O que chamamos de social é, propriamente falando, a rede social. Não as formas organizativas que intentamos articular e batizamos de “rede tal”, “rede disso” ou “rede daquilo” (o que, aliás, anda agora bem na moda). E sim a rede social que existe de fato, desde que exista sociedade humana.

 

Essa rede que existe de fato, que existe independentemente de nossos esforços organizativos, que existe porque existem nodos (pessoas) e conexões múltiplas (entre essas pessoas), pode ser mais ou menos distribuída. Deveríamos chamá-la de ‘rede’ quando a topologia desse agregado é distribuída (e não quando é centralizada ou descentralizada, quer dizer, multicentralizada). Mas, na verdade, todas as redes sociais que existem são mais ou menos distribuídas. O que se pode dizer é que, para ser reconhecido como rede, um agregado espaço-temporal qualquer de nodos e conexões deveria ter algum grau de distribuição (ou de incidência de múltiplos caminhos). A coisa se caracterizaria, assim, por graus: graus de hierarquização (menos caminhos, mais centralização); ou, inversamente, graus de enredamento (mais caminhos, mais distribuição).

 

Pois bem. Qual a diferença entre a rede social que existe de fato (com algum grau de distribuição) e as redes que intentamos construir (muitas vezes denominando-as de rede meio indevidamente, face ao pouco grau de distribuição efetivamente apresentado)?

 

Creio que, com essa pergunta, podemos avançar um pouco na nossa exploração. Relembro que estamos fazendo explorações imaginativas e não experimentais. O que não significa que as nossas eventuais descobertas não contenham conhecimento novo. Assim, podemos anunciar aqui, talvez, não uma grande descoberta cientificamente comprovada (até onde isso é possível), mas um modelo explicativo, um modo-de-ver que acrescenta conhecimento ao que, até agora, sabemos do assunto.

 

À rede social que existe de fato vamos chamar de “rede-mãe” ou “a matriz”. As redes que voluntariamente articulamos, tentando copiar a topologia, a morfologia ou a dinâmica da “rede-mãe”, são interfaces que estabelecemos para tentar uma comunicação direta com essa matriz. São feitas para dialogar, pois a “rede-mãe” não reconhece bem outras formas organizativas, não entende a sua linguagem. A rigor deveríamos dizer o seguinte: quanto menos distribuídas forem as redes que articulamos para construir essa interface com “a matriz”, mais difícil será a comunicação com ela.

 

Esse esquema explicativo funciona relativamente bem. Dá conta de explicar por que, por exemplo, organizações hierárquicas (ou com alto grau de centralização ou multicentralização) têm imensas dificuldades de provocar mudanças sociais no ambiente onde estão imersas. A rede social que existe de fato – a “rede-mãe” – não recebe bem a influência dessas organizações e continua funcionando mais ou menos como se nada tivesse acontecido.

 

É o que ocorre quando ouvimos relatos de organizações sociais profundamente dedicadas ao trabalho comunitário. Seus dirigentes reportam que estão lutando há anos, com grande afinco, em uma determinada localidade, mas a impressão que têm é a de que seus esforços não adiantam muito. O povo não reconhece o seu papel, as relações não mudam, parece que tudo continua como d’antes…

 

Se formos analisar as circunstâncias da atuação dessas organizações de base veremos que elas terão um alto grau de centralização (ou um grau de enredamento insuficiente). É um problema de comunicação. A rede social que existe de fato naquela localidade não está reconhecendo as mensagens emitidas pela organização. É muito provável que essa organização esteja estruturada e funcione como uma pequena fortaleza, um castelinho, uma igrejinha… É muito provável que ela faça parte da ‘nova burocracia das ONGs’, ou seja, que tenha dono, chefe, diretoria – às vezes até familiar – com baixíssimo grau de rotatividade (menor ainda do que o dos partidos e organizações corporativas). É muito provável que seus chefes queiram se eternizar no poder (um micro-poder, é verdade, mas todo poder hierárquico, vertical, seja grande ou pequeno, se comporta mais ou menos da mesma maneira, sempre a partir do poder de excluir o outro…) porque precisem (ou imaginem que precisem) auferir o crédito ou obter o reconhecimento social pela sua atuação.

 

Se essa organização que não consegue boa comunicação com a “rede-mãe” for uma corporação ou partido, será bem pior. Ela estará estruturada a partir de um impulso privatizante, seja com base no interesse econômico, seja com base no interesse político de um grupo particular que quer manobrar o coletivo maior em prol de sua própria satisfação. A rede social que de fato existe – “a matriz” – é sempre pública. Mas as interfaces hierárquicas que construímos para conversar com ela ou para tentar manipulá-la são sempre privadas, mesmo quando urdimos teorias estranhas para legitimar a privatização, como aquela velha crença de que existem interesses privados que, por obra de alguma lei sócio-histórica, têm o condão de se universalizar, quer dizer, de universalizar o seu particularismo, quando satisfeitos (essa é a “teoria”, por exemplo, da “classe redentora” no pensamento marxista).

 

Só há uma maneira de conseguir uma boa comunicação com “a matriz”. Copiando-a o mais fielmente que conseguirmos; ou seja, construindo interfaces – redes voluntárias – com o maior grau de distribuição que for possível. Quanto mais distribuídas forem as redes que construímos para copiar a “rede-mãe” melhor a comunicação com ela e mais efetividade terá o nosso esforço de promover transformações na sociedade.

 

Vamos agora às dificuldades do modelo explicativo proposto aqui.

 

A principal dificuldade é que a “rede-mãe” nem sempre é uma rede peer-to-peer distribuída. Deveria ser, se não tivesse sido invadida por padrões de organização hierárquicos e modos de regulação autocráticos. Mas nas sociedades realmente existentes, nas localidades ditas civilizadas, não é.

 

Para enfrentar essa dificuldade é preciso considerar que “a matriz” é a rede, não o programa que roda na rede. É possível instalar programas nessa chamada “rede-mãe” que alteram a sua topologia. Como ocorre nas redes neurais do cérebro humano, o software – certas linguagens, por exemplo, sobretudo simbólicas, como nos mostrou Terrence Deacon (1997), em “The simbolic species: the co-evolution of language and the brain” (New York: W. W. Norton & Co.) – pode modificar o hardware. Podem desativar ou impedir que novas conexões se estabeleçam, assim como podem estimular novas conexões.

 

A “rede-mãe” está “projetada”, se é possível falar assim, para permitir o grau máximo de distribuição (todos conectados com todos). O que não significa que isso ocorrerá. Na prática não ocorre em nenhuma sociedade humana complexa, mas apenas em pequenos grupos. A introdução de padrões de organização hierárquicos e modos de regulação autocráticos equivale a instalação de programas que desativam conexões e impedem que novas conexões se estabeleçam.

 

O genótipo da “rede-mãe” é o da distribuição máxima, mas o fenótipo acaba sendo o da distribuição combinada com centralização (e multicentralização). Onde o grau de centralização é muito grande torna-se praticamente impossível a manifestação de um “metabolismo” democrático, que exige sempre algum nível de distribuição. A democracia – e a pluriarquia, quer dizer, a democracia realizada em redes altamente distribuídas – é um caminho em direção à distribuição.

 

Se queremos que uma determinada sociedade altere seus padrões de organização e seus modos de regulação na direção de mais horizontalidade (mais conectividade) e mais democracia (mais “metabolismo” de rede distribuída), temos de construir interfaces organizativas capazes de permitir a instalação de programas que ativem conexões e fabriquem novas conexões. É razoável supor que essas interfaces organizativas devem ser, para tanto, mais distribuídas do que centralizadas. Temos que falar a “linguagem de máquina” da “rede-mãe” e não a linguagem dos programas que foram instalados para colocar obstáculos ao trânsito, à fluição. Temos que remover os obstáculos, quer dizer, eliminar as escadas, derrubar os muros, demolir as pirâmides, destrancar as portas… Em outras palavras, temos que quebrar o poder privatizante das corporações e das outras organizações hierárquico-verticais.

Quando você constrói uma hierarquia deforma a rede e não se comunica verdadeiramente com “a matriz”; quer dizer, não com o que ela é porque assim foi tornada ao rodar um programa verticalizante e sim com o que ela pode ser funcionando apenas a partir de algo assim, numa comparação sofrível, como o seu Bios (em computação, Basic Input/Output System). O que chamamos propriamente de ‘social’ é, assim, construído a cada instante pelo processo de conectar para criar novos caminhos ao fluir; não é um dado, uma herança e sim um projeto sempre retomado.

 

Sim, tudo indica que há mesmo conhecimento novo aqui. Usando outros termos, poderíamos dizer, que se quisermos investir em capital social para induzir o desenvolvimento, deveremos estimular redes voluntárias P2P onde possam rodar softwares livres ao invés de construir organizações fechadas para manter em nossas mãos programas proprietários. Esse é o motivo pelo qual instituições hierárquicas constituídas para promover o desenvolvimento social têm efetividade tão baixa. Esse é o motivo pelo qual ‘a nova burocracia das ONGs’ não é capaz de desencadear verdadeiros processos de transformação social, muitas vezes aprisionando, ao invés de libertar, as forças criativas e empreendedoras das comunidades.