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Em breve a metáfora do “capital” social já poderá (ou deverá) ser abandonada. Usar a expressão ‘capital social’ é – como se diz na roça – “bater na canga pro boi ouvir” (o boi, no caso, são os policymakers que tiveram suas cabeças feitas pelos economistas ou, então, aqueles sociólogos cujo maior desejo é serem levados a sério pelos economistas…). Dizer que aquela externalidade que conotamos com a expressão capital social é um capital – em sentido metafórico – significa chamar a atenção das pessoas para o fato de que estamos diante de um recurso para o desenvolvimento tão importante como se fosse um capital (propriamente dito, físico ou financeiro). A metáfora – como qualquer metáfora – não é perfeita. Pois o chamado capital social é um recurso público que costuma assumir um papel inverso na equação do desenvolvimento quando é privatizado (como ocorre, por exemplo, no familismo amoral mafioso, coisa que não acontece com outros capitais em sentido estrito e mesmo em sentido metafórico, como o ‘capital humano’ – talvez com exceção do ‘capital natural’).

 

Tem gente que, por motivos ideológicos, rejeita a noção de ‘capital social’. Muitos acham que é uma tentativa neoliberal de mercantilizar relações sociais e, não raro, confundem capital com capitalismo e cometem outras besteiras semelhantes. Não é por consideração a essas posições que devemos ir abandonando a metáfora e sim para avançar na compreensão da natureza desse novo recurso político que foi aventado há tanto tempo (desde Tocqueville, pelo menos) mas que só se tornou presente nas preocupações dos teóricos do desenvolvimento há menos de vinte anos. A natureza em questão é a natureza da sociedade humana (ora, se se discute tanto hoje em dia sobre a natureza da natureza humana, por que não se pode discutir também sobre a natureza da sociedade humana?). Sim, porquanto o que chamamos de capital social é, na verdade, a sociedade (no sentido tocquevilliano do termo).

 

Pois bem. A natureza da sociedade é… a rede social. O que chamamos de social é a rede social, conquanto comumente atribuamos o qualificativo (ou o designativo) de ‘social’ para qualquer realidade humana. Humano e social não são sinônimos. Ao contrário do que parece, ‘social’ não é a coleção de elementos humanos. Humanos vistos individualmente, naquilo que aportam de recursos para o desenvolvimento em virtude das suas qualidades e potencialidades humanas intrínsecas, não compõem o social se não se incluir também no conjunto as relações que tais humanos estabelecem entre si.

 

Pode-se dizer que esta discussão é ociosa na medida em que o humano não se constitui como tal na ausência do social. Isso parece certo. Entretanto, se focalizarmos apenas os componentes do capital humano stricto sensu, não poderemos deles derivar o capital social. Ou seja, não há nenhuma equação que permita “calcular” o capital social a partir do capital humano. Vai daí que o que chamamos de políticas sociais são, na verdade, políticas humanas, no sentido de políticas de proteção ou promoção do desenvolvimento humano (como saúde e educação, por exemplo). Por outro lado, políticas de indução do desenvolvimento social propriamente dito, como aquelas que têm como objetivo aumentar a conectividade (inspirando, por exemplo, programas de instalação de telecentros comunitários), muitas vezes não são percebidas, nem consideradas, como políticas sociais (quando é somente isso o que são!).

 

Capital social é um tipo de recurso bastante diferente do capital humano, na medida em que não pode ser individualizado, internalizado por um sujeito, identificado com atributos isoláveis do ambiente ou do campo social (no sentido de que tal recurso continue existindo na ausência desse “campo de força”). É claro que capital humano gera capital social se acrescentarmos as colisões, num modelo análogo ao que se emprega para observar um gás aquecido: Singapura tem muita densidade de capital humano que, como moléculas de um gás, vão se chocar numa freqüência muito maior do que no Afeganistão ou na Amazônia. Essas colisões são, na verdade, uma imagem das conexões. Se trombarmos com muitas pessoas o gás vai se aquecer. Num mundo pequeno (Small World Network) – quer dizer, com alta conectividade, baixa extensão característica de caminho (ou graus de separação reduzidos) – vai haver maior produção de capital social.

 

Tudo isso sugere que o fundamental não está na metáfora do capital social como se fosse um recurso misterioso, produzido pela cooperação ampliada socialmente ou pelos níveis sociais de confiança emitidos, sei lá, por corações humanos que, incontidos em sua generosidade, querem sair do peito (não é da sociedade dos anjos que falamos aqui), e sim nos fenômenos que ocorrem na intimidade mais profunda disso que chamamos de sociedade. O fundamental é o multiverso das conexões ocultas que configuram o que chamamos de social. O fundamental é descobrir quais padrões de convivência social são mais favoráveis à criação de um campo empoderante… (Ah! Sim, o capital social encoraja o capital humano a realizar suas promessas). Ou, em outras palavras, o fundamental é captar aquelas configurações e dinâmicas de rede que favorecem a emergência, a geração espontânea de ordem.

 

As conexões representadas por linhas fixas são apenas rastros de fluições. A rede não é o grafo, o emaranhado das linhas é apenas a trajetória de algo que já fluiu por ali, não no espaço físico ou sobre o território geográfico e sim no espaço-tempo dos fluxos. É claro que um fluir repetido cria um sulco por onde acabam escorrendo as coisas que ainda virão: nesse caso a conexão vira estrada, a aresta vira trilha por onde outros caminharão. É assim que nascem as ruas numa cidade; antes nasceram no espaço-tempo dos fluxos para, só depois, virarem construção urbana.

 

No espaço-tempo dos fluxos cada caminho novo que se abre é uma possibilidade de futuro que não havia. O desenvolvimento, desse ponto de vista, é a abertura de novos caminhos, de novos futuros. Poucos futuros, pouco desenvolvimento (e imagine que explicações inovadoras podem surgir daqui: o estoque – ou o fluxo, melhor dizendo – de futuros disponíveis é o reservatório dos futuros possíveis; ou o desenvolvimento não é um caminhar de volta ao presente passando pelos futuros disponíveis?).

 

Em breve reescreveremos as metodologias de indução do desenvolvimento baseadas no investimento em capital social como um conjunto de técnicas e atividades que têm por objetivo a criação (e a animação) de redes sociais; ou seja, netweaving.

 

Em geral o conceito de desenvolvimento é tomado no sentido transformacional ou variacional. São dois modelos. O modelo transformacional evoca a idéia de desdobramento de qualidades ou dinamização de potencialidades contidas em gérmen. É o desenrolar. Em certo sentido, o termo ‘evoluir’ ficou muito marcado por essa idéia. O pinto está contido no ovo. Há uma transformação pela qual a “forma” contida em gérmen (no conteúdo do ovo) vira outra “forma” (a ave). Já o modelo variacional evoca a idéia de mudança acarretada por uma interação com as circunstâncias. Nada está totalmente contido em gérmen. O que está contido muda de acordo com as variações aleatórias que ocorrerão, sobretudo, na interação com o meio.

 

O primeiro modelo de mudança – o modelo transformacional – foi muito usado pelos que conferiam um papel preponderante ao Estado (ou a um sujeito coletivo, munido de um projeto, de uma vontade) no processo de desenvolvimento. O segundo – o modelo variacional – foi usado pelos que atribuíam ao mercado um papel principal como motor do desenvolvimento. Com efeito, o mercado parece ter um comportamento que é mais bem explicado pelo modelo variacional do que pelo modelo transformacional.

 

Nenhum desses dois modelos de mudança é inteiramente compatível com uma visão de sustentabilidade. Sugerimos, por isso, um terceiro modelo, o modelo regulacional. O modelo regulacional parte da idéia de que existe uma rede que regula a mudança. Ele não nega a transformação nem a variação, mas não atribui papel determinante à criação de condições para que a transformação aconteça, nem deixa a mudança ao léu das variações aleatórias.

 

Falar de desenvolvimento sustentável é a mesma coisa que falar de desenvolvimento de uma perspectiva regulacional ou sistêmica. Só é sustentável (e, nesse sentido, só se desenvolve) aquilo que permanece (como o que é, como o que se identifica de um modo particular e único) e muda ao mesmo tempo (de acordo com a mudança das circunstâncias). Em outras palavras, isso significa conservar a adaptação. Para se adaptar, é necessário mudar. Mas o padrão de mudança deve ser conservado pois, do contrário, o ser em mudança deixa de ser o que é.

 

Para que isso seja possível é necessário reconstruir programas de adaptação a partir de um padrão que defina uma identidade. Pois bem. Essa identidade é a identidade da rede social onde o processo de mudança de verifica e não a identidade particular desse ou daquele indivíduo, ou desse ou daquele grupo de indivíduos.

 

Não apenas em termos ambientais, mas também em termos sociais, desenvolvimento é a mesma coisa que sustentabilidade. Quando falamos em mudanças em um ecossistema, estamos falando da teia de conexões que regula o fluxo de energia e matéria dentro do sistema e das suas relações com o meio. Se esse fluxo for regulado – incluindo o aparecimento de novos indivíduos, organismos e espécies e o seu desaparecimento, bem como as mudanças físicas – por essa teia de conexões, o ecossistema se mantém. Muda para permanecer como tal, muda – apesar de ser um pouco estranha a formulação – para permanecer o que é, e só permanece se estiver em contínua mudança. É igual (ao que é), quando, a cada momento, consegue ser diferente (do que era).

 

Esse é o aparente paradoxo da sustentabilidade. E é por causa disso que é tão difícil entender esse conceito.

 

Estamos afirmando que isso pode igualmente ser observado em termos sociais. A rede social – a verdadeira Matrix, não o mainframe do filme dos irmãos Wachowski, mas a network, a teia invisível, móvel, pulsante, de conexões entre indivíduos e grupos em uma sociedade, também denominada – do ponto de vista dos recursos necessários ao desenvolvimento – pela expressão ‘capital social’ – tem o papel de mudar os programas de adaptação a partir do seu próprio padrão de identidade.

 

Ainda não temos instrumentos teóricos e condições técnicas para mapear os padrões de identidade de uma rede social. Mas estamos nos aproximando velozmente desse conhecimento. Experiências recentes com trânsitos de mensagens e monitoramento das interações entre indivíduos em um pequeno grupo, já estão permitindo desenhar configurações complexas de conexões. O problema agora é identificar, nesses intricados desenhos, os invariantes, as formas que não mudam quando tudo muda. No momento em que conseguirmos fazer isso teremos descoberto a “impressão digital” de uma particular sociedade.

 

O que chamamos de desenvolvimento, de um ponto de vista regulacional é, assim, apenas “a dança conforme a música”. Isso pode significar crescimento, expansão de uma ou várias características ou fatores, mas pode também não significar. Significa sempre mudanças relativas de fatores, uns em relação aos outros, em torno de valores ótimos. Crescimento de um fator (por exemplo, o econômico) não acompanhado por movimentos correspondentes de outros fatores (humanos, sociais, ambientais) em geral leva à insustentabilidade. Mas os economistas ainda vão levar algum tempo para perceber essas coisas.

 

Maturana e Varela, nos anos 80, já estabeleceram um importante paralelo entre o processo de vida e o processo de conhecimento. A chamada, por alguns, “Teoria do Conhecimento de Santiago”, é um conjunto de hipóteses sobre tal paralelo. Os ecologistas já haviam estabelecido um paralelo semelhante, entre o processo de vida – sobretudo em ecossistemas, mais do que em organismos e partes de organismos – e o processo de desenvolvimento. É daí, aliás, que nasce a idéia de desenvolvimento sustentável. Aventamos então a possibilidade de um paralelo entre o processo de conhecimento e o processo de desenvolvimento. Não se trata de uma grande descoberta. Qualquer um que estabelecesse uma relação lógica (na verdade, analógica) simples poderia chegar à mesma hipótese. Se ‘vida’ é análoga a ‘desenvolvimento’ e ‘vida’ é análoga a ‘conhecimento’, então ‘desenvolvimento’ é análogo a ‘conhecimento’.

 

Mas dizer que tanto o processo de vida quanto o processo de conhecimento são análogos ao processo de desenvolvimento admite alguns pressupostos e tem conseqüências importantes. Um desses pressupostos é o de que deve haver uma estrutura comum, que vive e aprende e se desenvolve – sendo essas três coisas, talvez, três maneiras de olhar um mesmo processo estrutural (estrutural no sentido em que Maturana emprega essa expressão e não nos sentidos em que a filosofia estruturalista ou o marxismo a empregaram). Essa estrutura é a rede. Só pode viver o que está conectado em rede. Só pode aprender o que tem o padrão de rede. Só pode se desenvolver o que tem a configuração de rede.

 

Se o cérebro é capaz de aprender é porque ele não é uma CPU de computador, mas tem a estrutura de rede. Se um acidente destruir uma parte do cérebro, sendo tal dano irreversível na medida em que o componente destruído não poderá ser refeito, isso não significa que não possa ser compensável, isto é, que sua função não seja assumida por outro nodo da rede ou por uma nova combinação de conexões entre esse nodo e os demais. Estamos falando de regulação. Não da regulação operada por uma instância superior, top down ou de fora para dentro. Estou falando da regulação própria que só pode ser operada por uma rede. Os estímulos podem vir de fora, mas o seu processamento ocorre dentro. Trata-se de autoregulação.

 

Uma conseqüência importante dessa concepção é que o sujeito deixa de ser o indivíduo evoluindo e passa a ser a rede aprendendo. A rede aprende, entretanto, de um modo bastante diferente daquele que (imaginávamos) ocorre com os indivíduos. A rede aprende toda a vez que é obrigada a se autoregular. A rede aprende toda vez que gera nova ordem, toda a vez que se manifesta o fenômeno da emergência.

Sustentabilidade é o que chamamos de desenvolvimento com base em um modelo regulacional da mudança, ou seja, um modelo que não é nem (apenas) transformacional, nem (apenas) variacional. Transformações e variações acontecem o tempo todo. Mas transformações não são unicamente o desdobramento de um projeto prefigurado, contido em germe, em um programa arquivado em um genoma. E variações não são o resultado da replicação imperfeita desse projeto diante da mudança totalmente aleatória das circunstâncias. A nova ordem implicada na mudança só pode emergir porque a transformação e a variação passam a ser reguladas. Essa nova ordem emerge quando há regulação da mudança. Quem regula a mudança, desse ponto de vista, é a rede social. Ela se adapta e conserva seus padrões de adaptação. Ela só consegue conservar a adaptação porque reconstrói (ou seja, muda) seus programas de adaptação a partir desse padrão (a identidade de uma rede social). Sustentabilidade, isto é, desse ponto de vista, desenvolvimento, só pode existir quando existe ordem emergente, quer dizer, auto-regulada.

 

Novamente aqui é evocado um poderoso paralelo heurístico. Se em termos biológicos sustentabilidade é a mesma coisa que vida, em termos sociais sustentabilidade é a mesma coisa que desenvolvimento. A vida cessa quando se rompe a congruência entre o indivíduo e o meio, o que significa incapacidade de manter uma correspondência dinâmica com os outros elementos da rede que possibilite a autopoiese. O desenvolvimento (sustentável) ocorre a não ser enquanto exista auto-regulação social.

 

Mas há ainda um outro paralelo heurístico. Assim como o processo de vida é análogo ao processo de conhecimento, o processo social – ou seja, o processo de desenvolvimento social de um ponto de vista regulacional (ou para uma teoria sistêmica do desenvolvimento, poder-se-ia dizer) – é também comparável ao processo de conhecimento. É assim que se pode então dizer que a sociedade se desenvolvendo é sinônimo de sua rede social aprendendo. Aprendendo o quê? Aprendendo a se auto-regular. Aprender, aqui, significa ser capaz de reconstruir seu programa de adaptação; ou seja, ser capaz de construir um outro (novo) programa a partir da (mesma) matriz de identidade, quer dizer, do mesmo padrão que caracteriza uma sociedade particular porque contém os invariantes da configuração e da dinâmica de sua rede social.

 

Ocorre que uma sociedade particular capaz de fazer isso é sempre uma sociedade local. É por isso que se diz que todo desenvolvimento (sustentável) é local, porque ‘todo bottom up é local’, porque todos os conhecimentos tomados (a partir de baixo) são locais, quer dizer, são tomados com base em avaliações locais das circunstâncias mais amplas ou das condições mais gerais. A emergência (quer dizer, o surgimento de uma nova ordem por auto-regulação) se dá a partir do local; inclusive uma ordem emergente de caráter mais global é construída a partir de interações locais.

 

Sistemas complexos são capazes de fazer isso, ou seja, de configurar ordem mais global (macrocomportamentos) a partir de regras locais, tornando-se capazes de comportamento emergente, de inteligência coletiva, de swarm intelligence, quando seus elementos se concentram na solução dos mesmos problemas (que são, então, forçosamente, problemas locais).

 

Sociedades (de massa) não são capazes de fazer isso, mas comunidades (de projeto) sim. Ou melhor, sociedades só são capazes de fazer isso se as comunidades de projeto que se formaram no seu seio fizerem isso, como percebeu Jane Jacobs, em outros termos, há 40 anos. Só comunidades de projeto – que se dedicam, por milhares de micromotivos diferentes das pessoas e grupos que as compõem – à resolução dos mesmos problemas locais, podem ser capazes de adquirir a dinâmica de sistemas complexos adaptativos e, assim, podem ser sustentáveis. É por isso que uma nova visão do desenvolvimento como a que está sendo cogitada aqui aponta para o desenvolvimento local. Desenvolvimento local, nesse sentido, não é uma redução, não é uma particularização. Desenvolvimento local nada mais é do que desenvolvimento comunitário, ou seja, desenvolvimento de comunidades de projeto a partir dessas próprias comunidades. Desenvolvimento, nesse sentido, é uma emergência. E o terreno da emergência é o local.

 

Só redes podem aprender, mas não é qualquer rede que aprende. Só redes podem ser sustentáveis, mas não é qualquer rede que pode ser sustentável. No que tange a sociedades humanas, só em comunidades de projeto o tecido social pode atingir o grau de tramatura suficiente para ensejar a fenômeno da autoregulação. Comunidades são sociedades que atingiram certo grau de tramatura do seu tecido social. Uma ordem na sociedade global – se não for autocrática – só poderá emergir, quer dizer, vir de baixo, do local.

 

Tudo isso pode ser analisado por teorias do capital social se considerarmos que o fator do desenvolvimento designado pela noção de capital social nada mais é do que a rede social. É o grau de conectividade, o número de caminhos (medido, se quisermos, pela ‘extensão característica de caminho’ ou pelo ‘comprimento de corrente’) existentes entre os nodos de uma rede social que dá o poder social de uma sociedade, ou seja, a sua capacidade de empoderar os seus elementos para que eles criem, inovem, empreendam, assumam protagonismo – enfim, se desenvolvam na medida em que desenvolvem o coletivo do qual fazem parte. Desenvolvimento (sustentável) é, assim, a coincidência de auto-desenvolvimento e comum-desenvolvimento. Em outras palavras, como dizia Jacobs (2000), desenvolvimento é sempre a operação de uma rede de co-desenvolvimentos interdependentes.

 

Qualquer ordem não-autocrática só pode existir se for emergente. Temos aqui uma pista para estabelecer um nexo conotativo entre desenvolvimento e democracia. Assim como o desenvolvimento é o ‘aprender’ de uma comunidade, a democracia é um ‘deixar aprender’. Como pacto de convivência, a democracia é um modo de regulação de conflitos que preserva a existência dos conflitantes, que permite a continuidade de sua experiência de convivência social, que possibilita a expansão continuada dos graus de liberdade para que possa haver cada vez mais experimentação e mais aprendizagem e, por conseguinte, mais desenvolvimento.

 

É por isso que não pode haver desenvolvimento (tomado em termos regulacionais, na visão proposta aqui, ou seja, desenvolvimento sustentável ou sustentabilidade) sem democracia. Ou melhor, é por isso que mais desenvolvimento (ou sustentabilidade) implica mais democracia, avanço do processo de democratização, de democratização da democracia. Pode haver crescimento (da renda, da riqueza ou de qualquer outra variável extra-econômica da equação do desenvolvimento, como o conhecimento, por exemplo) sem democracia, mas não pode haver, nesse sentido, desenvolvimento.

 

E é por isso que desenvolvimento depende da produção de capital social, ou seja, da capacidade de uma sociedade de gerar ordem espontaneamente a partir da cooperação. Em outras palavras, é por isso que desenvolvimento depende da capacidade de uma sociedade de constituir comunidade, de tramar o seu tecido social a ponto de permitir a eclosão dos fenômenos associados à emergência (multiplicidade, diversidade, reverberação, circuitos de retroalimentação de reforço ou de feedback positivo etc.).

O grande estadista grego Péricles (495-429 a. C.) – considerado um dos pais da democracia – usava a palavra “idiotes” para designar os atenienses que, alegando ter de cuidar de seus próprios assuntos, não participavam das reuniões para tratar de questões de interesse coletivo.

 

É incrível como, dois mil e quinhentos anos depois, continuamos cultuando uma cultura econômica que produz idiotas (no sentido grego – e original – do termo).

 

Tal é a cultura, ainda predominante, do desenvolvimento. Imaginamos que desenvolvimento é o resultado de crescimento econômico que se atinge em virtude de um dinamismo que se instala na sociedade quando cada indivíduo se lança na busca desenfreada pela satisfação de seus interesses materiais egoístas.

 

Modernamente justificamos essa crença lançando mão de uma teoria (darwiniana) da evolução, baseada em um modelo variacional da mudança. Trata-se de uma perspectiva mercadocêntrica, quer dizer, centrada no mercado e que imagina que a “lógica” e a racionalidade do mercado dão conta de explicar o funcionamento das outras esferas da realidade social (ou dos outros tipos de agenciamento), como o Estado e a sociedade civil.

 

Vamos ver melhor o que é isso.

 

O modelo variacional se opõe ao modelo transformacional da mudança. Richard Lewontin (1998), em “A tripla hélice”, aborda tal diferença da seguinte maneira:

 

“O termo desenvolvimento é uma metáfora que traz consigo um compromisso anterior quanto à natureza do processo. Desenvolvimento (development em inglês; Entwicklung em alemão; desarrollo em espanhol e sviluppo em italiano) é, literalmente, o desdobrar ou o desenrolar de algo que já está presente e em certo sentido pré-formado. Essa mesma palavra é utilizada em inglês para nomear o processo de revelar uma imagem fotográfica. A imagem já está imanente no filme, no interior da câmera, e o processo de revelação – development, em inglês – simplesmente torna visível a imagem latente. É exatamente essa a visão da biologia do desenvolvimento a respeito do desenvolvimento de um organismo. A moderna biologia do desenvolvimento é totalmente concebida em termos de genes e organelas celulares, cabendo ao ambiente apenas fazer as vezes de cenário. Considera-se que os genes no ovo fertilizado determinam o estado final do organismo, enquanto o ambiente em que o desenvolvimento ocorre é tão-somente um conjunto de condições propícias a que os genes se expressem, assim como o filme fotográfico, ao ser exposto, produzirá a imagem que nele já está imanente, quando colocado nos líquidos apropriados e na temperatura adequada”.

 

Lewontin prossegue afirmando que:

 

“O emprego do conceito de desenvolvimento para designar as mudanças pelas quais um organismo passa durante a sua vida não é simplesmente um caso em que a linguagem disponível influencia o conteúdo das idéias. Quando se decidiu transformar uma língua antiga, o hebreu, em língua moderna, dotada de vocabulário técnico, a palavra escolhida para designar o desenvolvimento de um organismo – Lehitpateach – foi a mesma que se escolheu para nomear o processo de revelação de um filme, mas na forma reflexiva, de modo que um organismo literalmente “desenvolve a si próprio”. Além disso, a palavra evolução tem o mesmo significado original de desdobramento, e por essa razão Darwin não a empregou na primeira edição da “Origem das Espécies”. Antes de Darwin, toda a história da vida na Terra era vista como uma progressão ordenada de estágios imanentes. Ainda que Darwin tenha libertado a teoria desse elemento de predeterminação, sua história intelectual deixou a sua marca na palavra.

 

O uso desses termos reflete um comprometimento profundo com a idéia de que os organismos, tanto em suas histórias individuais de vida como em sua história evolutiva coletiva, são determinados por forças internas, por um programa interno, do qual os seres vivos reais são apenas manifestações exteriores. Esse comprometimento é uma herança da visão tipológica da natureza, de origem platônica, segundo a qual eventos materiais reais, que podem diferir uns dos outros em graus variados, são realizações imperfeitas e acidentais de tipos idealizados. O real é o ideal visto “através de um espelho, indistintamente”. Essa foi a visão das espécies que predominou até o século XX. Cada espécie era representada por uma descrição de “tipo” e um espécime real era depositado em alguma coleção como representativo desse tipo, enquanto todos os outros indivíduos da espécie, variando com relação ao “tipo”, eram vistos como realizações imperfeitas do ideal subjacente. O problema da biologia consistia, então, em dar uma descrição anatômica e funcionalmente correta dos “tipos” e explicar as suas origens. A biologia evolutiva moderna rejeita esses ideais platônicos e sustenta que a variação efetiva entre os organismos é a realidade que precisa ser explicada. Essa mudança de orientação é conseqüência da ascensão da visão darwiniana de que a variação efetiva entre os organismos é a base material de que depende a mudança evolutiva.

 

O contraste entre a teoria platônica moderna do desenvolvimento e a teoria evolutiva darwiniana reflete o contraste entre duas maneiras de explicar as modificações dos sistemas através do tempo. O desenvolvimento é uma teoria transformacional da mudança. Nas teorias transformacionais todo o conjunto dos objetos modifica-se porque cada objeto individual sofre durante o seu tempo de vida os efeitos de uma mesma história geral. O cosmos evolui porque todas as estrelas que têm a mesma massa inicial passam pela mesma série de modificações termonucleares e gravitacionais em um caminho que as leva a uma posição previsível na seqüência principal. Como grupo, as pessoas de setenta anos são mais grisalhas e mais esquecidas do que o conjunto das que têm 37 anos, porque a mente e o corpo de todos os indivíduos envelheceram. Por outro lado, a teoria darwiniana da evolução orgânica baseia-se em um modelo variacional da mudança. O conjunto dos indivíduos modifica-se não porque cada indivíduo passe por desenvolvimentos paralelos durante a vida, e sim porque existe variação entre os indivíduos e algumas variantes produzem mais descendentes do que outras. Assim, o conjunto como um todo se modifica por causa de uma alteração na representação proporcional das diferentes variantes, cujas propriedades específicas permanecem inalteradas. Se os insetos estão se tornando mais resistentes aos inseticidas não é porque cada indivíduo adquire níveis cada vez mais altos de resistência durante a sua vida, mas sim porque as variantes resistentes sobrevivem e se reproduzem, enquanto os organismos suscetíveis morrem”.

 

Lewontin, portanto, defende a idéia de que “o organismo não é determinado nem pelos seus genes, nem pelo seu ambiente, nem mesmo pela interação entre eles, mas carrega uma marca significativa de processos aleatórios”.

 

Mas o fato de que ele possa ter razão no que tange a evolução de organismos, não significa que teorias transformacionais da mudança não se apliquem às sociedades humanas. Pode significar, simplesmente, que sociedades humanas não são como organismos que evoluem segundo um modelo variacional. E que sociedades humanas passam por processos transformacionais de mudança. Ora, como ele mesmo ressalta, “o desenvolvimento é uma teoria transformacional da mudança”. E, ou admitimos que o desenvolvimento se aplica a sociedades humanas ou, então, é melhor abandonar o conceito de desenvolvimento.

 

Afirmamos que o modelo variacional, quando aplicado a sociedades humanas, corresponde a uma perspectiva mercadocêntrica, porque é possível que modelos variacionais se apliquem, dentro de certos limites, a algumas realidades sociais, como mercados. É mesmo possível, ademais, que Darwin tenha se aproximado de uma hipótese variacional a partir da observação do que ocorria em sociedades humanas sob forte influxo da dinâmica mercantil, como a sociedade inglesa da sua época. E que, então, sua compreensão da evolução biológica tenha sido, em alguma medida, decalcada dessa observação, como sugere a idéia de luta pela vida com toda aquela visão competitiva embutida.

 

Por outro lado, outras visões biológicas (como, por exemplo, as de Humberto Maturana, Lynn Margulis, Richard Strohman e Mae-Wan Ho) indicam que para explicar a mudança evolutiva não se pode olhar somente para o organismo ou para o gene e sim para as redes que regulam tal mudança. Tais redes celulares são sistemas complexos, com múltiplos laços de realimentação que fazem com que os padrões de atividade genética mudem continuamente com a mudança das circunstâncias, para manter o tempo todo uma congruência dinâmica com o meio, sem o que não poderia haver o que chamamos de vida.

 

Assim, é possível que mesmo a teoria variacional não explique totalmente o que acontece na evolução biológica e tenhamos de lançar mão do modelo das redes reguladoras. E que tal modelo possa também se aplicar a redes sociais para explicar o fenômeno chamado de desenvolvimento. Neste caso, o desenvolvimento social seria um fenômeno próprio das redes sociais: sistemas complexos que apresentam características formalmente semelhantes às redes celulares. Segundo essa perspectiva, os padrões de comportamento surgiriam e se modificariam na interação com o meio, sem o que não poderia haver isso que chamamos de cultura. Ou seja, a forma e o comportamento culturais manifestar-se-iam como propriedades que emergem da dinâmica complexa das redes sociais.

 

Portanto, pode existir um outro modelo para a mudança, além do modelo variacional e do modelo transformacional: o modelo sistêmico regulacional, que não exclui, no caso dos organismos biológicos, nem os genes, nem o ambiente, nem a interação entre eles, nem os processos aleatórios. Mas que acrescenta um outro elemento: as redes compostas por genes, proteínas, hormônios, enzimas e complexos moleculares. A diferença é que o “programa” não estaria arquivado no genoma e sim nessa rede. No caso das sociedades humanas, haveria também essa rede, composta, é claro, por outros nodos; e. g., pessoas e organizações.

 

A rede não predetermina o que vai acontecer, mas combina e recombina, continuamente, eventos e relações já existentes com novos eventos e novas relações introduzidas pelas mudanças endógenas e exógenas. E não importa se tais alterações são ou não casuais. O programa regulador – que “roda” na rede e não nos organismos, nas partes de organismos ou em outros nodos que a compõem – tende a assimilar as alterações casuais de tal sorte a torná-las adequadas à conservação da adaptação do organismo ao meio. Esse programa é autopoiético e também vai se modificando para dar conta de exercer o seu papel regulador em circunstâncias que vão se modificando. Ou seja, a rede aprende.

 

A rede aprendendo é o sujeito e não o organismo evoluindo.

 

Se adotarmos esse ponto de vista, deixamos para trás a questão de se deve ou não deve haver um paralelo entre o desenvolvimento (social) e a evolução (biológica) e se tal paralelo seria ou não seria legítimo. Sociedades humanas nada têm a ver com organismos, partes de organismos ou ecossistemas a não ser enquanto são, igualmente, reguladas por redes – sistemas complexos que apresentam, como tais, características e propriedades análogas.

 

Desenvolvimento – um conceito aplicado a sociedades humanas – seria, então, um processo de mudança, regulado pelas redes sociais, que depende de estímulos internos e externos, múltiplas interações entre alterações internas e externas, aleatórias ou não, cujo “propósito” é assegurar a conservação dinâmica dessas próprias redes e, nessa medida, dos elementos que a compõem. 

 

Em primeiro lugar é preciso reconhecer que todo desenvolvimento é desenvolvimento social, que o conceito de desenvolvimento se aplica a sociedades e não a quaisquer outros sistemas de seres animados ou inanimados, de entes concretos ou conceituais. Do ponto de vista social propriamente dito, quer dizer, da rede social e da sua fenomenologia, o que chamamos de desenvolvimento é sempre uma mudança na rede social, vale dizer, naquelas variáveis que a caracterizam. Existem mudanças sociais que podemos interpretar como desenvolvimento: são aquelas que alteram disposições no espaço-tempo dos fluxos (da rede) de sorte a produzir determinados efeitos que são vistos, de fora, coletivamente, como criação de ambientes favoráveis à inovação e ao protagonismo de aglomerados de indivíduos e, individualmente, como empoderamento de seus nodos em termos de aumento da capacidade desses indivíduos de empreender. Diga-se o que se quiser dizer sobre o desenvolvimento, tais indicadores são definitivos: não podemos falar da ocorrência do fenômeno do desenvolvimento de um determinado conjunto de seres humanos a não ser enquanto estejam sendo gerados ambientes sociais favoráveis e novas capacidades (ou habilidades ou competências) permanentes dos elementos que constituem tal conjunto. Isso, como sabemos, tem a ver com boa governança e prosperidade econômica, mas não é reflexo mecânico e imediato da expansão econômica (ou do crescimento do produto).

 

Mas esses indicadores, lato sensu, de desenvolvimento, por meio dos quais captamos e interpretamos certas mudanças sociais como desenvolvimento, não revelam o que está acontecendo um nível abaixo. Alguma coisa ocorreu no espaço-tempo dos fluxos para que tais efeitos pudessem ser observados. O encorajamento de que necessita um indivíduo para sonhar e correr atrás dos seus próprios sonhos não é um impulso que nasce da sua propensão intrínseca para inovar ou das suas qualidades inatas para ser um empreendedor e sim de uma espécie de indução exercida por um “campo de força” que é gerado pela configuração das relações que envolvem os outros indivíduos e que depende da sua posição nessa configuração. Ou seja, o chamado empowerment é uma função social, que parte do ambiente para o indivíduo – e não o contrário –, mas que depende de coisas como a inserção desse indivíduo em uma rede com maior densidade (“cluster”), do seu grau de intermediação ou peso como conector (“betweenness”) e da sua proximidade a outros nodos ou do seu peso como atalho (“closeness”).

 

Para quem vê de fora e não percebe o processo endógeno e subterrâneo que ocorre na intimidade da rede social, essas observações podem soar como especulação abstrata. Para quem vê por cima – e, portanto, não vê o que há de propriamente ‘social’ no processo (e o social é o processo…) – uma inovação é fruto das boas idéias (que surgem por acaso quando há um virtuoso casamento com a necessidade) ou dos conhecimentos (capital humano) do inovador. Esse enfoque não permite perceber, como dizia William Irwin Thompson (1987), que as idéias, como as uvas, dão em cachos. Duncan J Watts (aquele jovem pesquisador de Colúmbia e Santa Fé, que anda bisbilhotando a intimidade do social, estudando o “Small World Phenomenon” e verificando os graus de separação da rede social global) poderia fazer pouca coisa em Caruaru, assim como os pós-PHDs dos keiretsu japoneses não conseguem competir, segundo a explicação de Fukuyama (1999), em termos de inovações por minuto, com aquelas turmas de jeans e tênis que andam almoçando juntas nos bares e lanchonetes do Silicon Valley (capital social).

 

No caso do desenvolvimento, alguma coisa que não vemos está acontecendo para “produzir” o que vemos. Essa coisa que não vemos é o ‘social’, uma realidade que, por sua vez, não pode ser operada se não mexermos nos fluxos que a “produzem”. E não há outra maneira de fazer isso a não ser alterando padrões de organização e modos de regulação (quer dizer, fazendo política).

 

Inconsciente e desgraçadamente estamos mexendo o tempo todo nesses fluxos, sobretudo alterando a topologia das redes que configuram, por meio de um tipo de política que impede a sua distribuição. Nossa intervenção no social se dá, em geral, pela colocação de obstáculos à livre fluição, introduzindo todo tipo de filtros, quer dizer de centralizações que impedem que a rede social seja uma rede mais distribuída. O poder político – tal como exercido pelo velho sistema político – é o poder de separar, obstruir e excluir e não o de juntar, desobstruir e incluir. Como dizia Paul Valery, numa frase bastante citada, “a política é a arte de impedir as pessoas de participarem dos assuntos que, propriamente, lhes dizem respeito”.

 

Nossas observações sobre os fatores de insucesso em experiências de indução do desenvolvimento local indicam que, em 90% dos casos (senão mais), tais fatores são de natureza política. O assistencialismo, o clientelismo, a centralização e a criação de um clima adversarial na base da sociedade (em geral por razões político-eleitorais) são responsáveis por boa parte das dificuldades que vêm enfrentando, cotidianamente, indivíduos e instituições dedicados à promoção do desenvolvimento em localidades e setores. Além disso, o sistema político conspira contra a inovação, encara o crescente protagonismo das populações como uma ameaça, despreza (e desperdiça) os recursos novos que poderiam ser aportados por outros grupos e indivíduos que não pertencem à patota daqueles que administram os governos como se fossem condomínios privados (sim, o sistema político privatiza a esfera pública e, assim, obstrui o processo substantivo de democratização da sociedade).

 

Mas do fato de a política ser predominantemente assim, não se pode derivar que ela esteja condenada a ser sempre assim (como quer a realpolitik). Existem fortes evidências de que isso pode ser mudado. Basta ver que em comunidades de projeto – articuladas em rede, sobretudo em redes comunitárias de desenvolvimento – estão ocorrendo as mais notáveis inovações políticas democratizantes da atualidade. Essas evidências apontam para a existência de uma equivalência prática entre três tipos de iniciativas ou tarefas: induzir o desenvolvimento local <=> animar redes sociais distribuídas (P2P) <=> democratizar a política (na base da sociedade e no cotidiano do cidadão). Ou seja, é razoável apostar na hipótese segundo a qual não haverá desenvolvimento (sustentável, é claro; pois que se não for, não é desenvolvimento) diante de graus insuficientes de distribuição das redes sociais e de democratização da sociedade.

 

Resta muita coisa a ser dita para trocar em miúdos as principais alegações contidas aqui, de sorte a mostrar, sobretudo para quem não está familiarizado com os novos conceitos usados no estudo das redes sociais, que o grau de democratização da sociedade (ou de democratização – ou radicalização – da democracia) tem a ver com o grau de desenvolvimento, ou melhor, com a capacidade de desenvolvimento de uma determinada sociedade. Por ora, podemos dizer, que John Dewey estava coberto de razão ao, insistindo no caráter radical da democracia, pressentir as idéias de rede comunitária e de rede social distribuída, antevendo os processos de disseminação “viral” que só podem se efetivar pelos meios próprios de redes P2P (peer-to-peer). Pois é assim – e não de outra forma qualquer – que ele termina a sua principal contribuição à teoria política, o livro “O Público e seus Problemas” (1927):

 

“There is no limit to the liberal expansion and confirmation of limited personal intellectual endowment which may proceed from the flow of social intelligence when that circulates by word of mouth from one to another in the communications of the local community. That and that only gives reality to public opinion. We lie, as Emerson said, in the lap of an immense intelligence. But that intelligence is dormant and its communications are broken, inarticulate and faint until it possesses the local community as its medium”.

 

Quando falam em ‘social’ as pessoas, em geral, querem se referir àquelas condições que permitem a satisfação de necessidades humanas. Não é por acaso que as chamadas políticas sociais, sobretudo para os governos, são aquelas que ofertam produtos (ações, programas e serviços) de educação, de saúde etc; ou seja: componentes do capital humano (ou do desenvolvimento humano) e não do capital social (ou do desenvolvimento social). Há, ainda, um sentido mais restrito – quase pejorativo – do termo social: aquele que se pega emprestado para designar políticas de combate à pobreza ou à desigualdade, sejam políticas de geração de emprego e renda (tomando a pobreza como insuficiência de renda e a desigualdade como desigualdade econômica, quer dizer, verificada na distribuição desigual da renda), sejam políticas ditas de assistência social (em geral compensatórias ou protetivas, quer dizer, ofertadas pelo Estado para compensar defasagens de inserção verificadas no processo econômico, de distribuição da renda e da riqueza ou para proteger setores vulneráveis ou em situação de risco da população, que não poderiam, por seus próprios esforços, lograr uma inserção adequada em uma sociedade mercantil, ter acesso aos recursos mínimos capazes de garantir uma vida digna ou, mesmo, sobreviver).

 

Digo que este último sentido do termo, pelo menos em alguns casos, é pejorativo, porquanto o ‘social’ fica parecendo uma espécie de “sopa dos pobres”, “pãozinho de Santo Antonio”, alguma coisa que deve ser dada a alguém que não tem condições de obtê-la por seus próprios esforços e méritos. É como se desenvolvimento fosse matéria econômica e, para aqueles pobres coitados que não conseguem se inserir no mundo econômico e ficam à margem das suas dinâmicas, então administramos o remédio, paliativo, do ‘social’. Não se pode negar que aqui se encontram aqueles elementos do “pobrismo” – um tipo de ideologia que contaminou os discursos de inclusão social dos que defendem o protagonismo único ou preponderante do Estado na promoção do desenvolvimento social.

 

Por incrível que possa parecer, raramente se pensa na ‘sociedade’ quando se emprega o termo ‘social’. Em geral não se faz esforço para explicitar uma visão da sociedade, da sua morfologia e da sua dinâmica, quando se fala do ‘social’. A sociedade é encarada, para todos os efeitos práticos, como a coleção dos humanos, assumindo-se o pressuposto econômico (sem declará-lo) segundo o qual o desenvolvimento da sociedade (o conjunto) é uma espécie de resultado do desenvolvimento dos indivíduos (os elementos do conjunto). Não se percebe, assim, que o ‘social’ não se refere propriamente aos indivíduos e sim ao que existe ou ocorre (às relações) entre eles.

 

É por isso que grande parte das intervenções sociais (ações e programas governamentais ou não-governamentais) são ações de desenvolvimento humano e não de desenvolvimento social. Se pedirmos a uma pessoa qualquer para dar um exemplo de programa social é improvável que ela cite um programa de telecentros comunitários. Falará do combate a pobreza, falará das ações de assistência social voltadas às populações carentes, falará de educação, saúde, saneamento básico, transporte, habitação… mas não falará de alguma coisa que incida diretamente sobre as relações (entre os elementos) que constituem o “corpo” da sociedade (o conjunto), nem do seu “metabolismo” (quer dizer, da dinâmica da interação entre os elementos desse conjunto).

 

A sociedade, entretanto, não é uma mera coleção de indivíduos humanos, um conjunto que se possa definir pelas características intrínsecas de seus elementos; queremos dizer com isso que os mesmos elementos podem gerar diversos tipos de sociedade, bastando, para tanto, que se mudem as relações entre eles. A sociedade, portanto, é alguma coisa que só pode ser adequadamente designada pela noção de ‘sistema’ (e de sistema complexo, com evidentes características adaptativas; e, se não fosse assim, poderíamos jogar no lixo todas as conversas sobre sustentabilidade).

 

São os padrões de relação que caracterizam a sociedade. Como esses padrões se modificam continuamente (e isso é a dinâmica social), a rigor, são os invariantes encontrados nesses padrões (aquilo que não muda, ou que não muda tão rapidamente quanto as configurações do permanente fluir que constitui as próprias relações) que podem distinguir uma sociedade particular de outra sociedade particular. Tais invariantes nada mais são do que modos de fluir que se tornam recorrentes, caminhos muito trafegados que, por isso, acabam constituindo singularidades topológicas no “tecido social” (ou seja, estou falando sobre aquelas coisas que, vistas de fora, são chamadas de identidades).

 

Cada vez fica mais evidente que esses padrões são padrões de rede (definidos pela existência de múltiplos caminhos entre os nodos). Com o aumento do número de conexões – ou com o aumento da conectividade dessas redes – (impulsionado recentemente pela possibilidade de conexão em tempo-real ou sem-distância), diz-se que está emergindo uma sociedade-rede.

 

Sim, mas, na verdade, toda sociedade propriamente dita é uma sociedade-rede. Sem rede social não subsiste o conceito de sociedade, porquanto o que chamamos de ‘sociedade’ é, propriamente falando, a configuração móvel das relações estabelecidas entre os seus elementos (os indivíduos) e não o simples ajuntamento territorial desses indivíduos. Conquanto, dito assim, tudo pareça tão óbvio, surpreendentemente, não é: uma prova disso é que as pessoas continuam pensando nas sociedades e querendo intervir no ‘social’ como se a rede social não existisse. E não se esforçam por compreender a morfologia e a dinâmica das redes sociais sobre as quais querem intervir.

 

Não é difícil verificar a validade desse meu juízo: bastaria fazer uma pesquisa entre os policymakers governamentais e não-governamentais (de fundações e institutos empresariais ou de ONGs) da chamada “área social”, pedindo-lhes para conceituar rede social, ou para descrever alguns constructs importantes utilizados na análise de redes sociais ou, ainda, para citar meia dúzia de pesquisadores ou de trabalhos científicos importantes nessa área em andamento nos últimos dez anos. Mesmo sem fazer a pesquisa sugerida, já sabemos que o resultado desse survey será decepcionante e, se quisermos preservar a credibilidade dos responsáveis por nossas “políticas sociais”, impublicável.

 

Se o que chamamos de social é, stricto sensu, a rede social, devemos então concentrar nossa atenção no que caracteriza essa rede. Mas não podemos caracterizar uma rede e, mais especificamente, uma rede social, com as ferramentas conceituais e analíticas fornecidas pela velha sociologia, cujas categorias são inadequadas ou impotentes para captar e explicar processos novos (ou só percebidos recentemente) como “closeness“, “betweenness“, “clustering” e “swarming” (e os conceitos criados para captar tais processos são tão recentes que permanecem ainda com suas denominações originais e provisórias).

 

Bom, aqui começa a fazer sentido a necessidade de estudar as redes para compreendê-las e para poder operar sobre elas. E começa a fazer falta o conhecimento que pode ser fornecido por novas disciplinas como a SNA (Social Newtwork Analysis) e os conhecimentos derivantes do estudo dos sistemas complexos aplicados à “nova ciência das redes”: modelagem de redes “real-world”, redes como estruturas e redes como sistemas dinâmicos (um excelente reader sobre isso foi recentemente elaborado por Mark Newman, Albert-László Barabási e Duncan Watts (2006): “The Structure and Dynamics of Networks”).

 

O que caracteriza uma rede são as variáveis ligadas à sua topologia (se – e em que grau – trata-se de uma rede centralizada, descentralizada ou distribuída, ou seja, de uma rede propriamente dita), à sua densidade (ou conectividade), às suas disposições morfológico-dinâmicas (e aqui entram os eventos de “closeness”, “betweenness”, “clustering” etc.), à quantidade maior ou menor e à distribuição de “hubs” (ou conectores), “inovadores” e “netweavers”, à manifestação de processos de “swarming” (ou de “produção” disruptiva de ordem emergente que pode se manifestar num conflito que se dissemina e engaja seus contendores bottom up, por “contaminação viral”) e a várias outras características que indicam sua predisposição para manter ou alterar sua configuração geral.

 

Ora, todas essas variáveis são de tal natureza que alterá-las implica necessariamente mexer em padrões de organização e em modos de regulação de conflitos. Mas isso é, como sabemos, por definição aliás, nada diferente do que aquilo que constitui o objeto mesmo da política. Ou seja, a rede evoca primeiramente o mundo da política e não, como poderia parecer, o mundo da sociologia.

 

Dando um passo adiante na presente reflexão, chegamos assim ao que parece ainda mais surpreendente: não há outra maneira (sistêmica) de intervir no ‘social’ (propriamente dito, i. e., como sistema) a não ser pela política.

 

Do ponto de vista das redes, o mundo da política é o mundo da sociedade, pois tem a ver com a maneira como os indivíduos se conectam entre si e como os fluxos que atravessam tais conexões (a rigor, que as constituem) se combinam e recombinam, se potencializam (gerando múltiplos laços de realimentação de reforço) ou se anulam. Fluxos que se anulam concorrem para gerar estados de equilíbrio, diminuindo o dinamismo da sociedade (e, conseqüentemente, a sua “capacidade de desenvolvimento”; para um sistema poder se desenvolver é preciso que ele tenha estabilidade e que esteja afastado do estado de equilíbrio). Deve-se fazer um esforço para perceber que aqui estamos falando de política, reinterpretando – a luz do olhar sistêmico – conceitos como forças, ofensiva, defensiva, confronto, alianças, correlações de forças (que são idéias deslizadas indevidamente da “arte da guerra” para a política), porém agora como mensagens, fluxos, combinações de fluxos, reverberação, disseminação…

 

Assim, para dar um exemplo, ao invés de falarmos da capacidade de uma determinada força (política) de se impor às demais na correlação, fazendo com que a resultante aponte – após um confronto ou uma negociação qualquer – para uma direção próxima à sua direção original (um cálculo tipicamente político, olhado de uma perspectiva não-sistêmica), podemos falar agora das condições “ambientais” para que uma mensagem, emitida por um nodo da rede social, alcance outros nodos, o que tem a ver com “betweenness”, ou seja, com o grau de intermediação (medido pelo número de vezes que um nodo aparece no caminho mais curto entre outros dois nodos) e que nos dá uma medida do seu peso como conector (como “hub”), quer dizer, da sua importância (ou “peso político”) para que a rede se mantenha unida. E o que tem a ver também com “closeness”, ou seja com a soma das distâncias que separam um nodo dos outros nodos da rede (medindo a sua capacidade de chegar a outro nodo qualquer). E o que tem a ver, ainda, com “clustering”, como tendência de aglomeração que reduz os graus de separação entre os nodos produzindo o efeito chamado “small world”.

 

Tudo isso é político no sentido próprio do termo (escoimado da degeneração conceitual que foi introduzida pela chamada ‘fórmula inversa – e perversa – de Clausewitz’: “a política como continuação da guerra por outros meios”, a qual, na verdade, se refere, não à política, mas à própria guerra, ou a sua continuação por outros meios. Aliás, desde Hobbes (1651) já sabemos que a guerra não é caracterizada pelo emprego de meios violentos e armas, pela “batalha ou pelo ato de lutar”, mas pela “disposição para tal”.

Hubs, inovadores e netweavers: na rede você é importante na medida da sua capacidade de exercer uma dessas três funções e não do seu exibicionismo, da sua desenvoltura em usar os semelhantes como instrumentos para a sua projeção ou da sua auto-reclusão estudada, baseada numa opinião muito favorável sobre si mesmo ou baseada no seu currículo.

 

Fama, glória, riqueza, poder, conhecimento atestado por títulos – que são sinais de sucesso em outros tipos de sociedade – tendem a não ser os atributos mais importantes na sociedade-rede. Vamos ver como é isso.

 

Hubs. Os hubs são os conectores, os nodos da rede social muito conectados, os entroncamentos de fluxos. Um hub não é necessariamente alguém com grande popularidade ou notoriedade e sim alguém com muitas relações, que pode acessar – e ser acessado por – outros nodos com baixo grau de separação.

 

Não é a fama que faz um hub. Pessoas famosas, celebridades, costumam ser, em geral, inacessíveis. Não são, portanto, conectores. Qualquer trabalho na rede social que não conte com seus principais hubs encontrará mais dificuldades para “conversar” com o que venho chamando de “rede-mãe”.

 

Também não é o conhecimento que faz um hub, a não ser que queiramos nos referir ao conhecimento das pessoas, quer dizer, aos contatos de confiança. Às vezes um hub é o chaveiro do bairro, no qual as pessoas têm confiança de que sua segurança residencial não será colocada em risco (e aqui novamente é evocada a imagem do filme Matrix: aquele ‘O Chaveiro’ era um programa; um hub, de certo modo, também é, um programa que “roda” na rede). Tocamos agora num ponto importante da dinâmica das redes: confiança. Para que um hub possa cumprir a sua função é necessário que as pessoas confiem nele.

 

Ao invés de conhecimento individual, um hub precisa do reconhecimento social. Trata-se de um reconhecimento diferente daquele que manifestamos em relação a uma celebridade: não é um reconhecimento das massas, do grande público, das multidões e sim o reconhecimento realizado um-a-um, molecular. Assim, pode-se dizer que o hub é “produzido” socialmente pela rede.

 

Inovadores. Os inovadores são muito diferentes dos hubs. Muitas vezes não são conhecidos – e nem conhecem – muita gente. Nem são, em geral, muito conectados. Às vezes, são até bastante isolados. Podem vir a ser amplamente reconhecidos, mas isso depende de fatores, em geral, fortuitos. A característica principal do inovador é emitir mensagens na rede que acabam produzindo mudanças de comportamento dos agentes (considerando a rede social como um sistema de agentes). Quando esse processo ocorre, em geral o inovador não sabe bem por que, nem o que, aconteceu. Formaram-se laços de realimentação de reforço (feedback positivo) e a mensagem emitida pelo inovador acabou sendo reforçada e amplificada, adquirindo condições de se disseminar pela rede. Tais mensagens podem ser idéias, modos-de-fazer ou estilos (como a moda, por exemplo), atitudes que contenham novos padrões (sim, um padrão é uma mensagem e pode ser transmitido como tal, como já nos ensinava, há tanto tempo, Norbert Wiener).

 

O inovador – tal como o hub – também é “produzido” socialmente pela rede. Ninguém vira inovador colocando sua inovação na TV ou nos jornais ou anunciando-a em um evento massivo. A inovação é uma perturbação no tecido social que vai se espalhando molecularmente, ponto-a-ponto. Pequenas perturbações, mesmo que partam da periferia do sistema (quer dizer, de regiões pouco clusterizadas da rede social) são capazes de se disseminar se conseguirem atingir uma espécie de tipping point (a coisa parece funcionar como na propagação epidemiológica), mas para cada configuração de rede e, a rigor, para cada tipo de mensagem, podemos ter um ‘ponto de desequilíbrio’ diferente (a partir do qual a mensagem passa a se disseminar exponencialmente).

 

Nem sempre, porém, os inovadores vêem os resultados da sua inovação. Muitas vezes eles desencadeiam mudanças de comportamento que só vão aparecer muito depois, quando não se pode mais atribuir a um inovador particular a paternidade pela inovação, pois é próprio da dinâmica da rede social que muitas mensagens se misturem, se combinem e se transformem em outras mensagens.

 

Netweavers. Os netweavers são os “tecelões” (para aproveitar o que poderia ter sido uma feliz expressão de Platão, no diálogo “O Político”, se ele não estivesse se referindo a um sujeito autocrático), e os animadores de redes voluntariamente construídas. Na verdade, eles constroem interfaces para “conversar” com a “rede-mãe”. Os netweavers não são necessariamente os estudiosos das redes, os especialistas em Social Network Analysis ou os que pesquisam ou constroem conhecimento organizado sobre a morfologia e a dinâmica da sociedade-rede. Os netweavers, em geral, são políticos, não sociólogos. E políticos no sentido prático do termo, quer dizer, articuladores políticos, empreendedores políticos e não cientistas ou analistas políticos.

 

Os políticos tradicionais, entretanto, não são netweavers e sim, exatamente, o contrário disso: eles hierarquizam o tecido social, verticalizam as relações, introduzem centralizações, obstruem os caminhos, destroem conexões, derrubam pontes (ou fecham os atalhos que ligam um cluster a outros clusters, separando uma região da rede de outras regiões), excluem nodos; enfim, introduzem toda sorte de anisotropias no espaço-tempo dos fluxos. Fazem tudo isso porque o tipo de poder com o qual lidam – o poder, em suma, de mandar alguém fazer alguma coisa contra a sua vontade – é sempre o poder de obstruir, separar e excluir. E é o poder de introduzir intermediações ampliando o comprimento da corrente, dilatando a extensão característica de caminho da rede social ou aumentando os seus graus de separação (ou seja, diminuindo a conectividade). Não é por outro motivo que os políticos tradicionais funcionam, via de regra, como despachantes de recursos públicos, privatizando continuamente capital social. Pode-se dizer que, nesse sentido, os políticos tradicionais são os anti-netweavers, na medida em que contribuem para tornar a rede social menos distribuída e mais centralizada ou descentralizada (isto é, multicentralizada). Também não é a toa que todas as organizações políticas – mesmo no interior de regimes formalmente democráticos – têm topologia descentralizada (ou mais multicentralizada do que distribuída). Essa também é uma maneira de descrever, pelo avesso, o papel dos netweavers.

 

É claro que a “culpa” por esse comportamento “desenredante” não é dos políticos tradicionais individualmente. Eles são “produzidos” pelo próprio sistema político na medida em que esse sistema não está democratizado. Em outras palavras, quanto mais democratizado estiver o sistema político mais o agente político atuará como um netweaver; e vice-versa.

 

É preciso considerar que os netweavers articulam e animam redes (netweaving) – conectando pessoas-com-pessoas, com o grau máximo de topologia distribuída que for possível alcançar – independentemente do objetivo dessas redes. Podem ser netweavers digitais (ou cybernetweavers), que contribuam, por exemplo, para expandir a blogosfera, quer inaugurando seu próprio blog, quer ajudando outras pessoas a adquirirem essa efetiva condição de inclusão digital, quer criando ambientes interativos e programas que sirvam para agregar blogs por temas de interesse. Mas podem também se dedicar a induzir o desenvolvimento por meio de redes comunitárias ou setoriais. E podem, ainda, assumir um papel político, mais explícito, de experimentar e disseminar inovações políticas (em geral, por enquanto, em pequena escala), ensaiando formas alternativas de democracia – ou de democratização da democracia – ou de governança compartilhada em redes voluntárias de participação cidadã.

 

Ainda percorreremos uma longa jornada antes de assumir mais amplamente esses novos paradigmas, o que não significa que eles já não estejam vigendo. Quem está “na ponta” já se comporta mais ou menos assim. Basta ver o que começa a ocorrer nos meios científicos: antes um pesquisador, para ser reconhecido, precisava se submeter ao conselho editorial de uma publicação autorizada pelas instituições acadêmicas e esperar alguns meses (às vezes muitos) para ter seu trabalho publicado (ou rejeitado). Agora boa parte desse pessoal publica as descobertas que vai fazendo nos seus próprios blogs, imediatamente e sem pedir licença a ninguém. Convenhamos: é uma mudança é tanto!

 

Vai acontecer com os inovadores o que já acontece com algumas atividades intelectuais ou exercidas na área do conhecimento; por exemplo, com os escritores. Escritor é quem escreve. O escritor é reconhecido pelos que lêem o que ele publica e não em virtude de ter obtido um título acadêmico ou uma licença de uma corporação de escribas para escrever ou, ainda, um atestado concedido por uma burocracia qualquer. Podem reprovar-lhe o estilo, podem discordar do conteúdo de suas obras, mas não se pode negar que os (muitos) milhões de leitores de Paulo Coelho (ele é o escritor vivo mais traduzido do mundo, em 67 linguas) – que, até onde se saiba, não possui qualquer título acadêmico – reconhecem-no como um escritor (marca que, aliás, jamais será alcançada pelos críticos que o reprovam, tenham ou não razão no que dele dissentem).

 

A rede é uma oportunidade ótima para quebrar o poder das burocracias do conhecimento. Na verdade para quebrar o poder de qualquer burocracia. ‘Quebrar’ talvez não seja a melhor palavra, pois se trata de desobstruir o que foi entupido.

O chamado terceiro setor está hoje diante de um desafio: ou consegue superar a sua forma de organização predominante (a nova burocracia associacionista que constituiu) ou não vai mais poder cumprir um papel inovador.

 

É forçoso reconhecer que as organizações da sociedade civil, em sua imensa maioria, ainda se estruturam como mainframes e não como networks. Quando se denominam redes, quase sempre tal denominação é indevida porquanto aplicada a estruturas verticais de poder, com topologia descentralizada e não distribuída, com baixíssimo grau de rotatividade nas suas direções e com uma burocracia que, a despeito de ser reduzida pela falta de recursos, não deixa de ser formalmente semelhante a qualquer outra burocracia baseada na opacidade dos procedimentos, na discricionariedade das decisões e na verticalidade do fluxo comando-execução. Também é forçoso reconhecer que o paradigma organizativo que adotam essas organizações ainda é aquele, digamos, das fronteiras fechadas.

 

Existem exceções, é claro. Mas o fato é que aquela geração de ONGs que apareceu como grande novidade no último quarto de século, não poderá mais se manter na ponta da inovação social. Se não se reciclar, a ‘nova burocracia associacionista das ONGs’ poderá virar, em breve uma força francamente regressiva em termos da democratização da democracia e do desenvolvimento humano e social sustentável.

 

Não estamos nos referindo à sociedade civil e sim às chamadas organizações da sociedade civil. Não ver a diferença entre as duas coisas já é um sintoma do problema que está sendo enfocado aqui.

 

Em geral as pessoas perguntam: então o que podemos fazer – nós, que priorizamos a atuação na sociedade civil, no terceiro setor – para dar nossa contribuição à democracia e ao desenvolvimento? A resposta não pode ser outra, senão a seguinte: articulem redes de pessoas ao invés de erigir estruturas burocráticas. Não façam igrejinhas. Não construam castelinhos. Não tentem privatizar o capital social do seu entorno ou do seu setor. Capital social é um bem público: quando privatizado, estraga. E pode dar origem a certas formas perversas de sociabilidade. Sobretudo não tentem jogar usando como cacife as relações alheias, negociando a partir da apropriação da vida social das comunidades, organizando, por exemplo, um “curral de pobres” para conseguir uma verba governamental, para atuar como terceirizados na implantação de uma política de assistência social (não estamos delirando: existem centenas, talvez milhares de organizações fazendo isso neste momento, pelo menos no Brasil e em vários países da América Latina e da Europa).

 

Além disso, evitem se comportar como organizações para-mercantis ou neo-governamentais.

 

Herdeira de uma herança político-cultural não convertida suficientemente à democracia, uma parte significativa das ONGs ainda se comporta como organizações fechadas, com programas proprietários, que não compartilham seus recursos e seus conhecimentos. Mais recentemente, compelidas por razões de sobrevivência, muitas dessas organizações resolveram entrar numa onda, vamos dizer assim, de “profissionalização”, tentando imitar os modelos de gestão mais eficientes das empresas. Mas isso, ao invés de fortalecer, vai acabar enfraquecendo a sociedade civil. As organizações do terceiro setor não têm que imitar as empresas (e, muito menos, os governos) e sim afirmar a sua identidade própria de organizações da sociedade civil, presididas por uma “lógica” e uma racionalidade diferentes daquelas que regem o mercado (e daquelas que regem o Estado).

 

Isso não significa, é claro, não aproveitar o conhecimento acumulado pela iniciativa privada em tudo o que diz respeito à estratégia, à gestão organizacional, à gestão de pessoas e de stakeholders e, mais recentemente, à sustentabilidade (esta última, aliás, uma área em que só agora as empresas começam a engatinhar). Mas significa que as tentativas de aproveitar esses conhecimentos ou ferramentas para a gestão do terceiro setor não podem ser bem sucedidas se simplesmente quisermos transplantá-los do segundo para o terceiro setor. O modo como o mercado trata essas questões é – e deve ser mesmo – bastante diferente do modo como a sociedade civil pode tratá-las.

 

Hoje parece existir um coro apontando as vantagens de aproveitar a expertise de planejamento estratégico das empresas, seus modelos de gestão e seus sistemas de governança corporativa. No entanto, existem bons motivos para sustentar que, talvez, sejam as empresas que devam aprender agora com a sociedade civil, sobretudo quando o tema é a sustentabilidade.

 

Sim, as empresas estão diante de um grande desafio: preparar-se para dar conta das novas exigências da sustentabilidade num mundo onde a velocidade das mudanças é vertiginosa e onde o impacto dessas mudanças em uma aérea de atividade repercute diretamente sobre as demais áreas, gerando uma complexidade muito maior do que a verificada em qualquer outra época da história. Assim, não podem mais tratar de estratégia, gestão organizacional, gestão de pessoas e gestão de stakeholders de modo isolado, como se fossem departamentos estanques. Tudo isso agora deve ser encarado do ponto de vista sistêmico (que é o ponto de vista da sustentabilidade). Sustentabilidade, hoje, exige que a empresa atue como agente de desenvolvimento, que saiba fazer a gestão da sua rede de stakeholders, que tenha uma causa para promover o voluntariado interno e externo e que aprenda a articular politicamente não apenas seus interesses, mas também a sua causa, exercendo, para além da responsabilidade social, a sua responsabilidade política. Como se pode ver, várias dessas exigências (padrão de organização em rede, adesão a uma causa, espírito de voluntariado, exercício gratuito da responsabilidade ou cooperação) já constituíam o dia-a-dia (ou, pelo menos, preocupações) das chamadas organizações da sociedade civil antes de entrar no campo de preocupações das empresas.

 

Sim, as organizações da sociedade civil poderão ajudar muito as empresas nesses temas. Todavia, elas deveriam resistir à tentação de se constituírem como empresas disfarçadas para prestar serviços de consultoria às empresas de verdade. Pois, na verdade, elas não podem (porque não sabem mesmo como fazê-lo) transferir seus conhecimentos, digamos, vivenciais (ou experienciais), para as empresas. Na maior parte dos casos trata-se de conhecimentos tácitos, que não estão sistematizados a ponto de permitir uma transposição não-mecânica para as empresas.

 

Um caso exemplar que serve para mostrar a incipiência da formulação das organizações do chamado terceiro setor é o chamado netweaving (a articulação e animação de redes distribuídas). Esse é um conhecimento importantíssimo, neste momento, para as empresas que querem fazer alguma coisa em termos da conquista de sustentabilidade, começando por aprender como se faz a gestão de redes que conectem todos aqueles direta e indiretamente interessados e afetados pela sua atuação (i. e., os seus stakeholders). No entanto, a imensa maioria (com certeza mais de 90% das ONGs e assemelhadas) não se organizam, elas próprias, segundo um padrão de rede distribuída. Ainda são, como foi dito acima (e como todos sabemos), castelinhos com seus reizinhos (sim, porque é ou não verdade que seus dirigentes costumam ficar no comando para sempre ou quase, mais tempo ainda do que os Secretários-Gerais dos velhos partidos comunistas?).

 

Sabe-se que, dada a sua natureza multifária e a outras características de uma forma de agenciamento que só se organiza a partir da emergência, uma das características da sociedade civil é que ela aprende fazendo, não em sala e aula nem em reflexões teóricas de seus dedicados expoentes. Mas como ela poderá aprender netweaving (inclusive para ensinar às empresas) se não pratica netweaving, nem interna, nem externamente?

 

Outro problema é o padrão de relacionamento adotado por essas organizações, quer no interior da própria sociedade civil, quer em relação ao mercado e ao Estado.

 

Quando, por exemplo, uma organização do terceiro setor quer guardar a sete chaves suas metodologias ou tecnologias (achando que com isso vai assegurar sua vantagem comparativa em relação às suas “concorrentes”), então já está se comportando como uma empresa; ou melhor, já está se constituindo segundo a dinâmica própria de uma forma de agenciamento que caracteriza o mercado, não a sociedade civil. O que caracteriza o terceiro setor não é o fato de ele ser não-governamental (isso as empresas e, a rigor, os parlamentos, também são) e nem o fato de ele ser não-lucrativo (governos e parlamentos também não são lucrativos) e sim o modo como agencia os recursos e se relaciona, entre si e com os outros setores da sociedade.

 

Repito: se uma ONG se relaciona com suas congêneres na base da concorrência ou da competição, então ela está assumindo uma dinâmica que é própria do mercado, não da sociedade civil. Melhor seria, então, que não disfarçasse sua (verdadeira) natureza e se constituísse formalmente como uma empresa mesmo. Qual é o problema? Empresas são legítimas, são boas, não há nada de errado com elas (a não ser para as consciências que foram colonizadas pela idéia de que o lucro é um pecado ou a razão de todo mal que assola a humanidade, como sustentavam as narrativas ideológicas igualitaristas e totalitaristas). Ou será que ONGs que se comportam objetivamente como empresas não querem se formalizar como tais apenas para auferir vantagens fiscais, pagar menos impostos, como é freqüentemente acusado o terceiro setor por aqueles que não vêem razões para a existência de uma sociedade civil subsistente fora da ordem do Estado e da “lógica” do mercado (é o que pensava, por exemplo, Margareth Thatcher, repetindo, aliás, o que reza a crença econômica ortodoxa)?

 

Assim como a forma de agenciamento chamada Estado é normativa e a forma de agenciamento chamada mercado é competitiva, a forma de agenciamento chamada sociedade civil (ou terceiro setor) é cooperativa. Se não for, então não subsiste a própria noção de sociedade civil. Eis o ponto!

 

A característica distintiva do terceiro setor, como diz Silvio Sant’Ana, é o fato dele contar com trabalho voluntário, o que é uma outra maneira de dizer: contar com a cooperação – uma forma gratuita de atividade, de ajuda-mútua ou de doação à uma causa fraterna, gerada, talvez, como supõe Maturana, não propriamente por uma racionalidade (no sentido de cálculo ou escolha racional) mas por uma emocionalidade que está na fundação mesmo daquilo que chamamos, stricto sensu, de ‘social’. (1)

 

Se não há voluntariado (ou se não há cooperação efetivamente praticada) em uma organização do terceiro setor, então alguma coisa está errada. Não basta ensinar aos outros como cooperar ou como promover programas de voluntariado. Isso é útil, por certo. Mas pode ser feito por uma empresa.

 

É claro que a objeção sempre levantada nesses casos é a seguinte: mas como as pessoas vão sobreviver, como os dirigentes e os profissionais das organizações do terceiro setor vão poder se dedicar a sua missão se não receberem alguma remuneração? Sempre aceitamos esse argumento como definitivo, mas não é: é abusivo (no sentido literal do termo). Não que não deva haver pessoas remuneradas na direção de organizações da sociedade civil (como prevê, no Brasil, a Lei das OSCIPs). O sinal de que alguma coisa está errada aparece quando todos são remunerados e, mais do que isso, se comportam como se fossem funcionários de uma empresa… e, conseqüentemente, a própria organização se comporta como uma empresa. Isso me faz lembrar aquela anedota: tem rabo de porco, focinho de porco, orelha de porco, pé de porco, mas… (se não é feijoada), por que não deveria ser porco?

 

As organizações do terceiro setor (integrantes daquela parcela da sociedade civil que gosta de se apresentar como “sociedade civil organizada”), não vão conseguir sair dessa ambigüidade se não modificarem seus padrões de organização. Organizações piramidais, verticais, hierárquicas, exigem burocracias. Burocracias exigem mais burocracia. Não é uma opção. É uma necessidade que se impõe pela dinâmica de funcionamento que acompanha o padrão de organização.

 

Por isso é necessário repetir: querem fortalecer a nova sociedade civil (aquela composta por milhões de cidadãos desorganizados segundo um ponto de vista tradicional mas cada vez mais conectados) que está emergindo nos últimos anos? Então não construam organizações hierárquicas, façam redes. Agora, se o problema é ganhar a vida – e devemos todos ganhá-la com nosso trabalho – então fundem empresas ou prestem consultorias como pessoas físicas, ministrem palestras, dêem aulas, escrevam livros, exerçam uma profissão liberal ou arranjem um emprego. Não será isso que impedirá a nossa atuação no terceiro setor.

 

E se querem continuar, vamos dizer, atuando profissionalmente no terceiro setor, trabalhando em um centro de estudo ou pesquisa, em um clube, em uma associação, então se esforcem para praticar a cooperação, para agregar e promover trabalho voluntário, para se organizar e se relacionar segundo um padrão de rede e para radicalizar a democracia onde ela pode ser radicalizada (no nível local da sociedade civil, no âmbito comunitário). É claro que cabe muito mais coisa no terceiro setor. Mas, do ponto de vista de quem está comprometido com o desenvolvimento humano e social sustentável, é isso que justifica – em termo racionais – querer ficar nele.

 

Deve-se reconhecer, entretanto, que as pessoas que se envolvem com organizações do terceiro setor não o fazem, em sua maioria, a partir de uma escolha racional e sim co-movidas por uma emocionalidade cooperativa, o que é bem bacana, mas não refresca muito, no sentido de que não altera a realidade enfocada aqui. Ou seja, a despeito dos motivos que levam a maioria das pessoas a desenvolver uma atuação no terceiro setor serem maravilhosos, ao se organizarem para tanto freqüentemente essas pessoas adotam padrões de organização que não são tão maravilhosos assim.

 

Tudo indica que a alternativa organizativa mais inovadora para o terceiro setor são as redes de pessoas. Redes (e nos referimos a redes propriamente ditas, redes de pessoas, com topologia distribuída, não a holdings ou frentes de instituições abrigadas sob o guarda-chuva da palavra ‘rede’, que está na moda) são o modo de organização compatível com a “lógica” e a racionalidade da sociedade civil. Aliás, o próprio conceito de sociedade civil tende a ser substituído pelo conceito, muito mais potente em termos analíticos e mais preciso em termos descritivos, de rede social.

 

Há ainda uma outra objeção, também freqüente, que é a seguinte: mas as redes são informais! Como vamos abrir uma conta bancária, tirar um CGC, contratar funcionários, emitir nota fiscal, receber doações, não pagar imposto de renda e outros impostos e, em alguns casos, ser dispensados da quota patronal à previdência social?

 

Bom, em primeiro lugar é preciso saber se precisamos mesmo dessas coisas. Em muitos casos, sim. Em outros, não. Se estamos naquele tipo de organização que tem tudo de porco, mas não quer ser porco, não é muito justo que recebamos alguns desses benefícios. Além disso, uma empresa sempre pode ter parte dessas coisas. Mas outra parte, que se refere à renúncia fiscal e, em qualquer caso, a indevida isenção da quota patronal (indevida sim, pois em um sistema contributivo universal ninguém deveria ter o direito de não-contribuir, mesmo a pretexto de salvar a espécie humana), seria necessário examinar cuidadosamente os motivos capazes de justificar o recebimento desses benefícios. Uma organização que não pratica a cooperação, que não conta com trabalho voluntário, que se estrutura e funciona internamente como uma empresa e, ainda por cima, que compete por recursos com suas congêneres no mercado, não deveria ter direito a essas coisas. Em nome de quê? De suas boas idéias para a humanidade? Ora, tenham paciência!

 

De qualquer modo, se articulamos e animamos uma rede e, por algum motivo, precisamos de uma organização formal para cumprir exigências formais, nada impede que construamos uma entidade legalmente reconhecida (ou várias) para tais efeitos (formais). O problema não é de ordem legal, mas diz respeito ao padrão de organização que adotamos e, não raro, tem a ver com questões de poder e, em alguns casos, de apropriação privada, ainda que indireta, por meio do acesso diferencial a alguma vantagem, serviço ou recurso, de eventuais superávits produzidos ou valores recebidos (a título de doação, fomento ou por qualquer outra forma). Quando há patrimônio envolvido, como no caso de algumas fundações privadas, aí sim as exigências legais vão além da formalidade e tornam-se de fato necessárias, inclusive para salvaguardar direitos.

 

Ou seja, não estamos propondo nenhum tipo de desconstituição do imenso conjunto de organizações hierárquicas e burocráticas da sociedade civil que existe hoje. É óbvio que é melhor ter esse conjunto de organizações do que não ter nada e a vantagem disso não está, como se poderia pensar, nas virtudes das formas de organização que existem, mas na sua diversidade, na sua multiplicidade, na sua pulverização e na impossibilidade prática de organizar tal conjunto top down. Em outras palavras, a força da sociedade civil que temos está justamente no fato dela não poder ser organizada pelas organizações da sociedade civil que temos. Ainda bem. Como escreveu o ficcionista Frank Herbert – uma pérola que encontrada em “O Messias de Duna” (1969) – “não reunir é a derradeira ordenação” (o que é uma forma literária mais sofisticada de dizer que ‘o povo desunido jamais será vencido’, como diziam no Brasil, no início dos anos 90, os que percebíamos os riscos de querer representar, por meio de uma dúzia de organizações da sociedade civil, o conjunto da sociedade civil supostamente “organizada”).

 

Mas o problema colocado aqui não diz respeito à conservação do que existe e sim à inovação. O que afirmamos no início desta exploração é que se ficarem estacionadas nos padrões de organização que vêm adotando, as organizações da sociedade civil não cumprirão mais um papel inovador. Não apenas porque deixarão de inovar internamente em termos organizacionais e sim porque não terão experiência de inovação nas suas relações dentro da própria sociedade civil e com os outros setores da sociedade. Não descobrirão coisas novas em relação à natureza e a dinâmica do próprio setor a que pertencem. E não contribuirão para fortalecer a nova sociedade civil que está emergindo.

 

Se quiserem cumprir tal papel inovador, as organizações da sociedade civil têm que voltar os olhos para o cidadão, desorganizado do ponto de vista tradicional, mas muito mais conectado do que em qualquer outra época da história, que está emergindo neste dealbar do século 21. É incrível como, quando se fala de sociedade civil, esquece-se de que ela é composta por cidadãos. Fala-se ainda de “sociedade civil organizada” como se isso fosse grande coisa diante de milhões de pessoas que podem opinar e participar, não arrebanhadas ou acarreadas (esse é um bom termo, usado pelos mexicanos, que tiveram quase um século de experiência no assunto) por organizações hierárquicas, mas diretamente, uma-a-uma, personalizadamente. Não há outra maneira de fazer isso senão apostando nas redes, nas redes que conectam pessoas com pessoas, segundo uma topologia distribuída (e não centralizada ou descentralizada), peer-to-peer.

 

Se quiserem cumprir tal papel inovador, as organizações da sociedade civil têm de mudar as suas relações com suas congêneres (as outras organizações da sociedade civil). Não podem contribuir para transformar o campo social em uma esfera de competitividade. Quem tem de ser competitivo é o mercado (e a economia é que deve ser de mercado), não a sociedade. E mercados competitivos, ao que tudo indica, exigem como base uma sociedade cooperativa (por razões econômicas mesmo, como a diminuição das incertezas que afetam os investimentos produtivos de longo prazo, com a redução dos custos de transação e, inclusive, da insegurança jurídica). É o que vêm revelando, nos últimos quinze anos, todas as teorias do capital social (que é apenas uma outra denominação para rede social). Uma sociedade competitiva constitui, em geral, péssimo ambiente para um mercado competitivo. Portanto, temos aqui um argumento adicional, em termos do desenvolvimento, para trabalhar estrategicamente em prol da reprodução ampliada da cooperação, sobretudo naquela única esfera da realidade social que produz mais capital social do que é capaz de consumir, ou seja, a sociedade civil.

 

Se quiserem cumprir tal papel inovador, as organizações do terceiro setor têm que começar a modificar a sua relação com os outros setores, com o segundo setor (o mercado) e com o primeiro setor (o Estado). Não podem ficar querendo prestar serviços ao mercado como se fossem entes de mercado e, ao mesmo tempo, receber benefícios do Estado como se não fossem entes de mercado (olhai “o porco falando do toucinho!”).

 

Nos concentramos aqui na análise do caráter para-mercantil que algumas ONGs vêm adotando. Mas haveria também muito a dizer sobre o seu caráter neo-governamental, sobretudo no Brasil destes últimos anos, em que surgiram numerosas organizações burocráticas da sociedade civil para celebrar convênios e termos de parceria com um governo federal que queria favorecê-las por razões políticas. Aqui, porém, já resvalamos para o tema da ‘corrupção de Estado’ como meio de conquista de hegemonia.

 

Promover o desenvolvimento humano e social sustentável e ensaiar a democracia no sentido “forte” do conceito, na base da sociedade e no cotidiano dos cidadãos, constituem os dois papéis principais – e mais do que isso, papéis únicos, insubstituíveis – que podem ser cumpridos pelo terceiro setor. Seria uma lástima se, por incompreensão dessas tarefas estratégicas ou por razões de sobrevivência colocadas por uma visão míope de sustentabilidade, o terceiro setor passasse a se comportar como uma espécie de ‘para-mercado’ ou conjunto de organizações ‘neo-governamentais’ (como brincou certa vez Manuel Castells e foi muito criticado por nós, na época, mas agora vemos que ele tinha alguma razão).

 

(1) Cf. Franco, Augusto (2003). Terceiro Setor: a nova sociedade civil e seu papel estratégico para o desenvolvimento. Brasília: AED, 2003.

Como vimos na exploração anterior, aquela geração de ONGs que apareceu como grande novidade no último quarto de século, não poderá mais se manter na ponta da inovação social. Se não se reciclar, a ‘nova burocracia associacionista das ONGs’ virará, em breve, uma força francamente regressiva.

 

Mas o que podemos fazer então – os que priorizamos a atuação na sociedade civil, no terceiro setor – para dar nossa contribuição à democracia e ao desenvolvimento?

 

A resposta é simples. Articulem redes de pessoas ao invés de erigir estruturas burocráticas. Não façam igrejinhas. Não construam castelinhos. Não tentem privatizar o capital social do seu entorno ou do seu setor. Capital social é um bem público: quando privatizado, estraga. E pode dar origem a certas formas perversas de sociabilidade (como o familismo amoral que caracteriza, por exemplo, organizações malignas como a Máfia). Sobretudo não tentem jogar usando como cacife as relações alheias, negociando a partir da apropriação da vida social das comunidades.

 

É justo reconhecer que as organizações da sociedade civil (as chamadas ONGs) cumpriram – e ainda cumprem – um papel importantíssimo na promoção do desenvolvimento humano e social sustentável (1).

 

Nos últimos anos, entretanto, uma reflexão mais aprofundada sobre as relações entre redes sociais, desenvolvimento e democracia, tem revelado que não se pode estacionar na compreensão dos fenômenos associados a essas formas emergentes de organização da sociedade e, sobretudo, ignorar os seus problemas.

 

Vamos falar a verdade. Uma parte significativa das associações civis populares ou que se estabelecem para trabalhar na chamada “área social” – pelo menos no Brasil – é constituída por tentativas de montar um cercado ou um estoque particular de pobres para ter acesso, em seu nome, a recursos governamentais para projetos assistencialistas. Outra parte, também significativa, compõe a base para o clientelismo (quer na sua forma tradicional, de curral eleitoral de chefes políticos, quer na sua forma, que ganha destaque na atualidade, de um neoclientelismo partidário, campo no qual certas organizações políticas vão exercitar o cômodo esporte da “pesca em aquário”).

 

Além do sindicalismo – em geral uma forma branda de banditismo (social, não necessariamente criminal) –, o onguismo também resvala, com freqüência, para a formação de grupos de interesse (para além da defesa de causas ou idéias), legítimos em boa parte, mas, às vezes, escusos; e o onguismo militante – aquele que, no Brasil, em mais de 80% do seu contingente, fez campanha ou votou para presidente em um mesmo candidato oito vezes seguidas (!) em todas as eleições ocorridas depois da redemocratização do país (isso não pode ser por acaso, pode?) – atua, não raro, como correia de transmissão de grupos político-ideológicos. É um dado, não estamos inventando nada.

 

Observa-se também que as formas hierárquicas de organização da sociedade civil acabam virando trampolins para a ascensão de novos líderes; em alguns casos, de líderes políticos tradicionais, em geral de corte populista (não é a toa que dirigentes de sindicatos e associações profissionais acabem virando, mais cedo ou mais tarde, candidatos a algum cargo eletivo, pulando sem muita cerimônia, do terceiro setor para o primeiro, abandonando a convivência na sua tão querida sociedade civil para “representá-la” a partir de um carguinho no Estado); e, em outros casos, tentando construir uma carreira em moldes empresariais, em busca do sucesso pessoal.

 

Todavia, até mesmo essa idéia de sucesso está mudando na medida em que está mudando a morfologia e dinâmica da sociedade. A idéia de sucesso como visibilidade, notoriedade, popularidade é adequada à sociedade-massa (e à chamada “sociedade do espetáculo”) mas não à sociedade-rede.

 

Do ponto de vista das redes sociais as pessoas mais importantes não são as mais famosas, não são os ícones da mídia, nem os colecionadores de diplomas e títulos conferidos pelas burocracias sacerdotais do conhecimento e sim os hubs, os inovadorese os netweavers (como veremos na próxima exploração).

 

Toda essa conversa sobre sucesso, que à primeira vista poderia parecer meio deslocada aqui, é relevante na presente discussão porque tem a ver com os motivos que levam alguém a tentar organizar alguma coisa, na área social ou no campo político. A busca pelo sucesso é legítima: o problema é o que entendemos por sucesso. Imaginamos que sucesso mesmo seja uma vida plenamente realizada no encontro com os semelhantes (sem o que – presume-se – não podemos consumar a nossa humanidade). A mudança dos critérios de sucesso, que necessariamente acompanhará a transição da sociedade de massa para uma sociedade-rede, contribui para valorizar essa concepção em detrimento das visões instrumentais, centradas na capacidade de uma pessoa de se destacar das demais ao invés de se aproximar delas.

 

Voltemos, entretanto (ou portanto), ao nosso tema inicial. Como fortalecer a sociedade civil (em prol da democracia e do desenvolvimento – ou da sustentabilidade)? Ora, em primeiro lugar, admitindo que a sociedade civil que está emergindo nos tempos que correm não é mais aquela que conhecíamos há 20 anos.

 

Parece óbvio que a sociedade está mudando e que a nossa visão sobre ela também. Pode-se olhar essas mudanças como partes de um mesmo movimento: se uma nova ordem de fenômenos não estivesse se manifestando, não nos esforçaríamos para tentar analisá-los. Em contrapartida, se não tivéssemos desenvolvido novas maneiras de perceber e compreender os fenômenos sociais, não seríamos capazes nem de notar as mudanças que estão em curso. Mas não parece correto afirmar que a sociedade está mudando porque está mudando a nossa visão sobre ela. Em suma, há uma mudança social objetiva acontecendo no mundo contemporâneo.

 

Sobretudo nas últimas décadas, a grande mudança é o aparecimento da chamada sociedade-rede, da qual o cidadão está emergindo como ator de uma maneira que antes não seria possível. O indivíduo que se transforma no cidadão conectado de uma sociedade civil que não mais se organiza apenas a partir de esquemas verticais de representação, está submetido a um novo fluxo de informações e conhecimentos – ele mesmo é um entroncamento, uma encruzilhada-nodo desses fluxos – mais velozes e densos do que jamais foi possível.

 

A questão que se coloca é se isso não representaria uma volta ao individualismo (egoísta), um retrocesso em relação às formas anteriores de participação social (altruísta). Tudo indica que não: o cidadão que assume um papel de maior protagonismo na nova sociedade civil que está emergindo não é o clássico indivíduo do liberalismo e sim o novo cidadão conectado a múltiplas redes sociais e que, não raro, participa de novas comunidades de prática, de aprendizagem e de projeto.

 

Essa nova sociedade civil que se desenha no mundo e no Brasil nos últimos vinte ou vinte e cinco anos, devolve um papel maior ao cidadão que pensa com a sua própria cabeça, desorganizado do ponto de vista corporativo e partidário, porém mais conectado e mais informado. Isso significa que está havendo uma transição importante, daquele tipo de sociedade civil, composta por algumas organizações representativas de defesa de interesses ou mais ou menos alinhadas a ideários político-ideológicos (a chamada “sociedade civil organizada”), para um outro tipo de sociedade civil, composta por cidadãos mais independentes e autônomos, que participam como indivíduos do debate público e de iniciativas cidadãs voluntárias.

 

O indivíduo é encorajado a assumir um novo papel pelo fato de estar imerso em um novo ambiente interativo no qual pode ouvir a voz dos outros e fazer ouvir a sua voz. Ele é empoderado pelas redes sociais das quais participa mesmo quando não tem consciência da sua existência e não conhece suficientemente a estrutura e o funcionamento dessas redes.

 

Mesmo que o cidadão ainda dependa, em grande parte, das organizações tradicionais para exercer um papel político institucional na sociedade e mesmo que nenhuma sociedade civil possa subsistir – nas condições do mundo atual – sem essas formas de organização mais estáveis que a estruturam, isso não significa que não estejam surgindo – com uma velocidade espantosa – novas formas organizativas articuladas em rede.

Tudo indica que uma compreensão mais profunda das redes sociais acabará por tornar obsoleto o próprio conceito de sociedade civil. Não que não exista uma esfera da realidade social ou um tipo de agenciamento diferente do Estado e do mercado que mereça ser considerado, mas o que queremos dizer com o termo sociedade civil não dá mais conta de expressar adequadamente a natureza e o funcionamento da rede social.

 

Há uma acalorada discussão em curso, sobre se é possível controlar ou não as redes. No caso das redes digitais, parece que não; ou melhor, teoricamente (ou tecnicamente) sim, mas, na prática, não, porquanto isso implicaria desligar os provedores ou as conexões físicas, inclusive os satélites de órbita estacionária (o que causaria o caos no mundo globalizado, sobretudo no sistema financeiro que usa tais meios para fazer circular trilhões de dólares diariamente pelo mundo). Todavia, se não confundirmos ‘rede social’ com ‘rede digital’ (ou seja, mudança social com mudança tecnológica), é preciso admitir que as primeiras podem, sim, ser controladas (controladas aqui no sentido de hierarquizadas ou centralizadas). Esse controle é exercido pelo sistema político. Não, porém, pelos ocupantes da vez, pelo caráter do governante ou do seu partido situado no sistema político e sim pela forma como se estrutura e funciona esse sistema, pela sua natureza de mainframe que confere aos que se postam nos seus múltiplos centros ou filtros o poder de obstruir, separar e excluir.

 

Então a nossa questão poderia ser colocada nos seguintes termos: podem ser mudadas a morfologia e a dinâmica do sistema político? Ou, em outras palavras, é possível uma nova política? Ou, ainda, é possível reinventar a democracia nas condições do mundo contemporâneo (quer dizer, diante da mudança social em curso na contemporaneidade)?

 

Não estamos mudando de assunto: o esforço de contribuir para a emergência de uma nova política, por meio da democratização (ou seja, de mais-democracia) está coimplicado no esforço de aumentar o grau de distribuição das redes sociais (e não na aposta no padrão organizativo centralizado ou multicentralizado dos chamamos movimentos sociais, corporações, sindicatos, associações ou outras formas tradicionais de arrebanhamento), o que significa enfocar e valorizar o cidadão desorganizado e conectado que compõe o imenso contingente da nova sociedade civil emergente neste dealbar do século 21.

 

Trata-se, portanto, de abrir mão de replicar formas organizativas piramidais, verticais, baseadas no fluxo comando-execução. Ou seja, ao invés de engordar a velha burocracia corporativo-partidária e a nova burocracia associacionista (das ONGs, inclusive), apostar nas redes de pessoas, que conectem os tais ‘cidadãos-desorganizados’, uns com os outros, em prol de objetivos comuns, expandindo uma nova esfera pública não-estatal. Trata-se de mostrar, na prática, que o cidadão pode, sim, fazer política pública, que a sociedade pode tomar iniciativas coletivas, aumentando o seu protagonismo e o seu empreendedorismo.

 

Não há como garantir que uma rede articulada voluntariamente manifestará os mesmos fenômenos que são próprios da rede social que existe em qualquer sociedade independentemente de nossos esforços organizativos. As evidências, no entanto, mostram que, quanto mais distribuídas forem as redes que voluntariamente articulamos, mais elas conseguem se sintonizar ou se comunicar com essa rede social que existe desde que existam conexões entre pessoas, independentemente de nossos esforços organizativos (e que resolvemos chamar, como recurso explicativo, de “rede-mãe”).

 

As evidências mostram também que mais chances teremos de reproduzir, em redes voluntariamente construídas, os fenômenos que se manifestam na “rede-mãe” se essas redes que articulamos forem redes de pessoas (P2P ou peer-to-peer). Isto é, instituições hierárquicas conectadas entre si podem até tentar se articular em rede, mas dificilmente constituirão uma rede capaz de espelhar a “rede-mãe” – quer dizer, uma rede distribuída (P2P) – configurando-se quase sempre como estruturas conectivas com topologia descentralizada. O motivo é quase óbvio: instituições hierárquicas tendem a hierarquizar as redes de que fazem parte, que, assim, deixam de ser redes para se transformar em frentes de entidades ou em coligações de organizações tradicionais e, às vezes, em holdings.

 

Também não estamos falando de coisas ideais, irrealizáveis, e sim de mudar a forma como nos comportamos política e administrativamente em termos orgânicos. Estamos falando de mudar a matriz de projetos, programas e ações governamentais e não-governamentais em todos os níveis. Tudo ou quase tudo que organizamos atualmente a partir do padrão-mainframe, pode ser reorganizado segundo um padrão-network, desde um programa de alfabetização de jovens até uma organização política. Podemos fazer isso sem computador e, inclusive, sem um único e miserável telefone celular. Já existe o telefone fixo, já existe o Correio e já existe – há alguns milhares, talvez milhões, de anos – a possibilidade de diálogo em um encontro presencial. Não é o meio tecnológico que faz o “milagre” e sim o modo de conexão e o grau de conectividade. Até com sinais de fumaça é possível democratizar procedimentos, ampliar a freqüência e a base de consultas de opinião, incorporar pessoas como sujeitos e transformar público-alvo e beneficiários em participantes voluntários. Se não o fazemos, não é por efeito de qualquer “exclusão digital” e sim por força de uma cultura política e organizativa autoritária, hierárquica, sacerdotal e, em grande parte, autocrática.

 

Quem faz netweaving faz, pois, democracia. Enfim, por outros caminhos investigativos, vamos acabar dando razão ao pioneiro das redes, Robert Muller, que escreveu há mais de 20 anos:

 

“Conforme caminhamos para o terceiro milênio, talvez a participação em networks se torne a nova democracia, um novo elemento importante no sistema de governança, um novo modo de vida nas complexas e miraculosas condições globais do nosso estranho e maravilhoso planeta vivo, girando e circulando no universo prodigioso em uma encruzilhada de infinidade e eternidade” (2)

 

 

(1) Publiquei inclusive um livro sobre o tema – “O Terceiro Setor: a nova sociedade civil e seu papel estratégico para o desenvolvimento” (Brasília: AED, 2003) – onde tentei mostrar a multifariedade dessa forma de agenciamento subsistente fora da ordem do Estado e da “lógica” do mercado, composta por entes e processos (e não apenas por organizações) que dependem, em última instância, das múltiplas iniciativas moleculares e voluntárias dos cidadãos.

 

(2) Cf. Stamps, etc.

Na exploração sobre a “rede-mãe”, falamos de uma ‘nova burocracia associacionista das ONGs’ para mostrar que, muitas vezes, tais organizações ainda se estruturam piramidalmente, na forma de pequenas fortalezas que obstruem fluxos na rede social e que isso explicaria, pelo menos em parte, o fato de muitas ONGs sinceramente dedicadas ao trabalho comunitário não conseguirem estabelecer uma boa sintonia com o ambiente social onde atuam. Na verdade fizemos apenas uma citação lateral no contexto de uma discussão que propunha a metáfora da “rede-mãe” como recurso explicativo para mostrar as diferenças entre a rede social que existe de fato (com algum grau significativo de distribuição) e as redes que intentamos construir (muitas vezes denominando-as de rede meio indevidamente, face ao pouco grau de distribuição efetivamente apresentado).

 

A expressão ‘nova burocracia associacionista das ONGs’, se inspira em um escrito de David de Ugarte: “11M. Redes para ganar uma guerra” (1). No Post Scriptum dessa excelente publicação, Ugarte observa, citando o programa de uma iniciativa de ambiente interativo, denominada ‘LaMatriz.org’, que trata-se de “un nodo de red impulsado por los ciberpunks españoles cuyo primer objetivo asegura ser “quitarle la cantera” ao fanatismo, abriendo “ventanas” al mundo rede em los barrios, los colégios, los bares… Impulsando cibercafés, redes ciudadanas wifi, comunidades sobre teléfonos móviles, internet, tertúlias… Pero no reproduciendo uma estructura profesionalizada y jerárquica como las de las ONG al uso, ya que según dicen: ‘el camino hacia la vertebración social em el nuevo mundo no pasa por engordar a la burocracia del “asociacionismo”. Su necesidade como “representantes” se basava em carências de los sistemas de comunicación que la tecnología há superado hace tiempo. Nos hace falta sociedade civil de todo tipo, no “liberados” ni profesionales del asociacionismo. Las redes no sirven para “encuadrar” y si encuadran no son redes válidas para construir uma sociedad abierta y em rede’.

 

No entanto, alguns argumentam que muitas ONGs são bem enredadas, chamando a atenção para o fato de que a generalização, nesse caso, pode não levar à avaliação mais justa.

 

Em princípio a observação parece correta. Mas, pensando melhor, pode-se ver que temos aqui um problema, um ponto para uma discussão realmente substantiva. O formato básico das organizações da sociedade civil chamadas “ONGs” é o da descentralização e não o da distribuição e carrega, de fato, a herança de uma padrão organizativo baseado na representação, conquanto as próprias ONGs admitam que não são instâncias representativas stricto sensu, quer dizer, baseadas na delegação de poder (2).

 

É forçoso reconhecer que as organizações da sociedade civil, em sua imensa maioria, ainda se estruturam como mainframes e não como networks. Quando se denominam redes, quase sempre tal denominação é indevida porquanto aplicada a estruturas verticais de poder, com topologia descentralizada e não distribuída, com baixíssimo grau de rotatividade nas suas direções e com uma burocracia que, a despeito de ser reduzida pela falta de recursos, não deixa de ser formalmente semelhante a qualquer outra burocracia baseada na opacidade dos procedimentos, na discricionariedade das decisões e na verticalidade do fluxo comando-execução. Também é forçoso reconhecer que o paradigma organizativo que adotam essas organizações ainda é aquele, digamos, das fronteiras fechadas.

 

Além dessas reflexões que, a propósito da presente investigação sobre as redes, temos tido oportunidade de verificar como as coisas funcionam na prática. Vamos contar apenas uma experiência, que parece ser bastante ilustrativa.

 

Estivemos pessoalmente envolvidos – durante os anos de 2005 a 2007 – com um programa de indução do desenvolvimento em uma grande cidade do Brasil, com mais de um milhão de habitantes. Tal programa tem como objetivo estimular a formação de redes P2P de desenvolvimento comunitário, envolvendo cerca de 1.300 pessoas numa primeira etapa em quase duas dezenas regiões administrativas e, em seguida, 13 mil pessoas em quase uma centena de bairros.

 

Os agentes do referido programa têm, então, a função inicial de convidar as pessoas para participar dessas redes, onde deverão se dedicar ao exercício clássico do planejamento participativo: ensaiar uma visão de futuro, realizar um diagnóstico dos ativos e das necessidades, elaborar um plano e formular uma agenda de desenvolvimento e pactuar a realização de prioridades por meio de parcerias entre instituições governamentais, empresas e organizações da sociedade civil. Ou seja, a “fórmula” básica do desenvolvimento local.

 

Pois bem. Vejam agora o que freqüentemente ocorre quando tais agentes vão procurar as organizações da sociedade civil em uma região. Quando procurado, o responsável – em geral o presidente – da organização (associação ou fundação) costuma reagir muito positivamente, aceitando o convite para se conectar à rede do desenvolvimento comunitário da sua região. Em seguida esse dirigente perde um pouco o ânimo, quando é informado de que ele participará como pessoa (quer dizer, é a pessoa que se conecta à rede e não a organização). Quando, porém, ele é chamado a indicar outras pessoas da sua organização para entrar na rede, aí, como se diz, “o bicho pega”. Invariavelmente ele retruca: “- Mas como? Eu já estou representando a associação”.

 

Como essa reação dos dirigentes de organizações da sociedade civil não é fortuita, ela indica alguma coisa. Poderíamos dizer que revela muita coisa. Ou, ainda, que desvela quase tudo. Na cabeça do dirigente, a ele cabe representar os demais, entendendo-se por isso o direito de exercer o poder não de incluir os demais, mas de excluí-los. Sim, como já observamos em explorações anteriores, o poder (centralizado ou descentralizado, quer dizer, multicentralizado, seja ele pequeno ou grande em termos de recursos, não importa) manifesta-se sempre como o poder de excluir. É isso mesmo: em termos da análise de rede, a centralização é a instalação de um filtro, o estabelecimento de um impedimento à livre fluição, a colocação de um obstáculo no caminho.

 

Queiramos ou não, gostemos ou não, é assim que tendem a se comportar, independentemente das crenças de seus dirigentes, as estruturas não-distribuídas. Toda estrutura não-distribuída é uma hierarquia e, como tal, acaba se manifestando.

 

Também não é por acaso que as estruturas não-distribuídas da sociedade civil, inclusive aquelas da ‘nova burocracia associacionista das ONGs’, são tão vulneráveis ao aparelhamento corporativo-partidário e à cooptação governamental, servindo, não raro, como correias de transmissão de outras organizações hierárquico-piramidais. É como se a homologia de padrões organizativos provocasse uma espécie de sintonia entre organizações não-distribuídas, que acabasse favorecendo a esse tipo de violação da autonomia e gerando dependência. É muito fácil verificar isso: basta ver, por exemplo, como se comportou, durante o processo eleitoral de 2006 no Brasil, a imensa maioria das ONGs mais conhecidas regionalmente ou nacionalmente e quais foram os candidatos da preferência de seus dirigentes (os quais, em muitos casos, nem pejo tiveram, vamos dizer assim, de engajar suas organizações em uma campanha semi-institucional ou semi-oficial em prol de seus preferidos).

 

É claro que a justificativa apresentada por esses dirigentes é sempre a de que seu comportamento foi orientado pelo compromisso com o povo, pela defesa dos mais pobres. Mas aqui, como parece óbvio, já estamos no terreno da ideologia e não no da análise.

 

Não estamos entrando no mérito das escolhas e nem estamos, muito menos, questionando o direito de todo cidadão de escolher livremente os seus representantes numa democracia. Estamos apenas constatando que não é por acaso que organizações que adotam o paradigma vertical da centralização, da representação (de facto) e da delegação de poder, acabam não conseguindo evitar a dependência estrutural de organizações similares do ponto de vista da dinâmica organizativa. Não há aqui nenhum mistério maior: em um espaço cuja topologia é multicentralizada, os vários pólos, centralizadores para baixo, funcionam como entrepostos ou estações repetidoras de outros pólos centralizantes acima (e é isso, exatamente, o que se chama de ‘descentralização’, ao contrário de ‘distribuição’).

 

Quanto maior o grau de distribuição, menor a chance de esse fenômeno acontecer. Quanto mais redes, mais interdependência e menos dependência. Quanto mais redes, mais multiliderança e menos liderança (única ou unipolar). Quanto mais redes, mais diversidade e menos uniformidade. Quanto mais redes, mais conexão e ordem emergente, bottom up e menos diretivas do alto e organização top down.

 

Ao contrário do que está parecendo neste estranho período que se instalou na primeira década do novo milênio, estamos caminhando, subterraneamente, para novas formas de conexão social que tornarão obsoletas as tradicionais fortalezas organizativas urdidas com base no poder de obstruir, separar e excluir. Isso significa, entre outras coisas, que aquela geração de ONGs que apareceu como grande novidade no último quarto de século, não poderá mais se manter na ponta da inovação social. Se não se reciclar, a ‘nova burocracia associacionista das ONGs’ virará, em breve – ultrapassado este período sombrio em que vivemos – uma força francamente regressiva em termos da democratização da democracia e do desenvolvimento humano e social sustentável.

 

(1) Ugarte, David (2006). 11M. Redes para ganar uma guerra. Barcelona: Icaria, 2006.

(2) Nota pessoal do autor | Acho que sou meio insuspeito para falar do assunto. Há quase trinta anos (desde 1979, quando fundei o CRD – Centro de Reflexão e Documentação, que conseguiu sobreviver dez anos, em uma época em que nem havia a expressão ‘ONG’) milito em organizações da sociedade civil, inclusive comunitárias. Além disso, dediquei a segunda metade da década de 1990 ao tema. Com efeito, entre 1995 e 2002, como membro do Comitê Executivo do Conselho da Comunidade Solidária, fui responsável pelas Rodadas de Interlocução Política que geraram, dentre outros resultados, a chamada Nova Lei do Terceiro Setor (Lei 9790/99, que criou as Oscips), além do esforço para a aprovação da Lei do Voluntariado e de mais de uma dezena de medidas voltadas para o fortalecimento da sociedade civil. Isso não significa, entretanto, que eu deva – diante do avanço da análise sobre as redes sociais – estacionar na compreensão dos fenômenos associados a essas formas emergentes de organização da sociedade.

As redes sociais são surpreendentes. Elas surpreendem, em primeiro lugar, os que vivem antenados para as novidades e esperam poder assumir uma posição de vanguarda ou de destaque ao “aderir” a elas. Essas pessoas muitas vezes ficam chocadas quando se lhes diz que a rede social não é nada mais do que a sociedade. Em geral elas “entram na onda” das redes porque acham que descobriram um novo modo de chamar a atenção para si próprias, ou para suas idéias, ou para seus produtos.

 

Existe já uma ampla literatura empresarial dizendo que quanto mais conectada estiver uma pessoa, mais chances de sucesso ela terá na sua carreira ou nos seus negócios. Há hoje todo um setor do marketing tentando descobrir as regras do marketing em rede ou do marketing viral.

 

Se os interessados nas redes sociais são políticos com vocação para reformadores do mundo, então acham que estão agora prestes a descobrir um novo meio de mobilizar as massas em torno de suas propostas de mudança ou de transformação da sociedade. Muitos ouviram falar do swarming civil ocorrido na Espanha entre 11 e 13 de março de 2004, que mudou bruscamente o destino das eleições espanholas que levaram Zapatero ao poder pela primeira vez e então ficam querendo descobrir o segredo de como atingir o tipping point, de como desencadear ações que podem crescer exponencialmente, amplificadas pelos mecanismos próprios das redes, de sorte a mudar o comportamento dos agentes do sistema em ampla escala.

 

Toda essa curiosidade é legítima, mas o mesmo não se pode falar, em geral, das suas motivações e das atitudes que, às vezes, a acompanham. Se quisermos usar as redes sociais com essa expectativa instrumental, é quase certo que teremos problemas de frustração de expectativas. Não que esses fenômenos desejados não ocorram: eles podem de fato acontecer, sim. Mas a questão está na atitude de utilização que freqüentemente nos impede de ver que as verdadeiras redes sociais – quer dizer, as redes sociais distribuídas – não podem ser urdidas a partir do desejo de controle ou da vontade de poder. Quem permanece com essa visão em geral não consegue articular redes sociais. Antes de qualquer coisa porque não consegue entender o que são realmente redes sociais. Vamos ver por que.

 

Estamos denominando indevidamente de redes estruturas descentralizadas que tentam conectar horizontalmente instituições verticais (quer dizer, organizações hierárquico-burocráticas).

 

Mas então – pergunta-se freqüentemente – como fazer uma rede social propriamente dita, quer dizer, uma rede distribuída. É preciso começar dando uma boa olhada naquele velho diagrama de Paul Baran, melhorado por Rodrigo Araya e divulgado por David de Ugarte (já reproduzido na Introdução deste livro):

 

Reinserir diagrama

 

Nos três desenhos os pontos (nodos) são os mesmos. O que varia é a forma de conexão entre eles. Redes propriamente ditas são apenas as redes distribuídas (o terceiro grafo). As outras duas topologias – centralizada e descentralizada – podem ser chamadas de redes, mas apenas como casos particulares (em termos matemáticos). Ambas são, na verdade, hierarquias.

 

Bem, para articular redes, em primeiro lugar, é necessário conectar pessoas ou redes propriamente ditas (quer dizer redes distribuídas). A conexão horizontal de instituições hierárquicas não gera redes distribuídas, pela simples razão de que o fluxo pode ser interrompido (controlado, filtrado) em cada nodo. Se isso acontecer, a topologia passa a ser descentralizada (quer dizer, multicentralizada).

 

Em segundo lugar, para articular redes é necessário conectar as pessoas entre si e não apenas com um centro articulador ou coordenador (mesmo que este centro se chame de equipe de animação).

 

Bastaria isso? Sim, a rigor isso seria o bastante. Mas então por que as iniciativas de articular redes não costumam funcionar?

 

Ora, porque, em geral, não se faz isso. Simples assim. Em geral conectamos instituições hierárquicas e não pessoas (ou redes distribuídas de pessoas, o que é a mesma coisa). Ou então, quando conectamos pessoas, instituímos – com o pretexto de realizar o trabalho de animação da rede – um centro coordenador, que mantém, de fato, uma ligação direta e transitiva com cada nodo da rede, mas que, na prática, acaba funcionando como uma espécie de direção que decide o que vai ser feito em termos coletivos. Decide pela rede. Decide para toda a rede.

 

Está bem, mas se não fizermos isso, se conectarmos apenas pessoas (ou redes distribuídas de pessoas), se essas pessoas estiverem conectadas entre si e se não exercermos demasiado protagonismo a título de animação a ponto de desestimular o surgimento de iniciativas diversificadas, fica então garantido que a rede vai funcionar?

 

Sim, com certeza! Mas com um porém: depende do que a gente entende por “funcionar”! Uma rede funciona quando existe, ou seja, quando se configura segundo a morfologia de rede (distribuída) e manifesta a dinâmica de rede.

Aqui é preciso entender que as redes não são expedientes instrumentais para pescar pessoas e levá-las a trilhar um determinado caminho ou seguir uma determinada orientação. As redes farão coisas que seus membros quiserem fazer; ou melhor, só farão coisas conjuntas os membros de uma rede que quiserem fazer aquelas coisas. Se alguém propõe fazer alguma coisa em uma rede de 100 participantes, talvez 40 aceitem a proposta; os outros 60 farão outras coisas; ou não farão nada. Em rede é assim: não há centralismo. Não há votação. Não há um processo de verificação da formação da vontade coletiva que seja totalizante e que se imponha a todos, baseado no critério majoritário.

 

Além disso, dizer que as pessoas estão conectadas umas com as outras, significa mais do que fornecer a cada uma o nome e o e-mail ou o endereço e o telefone das outras pessoas. É necessário que elas se conectem realmente (a conexão real não é um traço num grafo; como aquela “fonte” do heraclítico Goethe, ela “só existe enquanto flui”). E é necessário, ainda, que todas as pessoas disponham dos meios para fazer isso, quer dizer, para entrar em contato umas com as outras: se quiserem, quando quiserem e com quem quiserem.

 

Muita desilusão prematura com as redes nasce de uma incompreensão profunda do que elas significam realmente. Quem quer usar as redes porque está na moda, ou porque imagina que, assim, conseguirá ampliar seu poder, em geral na se dá muito bem. Até mesmo quem quer usar as redes para promover transformações em nome de uma causa, muitas vezes fica decepcionado. Por que? Porque a rede não é um instrumento para fazer a mudança. Ela já é a mudança.

 

Mas essa mudança não é uma transformação do que existe em uma coisa que não existe e sim a liberdade para que o que já existe possa ser capaz de regular a si mesmo. Sim, ficamos completamente alienados nos últimos dois ou três séculos com esse ‘modelo transformacional’ da mudança, que pressupõe um agente de vontade capaz de promover, organizar e liderar a mudança. Isso não ocorre na natureza e nem em qualquer outro sistema complexo (e a sociedade humana é um sistema complexo). Na natureza e no mercado (que também são sistemas complexos), por exemplo, as mudanças seguem a combinação de um ‘modelo variacional’ com um ‘modelo regulacional’. Os sistemas complexos adaptativos são aqueles que aprenderam a se autoregular (e só redes podem fazer isso, razão pela qual esses sistemas, seja o cérebro humano ou um ecossistema, sempre se estruturam em rede) de sorte a poderem se adaptar às mudanças (variações aleatórias) internas e externas. Ou a fim de poderem ‘conservar sua adaptação’ (uma boa definição de sustentabilidade), fazendo e refazendo, continuamente, congruências múltiplas e recíprocas com o meio.

 

Essa idéia de que você tem que se transformar em alguma outra coisa (que você não é) foi uma coisa ruim que colocaram na sua cabeça (hehe). Você não precisa se transformar e sim despertar para suas imensas potencialidades. Da mesma forma, a sociedade não precisa ser transformada em outra coisa: ela precisa ser simplesmente o que é quando as pessoas se conectam entre si horizontalmente, sem a introdução de muros, escadas, portas e fechaduras, cuja função é obstruir a livre fluição, criando toda sorte de anisotropias no espaço-tempo dos fluxos.

 

A rede social que existe independentemente de nossos esforços organizativos (o que chamamos aqui de “rede-mãe” ou “A Matriz”) é a sociedade que existe (não a que não existe) e que só não se manifesta como é porquanto foi invadida por programas verticalizadores, que atuam alterando a topologia distribuída, centralizando fluxos. Quando se vê livre desses programas, o seu Bios (Basic Imput/Output Sistem) dá conta de regular suas mudanças. Por isso afirmamos que a rede já é a mudança (não a mudança para outra coisa que ela, a sociedade, não é, e sim a mudança para o que sempre foi por definição). Embora possa parecer, não há aqui qualquer jogo ardiloso de palavras. Seres humanos que se conectam entre si formam redes. O ‘social’ é isso. Ponto.

 

Fala-se muito nos últimos anos de redes digitais. E fica-se com a impressão de que são as novas tecnologias de informação e comunicação que representam toda essa novidade organizativa. Mas não é bem assim. Como percebeu Don Tapscott, há mais de 10 anos, “não se trata da organização em rede da tecnologia, mas da organização em rede dos seres humanos através da tecnologia. Não se trata de uma era de máquinas inteligentes, mas de seres humanos que, através das redes, podem combinar a sua inteligência”, gerando uma inteligência-em-rede, um novo tipo de inteligência coletiva (1). Mas essa inteligência coletiva não nasce como resultado da aplicação de uma engenharia que combine de forma planejada as inteligências humanas individuais. Ela é uma ‘inteligência social’, que nasce por emergência, uma espécie de swarm intelligence que começa a brotar espontaneamente quando muitos micromotivos diferentes são combinados de uma forma que não se pode prever de antemão. Aqui também não se pode pretender aplicar uma fórmula, um esquema, para produzir esse “supercomputador” que é a rede social. O mais surpreendente nisso tudo é que, na verdade, o tal “supercomputador” é o que chamamos de ‘social’. Como dizia Ralph Waldo Emerson (1841), em “Self-Reliance”: “we lie in the lap of an immense intelligence” (“nós jazemos no seio de uma imensa inteligência”).

 

Muitas pessoas ainda insistem em dizer que as redes são baseadas na cooperação. Isso é verdade, mas não pelas razões que em geral elas apresentam. Elas pensam que as redes são uma nova forma de organização baseada em princípios cooperativos, como se fosse uma condição a priori, para alguém se conectar a uma rede, aderir a tais princípios. Assim, as redes seriam colaborativas porque, ao compô-las, as pessoas fariam uma espécie de profissão de fé nas vantagens da cooperação e mudariam pessoalmente seu comportamento para participar das redes, como quem toma uma decisão crucial de mudar de vida e faz um voto sobre isso para poder ser aceito em uma organização religiosa.

 

Nada disso. As redes sociais convertem, de fato, competição em cooperação, mas como resultado da sua dinâmica. Elas não convertem indivíduos competitivos, beligerantes e possuídos de forte ânimo adversarial, em indivíduos cooperativos, pacíficos e amigáveis. Ao favorecer a interação e permitir a polinização mútua de muitos padrões de comportamento, o resultado do “funcionamento” de uma rede social é produzir mais cooperação, como já descobriram (ou estão descobrindo) os que trabalham com o conceito de capital social. As pessoas podem continuar querendo competir umas com as outras, porém, quando conectadas em uma rede, esse esforço não prevalece como resultado geral na medida em que, na rede, elas não podem impedir que outras pessoas façam o que desejam fazer e nem podem obrigá-las a fazer o que não querem. Assim, a rede não é um instrumento adequado para alguém adquirir mais poder (que é sempre o poder de obstruir, separar e excluir).

 

Por último, as redes constituem um “corpo” cujo “metabolismo” correspondente é necessariamente democrático (no sentido “forte” do conceito de democracia) ou pluriárquico, como propuseram Bard e Söderqvist em 2002 (2). E quanto mais distribuídas elas forem, mais a democracia que se pratica no seu interior vai adquirindo as feições de uma pluriarquia.

 

Explicando melhor. Em uma rede distribuída, como escreveu David de Ugarte (2007), “ainda que a maioria não simpatize com uma proposta – e se manifeste contra ela – não poderá evitar a sua realização”, como ocorre nas formas democráticas atuais, que tomam a democracia no sentido “fraco” do conceito e adotam um modo de verificação da formação da vontade política coletiva por meio de processos aritméticos de contagem de votos, configurando-se como “um sistema de escassez: a coletividade tem que eleger entre uma coisa e outra, entre um filtro e outro, entre um representante e outro” (3).

 

Ao contrário, nas redes distribuídas, como lembra o blogger Enrique Gomes, “há uma abundância de recursos que tende ao infinito. Podemos criar tantos blogs, agregadores [de blogs], ambientes colaborativos, wikis ou fóruns quanto quisermos. Então, que sentido tem submetermo-nos aos desejos e às ordens de alguns…?” (4).

 

Dissemos acima que a rede já é a mudança porque ela é a possibilidade de exercício da democracia naquele sentido que John Dewey atribuía ao conceito: a democracia como modo-de-vida, a democracia na base da sociedade e no cotidiano do cidadão (e não apenas como forma de administração política do Estado ou regime político). E, como se sabe, a democracia (nesse sentido “forte” do conceito) é o que há; quer dizer, é a única utopia que não nos aliena, remetendo-nos para algum lugar do futuro. Sobre isso, pode-se dizer que quem precisa de utopia são as autocracias, não a democracia.

 

Porque “a “utopia” da democracia é a política – uma topia – e não o contrário (ou seja, não se deve usar a política para objetivos extrapolíticos, como levar “as massas” para algum lugar do futuro; e, na verdade, não se quer nada com a política a não ser que os seres humanos possam, aqui e agora, viver em liberdade, como seres políticos, participantes da comunidade política)” (5).

 

Assim, tal como as redes, a democracia não pode ser usada instrumentalmente para se obter qualquer coisa, para atingir um conjunto de objetivos generosos “na medida em que ela já faz parte desses objetivos, está co-implicada em sua realização. A democracia tem, sim, uma “utopia”, mas que é uma não-utopia porquanto não é finalística, não é Shangrilah, Eldorado ou a Cidade do Sol, mas a estrela polar dos navegantes que pode ser vista por qualquer um, independentemente do poder que arregimentou ou do conhecimento que acumulou, de qualquer lugar no meio do caminho. E que não é para ser alcançada no futuro. E, ainda, que não admite que alguém – em virtude de sua força ou de sua sabedoria – faça-nos seguir um mapa (o seu mapa) para aportá-la. Por quê? Porque a democracia não é o porto, o ponto de chegada (no futuro), mas o modo de caminhar (no presente). Assim, a “utopia” da democracia é uma topia: a política. É viver em liberdade como um ser político: cada qual como um participante – único, diferenciado, totalmente personalizado – da comunidade política” (6) – tal como só ocorre nas redes sociais distribuídas de pessoas.

 

Pois bem. Esclarecidos esses pontos, podemos então recolocar a pergunta. Como articular verdadeiras redes sociais (e a palavra “verdadeira” aqui quer dizer exatamente o que ela quer dizer: o contrário de “falsa”; ou seja, como não organizar redes centralizadas ou descentralizadas que são falsas redes distribuídas)?

 

Hoje ninguém mais imagina deixar de usar a web para fazer isso. Alguns falam em usar a chamada Web 2.0 (ensejada pela ‘era wiki’, que permite que qualquer um possa publicar qualquer coisa na web usando programas wiki). Mas talvez não seja suficiente. Se quisermos articular redes distribuídas, o melhor é usar as ferramentas interativas de uma nova e cogitada Web 2.1, que são mais adequadas à dinâmica da blogosfera (7).

 

E aqui está a chave. Se vamos usar os meios digitais para articular redes distribuídas, os melhores meios serão, obviamente, os meios distribuídos, ou seja, aqueles que não podem ser controlados pelos velhos centros diretores ou coordenadores e nem pelas novas “oligarquias participativas” (como as que controlam, por exemplo, a Wikipédia).

 

A blogosfera – o conjunto crescentemente interconectado de todos os blogs: abreviatura de weblogs, sistemas de publicação de conteúdos na web que segue a estrutura post-link-comentário – não é centralizada. Nem centralizável. Nela ninguém escolhe, a não ser você mesmo, a informação que recebe (por qualquer processo, inclusive de votação).

 

Portanto, se quisermos articular redes distribuídas, usando a web, a primeira coisa a fazer é estimular que cada participante conectado tenha o seu próprio blog. Em segundo lugar é necessário ter uma maneira de agregar automaticamente os blogs dos membros da rede (já existem programas gratuitos para fazer isso, como o feevy: www.feevy.com). Em terceiro lugar, é necessário que os conectados à rede definam coletivamente a identidade da sua articulação.

 

Uma articulação em rede é uma forma de organização. Uma organização é uma comunidade de projeto formada em torno de uma identidade. Se for realmente democrática, não pode ser um esquema urdido para mandar em pessoas, não pode ser um destacamento de comando, nem um bando, uma gangue, uma quadrilha ou uma empresa tradicional com um chefe feitorial que tenha como função principal colocar outras pessoas trabalhando para ele.

 

Uma comunidade de projeto se forma em torno de um sonho coletivo, de um desejo compartilhado, de uma visão de futuro e, a partir daí, formula sua missão ou propósito e elabora seus valores ou princípios. O que a caracteriza é uma causa e um modo peculiar de ser e de agir.

 

Ora, tudo isso pode ser construído e guardado (como um ‘arquivo-vivo’) naquilo que David de Ugarte (2007) chamou de ‘contextopédia’: um espaço coletivo dedicado a definir termos habituais, conclusões que se consideram já atingidas e debates encerrados. Como ele escreveu, em El poder de las redes, “se as contextopédias recolhem aquilo que não está em discussão é precisamente porque as definições contextuais são as que definem a identidade. Duas pessoas poderão estar em desacordo em tudo, porém enquanto compartilham as definições do contexto, compartilharão uma identidade comum e compreenderão que o debate se produz no marco de uma compreensão similar do mundo, não de um antagonismo” (8).

 

Assim, cada grupo, cada comunidade de projeto, vai buscar sentido, para o que está propondo ou fazendo, nesse repositório coletivo de definições, premissas e argumentos que é a sua contextopédia. Uma organização desse tipo se distingue de outra porque suas contextopédias são diferentes, não porque conectem em suas redes pessoas diferentes. Não tem muito sentido o conceito de pessoas diferentes para distinguir uma organização de outra na medida em que todas as pessoas são mesmo diferentes.

 

Então, para resumir: quem quer articular redes distribuídas usando a web como meio, deve participar ativamente da blogosfera: inaugurando seu próprio blog, ajudando outras pessoas a adquirirem essa efetiva condição de inclusão digital, criando ou adotando ambientes interativos e programas que sirvam para agregar blogs ou para estabelecer uma relação entre eles, conectando-os entre si e aumentando o grau de distribuição das redes que formam e, finalmente, afirmando novas identidades no mundo por meio da elaboração de contextopédias.

 

A rede das contextopédias constituirá não apenas a essência ou a alma da blogosfera, não será como o conjunto dos registros akashicos ou a enciclopédia de tudo e sim uma espécie de nova “alma do mundo”, uma “alma humana do mundo”; ou, melhor ainda, uma “alma social”.

 

Sim, compreender as redes, atuar em rede, praticar netweaving, é fazer explorações nesse maravilhoso multiverso de conexões ocultas que configuram o que chamamos do social.

 

(1) Cf. Tapscott, Don. The Digital Economy: Promise and Peril in the Age of Networked Intelligence. New York: McGraw-Hill, 1996.

(2) Cf. Bard, Alexander & Söderqvist, Jan. Netocracy: the new power elite and life after capitalism. London: Pearson Education, 2002.

(3) Ugarte, David (2007).O poder das redes. Porto Alegre: CMDC/ediPUCRS, 2008.

(4) Idem.

(5) Franco, Augusto. Alfabetização democrática: o que podemos pensar (e ler) para mudar nossa condição de analfabetos democráticos. Curitiba: FIEP / Rede de Participação Política do Empresariado, 2007.

(6) Cf. Ugarte, op. cit.

(7) Idem.

(8) Idem-idem.

Embora falem freqüentemente de redes sociais, as pessoas não têm, em geral, uma compreensão muito clara do que elas são realmente. Na ausência de tal compreensão, fica mais difícil articular e animar redes sociais propriamente ditas, quer dizer, redes distribuídas de pessoas.

 

Do que se trata, afinal? A questão pode ser colocada de maneira simples. Seres humanos vivendo em coletividades estabelecem relações entre si. Tais relações podem ser vistas como conexões, caminhos ou dutos pelos quais trafegam mensagens. Qualquer coletivo de três ou mais seres humanos pode conformar uma rede social, que nada mais é do que um conjunto de relações, conexões ou caminhos (graficamente representáveis por arestas) e de nodos (vértices). Há rede quando são múltiplos (a rigor mais de um) os caminhos entre dois nodos.

 

A partir de certo número de conexões em relação ao número de nodos, entretanto, começam a ocorrer na rede fenômenos surpreendentes, que não dependem, ao contrário do que se acredita, do conteúdo das mensagens que trafegam por essas conexões. Quanto mais distribuída ou menos centralizada ou descentralizada (i. e., multicentralizada) for a topologia da rede, maiores são as chances de tais fenômenos ocorrerem. Esses fenômenos – como o clustering e o swarming, a redução do tamanho (social) do mundo, a autoregulação sistêmica, a produção de ordem emergente (bottom up) e/ou a desconstituição de ordem (top down) pré-existente (remanescente) – não podem ser adequadamente captados e explicados pelas categorias e hipóteses (que compõem as teorias) tradicionais das ciências sociais.

 

O problema é que até agora as redes foram consideradas pelas ciências sociais como metáforas estruturais para agrupamentos sociais, como mais um recurso analítico. Trata-se, entretanto, de tentar apreender a realidade social como rede, tomando o que é visível – e conhecível a partir da sua fenomenologia – como manifestação dessa realidade oculta para tentar descobrir como interferir: não no que está acontecendo manifestamente e sim nos “programas” que estão rodando na rede e produzindo o que se vê. Mal comparando, é necessário descobrir a “linguagem de máquina” desses “programas” para poder modificá-los. Caso contrário, ou seja, se não conseguirmos compreender e fazer isso, será muito difícil articular e animar verdadeiras redes sociais, ou seja, redes distribuídas de pessoas.

 

Permita-se-me aqui abrir um parêntese um tanto abstruso: um kabbalista diria – e essa, sim, pode ser uma boa metáfora, pelo seu potencial heurístico – que é necessário operar em outro mundo, no mundo da formação (que eles chamam de Yezirah; ou até, quem sabe, no mundo da criação, Beriah) para poder alterar disposições causais no mundo da ação (Asiyyah). Digo que a metáfora é boa – a despeito das conotações mítico-sacerdotais e hierárquico-autocráticas próprias dessa ideologia de professores que se chama Kabbalah – porquanto as redes existem mesmo em outro mundo: sim, o mundo do que chamamos de social não está – no sentido de que não se realiza – no espaço físico e sim no espaço-tempo dos fluxos.

 

Por isso foi tão significativa a formação (talvez melhor dizer, a descoberta) do chamado ciberespaço (que é também um cibertempo, mas às vezes esquecemos disso). Não porque as redes sociais só possam existir enquanto realidade virtual associada a uma tecnologia específica (como a telemática). E sim porquanto foi a partir da visão proporcionada pelo ciberespaço que descobrimos que pode haver um mundo composto por coisas que não sejam átomos (como os bits). Ora, como as redes virtuais de pessoas na Internet são redes sociais, torna-se então mais fácil a percepção de que pode existir um mundo social que não seja o mundo físico. Indo um pouco além, fica mais fácil entender por que, se existe um mundo social, ele não pode ser o (ou um) mundo físico.

 

O espaço-tempo dos fluxos, no qual se realizam as redes sociais, sempre existiu, desde que existem sistemas de conexões e nodos entre seres humanos. Mas nem sempre tivemos uma visão clara desse mundo e só muito recentemente começamos a perceber as suas inusitadas características. É por isso que a sociologia jamais conseguiu explicar, por exemplo, mudanças bruscas em correntes de opinião e outros processos que envolvem, de algum modo, fenômenos emergentes (que não são singularidades, excepcionalidades; não, tais fenômenos estão ocorrendo o tempo todo e modificando intimamente disposições que, mais tarde, se manifestarão como mudanças visíveis de comportamento dos atores sociais).

 

Fechando o parêntese e voltando ao assunto da nossa discussão nesta exploração, cabe perguntar novamente: que “programas” seriam esses, que estão rodando na rede?

 

Como a tendência é que todos, ao longo do tempo, estabeleçam conexões com todos – ou seja, que, dentro de certas “regiões” da rede acessíveis à escala humana, toda rede se torne, crescentemente, uma rede distribuída – e isso só não acontecerá se alguma coisa estiver impedindo, parece claro que são esses (ou, pelo menos alguns desses) “programas” os responsáveis por tal impedimento.

 

Quando falo em “acessível à escala humana” é óbvio que isso depende dos recursos (ou das tecnologias) disponíveis. Progressivamente essa escala vem sendo aumentada pela disponibilização de novos meios de comunicação interativos ou transitivos: da interação pessoal pela voz, pelos gestos e pelo contato físico, para a interação à distância por tambores e sinais de fumaça, daí para as tabuinhas de argila e para a carta escrita sobre papel, para o telégrafo, para o telefone (voz), para o rádio, para o fax, para o e-mail, para o telefone móvel (voz e texto via SMS), para os sites da Internet, para o telefone com voz e imagem sobre IP, para as redes digitais P2P, para a chamada Web 2.0 (com suas ferramentas wiki e suas redes administradas de relacionamento) e para uma nascente Web 2.1 com seus instrumentos distribuidores, como os que permitem a livre interação entre blogs e que estão tecendo um verdadeiro meio distribuído em escala planetária (a blogosfera). De sorte que o espaço-tempo das comunidades que se formavam a partir do adensamento de conexões (clusters) com base territorial, foi se alargando, das reduzidas dimensões iniciais (locais) que possibilitavam o contato direto (ou com até um grau de separação) entre as pessoas, para o mundo inteiro. É assim que o local conectado está virando o mundo todo. E o próprio conceito de local, como pequena porção territorial, se modificou.

 

Pois bem. Que “programas” seriam esses que impedem que as redes aumentem o seu grau de distribuição? Não conhecemos ainda toda a extensão da família de “programas” hierarquizantes-autocratizantes. Mas conhecemos a sua intenção. Já podemos afirmar que são programas centralizadores, cuja função básica é o controle por meio da obstrução, da separação e da exclusão. Obstruir fluxos, separar clusters e excluir nodos: eis a receita universal para estabelecer o controle.

 

Obstruir fluxos, deixando passar somente alguns padrões (ou filtrando) é a forma de estabelecer o controle sobre o trânsito de mensagens. E também separar clusters, isolando alguns aglomerados (comunidades) de outros, derrubando pontes ou fechando os atalhos que ligam um cluster a outros clusters, apartando uma região da rede de outras regiões; em suma, fundamentalmente, interrompendo a ligação de um local com outro local, ou seja, impedindo a conexão local-global (imagine-se a formidável alteração introduzida na rede social sumeriana de uma localidade como Uruk quando foi cercada por 9 quilômetros de muralhas). E, por último, excluir nodos, desconectando-os dos clusters a que pertencem, destruindo conexões.

 

Em suma, esses “programas” hierarquizam o tecido social, verticalizam as relações, introduzindo intermediações que ampliam o comprimento da corrente, dilatando a extensão característica de caminho da rede social ou aumentando os seus graus de separação (ou seja, diminuindo a conectividade) e, com isso, acarretando toda sorte de anisotropias no espaço-tempo dos fluxos. Este é um caso (ou ‘o’ caso) em que o software modifica o hardware. Na medida em que a rede social vai rodando tais “programas” ela também vai alterando não apenas a sua dinâmica, mas também a sua estrutura. E tudo isso acaba coagulando uma estrutura física mesmo. Por exemplo (e esse não é um exemplo, mas, com certeza, ‘o’ exemplo), a Cidade-Estado-Palácio-Templo sagrada da antiguidade criou, há quase seis milênios, um outro tipo de realidade social no mundo (a partir da Mesopotâmia). Não se pode esquecer que o sentido original da palavra sagrado era, no antigo idioma sumério, separado. As separações físicas, introduzidas por portas, escadas e muros, materializaram obstruções de fluições e exclusões conectivas. A nova arquitetura adequada ao controle, apenas refletiu uma nova configuração do espaço-tempo dos fluxos. Isso é o que vemos quando colocamos os “óculos de ver rede”. Só então começamos a perceber as conexões ocultas que configuram o que chamamos de ‘social’. Essa visão é indispensável para impulsionar novos comportamentos que sejam capazes de subverter a Matrix (aquela mesma do filme dos irmãos Wachowski – o mainframe cuja missão é: ‘controle’).

 

Se sabemos isso, então já sabemos o que é necessário fazer: distribuir o que foi centralizado ou descentralizado (quer dizer, multicentralizado). Desobstruir caminhos. Estabelecer atalhos entre clusters. Incluir nodos.

 

Trata-se, portanto, basicamente, de conectar pessoas com pessoas. De aumentar a conectividade da rede social. E de trabalhar para tornar cada vez mais distribuída essa rede.

 

Tenho afirmado que quase tudo o que organizamos segundo um padrão-mainframe poderia ser organizado segundo um padrão-network. Quase tudo, não tudo: os mecanismos de controle, por exemplo, não podem.

 

Isso significa que é possível ensejar novas formas de ordenação por regulação emergente, que não dependam do controle (que significa sempre a introdução de uma ordem de cima para baixo), quer dizer, que é possível fazer isso em tudo aquilo que não exija controle.

O que caracteriza fundamentalmente uma rede é a existência de caminhos múltiplos. Forçando um pouco a intenção do conceito e estabelecendo um paralelo geométrico, poder-se-ia dizer que, se uma rede é uma coleção de nodos ligados por muitos caminhos (ou um conjunto de vértices interconectados por muitas arestas), uma hierarquia é um caso particular de rede caracterizado pela existência do menor número possível de caminhos (ou uma linha quebrada que, conquanto possa ter múltiplos vértices, nunca chega a formar uma figura geométrica fechada). Neste sentido uma hierarquia “máxima” (ou uma organização com o máximo grau de hierarquização) poderia ser vista como um conjunto de nodos (vértices) conectados por caminhos únicos.

 

Se existissem apenas dois elementos no mundo, hierarquia seria igual a rede, porque o número de caminhos possíveis entre tais nodos seria o menor número possível de caminhos, ou seja, apenas um caminho pelo qual uma mensagem pudesse se propagar de um nodo ao outro.

 

Todavia, em um mundo com três ou mais elementos, enquanto no padrão de organização hierárquico (“máximo”) uma mensagem emitida de um nodo a qualquer outro só pode se propagar através de um mesmo caminho, no padrão de organização em rede tal mensagem pode se propagar através de vários caminhos diferentes.

 

Em um mundo de três elementos (A, B e C), por exemplo, esse padrão hierárquico permite que uma mensagem emitida por A chegue a B (ou a C) somente por um caminho: o caminho AB (ou ABC). Todavia, se estes três elementos estiverem organizados segundo um padrão de rede (com A, B e C figurando como os vértices de um triângulo) podemos ter o dobro de caminhos: AB e ACB (ou AC e ABC). Enquanto na hierarquia o número máximo de caminhos diferentes possíveis entre todos os nodos é igual a 3 (AB, BC e ABC), na rede o número máximo de caminhos possíveis é igual a 6 (AB, BC, ABC, AC, ACB e CAB).

 

Fig. 1

 

Em um mundo de quatro elementos (A, B, C e D), o padrão hierárquico (“máximo”) permite que uma mensagem emitida por A chegue a B (ou a C ou a D) somente por um caminho: o caminho AB (ou ABC, ou ABCD). Mas se esses quatro nodos estiverem conectados em um padrão de rede, com o número máximo de conexões possíveis (com A, B, C e D figurando como vértices de um quadrilátero, incluindo as duas conexões diagonais), teremos cinco vezes mais caminhos entre um nodo e qualquer outro: se se trata, por exemplo, de fazer uma mensagem proveniente de A chegar a D, então essa mensagem pode percorrer cinco caminhos diferentes (AD, ABCD, ACBD, ABD e ACD). No primeiro caso, da hierarquia (no grau “máximo” de hierarquização), o número de todos os caminhos possíveis é igual a 6, enquanto no segundo caso, da rede, teremos um máximo de 30 caminhos, ou seja, cinco vezes mais.

 

No caso de uma hierarquia de quatro elementos teremos como caminhos possíveis apenas seis caminhos: AB, BC, CD, ABC, BCD e ABCD. No caso de uma rede de quatro elementos, teremos no máximo: AB, BA, BC, CB, CD, DC, DA, AD, AC, CA, BD, DB, ABC, ABD, ACB, ACD, ADC, ADB, BAD, BAC, BCD, BCA, BDA, BDC, CAB, CAD, CBA, CBD, CDA, CDB, DAB, DAC, DBC, DBA, DCA, DCB, ABCD, ABDC, ACBD, ACDB, ADBC etc. … até DABC, DACB, DBCA, DBAC, DCBA, DCAB – totalizando 60 combinações de 2, 3 e 4 elementos, as quais, divididas por 2, uma vez que um caminho AB é igual ao caminho BA (ou seja, as conexões são transitivas), resultarão em 30 caminhos diferentes .

 

Fig. 2

 

Do ponto de vista do padrão de organização, o que chamamos de ‘tamanho do mundo’ é dado não apenas pelo ‘número de elementos’ do mundo ou pela ‘distância’ entre tais elementos, mas pelo ‘número de conexões possíveis’ entre eles. Abstraindo a questão da distância (o que já pode ser resolvido praticamente pela conexão telemática, em tempo real, que significa a mesma coisa que conexão sem-distância), para dois conjuntos com o mesmo número de nodos, podemos ter mundos de tamanhos muito diferentes, se tais nodos estiverem conectados segundo um padrão de rede ou segundo um padrão hierárquico.

 

No caso do último exemplo acima, a rede com um número máximo de caminhos torna um mundo de quatro elementos (nodos) cinco vezes menor do que a hierarquia (com um número mínimos de caminhos).

 

É fácil mostrar que, no caso de termos cinco nodos, a rede mais tramada possível produz, em relação à hierarquia, um “encurtamento” de 16 vezes no mundo. Em outras palavras, um mundo com cinco elementos conectados segundo um padrão de rede (com o número máximo de conexões) é um mundo com 16 vezes mais caminhos do que os estabelecidos na hierarquia (com o número mínimo de conexões, quer dizer, nunca mais do que duas conexões para um nodo). Enquanto na hierarquia teríamos apenas dez caminhos entre todos os nodos, na rede teríamos algo como 160 caminhos. E, enquanto na hierarquia (“máxima”) uma mensagem emitida de um nodo só dispõe de um mesmo caminho para chegar a outro nodo qualquer, na rede ela possui 16 caminhos diferentes.

 

No caso de uma rede de cinco nodos (A, B, C, D e E), os caminhos possíveis diferentes entre um nodo e outro nodo qualquer (por exemplo, entre A e E) totalizam 16 possibilidades (AE, ABE, ACE, ADE, ABCE, ABDE, ACBE, ACDE, ADBE, ADCE, ABCDE, ABDCE, ACBDE, ACDBE, ADBCE e ADCBE). Isso produz 160 caminhos diferentes entre todos os nodos da rede. Se os cinco nodos estivessem organizados em um padrão hierárquico teríamos apenas um caminho possível entre A e E e apenas 10 caminhos diferentes possíveis entre quaisquer nodos.

 

Fig. 3

 

Da mesma forma, em um mundo de seis elementos, enquanto a hierarquia (“máxima”) estabelece como possíveis apenas 14 caminhos, a rede com número máximo de conexões permite pouco menos de mil caminhos diferentes (precisamente 910, se meus cálculos estiverem corretos). Isso significa que, em um mundo de seis elementos, se tais elementos estiverem conectados em rede com grau máximo de conexão (cada nodo conectado aos outros cinco) existem 65 caminhos diferentes entre dois nodos, 65 maneiras diferentes de fazer uma mensagem chegar de um nodo a qualquer outro. A rede mais tramada de seis nodos cria um mundo 65 vezes menor do que a hierarquia de seis nodos.

 

Analogamente ao caso anterior, em uma rede de seis nodos (A, B, C, D, E e F), teremos 65 possibilidades de fazer uma mensagem emitida por um nodo (por exemplo A) chegar a outro nodo qualquer (por exemplo F) – ou seja, teremos 65 combinações de 2, 3, 4, 5 e 6 elementos começando em A e terminando em F – e, assim, teremos 910 caminhos possíveis entre todos os nodos da rede. Se esses seis elementos estivessem conectados segundo um padrão hierárquico teríamos apenas uma combinação começando em A e terminando em F e apenas 14 caminhos diferentes possíveis dentro do conjunto.

 

Fig. 4

 

Tudo isso significa que duas localidades com o mesmo número de habitantes podem ter tamanhos de mundo completamente diferentes na medida em que a ‘extensão característica de caminho’ (ou seja, o número de “estações” ou intermediações que são necessárias, em média, para fazer uma mensagem chegar de um nodo qualquer a outro qualquer) de cada uma delas for diferente. Uma cidade sumeriana de 2 mil habitantes com toda a certeza seria muitas vezes maior (em termos sociais, não geográfico-populacionais) do que um subúrbio novaiorquino atual de mesma população.

 

Ainda não temos uma equação que permita calcular o ‘tamanho do mundo’ do ponto de vista do padrão de organização, mas já podemos prever que o fator ‘conectividade potencial’ nesta equação (ou seja, o número de caminhos possíveis entre os nodos) tem um peso muito maior do que os fatores ‘tamanho dos nodos’, ‘número de nodos’ e ‘distância entre os nodos’.

 

Assim, pode-se supor que uma cidade sumeriana de 2 mil habitantes (como Uruk, sobretudo a Uruk do início do terceiro milênio, da invenção da escrita, das muralhas colossais e do zigurate dedicado ao supremo deus AN) seria um mundo muito maior do que, por exemplo, todo o Silicon Valley atual. Por quê? Porque (essa) Uruk, do ponto de vista do padrão de organização, era uma cidade-Estado-Templo rigidamente centralizada e verticalizada, onde as pessoas eram separadas por graus de poder e dispostas como os degraus de uma escada (não por acaso os zigurates eram pirâmides feitas de escadas) – ou seja, Uruk era a materialização de uma hierarquia, de uma ordem (arché) sacerdotal (hieros), e também não é por acaso que “sagrado” na língua sumeriana tinha o mesmo sentido de “separado”. Isso significa que o acesso de uma pessoa a outra era muito mais difícil em Uruk do que em Silicon Valley, onde, de repente, um pesquisador de uma empresa e o dono de uma outra empresa concorrente almoçam no mesmo restaurante e sentam-se à mesma mesa várias vezes por mês (coisa que não poderia mesmo ocorrer em Uruk, mas que também não ocorre, por exemplo, nos e entre os Keiretsu japoneses atuais). Ou seja, em Silicon Valley existem mais redes sociais do que em Uruk e, assim, o mundo da primeira é muito menor do que o mundo da segunda, não obstante o seu território ser muito maior e o seu número de habitantes idem.

 

Isso significa que, do ponto de vista do padrão de organização, o local não-globalizado pode ser um mundo até maior do que o mundial (no sentido de planetário) globalizado. E que globalização do local tende a ser igual a localização do global. O mundo estará totalmente globalizado quando estiver totalmente localizado. E que, assim, o local conectado é o mundo todo.

O que chamamos de social é, propriamente falando, a rede social. Não as formas organizativas que intentamos articular e batizamos de “rede tal”, “rede disso” ou “rede daquilo” (o que, aliás, anda agora bem na moda). E sim a rede social que existe de fato, desde que exista sociedade humana.

 

Essa rede que existe de fato, que existe independentemente de nossos esforços organizativos, que existe porque existem nodos (pessoas) e conexões múltiplas (entre essas pessoas), pode ser mais ou menos distribuída. Deveríamos chamá-la de ‘rede’ quando a topologia desse agregado é distribuída (e não quando é centralizada ou descentralizada, quer dizer, multicentralizada). Mas, na verdade, todas as redes sociais que existem são mais ou menos distribuídas. O que se pode dizer é que, para ser reconhecido como rede, um agregado espaço-temporal qualquer de nodos e conexões deveria ter algum grau de distribuição (ou de incidência de múltiplos caminhos). A coisa se caracterizaria, assim, por graus: graus de hierarquização (menos caminhos, mais centralização); ou, inversamente, graus de enredamento (mais caminhos, mais distribuição).

 

Pois bem. Qual a diferença entre a rede social que existe de fato (com algum grau de distribuição) e as redes que intentamos construir (muitas vezes denominando-as de rede meio indevidamente, face ao pouco grau de distribuição efetivamente apresentado)?

 

Creio que, com essa pergunta, podemos avançar um pouco na nossa exploração. Relembro que estamos fazendo explorações imaginativas e não experimentais. O que não significa que as nossas eventuais descobertas não contenham conhecimento novo. Assim, podemos anunciar aqui, talvez, não uma grande descoberta cientificamente comprovada (até onde isso é possível), mas um modelo explicativo, um modo-de-ver que acrescenta conhecimento ao que, até agora, sabemos do assunto.

 

À rede social que existe de fato vamos chamar de “rede-mãe” ou “a matriz”. As redes que voluntariamente articulamos, tentando copiar a topologia, a morfologia ou a dinâmica da “rede-mãe”, são interfaces que estabelecemos para tentar uma comunicação direta com essa matriz. São feitas para dialogar, pois a “rede-mãe” não reconhece bem outras formas organizativas, não entende a sua linguagem. A rigor deveríamos dizer o seguinte: quanto menos distribuídas forem as redes que articulamos para construir essa interface com “a matriz”, mais difícil será a comunicação com ela.

 

Esse esquema explicativo funciona relativamente bem. Dá conta de explicar por que, por exemplo, organizações hierárquicas (ou com alto grau de centralização ou multicentralização) têm imensas dificuldades de provocar mudanças sociais no ambiente onde estão imersas. A rede social que existe de fato – a “rede-mãe” – não recebe bem a influência dessas organizações e continua funcionando mais ou menos como se nada tivesse acontecido.

 

É o que ocorre quando ouvimos relatos de organizações sociais profundamente dedicadas ao trabalho comunitário. Seus dirigentes reportam que estão lutando há anos, com grande afinco, em uma determinada localidade, mas a impressão que têm é a de que seus esforços não adiantam muito. O povo não reconhece o seu papel, as relações não mudam, parece que tudo continua como d’antes…

 

Se formos analisar as circunstâncias da atuação dessas organizações de base veremos que elas terão um alto grau de centralização (ou um grau de enredamento insuficiente). É um problema de comunicação. A rede social que existe de fato naquela localidade não está reconhecendo as mensagens emitidas pela organização. É muito provável que essa organização esteja estruturada e funcione como uma pequena fortaleza, um castelinho, uma igrejinha… É muito provável que ela faça parte da ‘nova burocracia das ONGs’, ou seja, que tenha dono, chefe, diretoria – às vezes até familiar – com baixíssimo grau de rotatividade (menor ainda do que o dos partidos e organizações corporativas). É muito provável que seus chefes queiram se eternizar no poder (um micro-poder, é verdade, mas todo poder hierárquico, vertical, seja grande ou pequeno, se comporta mais ou menos da mesma maneira, sempre a partir do poder de excluir o outro…) porque precisem (ou imaginem que precisem) auferir o crédito ou obter o reconhecimento social pela sua atuação.

 

Se essa organização que não consegue boa comunicação com a “rede-mãe” for uma corporação ou partido, será bem pior. Ela estará estruturada a partir de um impulso privatizante, seja com base no interesse econômico, seja com base no interesse político de um grupo particular que quer manobrar o coletivo maior em prol de sua própria satisfação. A rede social que de fato existe – “a matriz” – é sempre pública. Mas as interfaces hierárquicas que construímos para conversar com ela ou para tentar manipulá-la são sempre privadas, mesmo quando urdimos teorias estranhas para legitimar a privatização, como aquela velha crença de que existem interesses privados que, por obra de alguma lei sócio-histórica, têm o condão de se universalizar, quer dizer, de universalizar o seu particularismo, quando satisfeitos (essa é a “teoria”, por exemplo, da “classe redentora” no pensamento marxista).

 

Só há uma maneira de conseguir uma boa comunicação com “a matriz”. Copiando-a o mais fielmente que conseguirmos; ou seja, construindo interfaces – redes voluntárias – com o maior grau de distribuição que for possível. Quanto mais distribuídas forem as redes que construímos para copiar a “rede-mãe” melhor a comunicação com ela e mais efetividade terá o nosso esforço de promover transformações na sociedade.

 

Vamos agora às dificuldades do modelo explicativo proposto aqui.

 

A principal dificuldade é que a “rede-mãe” nem sempre é uma rede peer-to-peer distribuída. Deveria ser, se não tivesse sido invadida por padrões de organização hierárquicos e modos de regulação autocráticos. Mas nas sociedades realmente existentes, nas localidades ditas civilizadas, não é.

 

Para enfrentar essa dificuldade é preciso considerar que “a matriz” é a rede, não o programa que roda na rede. É possível instalar programas nessa chamada “rede-mãe” que alteram a sua topologia. Como ocorre nas redes neurais do cérebro humano, o software – certas linguagens, por exemplo, sobretudo simbólicas, como nos mostrou Terrence Deacon (1997), em “The simbolic species: the co-evolution of language and the brain” (New York: W. W. Norton & Co.) – pode modificar o hardware. Podem desativar ou impedir que novas conexões se estabeleçam, assim como podem estimular novas conexões.

 

A “rede-mãe” está “projetada”, se é possível falar assim, para permitir o grau máximo de distribuição (todos conectados com todos). O que não significa que isso ocorrerá. Na prática não ocorre em nenhuma sociedade humana complexa, mas apenas em pequenos grupos. A introdução de padrões de organização hierárquicos e modos de regulação autocráticos equivale a instalação de programas que desativam conexões e impedem que novas conexões se estabeleçam.

 

O genótipo da “rede-mãe” é o da distribuição máxima, mas o fenótipo acaba sendo o da distribuição combinada com centralização (e multicentralização). Onde o grau de centralização é muito grande torna-se praticamente impossível a manifestação de um “metabolismo” democrático, que exige sempre algum nível de distribuição. A democracia – e a pluriarquia, quer dizer, a democracia realizada em redes altamente distribuídas – é um caminho em direção à distribuição.

 

Se queremos que uma determinada sociedade altere seus padrões de organização e seus modos de regulação na direção de mais horizontalidade (mais conectividade) e mais democracia (mais “metabolismo” de rede distribuída), temos de construir interfaces organizativas capazes de permitir a instalação de programas que ativem conexões e fabriquem novas conexões. É razoável supor que essas interfaces organizativas devem ser, para tanto, mais distribuídas do que centralizadas. Temos que falar a “linguagem de máquina” da “rede-mãe” e não a linguagem dos programas que foram instalados para colocar obstáculos ao trânsito, à fluição. Temos que remover os obstáculos, quer dizer, eliminar as escadas, derrubar os muros, demolir as pirâmides, destrancar as portas… Em outras palavras, temos que quebrar o poder privatizante das corporações e das outras organizações hierárquico-verticais.

Quando você constrói uma hierarquia deforma a rede e não se comunica verdadeiramente com “a matriz”; quer dizer, não com o que ela é porque assim foi tornada ao rodar um programa verticalizante e sim com o que ela pode ser funcionando apenas a partir de algo assim, numa comparação sofrível, como o seu Bios (em computação, Basic Input/Output System). O que chamamos propriamente de ‘social’ é, assim, construído a cada instante pelo processo de conectar para criar novos caminhos ao fluir; não é um dado, uma herança e sim um projeto sempre retomado.

 

Sim, tudo indica que há mesmo conhecimento novo aqui. Usando outros termos, poderíamos dizer, que se quisermos investir em capital social para induzir o desenvolvimento, deveremos estimular redes voluntárias P2P onde possam rodar softwares livres ao invés de construir organizações fechadas para manter em nossas mãos programas proprietários. Esse é o motivo pelo qual instituições hierárquicas constituídas para promover o desenvolvimento social têm efetividade tão baixa. Esse é o motivo pelo qual ‘a nova burocracia das ONGs’ não é capaz de desencadear verdadeiros processos de transformação social, muitas vezes aprisionando, ao invés de libertar, as forças criativas e empreendedoras das comunidades.

No principio era a rede. O que chamamos de ‘social’ refere-se à rede social. A configuração e a dinâmica de sua rede social é o que podem explicar, em um nível mais profundo, os fenômenos que acontecem em uma sociedade. Uma sociedade só é distinguível de outra porque sua rede social é diferente da rede social da outra sociedade. A identidade de uma sociedade pode ser compreendida, nesse nível de profundidade, por padrões de tecitura social e de fluxos recorrentes ou circuitos ativados. Embora a rede seja móvel, embora os fluxos que a percorrem sejam diferentes em cada instante, existem padrões, invariantes que são próprios de uma particular coletividade. O retrato desses padrões é a impressão digital de uma sociedade. Aquilo que permanece constante na configuração e na dinâmica de uma rede social é a “carteira de identidade” da sociedade onde essa rede foi observada.

 

Assim como a teia da vida que liga os elementos de um ecossistema é invisível para os olhos, assim também ocorre com a teia social que estabelece as conexões entre as pessoas e os grupos em uma sociedade. São essas conexões que caracterizam os padrões de convivência social. Anisotropias criadas nesse tecido social, singularidades geradas nesse espaço, condicionam fluxos, constroem caminhos preferenciais para esses fluxos. Perturbações introduzidas nesse espaço vão percorrer o sistema seguindo caminhos construídos por repetição, pré-cursos que foram sulcados pelo transito diferencial de mensagens. O software modifica o hardware. A dinâmica da rede constrói sua configuração. Um caminho muito trilhado é um canal com mais capacidade. Redes de conversações acionadas com grande freqüência são como ruas que ligam bairros construídos em uma cidade. Tornam-se padrões invariantes na geografia urbana. O sistema que resulta dessas múltiplas anisotropias conforma a identidade de um espaço social, quer dizer, uma rede social particular, identificável.

 

A analogia da rede social com a cidade tem muito poder heurístico. Mas é mais do que isso: as cidades – ou, em termos ainda mais genéricos, as localidades – são redes sócio-territoriais. As cidades são resultados de comportamento coletivo. Elas se auto-organizam, mesmo as que foram planejadas se reorganizam, tornando-se, todas, auto-planejadas, bottom up. Mas só podem fazer isso porque têm artérias, canais, circuitos ligando suas várias localidades (regiões administrativas, bairros, ruas e praças e outros equipamentos e casas). Por esses canais fluem padrões. Assim, dentre os múltiplos caminhos percorridos, afirmam-se como principais aqueles mais trafegados.

 

Tal ocorre com a rede social que está por trás da rede urbana. Mais do que isso: tal só ocorre no espaço urbano (territorial) porque ocorre no espaço das conexões entre pessoas e grupos (social). Isso é a localidade do ponto de vista da rede.

 

O que chamamos usualmente de ‘social’ se aplica a coletividades de seres humanos. Quando alguém fala de social pensa em coleção de indivíduos. Levam-se em conta, por certo, as interações entre os indivíduos. Mas estudam-se os fenômenos da interação sem, contudo, ver a estrutura e a dinâmica da interação no seu espaço e no seu tempo próprios. Porque não se vêem as conexões por meio das quais as interações se processam. São essas conexões, esses caminhos múltiplos, que constituem a rede social.

 

A rede é invisível para os olhos. Porque as conexões são ocultas. Mas há um espaço e um tempo das conexões. É um espaço-tempo de fluxos, como percebeu Castells. É um universo de relações e não de objetos.

 

A metáfora do filme The Matrix serve como modelo sugestivo. Com a diferença de que a Matrix existe não como no filme, quer dizer, não como mainframe e sim como rede. Se pudéssemos perceber o que está “por trás” de uma sociedade e que produz os fenômenos que aparecem (ou que encaramos) como fenômenos sociais, veríamos alguma coisa como aquela tela do filme, com os sinais verdes em cascata: uma figuração do programa “rodando”.

 

Há um programa rodando. Um programa emergente. Um programa que vai se construindo e reconstruindo. Um programa adaptativo. Quando vemos um caminho ser trilhado por muitas pessoas no espaço físico, é porque esse caminho já existe prefigurado no espaço de conexões. Só andamos por esses “dutos”. Fora deles não pode haver tráfego, pois fora deles não há espaço (de conexões), nem tempo (idem) e assim não pode haver movimento, i. e., trânsito de mensagens e padrões (um padrão, como dizia Norbert Wiener, também “é uma mensagem e pode ser transmitido como tal”).

 

Em princípio pode haver “dutos” entre cada elemento da sociedade, ou seja, entre cada par de indivíduos ou grupos de indivíduos (organizações, num sentido amplo) e entre cada par indivíduo-grupo. As combinações possíveis são muito numerosas e crescem exponencialmente com o número de nodos, pois desenham caminhos que podem passar várias vezes por um mesmo nodo. Os fluxos são estímulos que escorrem pelas conexões mais ativadas, percorrendo circuitos que passam por numerosos nodos e pares de nodos mais de uma vez. A ativação desses caminhos se dá pela recorrência: quanto mais trafegados forem, mais se tornarão preferenciais para o trânsito. A isso chamamos de pré-curso. Um pré-curso é um sulco antecipatório, por onde escorrerão as coisas que ainda virão.

 

Não é por acaso que o número (e o tipo) de eventos no espaço-tempo de conexões (ou melhor, dos fluxos) é sempre caracteristicamente limitado, ou melhor, padronizado para cada particular sociedade. Alguns caminhos costumeiros, algumas pessoas notórias, algumas configurações de relações recorrentes (que aparecem como festas típicas de uma cidade, por exemplo) são sempre celebrizados, em detrimento de outros que, por mais que se tente promovê-los, não adquirirão igual visibilidade. É a sociedade construindo (e mantendo) sua identidade e, inevitável e simultaneamente, inventando sua tradição (sua capacidade de repetir passado) e trancando o seu futuro. Cada localidade tem potencial para ativar novos circuitos. Em princípio todo local tem vocação para se tornar global (ou seja, para se tornar qualquer outro local). No entanto, se não mantivesse um mesmo padrão, uma localidade não poderia ser reconhecida como tal, em seus elementos distintivos. De certo modo – e isso pode ser apenas uma outra maneira de olhar, mas também pode ser mais do que isso – são os futuros disponíveis que distinguem uma localidade de outra e não o seu passado.

 

Não conhecemos ainda a estrutura – nem as leis que regem – o espaço-tempo das conexões (ou dos fluxos). Sabemos, entretanto, que as conexões são móveis, que não são contínuas mesmo quando recorrentes, senão intermitentes (a rede pulsa). Sabemos que quanto maior a tecitura de uma rede menor o mundo (social) que ela gera e que isso não é função direta do número de seus nodos. Muitos nodos e poucas conexões geram um mundo socialmente maior do que poucos nodos com muitas conexões. Uma cidade sumeriana como Lagash era muita vezes maior (em termos de comprimento de corrente, de extensão característica de caminho, de grau de separação, de conectividade, enfim, de capacidade de um nodo chegar a outro nodo qualquer) do que a Nova York dos dias atuais.

 

Sabemos que quanto maior a tramatura (desse tecido) do mundo social, maior a sua capacidade de gerar programas adaptativos, de auto-organização e mais liberdade ela terá para inventar futuro. Liberdade é sempre poder (sobre si) e sempre o contrário de poder (sob ou sobre os outros). Múltiplos caminhos (= redes) ampliam a liberdade e o poder sobre si; caminhos únicos (= hierarquia) reduzem a liberdade e ampliam o poder sob ou sobre os outros.

 

Talvez haja alguma coisa como um “gene social”, um “meme coletivo”, um programa básico de adaptação (que roda na rede) que se reproduza por imitação, passando de uma localidade à outra. Uma evidência disso é a incrível capacidade de contágio das cidades. Surgida uma cidade num mundo de aldeias pré-urbanas, ela se espalha, se copia em várias outras. Realizações de uma cidade são sempre imitadas por outras cidades. O atual reflorescimento das cidades-pólo no mundo do século 21 (as cidades-Estado transnacionais e as cidades-tecnológicas) está mudando a economia e geopolítica do planeta, passando por cima de fronteiras e de outras restrições impostas pelo velho Estado-nação. Não é improvável que isso tenha começado com um programa que foi gerado em algum lugar e está se espalhando. Outra evidência são as configurações culturais que se reproduzem: os modelos teogônicos da Mesopotâmia do IV milênio (o panteão dos doze deuses, por exemplo) foram copiados por praticamente todas as civilizações do III e do II milênios a. E. C.

 

Não sabemos como ocorre tal processo, mas a capacidade de gerar padrões replicáveis de comportamento depende da tramatura do tecido social. Quanto menor o mundo em termos sociais, mais capaz ele será de gerar e exportar seus próprios padrões.

 

(1) Cf. Maturana, Humberto (1985). “Biologia del fenómeno social” in Maturana, H. (1985). “Desde la Biologia a la Psicologia”. Santiago de Chile: Editorial Universitária, 1996.

Uma mudança significativa na nossa visão sobre a sociedade está ocorrendo nos últimos anos. É como se, de repente, um véu tivesse sido retirado da frente de nossos olhos e pudéssemos agora divisar uma estrutura e uma dinâmica – na verdade, vários mundos de fluxos luminosos e intermitentes – revelando a existência de conexões que antes não enxergávamos.

 

Essa mudança vem mostrando que aquilo que chamamos de sociedade não era bem o que até então julgávamos que percebíamos. Ou seja, não era apenas um conjunto de indivíduos humanos distribuídos sobre um território e constituído a partir de algumas relações recorrentes, normas e instituições, historicamente construídas. Era isso, sim, mas muito mais do que isso.

 

Descobrimos que o que chamamos de ‘social’ não se refere propriamente a um conjunto de seres humanos e sim a um conjunto de relações. Que essas relações são conexões. Que as conexões são caminhos pelos quais podem trafegar mensagens. Que padrões são mensagens e podem ser transmitidos como tal. Que os comportamentos dos indivíduos são condicionados, ao mesmo tempo, tanto pela sua forma peculiar de interagir com outros seres humanos – de emitir, processar e de receber mensagens – quanto pela configuração e pelo funcionamento geral da teia de conexões na qual esse indivíduo está inserido. O que aponta para um imbricamento, inescapável, entre o indivíduo (possuidor de um fluxo próprio de experiências intransferíveis) e o coletivo (os fluxos das conexões com as experiências de outros indivíduos, que o atingem continuamente).

 

Essa teia de conexões é o que foi chamado de rede social. Descobrimos, assim, que o que chamávamos de ‘social’ nada mais era do que a rede social. Isso é tão surpreendente que não é fácil captar todo sentido e imaginar as múltiplas conseqüências desse novo modo-de-ver.

 

Recorrendo a uma metáfora, é como se existisse de fato aquela The Matrix dos filmes dos irmãos Wachowski, não na forma de um mainframe controlado pelo elegante senhor de barba branca – o Arquiteto (representado pelo ator Helmut Bakaitis) que contracena com Neo (Keanu Reeves) em Matrix Reloaded – e sim como uma network, uma teia invisível, móvel, pulsante, de conexões entre indivíduos e grupos em uma sociedade. Trata-se apenas de uma imagem, em certo sentido invertida: enquanto na Matrix (do filme) o objetivo é ‘controle’, na rede social o tema é ‘regulação’. Sim, sob certas condições, podemos ter, na rede social, o fenômeno da autoregulação. Invadida, porém, por padrões de organização hierárquicos e perturbada por modos de regulação autocráticos, a rede pode ter sua estrutura deformada e seu funcionamento alterado – em geral pelo bloqueamento de fluxos – com conseqüências perversas para o que chamamos de qualidade de vida e de convivência social.

 

Ainda é difícil avaliar todos os impactos que terá essa mudança de compreensão sobre a sociedade. Um dos impactos da descoberta das redes sociais é sobre a nossa visão do desenvolvimento. Pela primeira vez está sendo possível estabelecer uma relação intrínseca entre desenvolvimento e democracia. Essa relação só se tornou perceptível – e capaz de ser justificada teoricamente – a partir da idéia de capital social.

 

Todavia o que chamamos de capital social – um recurso para o desenvolvimento aventado recentemente para explicar por que certos conjuntos humanos conseguem criar ambientes cooperativos favoráveis à boa governança, à prosperidade econômica e à expansão de uma cultura cívica capaz de melhorar as suas condições de convivência social – nada mais é do que a rede social. A constatação de que o capital social é produzido em maior escala em ambientes democráticos, tem inspirado a idéia de que a democracia é uma espécie de “metabolismo” próprio da (ou mais adequado à) rede social.

 

Do ponto de vista do capital social, quer dizer, dessa nova variável que passou a ser considerada – ao lado dos fatores econômicos já conhecidos (o capital financeiro e o capital físico, ou seja, a renda ou o produto e a riqueza) e dos fatores extra-econômicos que passaram também a ser levados em conta (como o capital humano e o capital natural) – desenvolvimento é a mesma coisa que sustentabilidade.

 

Sustentabilidade é o grande tema contemporâneo. A investigação dos mecanismos ou processos de sustentabilidade revelou o papel das redes sociais. Só redes podem ser sustentáveis porque só redes conseguem mudar programas de adaptação a partir do seu próprio padrão de identidade, ou seja, daquilo que permanece invariante na sua forma de se configurar ou de fluir. Ora, isso significa conservação da adaptação: só é sustentável o que consegue mudar de acordo com a mudança de circunstâncias, mantendo uma congruência dinâmica com o meio, conservando, porém, aquilo que o caracteriza. Sustentabilidade, em outras palavras, é uma função de autoregulação da rede social.

 

 

O que são redes

 

Uma rede é uma coleção de nodos ligados por muitos caminhos (ou um conjunto de vértices interconectados por muitas arestas).

 

Duas confusões são muito comuns na literatura sobre redes. As pessoas chamam de rede tanto a uma forma ou um tipo de organização voluntariamente construída para cumprir uma finalidade, em geral de natureza social e, ao mesmo tempo, a rede social que existe como fenômeno objetivo, independentemente dos esforços feitos por algum sujeito para tecê-la ou articulá-la.

 

Por variadas e complexas razões de ordem social e tecnológica, a sociedade humana está se conformando, cada vez mais, como uma rede – o que Guéhenno (1993) chamou de “idade das redes” e Castells (1996) chamou de “sociedade-rede”. Entretanto, a rigor, a rede social existe desde sempre, ou seja, desde que existem seres humanos se constituindo como tais na relação com outros seres humanos.

 

Ou seja, a rede social é o que propriamente chamamos de ‘social’. Não é agora que a sociedade está se constituindo como uma sociedade-rede. Toda vez que sociedades humanas não são invadidas por padrões de organização hierárquicos ou piramidais e por modos de regulação autocráticos, elas se estruturam como redes. O que ocorre na época atual é que a convergência de fatores tecnológicos (como a fibra ótica, o laser, a telefonia digital, a microeletrônica e os satélites de órbita estacionária), políticos, econômicos e sociais, está possibilitando a conexão em tempo real (quer dizer, sem distância) entre o local e o global e, assim, está tornando mais visível a rede social e os fenômenos a ela associados, ao mesmo tempo em que está acelerando e potencializando os seus efeitos, o que não é pouca coisa.

 

Isso não significa que as formas organizativas que queremos ensaiar em uma sociedade não possam também adotar voluntariamente o padrão de rede. Mas são duas coisas diferentes. Uma organização territorial, setorial ou temática voluntariamente construída recebe o nome de rede quando seus integrantes (pessoas, grupos e outras organizações) estão conectados entre si horizontalmente (ao contrário de como se organizam nas organizações hierárquicas ou em uma holding, por exemplo). Mas a denominação de rede não se aplica adequadamente a muitos esforços voluntários de construir redes, que em geral apenas disfarçam uma organização centralizada ou com um número insuficiente de caminhos, onde não podem se manifestar plenamente os fenômenos próprios da conexão em rede.

 

A rigor estamos caracterizando aqui como rede apenas as chamadas redes distribuídas (ao contrário das redes centralizadas e das redes descentralizadas) cuja topologia é P2P, ou seja, na qual os nodos estão ligados ponto a ponto e não a partir de um único centro (rede centralizada) ou de vários pólos (rede descentralizada). A novidade das redes se refere às redes distribuídas. Veja o diagrama abaixo – proposto originalmente por Paul Baran em um documento em que descrevia a estrutura de um projeto que mais tarde se converteria na Internet – melhorado por Rodrigo Araya e divulgado por David de Ugarte (2007):

[Inserir diagrama Paul Baran]

A outra confusão muito comum se refere à rede social. Nem toda rede é uma rede social. Existem muitos tipos de redes, dentre os quais os mais conhecidos e citados são as redes biológicas (a rede neural por exemplo, que conecta os neurônios no cérebro dos animais, ou a teia da vida que assegura a sustentabilidade dos ecossistemas, conectando micro-organismos, plantas e animais e outros elementos naturais) e a rede social (embora existem também redes de máquinas – como a rede mundial de computadores que chamamos de Internet – que são redes sociais na medida em que conectam pessoas). Há uma homologia entre esses diversos padrões organizativos, de sorte que, estudando-os, pode-se iluminar a compreensão do multiverso das conexões ocultas que configuram o que chamamos de social. Mas isso não significa que sejam a mesma coisa.

Se não soasse tão antipático, melhor seria indicar o que não-ler sobre redes sociais. Quase toda literatura “social” sobre redes é primária, instrumental, toma as redes como um novo artifício organizativo, um expediente para atingir um objetivo (em geral de modo hierárquico-autocrático) e não compreende que a rede não é um meio para fazer a mudança: ela já é a mudança.

 

Mas quem quiser ficar a par da discussão contemporânea (praticamente quase toda produzida neste século) sobre redes sociais, simplesmente não pode deixar de ler os seguintes textos que compõem uma lista básica de trinta indicações de leitura:

 

1 | LIPNACK, Jessica & STAMPS, Jeffrey (1982/1986). Networks: redes de conexões. Aquariana: São Paulo, 1992.

 

2 | GUÉHENNO, Jean-Marie (1993). O fim da democracia. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

 

3 | LEVY, Pierre (1994). A inteligência coletiva. Por uma antropologia do ciberespaço. São Paulo: Loyola, 1998.

 

4 | TAPSCOTT, Don (1996) The Digital Economy: Promise and Peril in the Age of Networked Intelligence. New York: McGraw-Hill, 1996.

 

5 | CASTELLS, Manuel (1996). A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

 

6 | STANDAGE, Tom (1998). The Victorian Internet. New York: Berkeley Books, 1998.

 

7 | CASTELLS, Manuel (1999). “Para o Estado-rede: globalização econômica e instituições políticas na era da informação” in Bresser Pereira, L. C., Wilheim, J. e Sola, L. Sociedade e Estado em transformação. Brasília: ENAP, 1999.

 

8 | WATTS, Duncan (1999). Small worlds: the dynamics of networks between order and randomness. New Jersey: Princeton University Press, 1999.

 

9 | JACOBS, Jane (2000). A natureza das economias. São Paulo: Beca, 2001.

 

10 | ARQUILLA, John e RONSFELD, David (2000). Swarming and the Future of Conflict. USA: Rand Corporation, Office of the Secretary of Defense, 2000.

 

11 | ORAM, Andy (org.) (2001). Peer-to-peer: o poder transformador das redes ponto a ponto. São Paulo: Berkeley, 2001 (em especial o artigo de Hong, Theodore (2001). “Desempenho”).

 

12 | CASTELLS, Manuel (2001). A galáxia da Internet: reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

 

13 | HIMANEN, Pekka (2001). The hacker ethic and the spirit of the information age. New York: Random House, 2001.

 

14 | LEVY, Steven (2001). Crypto: how the code rebels beat the government, saving privacy in the digital age. New York: Penguin Books, 2001.

 

15 | RAYMOND, Eric S. (2001). The Cathedral & the Bazaar: Musings on Linux and Open Source by an Accidental Revolutionary. New York: O’Reilly, 2001.

 

16 | CAPRA, Fritjof (2002). As conexões ocultas. São Paulo: Cultrix/Amana-Key, 2002.

 

17 | BARABÁSI, Albert-László (2002). Linked: how everything is connected to everything else and what it means. New York: Basic Books, 2002.

 

18 | WATTS, Duncan, DODDS, Peter & MUHAMAD, Roby (2002). “Um Estudo Experimental de Busca em Redes Sociais Globais”. Science (2 December 2002; accepted 23 May 2003 |10.1126/science.1081058): ver a edição de Franco, Augusto (2003), disponível in ‘Carta Capital Social 107’ (www.augustodefranco.com.br).

 

19 | RHEINGOLD, Howard (2002). Smart mobs: the next social revolution. New York: Basic Books, 2002. (Existe edição em espanhol: Multitudes inteligentes. Madrid: Gedisa, 2004).

 

20 | BUCHANAN, Mark (2002). Nexus: Small Worlds and groundbreaking science of networks. New York: WWNorton, 2002.

 

21 | BARD, Alexander e SÖDERQVIST, Jan (2002). La netocracia: el Nuevo poder en la Red y la vida después del capitalismo. Espanha: Pearson Educación, 2005.

 

22 | MARTINHO, Cássio (2003). Redes: uma introdução às dinâmicas da conectividade e da auto-organização. Brasília: WWF-Brasil, 2003.

 

23 | WATTS, Duncan (2003). Six degrees: the science of a connected age. New York: W. W. Norton & Company, 2003.

 

24 | STROGATZ, Steven (2003). Sync: the emerging science of spontaneous order. New York: Hyperion, 2003.

 

25 | UGARTE, David (2004). “Analizando redes sociales” in www.lasindias.com

 

26 | CROSS, Rob & PARKER, Andrew (2004). The hidden power of social networks: understanding how work really gets done in organizations. Boston: Harvard Business School Press, 2004.

 

27 | GARDNER, Susannah (2005). Buzz Marketting with blogs for dummies. New York: John Wiley, 2005.

 

28 | TAPSCOTT, Don e WILLIAMS, Anthony (2006). Wikinomics: como a colaboração em massa pode mudar o seu negócio. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.

 

29 | NEWMAN, Mark, BARABÁSI, Albert-László & WATTS, Duncan (eds.) (2006). The structure and dynamics of networks. New Jersey: Princeton University Press, 2006.

 

30 | UGARTE, David (2007). El poder de las redes: manual ilustrado para personas, colectivos y empresas abocados al ciberactivismo, disponível em:

http://www.deugarte.com/gomi/el_poder_de_las_redes.pdf Já existe tradução brasileira (editada como livro, em papel, com apresentação de Augusto de Franco): O poder das redes. Porto Alegre: CMDC/ediPUCRS, 2008.

 

Faltou aqui, evidentemente, o extenso campo do conhecimento chamado Social Network Analysis, que já conta com algumas centenas de publicações importantes (quem quiser mais informações sobre o assunto deve consultar o site da INSNAInternational Network for Social Network Analysis: www.insna.org – ou ler os livros de Stanley Wasserman, da Universidade de Illinois (1). Há muita coisa além disso. Mas o fato é que as teorias dos grafos e a SNA são estáticas de redes, quando estamos precisamos agora de uma dinâmica.

 

Têm surgido também alguns manuais – voltados para organizações da sociedade civil – sobre o que são redes sociais e como articulá-las. Mas, como dissemos no início desta seção, não vale muito a pena perder tempo com isso.

 

Sobre capital social – uma espécie de primórdio das teorias das redes sociais – é necessário também ler alguma coisa (2).

 

 

(1) Cf., e. g.: Wasserman, Stanley & Faust, Katherine (1994). Social Network Analysis: methods and applications. Cambridge: Cambridge University Press, 1999 e Wasserman, Stanley & Galaskiewicz (orgs.) (1994). Advances in Social Network Analysis: research in the social and behavioral sciences. Thousand Oaks: Sage Publications, 1994.

(2) Quem quiser se aprofundar nas teorias do capital social pode ler: Coleman, James (1990). Foundations of Social Theory“. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1990 (sobretudo o capítulo 5); van Deth, Jan W. et al. (eds.) (1999). “Social Capital and European democracy”. London/NY: Routledge/ECPR Studies in European Political Science, 1999 (em especial dois textos: o de Newton, Kenneth. “Social Capital and democracy in modern Europe” e o de Whiteley, Paul F. “The origins of social capital”); Leenders, Roger and Gabbay, Shaul (1999). “Corporate social capital and liability”. Boston: Kluwer Academic Publishers, 1999 (em especial o texto de Knoke, David. “Organizational networks and corporate social capital”); Baron, Stephen et al. (eds.) (2000). “Social Capital: critical perspectives”, New York: Oxford University Press, 2000 (em especial os textos de Schuller, Tom; Baron, Stephen & Field, John. “Social Capital: a Review and Critique” e de Maskell, Peter. “Social Capital, Innovation and competitiveness”); Lesser, Eric (ed.) (2000). “Knowledge and Social Capital: foundations and applications”. Boston: Butterworth-Heinemann, 2000 (sobretudo os quatro textos seguintes: Nahapiet, Janine & Ghoshal, Sumantra. “Social Capital, Intellectual Capital and the organizational advantage”; Portes, Alejandro. “Social Capital: Its Origins and Applications in Modern Sociology”; Snadefur, Rebecca & Laumann, Edward. “A Paradigm for Social Capital”; e Adler, Paul & Kwon, Seok-Woo. “Social Capital: The Good, the Bad and the Ugly”); Dasgupta, Partha & Serageldin, Ismail (eds.) (2000). “Social Capital. A Multifaceted Perspective”. Washington: The World Bank, 2000 (sobretudo os três textos seguintes: Grootaert, Christiaan & Serageldin, Ismail. “Defining social capital: an integrating view”; Ostrom, Elinor. “Social capital: a fad or a fundamental concept”; Dasgupta, Partha. “Economic Progress and the idea of social capital”); Edwards, Bob et al. (eds.) (2001). “Beyond Tocqueville: civil society and the social capital debate in comparative perspective”. Hanover: Tufts University, 2001 (em especial os textos de Newton, Keneth. “Social Capital and Democracy” e de Foley, Michael, Edwards, Bob & Diani, Mario. “Social Capital Reconsidered”); Dekker, Paul & Uslaner, Eric (eds.) (2001). “Social Capital and participation in everyday life”. London/NY: Routledge/ECPR Studies in European Political Science, 2001 (em especial o texto de Grootaert, Christiaan. “Social Capital: the missing link?”); Lin, Nan et al. (eds.) (2001). “Social Capital: theory and research”. New York: Aldine de Gruyter, 2001 (em especial o texto de Lin, Nan. “Building a network theory of social capital”); Stolle, Dietlind & Hooghe, Marc (2003). “Generating social capital: civil society and institutions in comparative perspective”. New York: Palgrave MacMillan, 2003.

 

Antes de percorrer essa extensa lista seria bom conhecer o básico, não deixando de começar pelos clássicos: Thomas Paine: Direitos do Homem (1791); Tocqueville: A democracia na América (1835-1840); Stuart Mill: Sobre a Liberdade (1859) e Sobre o Governo Representativo (1861); e Jane Jacobs: Morte e vida das grandes cidades (1961), onde, pela primeira vez, o conceito de capital social é definido como rede social. Depois, então, seria bom ler: James Coleman: “Social Capital in the creation of Human Capital” (in American Journal of Sociology, Supplement 94 (s95-s120), 1998); Robert Putnam (1993): Comunidade e democracia: a experiência da Itália moderna (o título original era “Making Democracy Work”, muito mais esclarecedor); Francis Fukuyama: A grande ruptura: a natureza humana e a reconstituição da ordem social (1999) e Claus Offe: A atual transição da história e algumas opções básicas para as instituições da sociedade (1999).

O tema deste livro é A Rede, aquela que existe independentemente de nossos esforços voluntários organizativos (ou conectivos). A despeito da confusão que isso possa causar – e causará – ela será tratada doravante com letra minúscula, para não ficar parecendo uma construção metafísica, como ‘A História’ ou ‘A Economia’.

 

O princípio é simples. Seres humanos se conectam uns com os outros formando redes sociais. Não é necessário que alguém tome a decisão de fazer isso. Não há qualquer razão (decorrente de alguma coisa como uma ‘natureza humana’, seja lá o que isso for) pela qual essas relações não sejam horizontais, quer dizer, distribuídas em vez de centralizadas.

 

Dentro de certos limites (impostos pelo número de pessoas e pelas distâncias entre elas, quer dizer, para usar o jargão tecnológico atual, pela “largura da banda” ou pela velocidade da conexão), em princípio também não há qualquer motivo tipicamente humano para que todas as pessoas não se conectem diretamente com todas as pessoas. A tendência é que isso acabe acontecendo… Se não impedirmos. É aí que a coisa começa a complicar. Quando a rede é invadida por padrões hierárquicos e modos de regulação autocráticos.

 

Só então nos damos conta de que a rede está presente no nosso cotidiano de uma maneira muito mais concreta do que imaginamos. Vamos ver alguns exemplos.

 

Você tenta falar com uma pessoa e não consegue, você chega em uma instituição pública e lhe dão um “chá de cadeira”: ora, o que está havendo senão obstruções na rede? Se os caminhos estivessem abertos você escorreria por eles; se alguns caminhos estivessem impedidos ou congestionados, você tomaria rotas alternativas. Mas quando não há múltiplos caminhos é sinal de que não há rede – essa é, aliás, a própria definição de rede (stricto sensu, distribuída). Muitas vezes os caminhos são obstruídos por barreiras ou cancelas burocráticas.

 

Você fez um estudo interessante sobre determinado assunto, mas a burocracia sacerdotal do conhecimento acadêmico não lhe dá crédito; você tenta ler (ou escrever) alguma coisa inédita, mas não consegue entender (ou ser entendido) por razões estranhas à racionalidade formal (lógica e metodológica) ou substantiva (semântica incluída) do texto: certamente está havendo algum tipo de intervenção hierárquica, que seleciona alguns caminhos na rede em detrimento de outros. Algum programa particularizou uma região da rede instaurando códigos de reconhecimento e permissões… Se você não possui as credenciais (um título, por exemplo, com o qual os mesmos de sempre se condecoram, mutuamente, num circuito fechado de quem leu as mesmas coisas, participou das mesmas conversas – quer dizer, compartilhou voltas em torno do mesmo assunto ou da mesma maneira de abordá-lo), seu acesso é proibido. Para esse tribunal epistemológico – que se arroga o direito de dizer o que é e o que não é válido em termos de pensamento – todos são culpados de heresia em princípio. Você tem que ser absolvido por ele, de antemão, para ser aceito.

 

Você tem uma opinião sobre determinado assunto, mas não lhe reconhecem o direito de proferi-la; ou, então, tentam desvalorizá-la em princípio. Alguém – algum grupo organizado de modo autocrático – construiu uma orto-doxa (uma opinião correta, tida como verdadeira, diante da qual a sua mera opinião é julgada como incorreta ou falsa). Então eles ficam lá, numa espécie de alfândega, vendo quais as opiniões que podem passar ou ter trânsito livre e quais não podem. E diante dessa patrulha você se omite, deixa de dizer o que pensa porque acaba ficando com vergonha de destoar do que é proclamado como politicamente correto. Isso quando não lhe perseguem, prendem, torturam e matam – só porque você tem uma opinião diferente da “oficial” (como ocorre nas autocracias). As alfândegas ideológicas são filtros (centralizações), introduzidos na rede social, para deixar passar somente o que interessa aos que têm como objetivo estabelecer algum tipo de hegemonia de um pensamento sobre a sociedade.

 

Cancelas burocráticas, tribunais epistemológicos e alfândegas ideológicas são exemplos de mecanismos de controle. Só existem porque querem que você obedeça, que faça coisas com as quais não concorda e que deixe de fazer as coisas que quer fazer. Para tanto, criaram um mundo em que ordem e hierarquia, disciplina e obediência, vigilância (ou patrulha), punição e fidelidade imposta de cima para baixo, viraram comportamentos desejáveis ou virtudes.

 

O objetivo é fazer com que você mesmo se controle. Ou que você deixe de fazer as coisas por si mesmo, delegando a tarefa a alguém que lhe represente. Representações também são mecanismos de controle. São escadas. São descentralizações, isto é, criação de centros de poder que vedam caminhos. Corporações e organizações burocráticas – mesmo as da nova burocracia associacionista das ONGs – são pequenos castelos enquistados na rede social. Geram perturbações, singularidades no espaço-tempo dos fluxos que abolem a isotropia (privilegiando a direção vertical).

 

Não é necessário descrever com muitos detalhes como funciona esse mundo. Você é capaz de sentir. Seus graus de liberdade estão sendo restringidos, você é vítima de mais-ordem, tem a impressão de que sua vida está sendo controlada, não consegue se fazer ouvir nem chegar aonde quer. Não foi a rede que fez isso sozinha: alguma “coisa”, que nela foi introduzida, de certo centralizou-a, ou descentralizou-a (no fundo é a mesma coisa), mas (– eis a diferença! –) impediu a distribuição das conexões.

 

O que aconteceu? Os eventos de desenredamento (ou de hierarquização) são escadas e muros. São portas, cercas e linhas escritas… E são culturas. De qualquer modo são sempre programas que rodam na rede. Sim, normas e instituições são programas, assim como a própria escrita.

 

Normas e instituições são programas que orientam fluições segundo um padrão recorrente.

 

Normas são assim. Para chegar ali você só pode passar por aqui. E depois, você só pode voltar para cá fazendo tal caminho e não outro. Você não pode abrir novos caminhos, ou seja, seu estoque de futuros disponíveis está limitado. Então, mesmo que não queira, você deve repetir passado. Não estamos discutindo aqui se normas são ou não são necessárias (e é claro que são, para manter sociedades estáveis, pelo menos no atual padrão civilizatório). Estamos apenas reconhecendo em que consistem e o que fazem.

 

Instituições são assim. Regiões do espaço-tempo dos fluxos são congeladas criando um campo que conserva determinada configuração geral. Como num trem fantasma de parque de diversões, as linhas (férreas) já estão estabelecidas: você deve levar os mesmos sustos até que não se assuste mais com o inesperado, até que – como diria Heráclito – não consiga mais esperar o inesperado, para que ele não possa mesmo ocorrer (quer dizer, para que você não consiga mais encontrá-lo – provavelmente é o que deve ter dito Heráclito). Sem isso – diz-se então – não poderíamos viver socialmente. Como se sabe, é preciso dar voltas para se manter no mesmo lugar.

 

No fundo normas e instituições são a mesma coisa; no primeiro caso olhamos o script e, no segundo, o campo, a configuração gerada quando aquele script do programa começa a rodar na rede.

 

Culturas são redes particulares de conversações que geram circularidades que subtraem caminhos, clusterizando campos de convivência. É por isso, aliás, que qualquer monoculturalismo é nocivo, porquanto, no limite, centraliza tudo extinguindo a rede. Mas qualquer multiculturalismo também é nocivo, porque divide a rede em clusters estanques; descentraliza, é verdade, mas criando filtros. Cada clusterizado só pode chegar diretamente ao seu próprio centro, mas é obrigado a passar por ele – por esse filtro – para chegar aos elementos de outros clusters. Só a interculturalidade aberta à mestiçagem distribui, só a mestiçagem é compatível com a rede. Só é verdadeiramente público o que é distribuído. Uma cultura pública global seria necessariamente mestiça.

 

Linhas escritas obrigam o pensamento multidimensional a se enfileirar (a se linearizar) para passar numa espécie de corredor polonês. Espancam a livre e imediata apreensão – o glance ou o blink – até que ela se acostume a rastejar. Quem sabe, se tivéssemos uma “escrita” simbólica ao invés de alfabética (cuneiforme + hieroglífica), talvez isso não acontecesse. Mas a escrita enfileiradinha (vertical ou horizontal, da esquerda para a direita ou ao contrário, tanto faz) foi introduzida em consonância com um padrão organizativo introduzido top down, cujo objetivo era (ou o resultado objetivo foi) alterar a morfologia e a dinâmica da rede. O mesmo impulso – ou pulsão de morte – que erigiu o primeiro Estado (quer dizer, a primeira ‘Cidade-Estado-Palácio-Templo’ sumeriana, constituída basicamente por escadas e muros, como é, fisicamente, um zigurate) gerou a linha escrita. (Mais tarde ver-se-á que estamos falando da guerra, isto é, do oposto da política democrática ou pluriárquica). Sim, a escrita é também um programa, ou melhor, uma linguagem de programa.

 

Quanta coisa para ser pensada e desenvolvida, não? Bem, vamos em frente. Para quem está interessado em compreender o que está por trás da fenomenologia que aparece como social, esse o desafio maior: começar a reler tudo com os “óculos de ver rede”…

 

É disso que trata este livro.

No final dos anos 90 comecei a me interessar pelas redes sociais. De lá para cá venho fazendo explorações no que chamei de multiverso das conexões ocultas que configuram o que chamamos de ‘social’. Nesse tipo de investigação já abandonei a pretensão de seguir o método, dito científico, das ciências sociais. Descobri que o que chamamos de ‘social’, na verdade, raramente o é. E isso vale tanto para reavaliar algumas ambições das ciências sociais, quanto para desmistificar as chamadas políticas sociais (que, em sua maioria, são políticas voltadas para o desenvolvimento humano e não para o desenvolvimento social; quer dizer, são – nos melhores casos – políticas de investimento em capital humano e não em capital social).

 

A compreensão da natureza dos fenômenos que chamamos de ‘sociais’ está sendo radicalmente alterada nos últimos anos. A descoberta da rede social (a partir do final dos anos 50 do século 20), o desenvolvimento das teorias do capital social (na década de 1990) e os progressos na pesquisa dos sistemas complexos (também a partir dos anos 90), são eventos que modificam profundamente as ciências sociais. Evidentemente há um delay entre o que avançam essas novas concepções e teorias e o trato acadêmico que ainda recebe a sociologia e outras disciplinas afins, como a antropologia social (1).

 

A partir do início do presente século, as contribuições de novas disciplinas (como a Social Network Analysis) para o entendimento das redes sociais vêm se tornando mais expressivas. O estudo da inteligência coletiva e da vida artificial, os progressos na computação baseada em inteligência distribuída ou na chamada swarm intelligence, a aplicação do instrumental das teorias dos sistemas dinâmicos aos sistemas de agentes compostos por seres humanos, a compreensão da emergência e da capacidade da sociedade humana de gerar ordem, bottom up, a partir da cooperação – tudo isso modifica o background e lança novos pressupostos para as teorias sobre a sociedade. Poder-se-ia dizer, talvez, que a velha sociologia está sendo ultrapassada, em seu método e em seus marcos epistemológicos, por uma nova ciência nascente do social.

 

Mas do que se trata, afinal? A questão pode ser colocada de maneira simples. Seres humanos vivendo em coletividades estabelecem relações entre si. Tais relações podem ser vistas como conexões, caminhos ou dutos pelos quais trafegam mensagens. Qualquer coletivo de três ou mais seres humanos pode conformar uma rede social, que nada mais é do que um conjunto de relações, conexões ou caminhos (graficamente representáveis por arestas) e de nodos (vértices). Há rede quando são múltiplos (a rigor mais de um) os caminhos entre dois nodos.

 

A partir de certo número de conexões em relação ao número de nodos começam a ocorrer na rede fenômenos surpreendentes, que não dependem, ao contrário do que se acredita, do conteúdo das mensagens que trafegam por essas conexões. Quanto mais distribuída ou menos centralizada ou descentralizada (i. e., multicentralizada) for a topologia da rede, maiores são as chances de tais fenômenos ocorrerem. Esses fenômenos – como o clustering e o swarming, a redução do tamanho (social) do mundo, a autoregulação sistêmica, a produção de ordem emergente e/ou a desconstituição de ordem pré-existente (ou remanescente) – não podem ser adequadamente captados e explicados pelas categorias e hipóteses (que compõem as teorias) tradicionais das ciências sociais.

 

Embora me apóie em algumas recentes descobertas científicas, da nascente ciência das redes, o que vou expor aqui são resultados de explorações imaginativas e não construções teóricas ou investigações experimentais stricto sensu. Até agora as redes foram consideradas pelas ciências sociais como metáforas estruturais para agrupamentos sociais, como mais um recurso explicativo. Trata-se aqui, entretanto, de tentar ver a realidade social como rede, tomando o que é visível – e conhecível a partir da sua fenomenologia – como manifestação dessa realidade oculta. Falta ainda a esse tipo de abordagem, por certo, um estatuto propriamente científico. O que não significa que as eventuais “descobertas” que eu possa ter feito não contenham conhecimento novo. Mas não pretendo anunciar hipóteses aceitas ou aceitáveis pelas chamadas ciências sociais e sim um modo-de-ver que, espero, acrescente conhecimento ao que, até agora, sabemos sobre o assunto.

 

O assunto é o que chamamos de ‘social’ como rede social. Ou seja, como espero mostrar neste livro, o assunto é política.

 

Mas não estão aqui os resultados detalhados de minhas investigações dos últimos oito anos, que devem continuar por um bom tempo ainda. O que segue é apenas um índice dessas explorações imaginativas no multiverso das conexões ocultas que configuram o que chamamos de social.

 

(1) Isso para não falar das importantes reflexões do biólogo chileno Humberto Maturana Romesin (1985), que reconceitualizaram o que chamamos de ‘social’ numa perspectiva extremamente inovadora e, até certo ponto, desconcertante. Cf. Maturana, Humberto (1985). “Biologia del fenómeno social” in Maturana, H. (1985). Desde la Biologia a la Psicologia. Santiago de Chile: Editorial Universitária, 1996. 

Começo a colocar neste blog os rascunhos do livro que estou preparando para uma edição na Espanha, ainda neste ano de 2008, provavelmente. Aceito sugestões dos leitores. O livro será de Domínio Público.