Quando falam em ‘social’ as pessoas, em geral, querem se referir àquelas condições que permitem a satisfação de necessidades humanas. Não é por acaso que as chamadas políticas sociais, sobretudo para os governos, são aquelas que ofertam produtos (ações, programas e serviços) de educação, de saúde etc; ou seja: componentes do capital humano (ou do desenvolvimento humano) e não do capital social (ou do desenvolvimento social). Há, ainda, um sentido mais restrito – quase pejorativo – do termo social: aquele que se pega emprestado para designar políticas de combate à pobreza ou à desigualdade, sejam políticas de geração de emprego e renda (tomando a pobreza como insuficiência de renda e a desigualdade como desigualdade econômica, quer dizer, verificada na distribuição desigual da renda), sejam políticas ditas de assistência social (em geral compensatórias ou protetivas, quer dizer, ofertadas pelo Estado para compensar defasagens de inserção verificadas no processo econômico, de distribuição da renda e da riqueza ou para proteger setores vulneráveis ou em situação de risco da população, que não poderiam, por seus próprios esforços, lograr uma inserção adequada em uma sociedade mercantil, ter acesso aos recursos mínimos capazes de garantir uma vida digna ou, mesmo, sobreviver).
Digo que este último sentido do termo, pelo menos em alguns casos, é pejorativo, porquanto o ‘social’ fica parecendo uma espécie de “sopa dos pobres”, “pãozinho de Santo Antonio”, alguma coisa que deve ser dada a alguém que não tem condições de obtê-la por seus próprios esforços e méritos. É como se desenvolvimento fosse matéria econômica e, para aqueles pobres coitados que não conseguem se inserir no mundo econômico e ficam à margem das suas dinâmicas, então administramos o remédio, paliativo, do ‘social’. Não se pode negar que aqui se encontram aqueles elementos do “pobrismo” – um tipo de ideologia que contaminou os discursos de inclusão social dos que defendem o protagonismo único ou preponderante do Estado na promoção do desenvolvimento social.
Por incrível que possa parecer, raramente se pensa na ‘sociedade’ quando se emprega o termo ‘social’. Em geral não se faz esforço para explicitar uma visão da sociedade, da sua morfologia e da sua dinâmica, quando se fala do ‘social’. A sociedade é encarada, para todos os efeitos práticos, como a coleção dos humanos, assumindo-se o pressuposto econômico (sem declará-lo) segundo o qual o desenvolvimento da sociedade (o conjunto) é uma espécie de resultado do desenvolvimento dos indivíduos (os elementos do conjunto). Não se percebe, assim, que o ‘social’ não se refere propriamente aos indivíduos e sim ao que existe ou ocorre (às relações) entre eles.
É por isso que grande parte das intervenções sociais (ações e programas governamentais ou não-governamentais) são ações de desenvolvimento humano e não de desenvolvimento social. Se pedirmos a uma pessoa qualquer para dar um exemplo de programa social é improvável que ela cite um programa de telecentros comunitários. Falará do combate a pobreza, falará das ações de assistência social voltadas às populações carentes, falará de educação, saúde, saneamento básico, transporte, habitação… mas não falará de alguma coisa que incida diretamente sobre as relações (entre os elementos) que constituem o “corpo” da sociedade (o conjunto), nem do seu “metabolismo” (quer dizer, da dinâmica da interação entre os elementos desse conjunto).
A sociedade, entretanto, não é uma mera coleção de indivíduos humanos, um conjunto que se possa definir pelas características intrínsecas de seus elementos; queremos dizer com isso que os mesmos elementos podem gerar diversos tipos de sociedade, bastando, para tanto, que se mudem as relações entre eles. A sociedade, portanto, é alguma coisa que só pode ser adequadamente designada pela noção de ‘sistema’ (e de sistema complexo, com evidentes características adaptativas; e, se não fosse assim, poderíamos jogar no lixo todas as conversas sobre sustentabilidade).
São os padrões de relação que caracterizam a sociedade. Como esses padrões se modificam continuamente (e isso é a dinâmica social), a rigor, são os invariantes encontrados nesses padrões (aquilo que não muda, ou que não muda tão rapidamente quanto as configurações do permanente fluir que constitui as próprias relações) que podem distinguir uma sociedade particular de outra sociedade particular. Tais invariantes nada mais são do que modos de fluir que se tornam recorrentes, caminhos muito trafegados que, por isso, acabam constituindo singularidades topológicas no “tecido social” (ou seja, estou falando sobre aquelas coisas que, vistas de fora, são chamadas de identidades).
Cada vez fica mais evidente que esses padrões são padrões de rede (definidos pela existência de múltiplos caminhos entre os nodos). Com o aumento do número de conexões – ou com o aumento da conectividade dessas redes – (impulsionado recentemente pela possibilidade de conexão em tempo-real ou sem-distância), diz-se que está emergindo uma sociedade-rede.
Sim, mas, na verdade, toda sociedade propriamente dita é uma sociedade-rede. Sem rede social não subsiste o conceito de sociedade, porquanto o que chamamos de ‘sociedade’ é, propriamente falando, a configuração móvel das relações estabelecidas entre os seus elementos (os indivíduos) e não o simples ajuntamento territorial desses indivíduos. Conquanto, dito assim, tudo pareça tão óbvio, surpreendentemente, não é: uma prova disso é que as pessoas continuam pensando nas sociedades e querendo intervir no ‘social’ como se a rede social não existisse. E não se esforçam por compreender a morfologia e a dinâmica das redes sociais sobre as quais querem intervir.
Não é difícil verificar a validade desse meu juízo: bastaria fazer uma pesquisa entre os policymakers governamentais e não-governamentais (de fundações e institutos empresariais ou de ONGs) da chamada “área social”, pedindo-lhes para conceituar rede social, ou para descrever alguns constructs importantes utilizados na análise de redes sociais ou, ainda, para citar meia dúzia de pesquisadores ou de trabalhos científicos importantes nessa área em andamento nos últimos dez anos. Mesmo sem fazer a pesquisa sugerida, já sabemos que o resultado desse survey será decepcionante e, se quisermos preservar a credibilidade dos responsáveis por nossas “políticas sociais”, impublicável.
Se o que chamamos de social é, stricto sensu, a rede social, devemos então concentrar nossa atenção no que caracteriza essa rede. Mas não podemos caracterizar uma rede e, mais especificamente, uma rede social, com as ferramentas conceituais e analíticas fornecidas pela velha sociologia, cujas categorias são inadequadas ou impotentes para captar e explicar processos novos (ou só percebidos recentemente) como “closeness“, “betweenness“, “clustering” e “swarming” (e os conceitos criados para captar tais processos são tão recentes que permanecem ainda com suas denominações originais e provisórias).
Bom, aqui começa a fazer sentido a necessidade de estudar as redes para compreendê-las e para poder operar sobre elas. E começa a fazer falta o conhecimento que pode ser fornecido por novas disciplinas como a SNA (Social Newtwork Analysis) e os conhecimentos derivantes do estudo dos sistemas complexos aplicados à “nova ciência das redes”: modelagem de redes “real-world”, redes como estruturas e redes como sistemas dinâmicos (um excelente reader sobre isso foi recentemente elaborado por Mark Newman, Albert-László Barabási e Duncan Watts (2006): “The Structure and Dynamics of Networks”).
O que caracteriza uma rede são as variáveis ligadas à sua topologia (se – e em que grau – trata-se de uma rede centralizada, descentralizada ou distribuída, ou seja, de uma rede propriamente dita), à sua densidade (ou conectividade), às suas disposições morfológico-dinâmicas (e aqui entram os eventos de “closeness”, “betweenness”, “clustering” etc.), à quantidade maior ou menor e à distribuição de “hubs” (ou conectores), “inovadores” e “netweavers”, à manifestação de processos de “swarming” (ou de “produção” disruptiva de ordem emergente que pode se manifestar num conflito que se dissemina e engaja seus contendores bottom up, por “contaminação viral”) e a várias outras características que indicam sua predisposição para manter ou alterar sua configuração geral.
Ora, todas essas variáveis são de tal natureza que alterá-las implica necessariamente mexer em padrões de organização e em modos de regulação de conflitos. Mas isso é, como sabemos, por definição aliás, nada diferente do que aquilo que constitui o objeto mesmo da política. Ou seja, a rede evoca primeiramente o mundo da política e não, como poderia parecer, o mundo da sociologia.
Dando um passo adiante na presente reflexão, chegamos assim ao que parece ainda mais surpreendente: não há outra maneira (sistêmica) de intervir no ‘social’ (propriamente dito, i. e., como sistema) a não ser pela política.
Do ponto de vista das redes, o mundo da política é o mundo da sociedade, pois tem a ver com a maneira como os indivíduos se conectam entre si e como os fluxos que atravessam tais conexões (a rigor, que as constituem) se combinam e recombinam, se potencializam (gerando múltiplos laços de realimentação de reforço) ou se anulam. Fluxos que se anulam concorrem para gerar estados de equilíbrio, diminuindo o dinamismo da sociedade (e, conseqüentemente, a sua “capacidade de desenvolvimento”; para um sistema poder se desenvolver é preciso que ele tenha estabilidade e que esteja afastado do estado de equilíbrio). Deve-se fazer um esforço para perceber que aqui estamos falando de política, reinterpretando – a luz do olhar sistêmico – conceitos como forças, ofensiva, defensiva, confronto, alianças, correlações de forças (que são idéias deslizadas indevidamente da “arte da guerra” para a política), porém agora como mensagens, fluxos, combinações de fluxos, reverberação, disseminação…
Assim, para dar um exemplo, ao invés de falarmos da capacidade de uma determinada força (política) de se impor às demais na correlação, fazendo com que a resultante aponte – após um confronto ou uma negociação qualquer – para uma direção próxima à sua direção original (um cálculo tipicamente político, olhado de uma perspectiva não-sistêmica), podemos falar agora das condições “ambientais” para que uma mensagem, emitida por um nodo da rede social, alcance outros nodos, o que tem a ver com “betweenness”, ou seja, com o grau de intermediação (medido pelo número de vezes que um nodo aparece no caminho mais curto entre outros dois nodos) e que nos dá uma medida do seu peso como conector (como “hub”), quer dizer, da sua importância (ou “peso político”) para que a rede se mantenha unida. E o que tem a ver também com “closeness”, ou seja com a soma das distâncias que separam um nodo dos outros nodos da rede (medindo a sua capacidade de chegar a outro nodo qualquer). E o que tem a ver, ainda, com “clustering”, como tendência de aglomeração que reduz os graus de separação entre os nodos produzindo o efeito chamado “small world”.
Tudo isso é político no sentido próprio do termo (escoimado da degeneração conceitual que foi introduzida pela chamada ‘fórmula inversa – e perversa – de Clausewitz’: “a política como continuação da guerra por outros meios”, a qual, na verdade, se refere, não à política, mas à própria guerra, ou a sua continuação por outros meios. Aliás, desde Hobbes (1651) já sabemos que a guerra não é caracterizada pelo emprego de meios violentos e armas, pela “batalha ou pelo ato de lutar”, mas pela “disposição para tal”.