Em breve a metáfora do “capital” social já poderá (ou deverá) ser abandonada. Usar a expressão ‘capital social’ é – como se diz na roça – “bater na canga pro boi ouvir” (o boi, no caso, são os policymakers que tiveram suas cabeças feitas pelos economistas ou, então, aqueles sociólogos cujo maior desejo é serem levados a sério pelos economistas…). Dizer que aquela externalidade que conotamos com a expressão capital social é um capital – em sentido metafórico – significa chamar a atenção das pessoas para o fato de que estamos diante de um recurso para o desenvolvimento tão importante como se fosse um capital (propriamente dito, físico ou financeiro). A metáfora – como qualquer metáfora – não é perfeita. Pois o chamado capital social é um recurso público que costuma assumir um papel inverso na equação do desenvolvimento quando é privatizado (como ocorre, por exemplo, no familismo amoral mafioso, coisa que não acontece com outros capitais em sentido estrito e mesmo em sentido metafórico, como o ‘capital humano’ – talvez com exceção do ‘capital natural’).
Tem gente que, por motivos ideológicos, rejeita a noção de ‘capital social’. Muitos acham que é uma tentativa neoliberal de mercantilizar relações sociais e, não raro, confundem capital com capitalismo e cometem outras besteiras semelhantes. Não é por consideração a essas posições que devemos ir abandonando a metáfora e sim para avançar na compreensão da natureza desse novo recurso político que foi aventado há tanto tempo (desde Tocqueville, pelo menos) mas que só se tornou presente nas preocupações dos teóricos do desenvolvimento há menos de vinte anos. A natureza em questão é a natureza da sociedade humana (ora, se se discute tanto hoje em dia sobre a natureza da natureza humana, por que não se pode discutir também sobre a natureza da sociedade humana?). Sim, porquanto o que chamamos de capital social é, na verdade, a sociedade (no sentido tocquevilliano do termo).
Pois bem. A natureza da sociedade é… a rede social. O que chamamos de social é a rede social, conquanto comumente atribuamos o qualificativo (ou o designativo) de ‘social’ para qualquer realidade humana. Humano e social não são sinônimos. Ao contrário do que parece, ‘social’ não é a coleção de elementos humanos. Humanos vistos individualmente, naquilo que aportam de recursos para o desenvolvimento em virtude das suas qualidades e potencialidades humanas intrínsecas, não compõem o social se não se incluir também no conjunto as relações que tais humanos estabelecem entre si.
Pode-se dizer que esta discussão é ociosa na medida em que o humano não se constitui como tal na ausência do social. Isso parece certo. Entretanto, se focalizarmos apenas os componentes do capital humano stricto sensu, não poderemos deles derivar o capital social. Ou seja, não há nenhuma equação que permita “calcular” o capital social a partir do capital humano. Vai daí que o que chamamos de políticas sociais são, na verdade, políticas humanas, no sentido de políticas de proteção ou promoção do desenvolvimento humano (como saúde e educação, por exemplo). Por outro lado, políticas de indução do desenvolvimento social propriamente dito, como aquelas que têm como objetivo aumentar a conectividade (inspirando, por exemplo, programas de instalação de telecentros comunitários), muitas vezes não são percebidas, nem consideradas, como políticas sociais (quando é somente isso o que são!).
Capital social é um tipo de recurso bastante diferente do capital humano, na medida em que não pode ser individualizado, internalizado por um sujeito, identificado com atributos isoláveis do ambiente ou do campo social (no sentido de que tal recurso continue existindo na ausência desse “campo de força”). É claro que capital humano gera capital social se acrescentarmos as colisões, num modelo análogo ao que se emprega para observar um gás aquecido: Singapura tem muita densidade de capital humano que, como moléculas de um gás, vão se chocar numa freqüência muito maior do que no Afeganistão ou na Amazônia. Essas colisões são, na verdade, uma imagem das conexões. Se trombarmos com muitas pessoas o gás vai se aquecer. Num mundo pequeno (Small World Network) – quer dizer, com alta conectividade, baixa extensão característica de caminho (ou graus de separação reduzidos) – vai haver maior produção de capital social.
Tudo isso sugere que o fundamental não está na metáfora do capital social como se fosse um recurso misterioso, produzido pela cooperação ampliada socialmente ou pelos níveis sociais de confiança emitidos, sei lá, por corações humanos que, incontidos em sua generosidade, querem sair do peito (não é da sociedade dos anjos que falamos aqui), e sim nos fenômenos que ocorrem na intimidade mais profunda disso que chamamos de sociedade. O fundamental é o multiverso das conexões ocultas que configuram o que chamamos de social. O fundamental é descobrir quais padrões de convivência social são mais favoráveis à criação de um campo empoderante… (Ah! Sim, o capital social encoraja o capital humano a realizar suas promessas). Ou, em outras palavras, o fundamental é captar aquelas configurações e dinâmicas de rede que favorecem a emergência, a geração espontânea de ordem.
As conexões representadas por linhas fixas são apenas rastros de fluições. A rede não é o grafo, o emaranhado das linhas é apenas a trajetória de algo que já fluiu por ali, não no espaço físico ou sobre o território geográfico e sim no espaço-tempo dos fluxos. É claro que um fluir repetido cria um sulco por onde acabam escorrendo as coisas que ainda virão: nesse caso a conexão vira estrada, a aresta vira trilha por onde outros caminharão. É assim que nascem as ruas numa cidade; antes nasceram no espaço-tempo dos fluxos para, só depois, virarem construção urbana.
No espaço-tempo dos fluxos cada caminho novo que se abre é uma possibilidade de futuro que não havia. O desenvolvimento, desse ponto de vista, é a abertura de novos caminhos, de novos futuros. Poucos futuros, pouco desenvolvimento (e imagine que explicações inovadoras podem surgir daqui: o estoque – ou o fluxo, melhor dizendo – de futuros disponíveis é o reservatório dos futuros possíveis; ou o desenvolvimento não é um caminhar de volta ao presente passando pelos futuros disponíveis?).
Em breve reescreveremos as metodologias de indução do desenvolvimento baseadas no investimento em capital social como um conjunto de técnicas e atividades que têm por objetivo a criação (e a animação) de redes sociais; ou seja, netweaving.

3 comments
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Abril 24, 2008 às 8:37 pm
Rodrigo
Da mesma forma, “o que chamamos de social” é simplesmente “social”, porque chamamos todas as coisas de alguma coisa. Você diria que está escrevendo “o que chamamos de livro”, ou simplesmente que está escrevendo “um livro”?
Honestamente, o título escolhido nos leva a pensar que se trata de uma grande confusão de idéias (que provavelmente tem um grande valor por atender a uma necessidade íntima do autor, muito mais que dos leitores).
Um grande pensador já disse: algo que não pode ser dito de forma simples, não pode ser dito de forma alguma.
De qualquer forma, desejo sucesso, e acho fantástica a idéia do livro público!
Um grande abraço,
Rodrigo.
Julho 13, 2008 às 3:26 pm
escoladeredes
Olá Rodrigo,
levo em conta todas as observações recebidas. Mas veja bem. Talvez a explicação esteja mais abaixo, na introdução do livro:
“No final dos anos 90 comecei a me interessar pelas redes sociais. De lá para cá venho fazendo explorações no que chamei de multiverso das conexões ocultas que configuram o que chamamos de ‘social’. Nesse tipo de investigação já abandonei a pretensão de seguir o método, dito científico, das ciências sociais. Descobri que o que chamamos de ‘social’, na verdade, raramente o é. E isso vale tanto para reavaliar algumas ambições das ciências sociais, quanto para desmistificar as chamadas políticas sociais (que, em sua maioria, são políticas voltadas para o desenvolvimento humano e não para o desenvolvimento social; quer dizer, são – nos melhores casos – políticas de investimento em capital humano e não em capital social).”
Entendeu? O que chamamos de social não é o que – com os “óculos de ver rede” – vemos como tal.
Fevereiro 21, 2009 às 6:41 pm
Paulo
netweaving = tecelagem, em uma versão traduzida.
Tecelagem é o ato de tecer, entrelaçar fios de trama (transversal) e urdume, ou urdidura, (longitudinal) formando tecidos.
Tecidos produzidos no processo de tecelagem (também conhecidos como tecidos planos ou de cala) não podem ser confundidos com tecidos de malha. Nos tecidos planos há somente duas posições possíveis para os fios de trama: ou ele passa por baixo ou passa por cima dos fios de urdume.
Também não podem ser confundidos conceitos de social e rede social.