Em primeiro lugar é preciso reconhecer que todo desenvolvimento é desenvolvimento social, que o conceito de desenvolvimento se aplica a sociedades e não a quaisquer outros sistemas de seres animados ou inanimados, de entes concretos ou conceituais. Do ponto de vista social propriamente dito, quer dizer, da rede social e da sua fenomenologia, o que chamamos de desenvolvimento é sempre uma mudança na rede social, vale dizer, naquelas variáveis que a caracterizam. Existem mudanças sociais que podemos interpretar como desenvolvimento: são aquelas que alteram disposições no espaço-tempo dos fluxos (da rede) de sorte a produzir determinados efeitos que são vistos, de fora, coletivamente, como criação de ambientes favoráveis à inovação e ao protagonismo de aglomerados de indivíduos e, individualmente, como empoderamento de seus nodos em termos de aumento da capacidade desses indivíduos de empreender. Diga-se o que se quiser dizer sobre o desenvolvimento, tais indicadores são definitivos: não podemos falar da ocorrência do fenômeno do desenvolvimento de um determinado conjunto de seres humanos a não ser enquanto estejam sendo gerados ambientes sociais favoráveis e novas capacidades (ou habilidades ou competências) permanentes dos elementos que constituem tal conjunto. Isso, como sabemos, tem a ver com boa governança e prosperidade econômica, mas não é reflexo mecânico e imediato da expansão econômica (ou do crescimento do produto).

 

Mas esses indicadores, lato sensu, de desenvolvimento, por meio dos quais captamos e interpretamos certas mudanças sociais como desenvolvimento, não revelam o que está acontecendo um nível abaixo. Alguma coisa ocorreu no espaço-tempo dos fluxos para que tais efeitos pudessem ser observados. O encorajamento de que necessita um indivíduo para sonhar e correr atrás dos seus próprios sonhos não é um impulso que nasce da sua propensão intrínseca para inovar ou das suas qualidades inatas para ser um empreendedor e sim de uma espécie de indução exercida por um “campo de força” que é gerado pela configuração das relações que envolvem os outros indivíduos e que depende da sua posição nessa configuração. Ou seja, o chamado empowerment é uma função social, que parte do ambiente para o indivíduo – e não o contrário –, mas que depende de coisas como a inserção desse indivíduo em uma rede com maior densidade (“cluster”), do seu grau de intermediação ou peso como conector (“betweenness”) e da sua proximidade a outros nodos ou do seu peso como atalho (“closeness”).

 

Para quem vê de fora e não percebe o processo endógeno e subterrâneo que ocorre na intimidade da rede social, essas observações podem soar como especulação abstrata. Para quem vê por cima – e, portanto, não vê o que há de propriamente ‘social’ no processo (e o social é o processo…) – uma inovação é fruto das boas idéias (que surgem por acaso quando há um virtuoso casamento com a necessidade) ou dos conhecimentos (capital humano) do inovador. Esse enfoque não permite perceber, como dizia William Irwin Thompson (1987), que as idéias, como as uvas, dão em cachos. Duncan J Watts (aquele jovem pesquisador de Colúmbia e Santa Fé, que anda bisbilhotando a intimidade do social, estudando o “Small World Phenomenon” e verificando os graus de separação da rede social global) poderia fazer pouca coisa em Caruaru, assim como os pós-PHDs dos keiretsu japoneses não conseguem competir, segundo a explicação de Fukuyama (1999), em termos de inovações por minuto, com aquelas turmas de jeans e tênis que andam almoçando juntas nos bares e lanchonetes do Silicon Valley (capital social).

 

No caso do desenvolvimento, alguma coisa que não vemos está acontecendo para “produzir” o que vemos. Essa coisa que não vemos é o ‘social’, uma realidade que, por sua vez, não pode ser operada se não mexermos nos fluxos que a “produzem”. E não há outra maneira de fazer isso a não ser alterando padrões de organização e modos de regulação (quer dizer, fazendo política).

 

Inconsciente e desgraçadamente estamos mexendo o tempo todo nesses fluxos, sobretudo alterando a topologia das redes que configuram, por meio de um tipo de política que impede a sua distribuição. Nossa intervenção no social se dá, em geral, pela colocação de obstáculos à livre fluição, introduzindo todo tipo de filtros, quer dizer de centralizações que impedem que a rede social seja uma rede mais distribuída. O poder político – tal como exercido pelo velho sistema político – é o poder de separar, obstruir e excluir e não o de juntar, desobstruir e incluir. Como dizia Paul Valery, numa frase bastante citada, “a política é a arte de impedir as pessoas de participarem dos assuntos que, propriamente, lhes dizem respeito”.

 

Nossas observações sobre os fatores de insucesso em experiências de indução do desenvolvimento local indicam que, em 90% dos casos (senão mais), tais fatores são de natureza política. O assistencialismo, o clientelismo, a centralização e a criação de um clima adversarial na base da sociedade (em geral por razões político-eleitorais) são responsáveis por boa parte das dificuldades que vêm enfrentando, cotidianamente, indivíduos e instituições dedicados à promoção do desenvolvimento em localidades e setores. Além disso, o sistema político conspira contra a inovação, encara o crescente protagonismo das populações como uma ameaça, despreza (e desperdiça) os recursos novos que poderiam ser aportados por outros grupos e indivíduos que não pertencem à patota daqueles que administram os governos como se fossem condomínios privados (sim, o sistema político privatiza a esfera pública e, assim, obstrui o processo substantivo de democratização da sociedade).

 

Mas do fato de a política ser predominantemente assim, não se pode derivar que ela esteja condenada a ser sempre assim (como quer a realpolitik). Existem fortes evidências de que isso pode ser mudado. Basta ver que em comunidades de projeto – articuladas em rede, sobretudo em redes comunitárias de desenvolvimento – estão ocorrendo as mais notáveis inovações políticas democratizantes da atualidade. Essas evidências apontam para a existência de uma equivalência prática entre três tipos de iniciativas ou tarefas: induzir o desenvolvimento local <=> animar redes sociais distribuídas (P2P) <=> democratizar a política (na base da sociedade e no cotidiano do cidadão). Ou seja, é razoável apostar na hipótese segundo a qual não haverá desenvolvimento (sustentável, é claro; pois que se não for, não é desenvolvimento) diante de graus insuficientes de distribuição das redes sociais e de democratização da sociedade.

 

Resta muita coisa a ser dita para trocar em miúdos as principais alegações contidas aqui, de sorte a mostrar, sobretudo para quem não está familiarizado com os novos conceitos usados no estudo das redes sociais, que o grau de democratização da sociedade (ou de democratização – ou radicalização – da democracia) tem a ver com o grau de desenvolvimento, ou melhor, com a capacidade de desenvolvimento de uma determinada sociedade. Por ora, podemos dizer, que John Dewey estava coberto de razão ao, insistindo no caráter radical da democracia, pressentir as idéias de rede comunitária e de rede social distribuída, antevendo os processos de disseminação “viral” que só podem se efetivar pelos meios próprios de redes P2P (peer-to-peer). Pois é assim – e não de outra forma qualquer – que ele termina a sua principal contribuição à teoria política, o livro “O Público e seus Problemas” (1927):

 

“There is no limit to the liberal expansion and confirmation of limited personal intellectual endowment which may proceed from the flow of social intelligence when that circulates by word of mouth from one to another in the communications of the local community. That and that only gives reality to public opinion. We lie, as Emerson said, in the lap of an immense intelligence. But that intelligence is dormant and its communications are broken, inarticulate and faint until it possesses the local community as its medium”.