “The Structure and Dynamics of Networks”).

 

O que caracteriza uma rede são as variáveis ligadas à sua topologia (se – e em que grau – trata-se de uma rede centralizada, descentralizada ou distribuída, ou seja, de uma rede propriamente dita), à sua densidade (ou conectividade), às suas disposições morfológico-dinâmicas (e aqui entram os eventos de “closeness”, “betweenness”, “clustering” etc.), à quantidade maior ou menor e à distribuição de “hubs” (ou conectores), “inovadores” e “netweavers”, à manifestação de processos de “swarming” (ou de “produção” disruptiva de ordem emergente que pode se manifestar num conflito que se dissemina e engaja seus contendores bottom up, por “contaminação viral”) e a várias outras características que indicam sua predisposição para manter ou alterar sua configuração geral.

 

Ora, todas essas variáveis são de tal natureza que alterá-las implica necessariamente mexer em padrões de organização e em modos de regulação de conflitos. Mas isso é, como sabemos, por definição aliás, nada diferente do que aquilo que constitui o objeto mesmo da política. Ou seja, a rede evoca primeiramente o mundo da política e não, como poderia parecer, o mundo da sociologia.

 

Dando um passo adiante na presente reflexão, chegamos assim ao que parece ainda mais surpreendente: não há outra maneira (sistêmica) de intervir no ‘social’ (propriamente dito, i. e., como sistema) a não ser pela política.

 

Do ponto de vista das redes, o mundo da política é o mundo da sociedade, pois tem a ver com a maneira como os indivíduos se conectam entre si e como os fluxos que atravessam tais conexões (a rigor, que as constituem) se combinam e recombinam, se potencializam (gerando múltiplos laços de realimentação de reforço) ou se anulam. Fluxos que se anulam concorrem para gerar estados de equilíbrio, diminuindo o dinamismo da sociedade (e, conseqüentemente, a sua “capacidade de desenvolvimento”; para um sistema poder se desenvolver é preciso que ele tenha estabilidade e que esteja afastado do estado de equilíbrio). Deve-se fazer um esforço para perceber que aqui estamos falando de política, reinterpretando – a luz do olhar sistêmico – conceitos como forças, ofensiva, defensiva, confronto, alianças, correlações de forças (que são idéias deslizadas indevidamente da “arte da guerra” para a política), porém agora como mensagens, fluxos, combinações de fluxos, reverberação, disseminação…

 

Assim, para dar um exemplo, ao invés de falarmos da capacidade de uma determinada força (política) de se impor às demais na correlação, fazendo com que a resultante aponte – após um confronto ou uma negociação qualquer – para uma direção próxima à sua direção original (um cálculo tipicamente político, olhado de uma perspectiva não-sistêmica), podemos falar agora das condições “ambientais” para que uma mensagem, emitida por um nodo da rede social, alcance outros nodos, o que tem a ver com “betweenness”, ou seja, com o grau de intermediação (medido pelo número de vezes que um nodo aparece no caminho mais curto entre outros dois nodos) e que nos dá uma medida do seu peso como conector (como “hub”), quer dizer, da sua importância (ou “peso político”) para que a rede se mantenha unida. E o que tem a ver também com “closeness”, ou seja com a soma das distâncias que separam um nodo dos outros nodos da rede (medindo a sua capacidade de chegar a outro nodo qualquer). E o que tem a ver, ainda, com “clustering”, como tendência de aglomeração que reduz os graus de separação entre os nodos produzindo o efeito chamado “small world”.

 

Tudo isso é político no sentido próprio do termo (escoimado da degeneração conceitual que foi introduzida pela chamada ‘fórmula inversa – e perversa – de Clausewitz’: “a política como continuação da guerra por outros meios”, a qual, na verdade, se refere, não à política, mas à própria guerra, ou a sua continuação por outros meios. Aliás, desde Hobbes (1651) já sabemos que a guerra não é caracterizada pelo emprego de meios violentos e armas, pela “batalha ou pelo ato de lutar”, mas pela “disposição para tal”.

Hubs, inovadores e netweavers: na rede você é importante na medida da sua capacidade de exercer uma dessas três funções e não do seu exibicionismo, da sua desenvoltura em usar os semelhantes como instrumentos para a sua projeção ou da sua auto-reclusão estudada, baseada numa opinião muito favorável sobre si mesmo ou baseada no seu currículo.

 

Fama, glória, riqueza, poder, conhecimento atestado por títulos – que são sinais de sucesso em outros tipos de sociedade – tendem a não ser os atributos mais importantes na sociedade-rede. Vamos ver como é isso.

 

Hubs. Os hubs são os conectores, os nodos da rede social muito conectados, os entroncamentos de fluxos. Um hub não é necessariamente alguém com grande popularidade ou notoriedade e sim alguém com muitas relações, que pode acessar – e ser acessado por – outros nodos com baixo grau de separação.

 

Não é a fama que faz um hub. Pessoas famosas, celebridades, costumam ser, em geral, inacessíveis. Não são, portanto, conectores. Qualquer trabalho na rede social que não conte com seus principais hubs encontrará mais dificuldades para “conversar” com o que venho chamando de “rede-mãe”.

 

Também não é o conhecimento que faz um hub, a não ser que queiramos nos referir ao conhecimento das pessoas, quer dizer, aos contatos de confiança. Às vezes um hub é o chaveiro do bairro, no qual as pessoas têm confiança de que sua segurança residencial não será colocada em risco (e aqui novamente é evocada a imagem do filme Matrix: aquele ‘O Chaveiro’ era um programa; um hub, de certo modo, também é, um programa que “roda” na rede). Tocamos agora num ponto importante da dinâmica das redes: confiança. Para que um hub possa cumprir a sua função é necessário que as pessoas confiem nele.

 

Ao invés de conhecimento individual, um hub precisa do reconhecimento social. Trata-se de um reconhecimento diferente daquele que manifestamos em relação a uma celebridade: não é um reconhecimento das massas, do grande público, das multidões e sim o reconhecimento realizado um-a-um, molecular. Assim, pode-se dizer que o hub é “produzido” socialmente pela rede.

 

Inovadores. Os inovadores são muito diferentes dos hubs. Muitas vezes não são conhecidos – e nem conhecem – muita gente. Nem são, em geral, muito conectados. Às vezes, são até bastante isolados. Podem vir a ser amplamente reconhecidos, mas isso depende de fatores, em geral, fortuitos. A característica principal do inovador é emitir mensagens na rede que acabam produzindo mudanças de comportamento dos agentes (considerando a rede social como um sistema de agentes). Quando esse processo ocorre, em geral o inovador não sabe bem por que, nem o que, aconteceu. Formaram-se laços de realimentação de reforço (feedback positivo) e a mensagem emitida pelo inovador acabou sendo reforçada e amplificada, adquirindo condições de se disseminar pela rede. Tais mensagens podem ser idéias, modos-de-fazer ou estilos (como a moda, por exemplo), atitudes que contenham novos padrões (sim, um padrão é uma mensagem e pode ser transmitido como tal, como já nos ensinava, há tanto tempo, Norbert Wiener).

 

O inovador – tal como o hub – também é “produzido” socialmente pela rede. Ninguém vira inovador colocando sua inovação na TV ou nos jornais ou anunciando-a em um evento massivo. A inovação é uma perturbação no tecido social que vai se espalhando molecularmente, ponto-a-ponto. Pequenas perturbações, mesmo que partam da periferia do sistema (quer dizer, de regiões pouco clusterizadas da rede social) são capazes de se disseminar se conseguirem atingir uma espécie de tipping point (a coisa parece funcionar como na propagação epidemiológica), mas para cada configuração de rede e, a rigor, para cada tipo de mensagem, podemos ter um ‘ponto de desequilíbrio’ diferente (a partir do qual a mensagem passa a se disseminar exponencialmente).

 

Nem sempre, porém, os inovadores vêem os resultados da sua inovação. Muitas vezes eles desencadeiam mudanças de comportamento que só vão aparecer muito depois, quando não se pode mais atribuir a um inovador particular a paternidade pela inovação, pois é próprio da dinâmica da rede social que muitas mensagens se misturem, se combinem e se transformem em outras mensagens.

 

Netweavers. Os netweavers são os “tecelões” (para aproveitar o que poderia ter sido uma feliz expressão de Platão, no diálogo “O Político”, se ele não estivesse se referindo a um sujeito autocrático), e os animadores de redes voluntariamente construídas. Na verdade, eles constroem interfaces para “conversar” com a “rede-mãe”. Os netweavers não são necessariamente os estudiosos das redes, os especialistas em Social Network Analysis ou os que pesquisam ou constroem conhecimento organizado sobre a morfologia e a dinâmica da sociedade-rede. Os netweavers, em geral, são políticos, não sociólogos. E políticos no sentido prático do termo, quer dizer, articuladores políticos, empreendedores políticos e não cientistas ou analistas políticos.

 

Os políticos tradicionais, entretanto, não são netweavers e sim, exatamente, o contrário disso: eles hierarquizam o tecido social, verticalizam as relações, introduzem centralizações, obstruem os caminhos, destroem conexões, derrubam pontes (ou fecham os atalhos que ligam um cluster a outros clusters, separando uma região da rede de outras regiões), excluem nodos; enfim, introduzem toda sorte de anisotropias no espaço-tempo dos fluxos. Fazem tudo isso porque o tipo de poder com o qual lidam – o poder, em suma, de mandar alguém fazer alguma coisa contra a sua vontade – é sempre o poder de obstruir, separar e excluir. E é o poder de introduzir intermediações ampliando o comprimento da corrente, dilatando a extensão característica de caminho da rede social ou aumentando os seus graus de separação (ou seja, diminuindo a conectividade). Não é por outro motivo que os políticos tradicionais funcionam, via de regra, como despachantes de recursos públicos, privatizando continuamente capital social. Pode-se dizer que, nesse sentido, os políticos tradicionais são os anti-netweavers, na medida em que contribuem para tornar a rede social menos distribuída e mais centralizada ou descentralizada (isto é, multicentralizada). Também não é a toa que todas as organizações políticas – mesmo no interior de regimes formalmente democráticos – têm topologia descentralizada (ou mais multicentralizada do que distribuída). Essa também é uma maneira de descrever, pelo avesso, o papel dos netweavers.

 

É claro que a “culpa” por esse comportamento “desenredante” não é dos políticos tradicionais individualmente. Eles são “produzidos” pelo próprio sistema político na medida em que esse sistema não está democratizado. Em outras palavras, quanto mais democratizado estiver o sistema político mais o agente político atuará como um netweaver; e vice-versa.

 

É preciso considerar que os netweavers articulam e animam redes (netweaving) – conectando pessoas-com-pessoas, com o grau máximo de topologia distribuída que for possível alcançar – independentemente do objetivo dessas redes. Podem ser netweavers digitais (ou cybernetweavers), que contribuam, por exemplo, para expandir a blogosfera, quer inaugurando seu próprio blog, quer ajudando outras pessoas a adquirirem essa efetiva condição de inclusão digital, quer criando ambientes interativos e programas que sirvam para agregar blogs por temas de interesse. Mas podem também se dedicar a induzir o desenvolvimento por meio de redes comunitárias ou setoriais. E podem, ainda, assumir um papel político, mais explícito, de experimentar e disseminar inovações políticas (em geral, por enquanto, em pequena escala), ensaiando formas alternativas de democracia – ou de democratização da democracia – ou de governança compartilhada em redes voluntárias de participação cidadã.

 

Ainda percorreremos uma longa jornada antes de assumir mais amplamente esses novos paradigmas, o que não significa que eles já não estejam vigendo. Quem está “na ponta” já se comporta mais ou menos assim. Basta ver o que começa a ocorrer nos meios científicos: antes um pesquisador, para ser reconhecido, precisava se submeter ao conselho editorial de uma publicação autorizada pelas instituições acadêmicas e esperar alguns meses (às vezes muitos) para ter seu trabalho publicado (ou rejeitado). Agora boa parte desse pessoal publica as descobertas que vai fazendo nos seus próprios blogs, imediatamente e sem pedir licença a ninguém. Convenhamos: é uma mudança é tanto!

 

Vai acontecer com os inovadores o que já acontece com algumas atividades intelectuais ou exercidas na área do conhecimento; por exemplo, com os escritores. Escritor é quem escreve. O escritor é reconhecido pelos que lêem o que ele publica e não em virtude de ter obtido um título acadêmico ou uma licença de uma corporação de escribas para escrever ou, ainda, um atestado concedido por uma burocracia qualquer. Podem reprovar-lhe o estilo, podem discordar do conteúdo de suas obras, mas não se pode negar que os (muitos) milhões de leitores de Paulo Coelho (ele é o escritor vivo mais traduzido do mundo, em 67 linguas) – que, até onde se saiba, não possui qualquer título acadêmico – reconhecem-no como um escritor (marca que, aliás, jamais será alcançada pelos críticos que o reprovam, tenham ou não razão no que dele dissentem).

 

A rede é uma oportunidade ótima para quebrar o poder das burocracias do conhecimento. Na verdade para quebrar o poder de qualquer burocracia. ‘Quebrar’ talvez não seja a melhor palavra, pois se trata de desobstruir o que foi entupido.

O chamado terceiro setor está hoje diante de um desafio: ou consegue superar a sua forma de organização predominante (a nova burocracia associacionista que constituiu) ou não vai mais poder cumprir um papel inovador.

 

É forçoso reconhecer que as organizações da sociedade civil, em sua imensa maioria, ainda se estruturam como mainframes e não como networks. Quando se denominam redes, quase sempre tal denominação é indevida porquanto aplicada a estruturas verticais de poder, com topologia descentralizada e não distribuída, com baixíssimo grau de rotatividade nas suas direções e com uma burocracia que, a despeito de ser reduzida pela falta de recursos, não deixa de ser formalmente semelhante a qualquer outra burocracia baseada na opacidade dos procedimentos, na discricionariedade das decisões e na verticalidade do fluxo comando-execução. Também é forçoso reconhecer que o paradigma organizativo que adotam essas organizações ainda é aquele, digamos, das fronteiras fechadas.

 

Existem exceções, é claro. Mas o fato é que aquela geração de ONGs que apareceu como grande novidade no último quarto de século, não poderá mais se manter na ponta da inovação social. Se não se reciclar, a ‘nova burocracia associacionista das ONGs’ poderá virar, em breve uma força francamente regressiva em termos da democratização da democracia e do desenvolvimento humano e social sustentável.

 

Não estamos nos referindo à sociedade civil e sim às chamadas organizações da sociedade civil. Não ver a diferença entre as duas coisas já é um sintoma do problema que está sendo enfocado aqui.

 

Em geral as pessoas perguntam: então o que podemos fazer – nós, que priorizamos a atuação na sociedade civil, no terceiro setor – para dar nossa contribuição à democracia e ao desenvolvimento? A resposta não pode ser outra, senão a seguinte: articulem redes de pessoas ao invés de erigir estruturas burocráticas. Não façam igrejinhas. Não construam castelinhos. Não tentem privatizar o capital social do seu entorno ou do seu setor. Capital social é um bem público: quando privatizado, estraga. E pode dar origem a certas formas perversas de sociabilidade. Sobretudo não tentem jogar usando como cacife as relações alheias, negociando a partir da apropriação da vida social das comunidades, organizando, por exemplo, um “curral de pobres” para conseguir uma verba governamental, para atuar como terceirizados na implantação de uma política de assistência social (não estamos delirando: existem centenas, talvez milhares de organizações fazendo isso neste momento, pelo menos no Brasil e em vários países da América Latina e da Europa).

 

Além disso, evitem se comportar como organizações para-mercantis ou neo-governamentais.

 

Herdeira de uma herança político-cultural não convertida suficientemente à democracia, uma parte significativa das ONGs ainda se comporta como organizações fechadas, com programas proprietários, que não compartilham seus recursos e seus conhecimentos. Mais recentemente, compelidas por razões de sobrevivência, muitas dessas organizações resolveram entrar numa onda, vamos dizer assim, de “profissionalização”, tentando imitar os modelos de gestão mais eficientes das empresas. Mas isso, ao invés de fortalecer, vai acabar enfraquecendo a sociedade civil. As organizações do terceiro setor não têm que imitar as empresas (e, muito menos, os governos) e sim afirmar a sua identidade própria de organizações da sociedade civil, presididas por uma “lógica” e uma racionalidade diferentes daquelas que regem o mercado (e daquelas que regem o Estado).

 

Isso não significa, é claro, não aproveitar o conhecimento acumulado pela iniciativa privada em tudo o que diz respeito à estratégia, à gestão organizacional, à gestão de pessoas e de stakeholders e, mais recentemente, à sustentabilidade (esta última, aliás, uma área em que só agora as empresas começam a engatinhar). Mas significa que as tentativas de aproveitar esses conhecimentos ou ferramentas para a gestão do terceiro setor não podem ser bem sucedidas se simplesmente quisermos transplantá-los do segundo para o terceiro setor. O modo como o mercado trata essas questões é – e deve ser mesmo – bastante diferente do modo como a sociedade civil pode tratá-las.

 

Hoje parece existir um coro apontando as vantagens de aproveitar a expertise de planejamento estratégico das empresas, seus modelos de gestão e seus sistemas de governança corporativa. No entanto, existem bons motivos para sustentar que, talvez, sejam as empresas que devam aprender agora com a sociedade civil, sobretudo quando o tema é a sustentabilidade.

 

Sim, as empresas estão diante de um grande desafio: preparar-se para dar conta das novas exigências da sustentabilidade num mundo onde a velocidade das mudanças é vertiginosa e onde o impacto dessas mudanças em uma aérea de atividade repercute diretamente sobre as demais áreas, gerando uma complexidade muito maior do que a verificada em qualquer outra época da história. Assim, não podem mais tratar de estratégia, gestão organizacional, gestão de pessoas e gestão de stakeholders de modo isolado, como se fossem departamentos estanques. Tudo isso agora deve ser encarado do ponto de vista sistêmico (que é o ponto de vista da sustentabilidade). Sustentabilidade, hoje, exige que a empresa atue como agente de desenvolvimento, que saiba fazer a gestão da sua rede de stakeholders, que tenha uma causa para promover o voluntariado interno e externo e que aprenda a articular politicamente não apenas seus interesses, mas também a sua causa, exercendo, para além da responsabilidade social, a sua responsabilidade política. Como se pode ver, várias dessas exigências (padrão de organização em rede, adesão a uma causa, espírito de voluntariado, exercício gratuito da responsabilidade ou cooperação) já constituíam o dia-a-dia (ou, pelo menos, preocupações) das chamadas organizações da sociedade civil antes de entrar no campo de preocupações das empresas.

 

Sim, as organizações da sociedade civil poderão ajudar muito as empresas nesses temas. Todavia, elas deveriam resistir à tentação de se constituírem como empresas disfarçadas para prestar serviços de consultoria às empresas de verdade. Pois, na verdade, elas não podem (porque não sabem mesmo como fazê-lo) transferir seus conhecimentos, digamos, vivenciais (ou experienciais), para as empresas. Na maior parte dos casos trata-se de conhecimentos tácitos, que não estão sistematizados a ponto de permitir uma transposição não-mecânica para as empresas.

 

Um caso exemplar que serve para mostrar a incipiência da formulação das organizações do chamado terceiro setor é o chamado netweaving (a articulação e animação de redes distribuídas). Esse é um conhecimento importantíssimo, neste momento, para as empresas que querem fazer alguma coisa em termos da conquista de sustentabilidade, começando por aprender como se faz a gestão de redes que conectem todos aqueles direta e indiretamente interessados e afetados pela sua atuação (i. e., os seus stakeholders). No entanto, a imensa maioria (com certeza mais de 90% das ONGs e assemelhadas) não se organizam, elas próprias, segundo um padrão de rede distribuída. Ainda são, como foi dito acima (e como todos sabemos), castelinhos com seus reizinhos (sim, porque é ou não verdade que seus dirigentes costumam ficar no comando para sempre ou quase, mais tempo ainda do que os Secretários-Gerais dos velhos partidos comunistas?).

 

Sabe-se que, dada a sua natureza multifária e a outras características de uma forma de agenciamento que só se organiza a partir da emergência, uma das características da sociedade civil é que ela aprende fazendo, não em sala e aula nem em reflexões teóricas de seus dedicados expoentes. Mas como ela poderá aprender netweaving (inclusive para ensinar às empresas) se não pratica netweaving, nem interna, nem externamente?

 

Outro problema é o padrão de relacionamento adotado por essas organizações, quer no interior da própria sociedade civil, quer em relação ao mercado e ao Estado.

 

Quando, por exemplo, uma organização do terceiro setor quer guardar a sete chaves suas metodologias ou tecnologias (achando que com isso vai assegurar sua vantagem comparativa em relação às suas “concorrentes”), então já está se comportando como uma empresa; ou melhor, já está se constituindo segundo a dinâmica própria de uma forma de agenciamento que caracteriza o mercado, não a sociedade civil. O que caracteriza o terceiro setor não é o fato de ele ser não-governamental (isso as empresas e, a rigor, os parlamentos, também são) e nem o fato de ele ser não-lucrativo (governos e parlamentos também não são lucrativos) e sim o modo como agencia os recursos e se relaciona, entre si e com os outros setores da sociedade.

 

Repito: se uma ONG se relaciona com suas congêneres na base da concorrência ou da competição, então ela está assumindo uma dinâmica que é própria do mercado, não da sociedade civil. Melhor seria, então, que não disfarçasse sua (verdadeira) natureza e se constituísse formalmente como uma empresa mesmo. Qual é o problema? Empresas são legítimas, são boas, não há nada de errado com elas (a não ser para as consciências que foram colonizadas pela idéia de que o lucro é um pecado ou a razão de todo mal que assola a humanidade, como sustentavam as narrativas ideológicas igualitaristas e totalitaristas). Ou será que ONGs que se comportam objetivamente como empresas não querem se formalizar como tais apenas para auferir vantagens fiscais, pagar menos impostos, como é freqüentemente acusado o terceiro setor por aqueles que não vêem razões para a existência de uma sociedade civil subsistente fora da ordem do Estado e da “lógica” do mercado (é o que pensava, por exemplo, Margareth Thatcher, repetindo, aliás, o que reza a crença econômica ortodoxa)?

 

Assim como a forma de agenciamento chamada Estado é normativa e a forma de agenciamento chamada mercado é competitiva, a forma de agenciamento chamada sociedade civil (ou terceiro setor) é cooperativa. Se não for, então não subsiste a própria noção de sociedade civil. Eis o ponto!

 

A característica distintiva do terceiro setor, como diz Silvio Sant’Ana, é o fato dele contar com trabalho voluntário, o que é uma outra maneira de dizer: contar com a cooperação – uma forma gratuita de atividade, de ajuda-mútua ou de doação à uma causa fraterna, gerada, talvez, como supõe Maturana, não propriamente por uma racionalidade (no sentido de cálculo ou escolha racional) mas por uma emocionalidade que está na fundação mesmo daquilo que chamamos, stricto sensu, de ‘social’. (1)

 

Se não há voluntariado (ou se não há cooperação efetivamente praticada) em uma organização do terceiro setor, então alguma coisa está errada. Não basta ensinar aos outros como cooperar ou como promover programas de voluntariado. Isso é útil, por certo. Mas pode ser feito por uma empresa.

 

É claro que a objeção sempre levantada nesses casos é a seguinte: mas como as pessoas vão sobreviver, como os dirigentes e os profissionais das organizações do terceiro setor vão poder se dedicar a sua missão se não receberem alguma remuneração? Sempre aceitamos esse argumento como definitivo, mas não é: é abusivo (no sentido literal do termo). Não que não deva haver pessoas remuneradas na direção de organizações da sociedade civil (como prevê, no Brasil, a Lei das OSCIPs). O sinal de que alguma coisa está errada aparece quando todos são remunerados e, mais do que isso, se comportam como se fossem funcionários de uma empresa… e, conseqüentemente, a própria organização se comporta como uma empresa. Isso me faz lembrar aquela anedota: tem rabo de porco, focinho de porco, orelha de porco, pé de porco, mas… (se não é feijoada), por que não deveria ser porco?

 

As organizações do terceiro setor (integrantes daquela parcela da sociedade civil que gosta de se apresentar como “sociedade civil organizada”), não vão conseguir sair dessa ambigüidade se não modificarem seus padrões de organização. Organizações piramidais, verticais, hierárquicas, exigem burocracias. Burocracias exigem mais burocracia. Não é uma opção. É uma necessidade que se impõe pela dinâmica de funcionamento que acompanha o padrão de organização.

 

Por isso é necessário repetir: querem fortalecer a nova sociedade civil (aquela composta por milhões de cidadãos desorganizados segundo um ponto de vista tradicional mas cada vez mais conectados) que está emergindo nos últimos anos? Então não construam organizações hierárquicas, façam redes. Agora, se o problema é ganhar a vida – e devemos todos ganhá-la com nosso trabalho – então fundem empresas ou prestem consultorias como pessoas físicas, ministrem palestras, dêem aulas, escrevam livros, exerçam uma profissão liberal ou arranjem um emprego. Não será isso que impedirá a nossa atuação no terceiro setor.

 

E se querem continuar, vamos dizer, atuando profissionalmente no terceiro setor, trabalhando em um centro de estudo ou pesquisa, em um clube, em uma associação, então se esforcem para praticar a cooperação, para agregar e promover trabalho voluntário, para se organizar e se relacionar segundo um padrão de rede e para radicalizar a democracia onde ela pode ser radicalizada (no nível local da sociedade civil, no âmbito comunitário). É claro que cabe muito mais coisa no terceiro setor. Mas, do ponto de vista de quem está comprometido com o desenvolvimento humano e social sustentável, é isso que justifica – em termo racionais – querer ficar nele.

 

Deve-se reconhecer, entretanto, que as pessoas que se envolvem com organizações do terceiro setor não o fazem, em sua maioria, a partir de uma escolha racional e sim co-movidas por uma emocionalidade cooperativa, o que é bem bacana, mas não refresca muito, no sentido de que não altera a realidade enfocada aqui. Ou seja, a despeito dos motivos que levam a maioria das pessoas a desenvolver uma atuação no terceiro setor serem maravilhosos, ao se organizarem para tanto freqüentemente essas pessoas adotam padrões de organização que não são tão maravilhosos assim.

 

Tudo indica que a alternativa organizativa mais inovadora para o terceiro setor são as redes de pessoas. Redes (e nos referimos a redes propriamente ditas, redes de pessoas, com topologia distribuída, não a holdings ou frentes de instituições abrigadas sob o guarda-chuva da palavra ‘rede’, que está na moda) são o modo de organização compatível com a “lógica” e a racionalidade da sociedade civil. Aliás, o próprio conceito de sociedade civil tende a ser substituído pelo conceito, muito mais potente em termos analíticos e mais preciso em termos descritivos, de rede social.

 

Há ainda uma outra objeção, também freqüente, que é a seguinte: mas as redes são informais! Como vamos abrir uma conta bancária, tirar um CGC, contratar funcionários, emitir nota fiscal, receber doações, não pagar imposto de renda e outros impostos e, em alguns casos, ser dispensados da quota patronal à previdência social?

 

Bom, em primeiro lugar é preciso saber se precisamos mesmo dessas coisas. Em muitos casos, sim. Em outros, não. Se estamos naquele tipo de organização que tem tudo de porco, mas não quer ser porco, não é muito justo que recebamos alguns desses benefícios. Além disso, uma empresa sempre pode ter parte dessas coisas. Mas outra parte, que se refere à renúncia fiscal e, em qualquer caso, a indevida isenção da quota patronal (indevida sim, pois em um sistema contributivo universal ninguém deveria ter o direito de não-contribuir, mesmo a pretexto de salvar a espécie humana), seria necessário examinar cuidadosamente os motivos capazes de justificar o recebimento desses benefícios. Uma organização que não pratica a cooperação, que não conta com trabalho voluntário, que se estrutura e funciona internamente como uma empresa e, ainda por cima, que compete por recursos com suas congêneres no mercado, não deveria ter direito a essas coisas. Em nome de quê? De suas boas idéias para a humanidade? Ora, tenham paciência!

 

De qualquer modo, se articulamos e animamos uma rede e, por algum motivo, precisamos de uma organização formal para cumprir exigências formais, nada impede que construamos uma entidade legalmente reconhecida (ou várias) para tais efeitos (formais). O problema não é de ordem legal, mas diz respeito ao padrão de organização que adotamos e, não raro, tem a ver com questões de poder e, em alguns casos, de apropriação privada, ainda que indireta, por meio do acesso diferencial a alguma vantagem, serviço ou recurso, de eventuais superávits produzidos ou valores recebidos (a título de doação, fomento ou por qualquer outra forma). Quando há patrimônio envolvido, como no caso de algumas fundações privadas, aí sim as exigências legais vão além da formalidade e tornam-se de fato necessárias, inclusive para salvaguardar direitos.

 

Ou seja, não estamos propondo nenhum tipo de desconstituição do imenso conjunto de organizações hierárquicas e burocráticas da sociedade civil que existe hoje. É óbvio que é melhor ter esse conjunto de organizações do que não ter nada e a vantagem disso não está, como se poderia pensar, nas virtudes das formas de organização que existem, mas na sua diversidade, na sua multiplicidade, na sua pulverização e na impossibilidade prática de organizar tal conjunto top down. Em outras palavras, a força da sociedade civil que temos está justamente no fato dela não poder ser organizada pelas organizações da sociedade civil que temos. Ainda bem. Como escreveu o ficcionista Frank Herbert – uma pérola que encontrada em “O Messias de Duna” (1969) – “não reunir é a derradeira ordenação” (o que é uma forma literária mais sofisticada de dizer que ‘o povo desunido jamais será vencido’, como diziam no Brasil, no início dos anos 90, os que percebíamos os riscos de querer representar, por meio de uma dúzia de organizações da sociedade civil, o conjunto da sociedade civil supostamente “organizada”).

 

Mas o problema colocado aqui não diz respeito à conservação do que existe e sim à inovação. O que afirmamos no início desta exploração é que se ficarem estacionadas nos padrões de organização que vêm adotando, as organizações da sociedade civil não cumprirão mais um papel inovador. Não apenas porque deixarão de inovar internamente em termos organizacionais e sim porque não terão experiência de inovação nas suas relações dentro da própria sociedade civil e com os outros setores da sociedade. Não descobrirão coisas novas em relação à natureza e a dinâmica do próprio setor a que pertencem. E não contribuirão para fortalecer a nova sociedade civil que está emergindo.

 

Se quiserem cumprir tal papel inovador, as organizações da sociedade civil têm que voltar os olhos para o cidadão, desorganizado do ponto de vista tradicional, mas muito mais conectado do que em qualquer outra época da história, que está emergindo neste dealbar do século 21. É incrível como, quando se fala de sociedade civil, esquece-se de que ela é composta por cidadãos. Fala-se ainda de “sociedade civil organizada” como se isso fosse grande coisa diante de milhões de pessoas que podem opinar e participar, não arrebanhadas ou acarreadas (esse é um bom termo, usado pelos mexicanos, que tiveram quase um século de experiência no assunto) por organizações hierárquicas, mas diretamente, uma-a-uma, personalizadamente. Não há outra maneira de fazer isso senão apostando nas redes, nas redes que conectam pessoas com pessoas, segundo uma topologia distribuída (e não centralizada ou descentralizada), peer-to-peer.

 

Se quiserem cumprir tal papel inovador, as organizações da sociedade civil têm de mudar as suas relações com suas congêneres (as outras organizações da sociedade civil). Não podem contribuir para transformar o campo social em uma esfera de competitividade. Quem tem de ser competitivo é o mercado (e a economia é que deve ser de mercado), não a sociedade. E mercados competitivos, ao que tudo indica, exigem como base uma sociedade cooperativa (por razões econômicas mesmo, como a diminuição das incertezas que afetam os investimentos produtivos de longo prazo, com a redução dos custos de transação e, inclusive, da insegurança jurídica). É o que vêm revelando, nos últimos quinze anos, todas as teorias do capital social (que é apenas uma outra denominação para rede social). Uma sociedade competitiva constitui, em geral, péssimo ambiente para um mercado competitivo. Portanto, temos aqui um argumento adicional, em termos do desenvolvimento, para trabalhar estrategicamente em prol da reprodução ampliada da cooperação, sobretudo naquela única esfera da realidade social que produz mais capital social do que é capaz de consumir, ou seja, a sociedade civil.

 

Se quiserem cumprir tal papel inovador, as organizações do terceiro setor têm que começar a modificar a sua relação com os outros setores, com o segundo setor (o mercado) e com o primeiro setor (o Estado). Não podem ficar querendo prestar serviços ao mercado como se fossem entes de mercado e, ao mesmo tempo, receber benefícios do Estado como se não fossem entes de mercado (olhai “o porco falando do toucinho!”).

 

Nos concentramos aqui na análise do caráter para-mercantil que algumas ONGs vêm adotando. Mas haveria também muito a dizer sobre o seu caráter neo-governamental, sobretudo no Brasil destes últimos anos, em que surgiram numerosas organizações burocráticas da sociedade civil para celebrar convênios e termos de parceria com um governo federal que queria favorecê-las por razões políticas. Aqui, porém, já resvalamos para o tema da ‘corrupção de Estado’ como meio de conquista de hegemonia.

 

Promover o desenvolvimento humano e social sustentável e ensaiar a democracia no sentido “forte” do conceito, na base da sociedade e no cotidiano dos cidadãos, constituem os dois papéis principais – e mais do que isso, papéis únicos, insubstituíveis – que podem ser cumpridos pelo terceiro setor. Seria uma lástima se, por incompreensão dessas tarefas estratégicas ou por razões de sobrevivência colocadas por uma visão míope de sustentabilidade, o terceiro setor passasse a se comportar como uma espécie de ‘para-mercado’ ou conjunto de organizações ‘neo-governamentais’ (como brincou certa vez Manuel Castells e foi muito criticado por nós, na época, mas agora vemos que ele tinha alguma razão).

 

(1) Cf. Franco, Augusto (2003). Terceiro Setor: a nova sociedade civil e seu papel estratégico para o desenvolvimento. Brasília: AED, 2003.

Como vimos na exploração anterior, aquela geração de ONGs que apareceu como grande novidade no último quarto de século, não poderá mais se manter na ponta da inovação social. Se não se reciclar, a ‘nova burocracia associacionista das ONGs’ virará, em breve, uma força francamente regressiva.

 

Mas o que podemos fazer então – os que priorizamos a atuação na sociedade civil, no terceiro setor – para dar nossa contribuição à democracia e ao desenvolvimento?

 

A resposta é simples. Articulem redes de pessoas ao invés de erigir estruturas burocráticas. Não façam igrejinhas. Não construam castelinhos. Não tentem privatizar o capital social do seu entorno ou do seu setor. Capital social é um bem público: quando privatizado, estraga. E pode dar origem a certas formas perversas de sociabilidade (como o familismo amoral que caracteriza, por exemplo, organizações malignas como a Máfia). Sobretudo não tentem jogar usando como cacife as relações alheias, negociando a partir da apropriação da vida social das comunidades.

 

É justo reconhecer que as organizações da sociedade civil (as chamadas ONGs) cumpriram – e ainda cumprem – um papel importantíssimo na promoção do desenvolvimento humano e social sustentável (1).

 

Nos últimos anos, entretanto, uma reflexão mais aprofundada sobre as relações entre redes sociais, desenvolvimento e democracia, tem revelado que não se pode estacionar na compreensão dos fenômenos associados a essas formas emergentes de organização da sociedade e, sobretudo, ignorar os seus problemas.

 

Vamos falar a verdade. Uma parte significativa das associações civis populares ou que se estabelecem para trabalhar na chamada “área social” – pelo menos no Brasil – é constituída por tentativas de montar um cercado ou um estoque particular de pobres para ter acesso, em seu nome, a recursos governamentais para projetos assistencialistas. Outra parte, também significativa, compõe a base para o clientelismo (quer na sua forma tradicional, de curral eleitoral de chefes políticos, quer na sua forma, que ganha destaque na atualidade, de um neoclientelismo partidário, campo no qual certas organizações políticas vão exercitar o cômodo esporte da “pesca em aquário”).

 

Além do sindicalismo – em geral uma forma branda de banditismo (social, não necessariamente criminal) –, o onguismo também resvala, com freqüência, para a formação de grupos de interesse (para além da defesa de causas ou idéias), legítimos em boa parte, mas, às vezes, escusos; e o onguismo militante – aquele que, no Brasil, em mais de 80% do seu contingente, fez campanha ou votou para presidente em um mesmo candidato oito vezes seguidas (!) em todas as eleições ocorridas depois da redemocratização do país (isso não pode ser por acaso, pode?) – atua, não raro, como correia de transmissão de grupos político-ideológicos. É um dado, não estamos inventando nada.

 

Observa-se também que as formas hierárquicas de organização da sociedade civil acabam virando trampolins para a ascensão de novos líderes; em alguns casos, de líderes políticos tradicionais, em geral de corte populista (não é a toa que dirigentes de sindicatos e associações profissionais acabem virando, mais cedo ou mais tarde, candidatos a algum cargo eletivo, pulando sem muita cerimônia, do terceiro setor para o primeiro, abandonando a convivência na sua tão querida sociedade civil para “representá-la” a partir de um carguinho no Estado); e, em outros casos, tentando construir uma carreira em moldes empresariais, em busca do sucesso pessoal.

 

Todavia, até mesmo essa idéia de sucesso está mudando na medida em que está mudando a morfologia e dinâmica da sociedade. A idéia de sucesso como visibilidade, notoriedade, popularidade é adequada à sociedade-massa (e à chamada “sociedade do espetáculo”) mas não à sociedade-rede.

 

Do ponto de vista das redes sociais as pessoas mais importantes não são as mais famosas, não são os ícones da mídia, nem os colecionadores de diplomas e títulos conferidos pelas burocracias sacerdotais do conhecimento e sim os hubs, os inovadorese os netweavers (como veremos na próxima exploração).

 

Toda essa conversa sobre sucesso, que à primeira vista poderia parecer meio deslocada aqui, é relevante na presente discussão porque tem a ver com os motivos que levam alguém a tentar organizar alguma coisa, na área social ou no campo político. A busca pelo sucesso é legítima: o problema é o que entendemos por sucesso. Imaginamos que sucesso mesmo seja uma vida plenamente realizada no encontro com os semelhantes (sem o que – presume-se – não podemos consumar a nossa humanidade). A mudança dos critérios de sucesso, que necessariamente acompanhará a transição da sociedade de massa para uma sociedade-rede, contribui para valorizar essa concepção em detrimento das visões instrumentais, centradas na capacidade de uma pessoa de se destacar das demais ao invés de se aproximar delas.

 

Voltemos, entretanto (ou portanto), ao nosso tema inicial. Como fortalecer a sociedade civil (em prol da democracia e do desenvolvimento – ou da sustentabilidade)? Ora, em primeiro lugar, admitindo que a sociedade civil que está emergindo nos tempos que correm não é mais aquela que conhecíamos há 20 anos.

 

Parece óbvio que a sociedade está mudando e que a nossa visão sobre ela também. Pode-se olhar essas mudanças como partes de um mesmo movimento: se uma nova ordem de fenômenos não estivesse se manifestando, não nos esforçaríamos para tentar analisá-los. Em contrapartida, se não tivéssemos desenvolvido novas maneiras de perceber e compreender os fenômenos sociais, não seríamos capazes nem de notar as mudanças que estão em curso. Mas não parece correto afirmar que a sociedade está mudando porque está mudando a nossa visão sobre ela. Em suma, há uma mudança social objetiva acontecendo no mundo contemporâneo.

 

Sobretudo nas últimas décadas, a grande mudança é o aparecimento da chamada sociedade-rede, da qual o cidadão está emergindo como ator de uma maneira que antes não seria possível. O indivíduo que se transforma no cidadão conectado de uma sociedade civil que não mais se organiza apenas a partir de esquemas verticais de representação, está submetido a um novo fluxo de informações e conhecimentos – ele mesmo é um entroncamento, uma encruzilhada-nodo desses fluxos – mais velozes e densos do que jamais foi possível.

 

A questão que se coloca é se isso não representaria uma volta ao individualismo (egoísta), um retrocesso em relação às formas anteriores de participação social (altruísta). Tudo indica que não: o cidadão que assume um papel de maior protagonismo na nova sociedade civil que está emergindo não é o clássico indivíduo do liberalismo e sim o novo cidadão conectado a múltiplas redes sociais e que, não raro, participa de novas comunidades de prática, de aprendizagem e de projeto.

 

Essa nova sociedade civil que se desenha no mundo e no Brasil nos últimos vinte ou vinte e cinco anos, devolve um papel maior ao cidadão que pensa com a sua própria cabeça, desorganizado do ponto de vista corporativo e partidário, porém mais conectado e mais informado. Isso significa que está havendo uma transição importante, daquele tipo de sociedade civil, composta por algumas organizações representativas de defesa de interesses ou mais ou menos alinhadas a ideários político-ideológicos (a chamada “sociedade civil organizada”), para um outro tipo de sociedade civil, composta por cidadãos mais independentes e autônomos, que participam como indivíduos do debate público e de iniciativas cidadãs voluntárias.

 

O indivíduo é encorajado a assumir um novo papel pelo fato de estar imerso em um novo ambiente interativo no qual pode ouvir a voz dos outros e fazer ouvir a sua voz. Ele é empoderado pelas redes sociais das quais participa mesmo quando não tem consciência da sua existência e não conhece suficientemente a estrutura e o funcionamento dessas redes.

 

Mesmo que o cidadão ainda dependa, em grande parte, das organizações tradicionais para exercer um papel político institucional na sociedade e mesmo que nenhuma sociedade civil possa subsistir – nas condições do mundo atual – sem essas formas de organização mais estáveis que a estruturam, isso não significa que não estejam surgindo – com uma velocidade espantosa – novas formas organizativas articuladas em rede.

Tudo indica que uma compreensão mais profunda das redes sociais acabará por tornar obsoleto o próprio conceito de sociedade civil. Não que não exista uma esfera da realidade social ou um tipo de agenciamento diferente do Estado e do mercado que mereça ser considerado, mas o que queremos dizer com o termo sociedade civil não dá mais conta de expressar adequadamente a natureza e o funcionamento da rede social.

 

Há uma acalorada discussão em curso, sobre se é possível controlar ou não as redes. No caso das redes digitais, parece que não; ou melhor, teoricamente (ou tecnicamente) sim, mas, na prática, não, porquanto isso implicaria desligar os provedores ou as conexões físicas, inclusive os satélites de órbita estacionária (o que causaria o caos no mundo globalizado, sobretudo no sistema financeiro que usa tais meios para fazer circular trilhões de dólares diariamente pelo mundo). Todavia, se não confundirmos ‘rede social’ com ‘rede digital’ (ou seja, mudança social com mudança tecnológica), é preciso admitir que as primeiras podem, sim, ser controladas (controladas aqui no sentido de hierarquizadas ou centralizadas). Esse controle é exercido pelo sistema político. Não, porém, pelos ocupantes da vez, pelo caráter do governante ou do seu partido situado no sistema político e sim pela forma como se estrutura e funciona esse sistema, pela sua natureza de mainframe que confere aos que se postam nos seus múltiplos centros ou filtros o poder de obstruir, separar e excluir.

 

Então a nossa questão poderia ser colocada nos seguintes termos: podem ser mudadas a morfologia e a dinâmica do sistema político? Ou, em outras palavras, é possível uma nova política? Ou, ainda, é possível reinventar a democracia nas condições do mundo contemporâneo (quer dizer, diante da mudança social em curso na contemporaneidade)?

 

Não estamos mudando de assunto: o esforço de contribuir para a emergência de uma nova política, por meio da democratização (ou seja, de mais-democracia) está coimplicado no esforço de aumentar o grau de distribuição das redes sociais (e não na aposta no padrão organizativo centralizado ou multicentralizado dos chamamos movimentos sociais, corporações, sindicatos, associações ou outras formas tradicionais de arrebanhamento), o que significa enfocar e valorizar o cidadão desorganizado e conectado que compõe o imenso contingente da nova sociedade civil emergente neste dealbar do século 21.

 

Trata-se, portanto, de abrir mão de replicar formas organizativas piramidais, verticais, baseadas no fluxo comando-execução. Ou seja, ao invés de engordar a velha burocracia corporativo-partidária e a nova burocracia associacionista (das ONGs, inclusive), apostar nas redes de pessoas, que conectem os tais ‘cidadãos-desorganizados’, uns com os outros, em prol de objetivos comuns, expandindo uma nova esfera pública não-estatal. Trata-se de mostrar, na prática, que o cidadão pode, sim, fazer política pública, que a sociedade pode tomar iniciativas coletivas, aumentando o seu protagonismo e o seu empreendedorismo.

 

Não há como garantir que uma rede articulada voluntariamente manifestará os mesmos fenômenos que são próprios da rede social que existe em qualquer sociedade independentemente de nossos esforços organizativos. As evidências, no entanto, mostram que, quanto mais distribuídas forem as redes que voluntariamente articulamos, mais elas conseguem se sintonizar ou se comunicar com essa rede social que existe desde que existam conexões entre pessoas, independentemente de nossos esforços organizativos (e que resolvemos chamar, como recurso explicativo, de “rede-mãe”).

 

As evidências mostram também que mais chances teremos de reproduzir, em redes voluntariamente construídas, os fenômenos que se manifestam na “rede-mãe” se essas redes que articulamos forem redes de pessoas (P2P ou peer-to-peer). Isto é, instituições hierárquicas conectadas entre si podem até tentar se articular em rede, mas dificilmente constituirão uma rede capaz de espelhar a “rede-mãe” – quer dizer, uma rede distribuída (P2P) – configurando-se quase sempre como estruturas conectivas com topologia descentralizada. O motivo é quase óbvio: instituições hierárquicas tendem a hierarquizar as redes de que fazem parte, que, assim, deixam de ser redes para se transformar em frentes de entidades ou em coligações de organizações tradicionais e, às vezes, em holdings.

 

Também não estamos falando de coisas ideais, irrealizáveis, e sim de mudar a forma como nos comportamos política e administrativamente em termos orgânicos. Estamos falando de mudar a matriz de projetos, programas e ações governamentais e não-governamentais em todos os níveis. Tudo ou quase tudo que organizamos atualmente a partir do padrão-mainframe, pode ser reorganizado segundo um padrão-network, desde um programa de alfabetização de jovens até uma organização política. Podemos fazer isso sem computador e, inclusive, sem um único e miserável telefone celular. Já existe o telefone fixo, já existe o Correio e já existe – há alguns milhares, talvez milhões, de anos – a possibilidade de diálogo em um encontro presencial. Não é o meio tecnológico que faz o “milagre” e sim o modo de conexão e o grau de conectividade. Até com sinais de fumaça é possível democratizar procedimentos, ampliar a freqüência e a base de consultas de opinião, incorporar pessoas como sujeitos e transformar público-alvo e beneficiários em participantes voluntários. Se não o fazemos, não é por efeito de qualquer “exclusão digital” e sim por força de uma cultura política e organizativa autoritária, hierárquica, sacerdotal e, em grande parte, autocrática.

 

Quem faz netweaving faz, pois, democracia. Enfim, por outros caminhos investigativos, vamos acabar dando razão ao pioneiro das redes, Robert Muller, que escreveu há mais de 20 anos:

 

“Conforme caminhamos para o terceiro milênio, talvez a participação em networks se torne a nova democracia, um novo elemento importante no sistema de governança, um novo modo de vida nas complexas e miraculosas condições globais do nosso estranho e maravilhoso planeta vivo, girando e circulando no universo prodigioso em uma encruzilhada de infinidade e eternidade” (2)

 

 

(1) Publiquei inclusive um livro sobre o tema – “O Terceiro Setor: a nova sociedade civil e seu papel estratégico para o desenvolvimento” (Brasília: AED, 2003) – onde tentei mostrar a multifariedade dessa forma de agenciamento subsistente fora da ordem do Estado e da “lógica” do mercado, composta por entes e processos (e não apenas por organizações) que dependem, em última instância, das múltiplas iniciativas moleculares e voluntárias dos cidadãos.

 

(2) Cf. Stamps, etc.

Na exploração sobre a “rede-mãe”, falamos de uma ‘nova burocracia associacionista das ONGs’ para mostrar que, muitas vezes, tais organizações ainda se estruturam piramidalmente, na forma de pequenas fortalezas que obstruem fluxos na rede social e que isso explicaria, pelo menos em parte, o fato de muitas ONGs sinceramente dedicadas ao trabalho comunitário não conseguirem estabelecer uma boa sintonia com o ambiente social onde atuam. Na verdade fizemos apenas uma citação lateral no contexto de uma discussão que propunha a metáfora da “rede-mãe” como recurso explicativo para mostrar as diferenças entre a rede social que existe de fato (com algum grau significativo de distribuição) e as redes que intentamos construir (muitas vezes denominando-as de rede meio indevidamente, face ao pouco grau de distribuição efetivamente apresentado).

 

A expressão ‘nova burocracia associacionista das ONGs’, se inspira em um escrito de David de Ugarte: “11M. Redes para ganar uma guerra” (1). No Post Scriptum dessa excelente publicação, Ugarte observa, citando o programa de uma iniciativa de ambiente interativo, denominada ‘LaMatriz.org’, que trata-se de “un nodo de red impulsado por los ciberpunks españoles cuyo primer objetivo asegura ser “quitarle la cantera” ao fanatismo, abriendo “ventanas” al mundo rede em los barrios, los colégios, los bares… Impulsando cibercafés, redes ciudadanas wifi, comunidades sobre teléfonos móviles, internet, tertúlias… Pero no reproduciendo uma estructura profesionalizada y jerárquica como las de las ONG al uso, ya que según dicen: ‘el camino hacia la vertebración social em el nuevo mundo no pasa por engordar a la burocracia del “asociacionismo”. Su necesidade como “representantes” se basava em carências de los sistemas de comunicación que la tecnología há superado hace tiempo. Nos hace falta sociedade civil de todo tipo, no “liberados” ni profesionales del asociacionismo. Las redes no sirven para “encuadrar” y si encuadran no son redes válidas para construir uma sociedad abierta y em rede’.

 

No entanto, alguns argumentam que muitas ONGs são bem enredadas, chamando a atenção para o fato de que a generalização, nesse caso, pode não levar à avaliação mais justa.

 

Em princípio a observação parece correta. Mas, pensando melhor, pode-se ver que temos aqui um problema, um ponto para uma discussão realmente substantiva. O formato básico das organizações da sociedade civil chamadas “ONGs” é o da descentralização e não o da distribuição e carrega, de fato, a herança de uma padrão organizativo baseado na representação, conquanto as próprias ONGs admitam que não são instâncias representativas stricto sensu, quer dizer, baseadas na delegação de poder (2).

 

É forçoso reconhecer que as organizações da sociedade civil, em sua imensa maioria, ainda se estruturam como mainframes e não como networks. Quando se denominam redes, quase sempre tal denominação é indevida porquanto aplicada a estruturas verticais de poder, com topologia descentralizada e não distribuída, com baixíssimo grau de rotatividade nas suas direções e com uma burocracia que, a despeito de ser reduzida pela falta de recursos, não deixa de ser formalmente semelhante a qualquer outra burocracia baseada na opacidade dos procedimentos, na discricionariedade das decisões e na verticalidade do fluxo comando-execução. Também é forçoso reconhecer que o paradigma organizativo que adotam essas organizações ainda é aquele, digamos, das fronteiras fechadas.

 

Além dessas reflexões que, a propósito da presente investigação sobre as redes, temos tido oportunidade de verificar como as coisas funcionam na prática. Vamos contar apenas uma experiência, que parece ser bastante ilustrativa.

 

Estivemos pessoalmente envolvidos – durante os anos de 2005 a 2007 – com um programa de indução do desenvolvimento em uma grande cidade do Brasil, com mais de um milhão de habitantes. Tal programa tem como objetivo estimular a formação de redes P2P de desenvolvimento comunitário, envolvendo cerca de 1.300 pessoas numa primeira etapa em quase duas dezenas regiões administrativas e, em seguida, 13 mil pessoas em quase uma centena de bairros.

 

Os agentes do referido programa têm, então, a função inicial de convidar as pessoas para participar dessas redes, onde deverão se dedicar ao exercício clássico do planejamento participativo: ensaiar uma visão de futuro, realizar um diagnóstico dos ativos e das necessidades, elaborar um plano e formular uma agenda de desenvolvimento e pactuar a realização de prioridades por meio de parcerias entre instituições governamentais, empresas e organizações da sociedade civil. Ou seja, a “fórmula” básica do desenvolvimento local.

 

Pois bem. Vejam agora o que freqüentemente ocorre quando tais agentes vão procurar as organizações da sociedade civil em uma região. Quando procurado, o responsável – em geral o presidente – da organização (associação ou fundação) costuma reagir muito positivamente, aceitando o convite para se conectar à rede do desenvolvimento comunitário da sua região. Em seguida esse dirigente perde um pouco o ânimo, quando é informado de que ele participará como pessoa (quer dizer, é a pessoa que se conecta à rede e não a organização). Quando, porém, ele é chamado a indicar outras pessoas da sua organização para entrar na rede, aí, como se diz, “o bicho pega”. Invariavelmente ele retruca: “- Mas como? Eu já estou representando a associação”.

 

Como essa reação dos dirigentes de organizações da sociedade civil não é fortuita, ela indica alguma coisa. Poderíamos dizer que revela muita coisa. Ou, ainda, que desvela quase tudo. Na cabeça do dirigente, a ele cabe representar os demais, entendendo-se por isso o direito de exercer o poder não de incluir os demais, mas de excluí-los. Sim, como já observamos em explorações anteriores, o poder (centralizado ou descentralizado, quer dizer, multicentralizado, seja ele pequeno ou grande em termos de recursos, não importa) manifesta-se sempre como o poder de excluir. É isso mesmo: em termos da análise de rede, a centralização é a instalação de um filtro, o estabelecimento de um impedimento à livre fluição, a colocação de um obstáculo no caminho.

 

Queiramos ou não, gostemos ou não, é assim que tendem a se comportar, independentemente das crenças de seus dirigentes, as estruturas não-distribuídas. Toda estrutura não-distribuída é uma hierarquia e, como tal, acaba se manifestando.

 

Também não é por acaso que as estruturas não-distribuídas da sociedade civil, inclusive aquelas da ‘nova burocracia associacionista das ONGs’, são tão vulneráveis ao aparelhamento corporativo-partidário e à cooptação governamental, servindo, não raro, como correias de transmissão de outras organizações hierárquico-piramidais. É como se a homologia de padrões organizativos provocasse uma espécie de sintonia entre organizações não-distribuídas, que acabasse favorecendo a esse tipo de violação da autonomia e gerando dependência. É muito fácil verificar isso: basta ver, por exemplo, como se comportou, durante o processo eleitoral de 2006 no Brasil, a imensa maioria das ONGs mais conhecidas regionalmente ou nacionalmente e quais foram os candidatos da preferência de seus dirigentes (os quais, em muitos casos, nem pejo tiveram, vamos dizer assim, de engajar suas organizações em uma campanha semi-institucional ou semi-oficial em prol de seus preferidos).

 

É claro que a justificativa apresentada por esses dirigentes é sempre a de que seu comportamento foi orientado pelo compromisso com o povo, pela defesa dos mais pobres. Mas aqui, como parece óbvio, já estamos no terreno da ideologia e não no da análise.

 

Não estamos entrando no mérito das escolhas e nem estamos, muito menos, questionando o direito de todo cidadão de escolher livremente os seus representantes numa democracia. Estamos apenas constatando que não é por acaso que organizações que adotam o paradigma vertical da centralização, da representação (de facto) e da delegação de poder, acabam não conseguindo evitar a dependência estrutural de organizações similares do ponto de vista da dinâmica organizativa. Não há aqui nenhum mistério maior: em um espaço cuja topologia é multicentralizada, os vários pólos, centralizadores para baixo, funcionam como entrepostos ou estações repetidoras de outros pólos centralizantes acima (e é isso, exatamente, o que se chama de ‘descentralização’, ao contrário de ‘distribuição’).

 

Quanto maior o grau de distribuição, menor a chance de esse fenômeno acontecer. Quanto mais redes, mais interdependência e menos dependência. Quanto mais redes, mais multiliderança e menos liderança (única ou unipolar). Quanto mais redes, mais diversidade e menos uniformidade. Quanto mais redes, mais conexão e ordem emergente, bottom up e menos diretivas do alto e organização top down.

 

Ao contrário do que está parecendo neste estranho período que se instalou na primeira década do novo milênio, estamos caminhando, subterraneamente, para novas formas de conexão social que tornarão obsoletas as tradicionais fortalezas organizativas urdidas com base no poder de obstruir, separar e excluir. Isso significa, entre outras coisas, que aquela geração de ONGs que apareceu como grande novidade no último quarto de século, não poderá mais se manter na ponta da inovação social. Se não se reciclar, a ‘nova burocracia associacionista das ONGs’ virará, em breve – ultrapassado este período sombrio em que vivemos – uma força francamente regressiva em termos da democratização da democracia e do desenvolvimento humano e social sustentável.

 

(1) Ugarte, David (2006). 11M. Redes para ganar uma guerra. Barcelona: Icaria, 2006.

(2) Nota pessoal do autor | Acho que sou meio insuspeito para falar do assunto. Há quase trinta anos (desde 1979, quando fundei o CRD – Centro de Reflexão e Documentação, que conseguiu sobreviver dez anos, em uma época em que nem havia a expressão ‘ONG’) milito em organizações da sociedade civil, inclusive comunitárias. Além disso, dediquei a segunda metade da década de 1990 ao tema. Com efeito, entre 1995 e 2002, como membro do Comitê Executivo do Conselho da Comunidade Solidária, fui responsável pelas Rodadas de Interlocução Política que geraram, dentre outros resultados, a chamada Nova Lei do Terceiro Setor (Lei 9790/99, que criou as Oscips), além do esforço para a aprovação da Lei do Voluntariado e de mais de uma dezena de medidas voltadas para o fortalecimento da sociedade civil. Isso não significa, entretanto, que eu deva – diante do avanço da análise sobre as redes sociais – estacionar na compreensão dos fenômenos associados a essas formas emergentes de organização da sociedade.

As redes sociais são surpreendentes. Elas surpreendem, em primeiro lugar, os que vivem antenados para as novidades e esperam poder assumir uma posição de vanguarda ou de destaque ao “aderir” a elas. Essas pessoas muitas vezes ficam chocadas quando se lhes diz que a rede social não é nada mais do que a sociedade. Em geral elas “entram na onda” das redes porque acham que descobriram um novo modo de chamar a atenção para si próprias, ou para suas idéias, ou para seus produtos.

 

Existe já uma ampla literatura empresarial dizendo que quanto mais conectada estiver uma pessoa, mais chances de sucesso ela terá na sua carreira ou nos seus negócios. Há hoje todo um setor do marketing tentando descobrir as regras do marketing em rede ou do marketing viral.

 

Se os interessados nas redes sociais são políticos com vocação para reformadores do mundo, então acham que estão agora prestes a descobrir um novo meio de mobilizar as massas em torno de suas propostas de mudança ou de transformação da sociedade. Muitos ouviram falar do swarming civil ocorrido na Espanha entre 11 e 13 de março de 2004, que mudou bruscamente o destino das eleições espanholas que levaram Zapatero ao poder pela primeira vez e então ficam querendo descobrir o segredo de como atingir o tipping point, de como desencadear ações que podem crescer exponencialmente, amplificadas pelos mecanismos próprios das redes, de sorte a mudar o comportamento dos agentes do sistema em ampla escala.

 

Toda essa curiosidade é legítima, mas o mesmo não se pode falar, em geral, das suas motivações e das atitudes que, às vezes, a acompanham. Se quisermos usar as redes sociais com essa expectativa instrumental, é quase certo que teremos problemas de frustração de expectativas. Não que esses fenômenos desejados não ocorram: eles podem de fato acontecer, sim. Mas a questão está na atitude de utilização que freqüentemente nos impede de ver que as verdadeiras redes sociais – quer dizer, as redes sociais distribuídas – não podem ser urdidas a partir do desejo de controle ou da vontade de poder. Quem permanece com essa visão em geral não consegue articular redes sociais. Antes de qualquer coisa porque não consegue entender o que são realmente redes sociais. Vamos ver por que.

 

Estamos denominando indevidamente de redes estruturas descentralizadas que tentam conectar horizontalmente instituições verticais (quer dizer, organizações hierárquico-burocráticas).

 

Mas então – pergunta-se freqüentemente – como fazer uma rede social propriamente dita, quer dizer, uma rede distribuída. É preciso começar dando uma boa olhada naquele velho diagrama de Paul Baran, melhorado por Rodrigo Araya e divulgado por David de Ugarte (já reproduzido na Introdução deste livro):

 

Reinserir diagrama

 

Nos três desenhos os pontos (nodos) são os mesmos. O que varia é a forma de conexão entre eles. Redes propriamente ditas são apenas as redes distribuídas (o terceiro grafo). As outras duas topologias – centralizada e descentralizada – podem ser chamadas de redes, mas apenas como casos particulares (em termos matemáticos). Ambas são, na verdade, hierarquias.

 

Bem, para articular redes, em primeiro lugar, é necessário conectar pessoas ou redes propriamente ditas (quer dizer redes distribuídas). A conexão horizontal de instituições hierárquicas não gera redes distribuídas, pela simples razão de que o fluxo pode ser interrompido (controlado, filtrado) em cada nodo. Se isso acontecer, a topologia passa a ser descentralizada (quer dizer, multicentralizada).

 

Em segundo lugar, para articular redes é necessário conectar as pessoas entre si e não apenas com um centro articulador ou coordenador (mesmo que este centro se chame de equipe de animação).

 

Bastaria isso? Sim, a rigor isso seria o bastante. Mas então por que as iniciativas de articular redes não costumam funcionar?

 

Ora, porque, em geral, não se faz isso. Simples assim. Em geral conectamos instituições hierárquicas e não pessoas (ou redes distribuídas de pessoas, o que é a mesma coisa). Ou então, quando conectamos pessoas, instituímos – com o pretexto de realizar o trabalho de animação da rede – um centro coordenador, que mantém, de fato, uma ligação direta e transitiva com cada nodo da rede, mas que, na prática, acaba funcionando como uma espécie de direção que decide o que vai ser feito em termos coletivos. Decide pela rede. Decide para toda a rede.

 

Está bem, mas se não fizermos isso, se conectarmos apenas pessoas (ou redes distribuídas de pessoas), se essas pessoas estiverem conectadas entre si e se não exercermos demasiado protagonismo a título de animação a ponto de desestimular o surgimento de iniciativas diversificadas, fica então garantido que a rede vai funcionar?

 

Sim, com certeza! Mas com um porém: depende do que a gente entende por “funcionar”! Uma rede funciona quando existe, ou seja, quando se configura segundo a morfologia de rede (distribuída) e manifesta a dinâmica de rede.

Aqui é preciso entender que as redes não são expedientes instrumentais para pescar pessoas e levá-las a trilhar um determinado caminho ou seguir uma determinada orientação. As redes farão coisas que seus membros quiserem fazer; ou melhor, só farão coisas conjuntas os membros de uma rede que quiserem fazer aquelas coisas. Se alguém propõe fazer alguma coisa em uma rede de 100 participantes, talvez 40 aceitem a proposta; os outros 60 farão outras coisas; ou não farão nada. Em rede é assim: não há centralismo. Não há votação. Não há um processo de verificação da formação da vontade coletiva que seja totalizante e que se imponha a todos, baseado no critério majoritário.

 

Além disso, dizer que as pessoas estão conectadas umas com as outras, significa mais do que fornecer a cada uma o nome e o e-mail ou o endereço e o telefone das outras pessoas. É necessário que elas se conectem realmente (a conexão real não é um traço num grafo; como aquela “fonte” do heraclítico Goethe, ela “só existe enquanto flui”). E é necessário, ainda, que todas as pessoas disponham dos meios para fazer isso, quer dizer, para entrar em contato umas com as outras: se quiserem, quando quiserem e com quem quiserem.

 

Muita desilusão prematura com as redes nasce de uma incompreensão profunda do que elas significam realmente. Quem quer usar as redes porque está na moda, ou porque imagina que, assim, conseguirá ampliar seu poder, em geral na se dá muito bem. Até mesmo quem quer usar as redes para promover transformações em nome de uma causa, muitas vezes fica decepcionado. Por que? Porque a rede não é um instrumento para fazer a mudança. Ela já é a mudança.

 

Mas essa mudança não é uma transformação do que existe em uma coisa que não existe e sim a liberdade para que o que já existe possa ser capaz de regular a si mesmo. Sim, ficamos completamente alienados nos últimos dois ou três séculos com esse ‘modelo transformacional’ da mudança, que pressupõe um agente de vontade capaz de promover, organizar e liderar a mudança. Isso não ocorre na natureza e nem em qualquer outro sistema complexo (e a sociedade humana é um sistema complexo). Na natureza e no mercado (que também são sistemas complexos), por exemplo, as mudanças seguem a combinação de um ‘modelo variacional’ com um ‘modelo regulacional’. Os sistemas complexos adaptativos são aqueles que aprenderam a se autoregular (e só redes podem fazer isso, razão pela qual esses sistemas, seja o cérebro humano ou um ecossistema, sempre se estruturam em rede) de sorte a poderem se adaptar às mudanças (variações aleatórias) internas e externas. Ou a fim de poderem ‘conservar sua adaptação’ (uma boa definição de sustentabilidade), fazendo e refazendo, continuamente, congruências múltiplas e recíprocas com o meio.

 

Essa idéia de que você tem que se transformar em alguma outra coisa (que você não é) foi uma coisa ruim que colocaram na sua cabeça (hehe). Você não precisa se transformar e sim despertar para suas imensas potencialidades. Da mesma forma, a sociedade não precisa ser transformada em outra coisa: ela precisa ser simplesmente o que é quando as pessoas se conectam entre si horizontalmente, sem a introdução de muros, escadas, portas e fechaduras, cuja função é obstruir a livre fluição, criando toda sorte de anisotropias no espaço-tempo dos fluxos.

 

A rede social que existe independentemente de nossos esforços organizativos (o que chamamos aqui de “rede-mãe” ou “A Matriz”) é a sociedade que existe (não a que não existe) e que só não se manifesta como é porquanto foi invadida por programas verticalizadores, que atuam alterando a topologia distribuída, centralizando fluxos. Quando se vê livre desses programas, o seu Bios (Basic Imput/Output Sistem) dá conta de regular suas mudanças. Por isso afirmamos que a rede já é a mudança (não a mudança para outra coisa que ela, a sociedade, não é, e sim a mudança para o que sempre foi por definição). Embora possa parecer, não há aqui qualquer jogo ardiloso de palavras. Seres humanos que se conectam entre si formam redes. O ‘social’ é isso. Ponto.

 

Fala-se muito nos últimos anos de redes digitais. E fica-se com a impressão de que são as novas tecnologias de informação e comunicação que representam toda essa novidade organizativa. Mas não é bem assim. Como percebeu Don Tapscott, há mais de 10 anos, “não se trata da organização em rede da tecnologia, mas da organização em rede dos seres humanos através da tecnologia. Não se trata de uma era de máquinas inteligentes, mas de seres humanos que, através das redes, podem combinar a sua inteligência”, gerando uma inteligência-em-rede, um novo tipo de inteligência coletiva (1). Mas essa inteligência coletiva não nasce como resultado da aplicação de uma engenharia que combine de forma planejada as inteligências humanas individuais. Ela é uma ‘inteligência social’, que nasce por emergência, uma espécie de swarm intelligence que começa a brotar espontaneamente quando muitos micromotivos diferentes são combinados de uma forma que não se pode prever de antemão. Aqui também não se pode pretender aplicar uma fórmula, um esquema, para produzir esse “supercomputador” que é a rede social. O mais surpreendente nisso tudo é que, na verdade, o tal “supercomputador” é o que chamamos de ‘social’. Como dizia Ralph Waldo Emerson (1841), em “Self-Reliance”: “we lie in the lap of an immense intelligence” (“nós jazemos no seio de uma imensa inteligência”).

 

Muitas pessoas ainda insistem em dizer que as redes são baseadas na cooperação. Isso é verdade, mas não pelas razões que em geral elas apresentam. Elas pensam que as redes são uma nova forma de organização baseada em princípios cooperativos, como se fosse uma condição a priori, para alguém se conectar a uma rede, aderir a tais princípios. Assim, as redes seriam colaborativas porque, ao compô-las, as pessoas fariam uma espécie de profissão de fé nas vantagens da cooperação e mudariam pessoalmente seu comportamento para participar das redes, como quem toma uma decisão crucial de mudar de vida e faz um voto sobre isso para poder ser aceito em uma organização religiosa.

 

Nada disso. As redes sociais convertem, de fato, competição em cooperação, mas como resultado da sua dinâmica. Elas não convertem indivíduos competitivos, beligerantes e possuídos de forte ânimo adversarial, em indivíduos cooperativos, pacíficos e amigáveis. Ao favorecer a interação e permitir a polinização mútua de muitos padrões de comportamento, o resultado do “funcionamento” de uma rede social é produzir mais cooperação, como já descobriram (ou estão descobrindo) os que trabalham com o conceito de capital social. As pessoas podem continuar querendo competir umas com as outras, porém, quando conectadas em uma rede, esse esforço não prevalece como resultado geral na medida em que, na rede, elas não podem impedir que outras pessoas façam o que desejam fazer e nem podem obrigá-las a fazer o que não querem. Assim, a rede não é um instrumento adequado para alguém adquirir mais poder (que é sempre o poder de obstruir, separar e excluir).

 

Por último, as redes constituem um “corpo” cujo “metabolismo” correspondente é necessariamente democrático (no sentido “forte” do conceito de democracia) ou pluriárquico, como propuseram Bard e Söderqvist em 2002 (2). E quanto mais distribuídas elas forem, mais a democracia que se pratica no seu interior vai adquirindo as feições de uma pluriarquia.

 

Explicando melhor. Em uma rede distribuída, como escreveu David de Ugarte (2007), “ainda que a maioria não simpatize com uma proposta – e se manifeste contra ela – não poderá evitar a sua realização”, como ocorre nas formas democráticas atuais, que tomam a democracia no sentido “fraco” do conceito e adotam um modo de verificação da formação da vontade política coletiva por meio de processos aritméticos de contagem de votos, configurando-se como “um sistema de escassez: a coletividade tem que eleger entre uma coisa e outra, entre um filtro e outro, entre um representante e outro” (3).

 

Ao contrário, nas redes distribuídas, como lembra o blogger Enrique Gomes, “há uma abundância de recursos que tende ao infinito. Podemos criar tantos blogs, agregadores [de blogs], ambientes colaborativos, wikis ou fóruns quanto quisermos. Então, que sentido tem submetermo-nos aos desejos e às ordens de alguns…?” (4).

 

Dissemos acima que a rede já é a mudança porque ela é a possibilidade de exercício da democracia naquele sentido que John Dewey atribuía ao conceito: a democracia como modo-de-vida, a democracia na base da sociedade e no cotidiano do cidadão (e não apenas como forma de administração política do Estado ou regime político). E, como se sabe, a democracia (nesse sentido “forte” do conceito) é o que há; quer dizer, é a única utopia que não nos aliena, remetendo-nos para algum lugar do futuro. Sobre isso, pode-se dizer que quem precisa de utopia são as autocracias, não a democracia.

 

Porque “a “utopia” da democracia é a política – uma topia – e não o contrário (ou seja, não se deve usar a política para objetivos extrapolíticos, como levar “as massas” para algum lugar do futuro; e, na verdade, não se quer nada com a política a não ser que os seres humanos possam, aqui e agora, viver em liberdade, como seres políticos, participantes da comunidade política)” (5).

 

Assim, tal como as redes, a democracia não pode ser usada instrumentalmente para se obter qualquer coisa, para atingir um conjunto de objetivos generosos “na medida em que ela já faz parte desses objetivos, está co-implicada em sua realização. A democracia tem, sim, uma “utopia”, mas que é uma não-utopia porquanto não é finalística, não é Shangrilah, Eldorado ou a Cidade do Sol, mas a estrela polar dos navegantes que pode ser vista por qualquer um, independentemente do poder que arregimentou ou do conhecimento que acumulou, de qualquer lugar no meio do caminho. E que não é para ser alcançada no futuro. E, ainda, que não admite que alguém – em virtude de sua força ou de sua sabedoria – faça-nos seguir um mapa (o seu mapa) para aportá-la. Por quê? Porque a democracia não é o porto, o ponto de chegada (no futuro), mas o modo de caminhar (no presente). Assim, a “utopia” da democracia é uma topia: a política. É viver em liberdade como um ser político: cada qual como um participante – único, diferenciado, totalmente personalizado – da comunidade política” (6) – tal como só ocorre nas redes sociais distribuídas de pessoas.

 

Pois bem. Esclarecidos esses pontos, podemos então recolocar a pergunta. Como articular verdadeiras redes sociais (e a palavra “verdadeira” aqui quer dizer exatamente o que ela quer dizer: o contrário de “falsa”; ou seja, como não organizar redes centralizadas ou descentralizadas que são falsas redes distribuídas)?

 

Hoje ninguém mais imagina deixar de usar a web para fazer isso. Alguns falam em usar a chamada Web 2.0 (ensejada pela ‘era wiki’, que permite que qualquer um possa publicar qualquer coisa na web usando programas wiki). Mas talvez não seja suficiente. Se quisermos articular redes distribuídas, o melhor é usar as ferramentas interativas de uma nova e cogitada Web 2.1, que são mais adequadas à dinâmica da blogosfera (7).

 

E aqui está a chave. Se vamos usar os meios digitais para articular redes distribuídas, os melhores meios serão, obviamente, os meios distribuídos, ou seja, aqueles que não podem ser controlados pelos velhos centros diretores ou coordenadores e nem pelas novas “oligarquias participativas” (como as que controlam, por exemplo, a Wikipédia).

 

A blogosfera – o conjunto crescentemente interconectado de todos os blogs: abreviatura de weblogs, sistemas de publicação de conteúdos na web que segue a estrutura post-link-comentário – não é centralizada. Nem centralizável. Nela ninguém escolhe, a não ser você mesmo, a informação que recebe (por qualquer processo, inclusive de votação).

 

Portanto, se quisermos articular redes distribuídas, usando a web, a primeira coisa a fazer é estimular que cada participante conectado tenha o seu próprio blog. Em segundo lugar é necessário ter uma maneira de agregar automaticamente os blogs dos membros da rede (já existem programas gratuitos para fazer isso, como o feevy: www.feevy.com). Em terceiro lugar, é necessário que os conectados à rede definam coletivamente a identidade da sua articulação.

 

Uma articulação em rede é uma forma de organização. Uma organização é uma comunidade de projeto formada em torno de uma identidade. Se for realmente democrática, não pode ser um esquema urdido para mandar em pessoas, não pode ser um destacamento de comando, nem um bando, uma gangue, uma quadrilha ou uma empresa tradicional com um chefe feitorial que tenha como função principal colocar outras pessoas trabalhando para ele.

 

Uma comunidade de projeto se forma em torno de um sonho coletivo, de um desejo compartilhado, de uma visão de futuro e, a partir daí, formula sua missão ou propósito e elabora seus valores ou princípios. O que a caracteriza é uma causa e um modo peculiar de ser e de agir.

 

Ora, tudo isso pode ser construído e guardado (como um ‘arquivo-vivo’) naquilo que David de Ugarte (2007) chamou de ‘contextopédia’: um espaço coletivo dedicado a definir termos habituais, conclusões que se consideram já atingidas e debates encerrados. Como ele escreveu, em El poder de las redes, “se as contextopédias recolhem aquilo que não está em discussão é precisamente porque as definições contextuais são as que definem a identidade. Duas pessoas poderão estar em desacordo em tudo, porém enquanto compartilham as definições do contexto, compartilharão uma identidade comum e compreenderão que o debate se produz no marco de uma compreensão similar do mundo, não de um antagonismo” (8).

 

Assim, cada grupo, cada comunidade de projeto, vai buscar sentido, para o que está propondo ou fazendo, nesse repositório coletivo de definições, premissas e argumentos que é a sua contextopédia. Uma organização desse tipo se distingue de outra porque suas contextopédias são diferentes, não porque conectem em suas redes pessoas diferentes. Não tem muito sentido o conceito de pessoas diferentes para distinguir uma organização de outra na medida em que todas as pessoas são mesmo diferentes.

 

Então, para resumir: quem quer articular redes distribuídas usando a web como meio, deve participar ativamente da blogosfera: inaugurando seu próprio blog, ajudando outras pessoas a adquirirem essa efetiva condição de inclusão digital, criando ou adotando ambientes interativos e programas que sirvam para agregar blogs ou para estabelecer uma relação entre eles, conectando-os entre si e aumentando o grau de distribuição das redes que formam e, finalmente, afirmando novas identidades no mundo por meio da elaboração de contextopédias.

 

A rede das contextopédias constituirá não apenas a essência ou a alma da blogosfera, não será como o conjunto dos registros akashicos ou a enciclopédia de tudo e sim uma espécie de nova “alma do mundo”, uma “alma humana do mundo”; ou, melhor ainda, uma “alma social”.

 

Sim, compreender as redes, atuar em rede, praticar netweaving, é fazer explorações nesse maravilhoso multiverso de conexões ocultas que configuram o que chamamos do social.

 

(1) Cf. Tapscott, Don. The Digital Economy: Promise and Peril in the Age of Networked Intelligence. New York: McGraw-Hill, 1996.

(2) Cf. Bard, Alexander & Söderqvist, Jan. Netocracy: the new power elite and life after capitalism. London: Pearson Education, 2002.

(3) Ugarte, David (2007).O poder das redes. Porto Alegre: CMDC/ediPUCRS, 2008.

(4) Idem.

(5) Franco, Augusto. Alfabetização democrática: o que podemos pensar (e ler) para mudar nossa condição de analfabetos democráticos. Curitiba: FIEP / Rede de Participação Política do Empresariado, 2007.

(6) Cf. Ugarte, op. cit.

(7) Idem.

(8) Idem-idem.

Embora falem freqüentemente de redes sociais, as pessoas não têm, em geral, uma compreensão muito clara do que elas são realmente. Na ausência de tal compreensão, fica mais difícil articular e animar redes sociais propriamente ditas, quer dizer, redes distribuídas de pessoas.

 

Do que se trata, afinal? A questão pode ser colocada de maneira simples. Seres humanos vivendo em coletividades estabelecem relações entre si. Tais relações podem ser vistas como conexões, caminhos ou dutos pelos quais trafegam mensagens. Qualquer coletivo de três ou mais seres humanos pode conformar uma rede social, que nada mais é do que um conjunto de relações, conexões ou caminhos (graficamente representáveis por arestas) e de nodos (vértices). Há rede quando são múltiplos (a rigor mais de um) os caminhos entre dois nodos.

 

A partir de certo número de conexões em relação ao número de nodos, entretanto, começam a ocorrer na rede fenômenos surpreendentes, que não dependem, ao contrário do que se acredita, do conteúdo das mensagens que trafegam por essas conexões. Quanto mais distribuída ou menos centralizada ou descentralizada (i. e., multicentralizada) for a topologia da rede, maiores são as chances de tais fenômenos ocorrerem. Esses fenômenos – como o clustering e o swarming, a redução do tamanho (social) do mundo, a autoregulação sistêmica, a produção de ordem emergente (bottom up) e/ou a desconstituição de ordem (top down) pré-existente (remanescente) – não podem ser adequadamente captados e explicados pelas categorias e hipóteses (que compõem as teorias) tradicionais das ciências sociais.

 

O problema é que até agora as redes foram consideradas pelas ciências sociais como metáforas estruturais para agrupamentos sociais, como mais um recurso analítico. Trata-se, entretanto, de tentar apreender a realidade social como rede, tomando o que é visível – e conhecível a partir da sua fenomenologia – como manifestação dessa realidade oculta para tentar descobrir como interferir: não no que está acontecendo manifestamente e sim nos “programas” que estão rodando na rede e produzindo o que se vê. Mal comparando, é necessário descobrir a “linguagem de máquina” desses “programas” para poder modificá-los. Caso contrário, ou seja, se não conseguirmos compreender e fazer isso, será muito difícil articular e animar verdadeiras redes sociais, ou seja, redes distribuídas de pessoas.

 

Permita-se-me aqui abrir um parêntese um tanto abstruso: um kabbalista diria – e essa, sim, pode ser uma boa metáfora, pelo seu potencial heurístico – que é necessário operar em outro mundo, no mundo da formação (que eles chamam de Yezirah; ou até, quem sabe, no mundo da criação, Beriah) para poder alterar disposições causais no mundo da ação (Asiyyah). Digo que a metáfora é boa – a despeito das conotações mítico-sacerdotais e hierárquico-autocráticas próprias dessa ideologia de professores que se chama Kabbalah – porquanto as redes existem mesmo em outro mundo: sim, o mundo do que chamamos de social não está – no sentido de que não se realiza – no espaço físico e sim no espaço-tempo dos fluxos.

 

Por isso foi tão significativa a formação (talvez melhor dizer, a descoberta) do chamado ciberespaço (que é também um cibertempo, mas às vezes esquecemos disso). Não porque as redes sociais só possam existir enquanto realidade virtual associada a uma tecnologia específica (como a telemática). E sim porquanto foi a partir da visão proporcionada pelo ciberespaço que descobrimos que pode haver um mundo composto por coisas que não sejam átomos (como os bits). Ora, como as redes virtuais de pessoas na Internet são redes sociais, torna-se então mais fácil a percepção de que pode existir um mundo social que não seja o mundo físico. Indo um pouco além, fica mais fácil entender por que, se existe um mundo social, ele não pode ser o (ou um) mundo físico.

 

O espaço-tempo dos fluxos, no qual se realizam as redes sociais, sempre existiu, desde que existem sistemas de conexões e nodos entre seres humanos. Mas nem sempre tivemos uma visão clara desse mundo e só muito recentemente começamos a perceber as suas inusitadas características. É por isso que a sociologia jamais conseguiu explicar, por exemplo, mudanças bruscas em correntes de opinião e outros processos que envolvem, de algum modo, fenômenos emergentes (que não são singularidades, excepcionalidades; não, tais fenômenos estão ocorrendo o tempo todo e modificando intimamente disposições que, mais tarde, se manifestarão como mudanças visíveis de comportamento dos atores sociais).

 

Fechando o parêntese e voltando ao assunto da nossa discussão nesta exploração, cabe perguntar novamente: que “programas” seriam esses, que estão rodando na rede?

 

Como a tendência é que todos, ao longo do tempo, estabeleçam conexões com todos – ou seja, que, dentro de certas “regiões” da rede acessíveis à escala humana, toda rede se torne, crescentemente, uma rede distribuída – e isso só não acontecerá se alguma coisa estiver impedindo, parece claro que são esses (ou, pelo menos alguns desses) “programas” os responsáveis por tal impedimento.

 

Quando falo em “acessível à escala humana” é óbvio que isso depende dos recursos (ou das tecnologias) disponíveis. Progressivamente essa escala vem sendo aumentada pela disponibilização de novos meios de comunicação interativos ou transitivos: da interação pessoal pela voz, pelos gestos e pelo contato físico, para a interação à distância por tambores e sinais de fumaça, daí para as tabuinhas de argila e para a carta escrita sobre papel, para o telégrafo, para o telefone (voz), para o rádio, para o fax, para o e-mail, para o telefone móvel (voz e texto via SMS), para os sites da Internet, para o telefone com voz e imagem sobre IP, para as redes digitais P2P, para a chamada Web 2.0 (com suas ferramentas wiki e suas redes administradas de relacionamento) e para uma nascente Web 2.1 com seus instrumentos distribuidores, como os que permitem a livre interação entre blogs e que estão tecendo um verdadeiro meio distribuído em escala planetária (a blogosfera). De sorte que o espaço-tempo das comunidades que se formavam a partir do adensamento de conexões (clusters) com base territorial, foi se alargando, das reduzidas dimensões iniciais (locais) que possibilitavam o contato direto (ou com até um grau de separação) entre as pessoas, para o mundo inteiro. É assim que o local conectado está virando o mundo todo. E o próprio conceito de local, como pequena porção territorial, se modificou.

 

Pois bem. Que “programas” seriam esses que impedem que as redes aumentem o seu grau de distribuição? Não conhecemos ainda toda a extensão da família de “programas” hierarquizantes-autocratizantes. Mas conhecemos a sua intenção. Já podemos afirmar que são programas centralizadores, cuja função básica é o controle por meio da obstrução, da separação e da exclusão. Obstruir fluxos, separar clusters e excluir nodos: eis a receita universal para estabelecer o controle.

 

Obstruir fluxos, deixando passar somente alguns padrões (ou filtrando) é a forma de estabelecer o controle sobre o trânsito de mensagens. E também separar clusters, isolando alguns aglomerados (comunidades) de outros, derrubando pontes ou fechando os atalhos que ligam um cluster a outros clusters, apartando uma região da rede de outras regiões; em suma, fundamentalmente, interrompendo a ligação de um local com outro local, ou seja, impedindo a conexão local-global (imagine-se a formidável alteração introduzida na rede social sumeriana de uma localidade como Uruk quando foi cercada por 9 quilômetros de muralhas). E, por último, excluir nodos, desconectando-os dos clusters a que pertencem, destruindo conexões.

 

Em suma, esses “programas” hierarquizam o tecido social, verticalizam as relações, introduzindo intermediações que ampliam o comprimento da corrente, dilatando a extensão característica de caminho da rede social ou aumentando os seus graus de separação (ou seja, diminuindo a conectividade) e, com isso, acarretando toda sorte de anisotropias no espaço-tempo dos fluxos. Este é um caso (ou ‘o’ caso) em que o software modifica o hardware. Na medida em que a rede social vai rodando tais “programas” ela também vai alterando não apenas a sua dinâmica, mas também a sua estrutura. E tudo isso acaba coagulando uma estrutura física mesmo. Por exemplo (e esse não é um exemplo, mas, com certeza, ‘o’ exemplo), a Cidade-Estado-Palácio-Templo sagrada da antiguidade criou, há quase seis milênios, um outro tipo de realidade social no mundo (a partir da Mesopotâmia). Não se pode esquecer que o sentido original da palavra sagrado era, no antigo idioma sumério, separado. As separações físicas, introduzidas por portas, escadas e muros, materializaram obstruções de fluições e exclusões conectivas. A nova arquitetura adequada ao controle, apenas refletiu uma nova configuração do espaço-tempo dos fluxos. Isso é o que vemos quando colocamos os “óculos de ver rede”. Só então começamos a perceber as conexões ocultas que configuram o que chamamos de ‘social’. Essa visão é indispensável para impulsionar novos comportamentos que sejam capazes de subverter a Matrix (aquela mesma do filme dos irmãos Wachowski – o mainframe cuja missão é: ‘controle’).

 

Se sabemos isso, então já sabemos o que é necessário fazer: distribuir o que foi centralizado ou descentralizado (quer dizer, multicentralizado). Desobstruir caminhos. Estabelecer atalhos entre clusters. Incluir nodos.

 

Trata-se, portanto, basicamente, de conectar pessoas com pessoas. De aumentar a conectividade da rede social. E de trabalhar para tornar cada vez mais distribuída essa rede.

 

Tenho afirmado que quase tudo o que organizamos segundo um padrão-mainframe poderia ser organizado segundo um padrão-network. Quase tudo, não tudo: os mecanismos de controle, por exemplo, não podem.

 

Isso significa que é possível ensejar novas formas de ordenação por regulação emergente, que não dependam do controle (que significa sempre a introdução de uma ordem de cima para baixo), quer dizer, que é possível fazer isso em tudo aquilo que não exija controle.

O que caracteriza fundamentalmente uma rede é a existência de caminhos múltiplos. Forçando um pouco a intenção do conceito e estabelecendo um paralelo geométrico, poder-se-ia dizer que, se uma rede é uma coleção de nodos ligados por muitos caminhos (ou um conjunto de vértices interconectados por muitas arestas), uma hierarquia é um caso particular de rede caracterizado pela existência do menor número possível de caminhos (ou uma linha quebrada que, conquanto possa ter múltiplos vértices, nunca chega a formar uma figura geométrica fechada). Neste sentido uma hierarquia “máxima” (ou uma organização com o máximo grau de hierarquização) poderia ser vista como um conjunto de nodos (vértices) conectados por caminhos únicos.

 

Se existissem apenas dois elementos no mundo, hierarquia seria igual a rede, porque o número de caminhos possíveis entre tais nodos seria o menor número possível de caminhos, ou seja, apenas um caminho pelo qual uma mensagem pudesse se propagar de um nodo ao outro.

 

Todavia, em um mundo com três ou mais elementos, enquanto no padrão de organização hierárquico (“máximo”) uma mensagem emitida de um nodo a qualquer outro só pode se propagar através de um mesmo caminho, no padrão de organização em rede tal mensagem pode se propagar através de vários caminhos diferentes.

 

Em um mundo de três elementos (A, B e C), por exemplo, esse padrão hierárquico permite que uma mensagem emitida por A chegue a B (ou a C) somente por um caminho: o caminho AB (ou ABC). Todavia, se estes três elementos estiverem organizados segundo um padrão de rede (com A, B e C figurando como os vértices de um triângulo) podemos ter o dobro de caminhos: AB e ACB (ou AC e ABC). Enquanto na hierarquia o número máximo de caminhos diferentes possíveis entre todos os nodos é igual a 3 (AB, BC e ABC), na rede o número máximo de caminhos possíveis é igual a 6 (AB, BC, ABC, AC, ACB e CAB).

 

Fig. 1

 

Em um mundo de quatro elementos (A, B, C e D), o padrão hierárquico (“máximo”) permite que uma mensagem emitida por A chegue a B (ou a C ou a D) somente por um caminho: o caminho AB (ou ABC, ou ABCD). Mas se esses quatro nodos estiverem conectados em um padrão de rede, com o número máximo de conexões possíveis (com A, B, C e D figurando como vértices de um quadrilátero, incluindo as duas conexões diagonais), teremos cinco vezes mais caminhos entre um nodo e qualquer outro: se se trata, por exemplo, de fazer uma mensagem proveniente de A chegar a D, então essa mensagem pode percorrer cinco caminhos diferentes (AD, ABCD, ACBD, ABD e ACD). No primeiro caso, da hierarquia (no grau “máximo” de hierarquização), o número de todos os caminhos possíveis é igual a 6, enquanto no segundo caso, da rede, teremos um máximo de 30 caminhos, ou seja, cinco vezes mais.

 

No caso de uma hierarquia de quatro elementos teremos como caminhos possíveis apenas seis caminhos: AB, BC, CD, ABC, BCD e ABCD. No caso de uma rede de quatro elementos, teremos no máximo: AB, BA, BC, CB, CD, DC, DA, AD, AC, CA, BD, DB, ABC, ABD, ACB, ACD, ADC, ADB, BAD, BAC, BCD, BCA, BDA, BDC, CAB, CAD, CBA, CBD, CDA, CDB, DAB, DAC, DBC, DBA, DCA, DCB, ABCD, ABDC, ACBD, ACDB, ADBC etc. … até DABC, DACB, DBCA, DBAC, DCBA, DCAB – totalizando 60 combinações de 2, 3 e 4 elementos, as quais, divididas por 2, uma vez que um caminho AB é igual ao caminho BA (ou seja, as conexões são transitivas), resultarão em 30 caminhos diferentes .

 

Fig. 2

 

Do ponto de vista do padrão de organização, o que chamamos de ‘tamanho do mundo’ é dado não apenas pelo ‘número de elementos’ do mundo ou pela ‘distância’ entre tais elementos, mas pelo ‘número de conexões possíveis’ entre eles. Abstraindo a questão da distância (o que já pode ser resolvido praticamente pela conexão telemática, em tempo real, que significa a mesma coisa que conexão sem-distância), para dois conjuntos com o mesmo número de nodos, podemos ter mundos de tamanhos muito diferentes, se tais nodos estiverem conectados segundo um padrão de rede ou segundo um padrão hierárquico.

 

No caso do último exemplo acima, a rede com um número máximo de caminhos torna um mundo de quatro elementos (nodos) cinco vezes menor do que a hierarquia (com um número mínimos de caminhos).

 

É fácil mostrar que, no caso de termos cinco nodos, a rede mais tramada possível produz, em relação à hierarquia, um “encurtamento” de 16 vezes no mundo. Em outras palavras, um mundo com cinco elementos conectados segundo um padrão de rede (com o número máximo de conexões) é um mundo com 16 vezes mais caminhos do que os estabelecidos na hierarquia (com o número mínimo de conexões, quer dizer, nunca mais do que duas conexões para um nodo). Enquanto na hierarquia teríamos apenas dez caminhos entre todos os nodos, na rede teríamos algo como 160 caminhos. E, enquanto na hierarquia (“máxima”) uma mensagem emitida de um nodo só dispõe de um mesmo caminho para chegar a outro nodo qualquer, na rede ela possui 16 caminhos diferentes.

 

No caso de uma rede de cinco nodos (A, B, C, D e E), os caminhos possíveis diferentes entre um nodo e outro nodo qualquer (por exemplo, entre A e E) totalizam 16 possibilidades (AE, ABE, ACE, ADE, ABCE, ABDE, ACBE, ACDE, ADBE, ADCE, ABCDE, ABDCE, ACBDE, ACDBE, ADBCE e ADCBE). Isso produz 160 caminhos diferentes entre todos os nodos da rede. Se os cinco nodos estivessem organizados em um padrão hierárquico teríamos apenas um caminho possível entre A e E e apenas 10 caminhos diferentes possíveis entre quaisquer nodos.

 

Fig. 3

 

Da mesma forma, em um mundo de seis elementos, enquanto a hierarquia (“máxima”) estabelece como possíveis apenas 14 caminhos, a rede com número máximo de conexões permite pouco menos de mil caminhos diferentes (precisamente 910, se meus cálculos estiverem corretos). Isso significa que, em um mundo de seis elementos, se tais elementos estiverem conectados em rede com grau máximo de conexão (cada nodo conectado aos outros cinco) existem 65 caminhos diferentes entre dois nodos, 65 maneiras diferentes de fazer uma mensagem chegar de um nodo a qualquer outro. A rede mais tramada de seis nodos cria um mundo 65 vezes menor do que a hierarquia de seis nodos.

 

Analogamente ao caso anterior, em uma rede de seis nodos (A, B, C, D, E e F), teremos 65 possibilidades de fazer uma mensagem emitida por um nodo (por exemplo A) chegar a outro nodo qualquer (por exemplo F) – ou seja, teremos 65 combinações de 2, 3, 4, 5 e 6 elementos começando em A e terminando em F – e, assim, teremos 910 caminhos possíveis entre todos os nodos da rede. Se esses seis elementos estivessem conectados segundo um padrão hierárquico teríamos apenas uma combinação começando em A e terminando em F e apenas 14 caminhos diferentes possíveis dentro do conjunto.

 

Fig. 4

 

Tudo isso significa que duas localidades com o mesmo número de habitantes podem ter tamanhos de mundo completamente diferentes na medida em que a ‘extensão característica de caminho’ (ou seja, o número de “estações” ou intermediações que são necessárias, em média, para fazer uma mensagem chegar de um nodo qualquer a outro qualquer) de cada uma delas for diferente. Uma cidade sumeriana de 2 mil habitantes com toda a certeza seria muitas vezes maior (em termos sociais, não geográfico-populacionais) do que um subúrbio novaiorquino atual de mesma população.

 

Ainda não temos uma equação que permita calcular o ‘tamanho do mundo’ do ponto de vista do padrão de organização, mas já podemos prever que o fator ‘conectividade potencial’ nesta equação (ou seja, o número de caminhos possíveis entre os nodos) tem um peso muito maior do que os fatores ‘tamanho dos nodos’, ‘número de nodos’ e ‘distância entre os nodos’.

 

Assim, pode-se supor que uma cidade sumeriana de 2 mil habitantes (como Uruk, sobretudo a Uruk do início do terceiro milênio, da invenção da escrita, das muralhas colossais e do zigurate dedicado ao supremo deus AN) seria um mundo muito maior do que, por exemplo, todo o Silicon Valley atual. Por quê? Porque (essa) Uruk, do ponto de vista do padrão de organização, era uma cidade-Estado-Templo rigidamente centralizada e verticalizada, onde as pessoas eram separadas por graus de poder e dispostas como os degraus de uma escada (não por acaso os zigurates eram pirâmides feitas de escadas) – ou seja, Uruk era a materialização de uma hierarquia, de uma ordem (arché) sacerdotal (hieros), e também não é por acaso que “sagrado” na língua sumeriana tinha o mesmo sentido de “separado”. Isso significa que o acesso de uma pessoa a outra era muito mais difícil em Uruk do que em Silicon Valley, onde, de repente, um pesquisador de uma empresa e o dono de uma outra empresa concorrente almoçam no mesmo restaurante e sentam-se à mesma mesa várias vezes por mês (coisa que não poderia mesmo ocorrer em Uruk, mas que também não ocorre, por exemplo, nos e entre os Keiretsu japoneses atuais). Ou seja, em Silicon Valley existem mais redes sociais do que em Uruk e, assim, o mundo da primeira é muito menor do que o mundo da segunda, não obstante o seu território ser muito maior e o seu número de habitantes idem.

 

Isso significa que, do ponto de vista do padrão de organização, o local não-globalizado pode ser um mundo até maior do que o mundial (no sentido de planetário) globalizado. E que globalização do local tende a ser igual a localização do global. O mundo estará totalmente globalizado quando estiver totalmente localizado. E que, assim, o local conectado é o mundo todo.

O que chamamos de social é, propriamente falando, a rede social. Não as formas organizativas que intentamos articular e batizamos de “rede tal”, “rede disso” ou “rede daquilo” (o que, aliás, anda agora bem na moda). E sim a rede social que existe de fato, desde que exista sociedade humana.

 

Essa rede que existe de fato, que existe independentemente de nossos esforços organizativos, que existe porque existem nodos (pessoas) e conexões múltiplas (entre essas pessoas), pode ser mais ou menos distribuída. Deveríamos chamá-la de ‘rede’ quando a topologia desse agregado é distribuída (e não quando é centralizada ou descentralizada, quer dizer, multicentralizada). Mas, na verdade, todas as redes sociais que existem são mais ou menos distribuídas. O que se pode dizer é que, para ser reconhecido como rede, um agregado espaço-temporal qualquer de nodos e conexões deveria ter algum grau de distribuição (ou de incidência de múltiplos caminhos). A coisa se caracterizaria, assim, por graus: graus de hierarquização (menos caminhos, mais centralização); ou, inversamente, graus de enredamento (mais caminhos, mais distribuição).

 

Pois bem. Qual a diferença entre a rede social que existe de fato (com algum grau de distribuição) e as redes que intentamos construir (muitas vezes denominando-as de rede meio indevidamente, face ao pouco grau de distribuição efetivamente apresentado)?

 

Creio que, com essa pergunta, podemos avançar um pouco na nossa exploração. Relembro que estamos fazendo explorações imaginativas e não experimentais. O que não significa que as nossas eventuais descobertas não contenham conhecimento novo. Assim, podemos anunciar aqui, talvez, não uma grande descoberta cientificamente comprovada (até onde isso é possível), mas um modelo explicativo, um modo-de-ver que acrescenta conhecimento ao que, até agora, sabemos do assunto.

 

À rede social que existe de fato vamos chamar de “rede-mãe” ou “a matriz”. As redes que voluntariamente articulamos, tentando copiar a topologia, a morfologia ou a dinâmica da “rede-mãe”, são interfaces que estabelecemos para tentar uma comunicação direta com essa matriz. São feitas para dialogar, pois a “rede-mãe” não reconhece bem outras formas organizativas, não entende a sua linguagem. A rigor deveríamos dizer o seguinte: quanto menos distribuídas forem as redes que articulamos para construir essa interface com “a matriz”, mais difícil será a comunicação com ela.

 

Esse esquema explicativo funciona relativamente bem. Dá conta de explicar por que, por exemplo, organizações hierárquicas (ou com alto grau de centralização ou multicentralização) têm imensas dificuldades de provocar mudanças sociais no ambiente onde estão imersas. A rede social que existe de fato – a “rede-mãe” – não recebe bem a influência dessas organizações e continua funcionando mais ou menos como se nada tivesse acontecido.

 

É o que ocorre quando ouvimos relatos de organizações sociais profundamente dedicadas ao trabalho comunitário. Seus dirigentes reportam que estão lutando há anos, com grande afinco, em uma determinada localidade, mas a impressão que têm é a de que seus esforços não adiantam muito. O povo não reconhece o seu papel, as relações não mudam, parece que tudo continua como d’antes…

 

Se formos analisar as circunstâncias da atuação dessas organizações de base veremos que elas terão um alto grau de centralização (ou um grau de enredamento insuficiente). É um problema de comunicação. A rede s