Embora falem freqüentemente de redes sociais, as pessoas não têm, em geral, uma compreensão muito clara do que elas são realmente. Na ausência de tal compreensão, fica mais difícil articular e animar redes sociais propriamente ditas, quer dizer, redes distribuídas de pessoas.

 

Do que se trata, afinal? A questão pode ser colocada de maneira simples. Seres humanos vivendo em coletividades estabelecem relações entre si. Tais relações podem ser vistas como conexões, caminhos ou dutos pelos quais trafegam mensagens. Qualquer coletivo de três ou mais seres humanos pode conformar uma rede social, que nada mais é do que um conjunto de relações, conexões ou caminhos (graficamente representáveis por arestas) e de nodos (vértices). Há rede quando são múltiplos (a rigor mais de um) os caminhos entre dois nodos.

 

A partir de certo número de conexões em relação ao número de nodos, entretanto, começam a ocorrer na rede fenômenos surpreendentes, que não dependem, ao contrário do que se acredita, do conteúdo das mensagens que trafegam por essas conexões. Quanto mais distribuída ou menos centralizada ou descentralizada (i. e., multicentralizada) for a topologia da rede, maiores são as chances de tais fenômenos ocorrerem. Esses fenômenos – como o clustering e o swarming, a redução do tamanho (social) do mundo, a autoregulação sistêmica, a produção de ordem emergente (bottom up) e/ou a desconstituição de ordem (top down) pré-existente (remanescente) – não podem ser adequadamente captados e explicados pelas categorias e hipóteses (que compõem as teorias) tradicionais das ciências sociais.

 

O problema é que até agora as redes foram consideradas pelas ciências sociais como metáforas estruturais para agrupamentos sociais, como mais um recurso analítico. Trata-se, entretanto, de tentar apreender a realidade social como rede, tomando o que é visível – e conhecível a partir da sua fenomenologia – como manifestação dessa realidade oculta para tentar descobrir como interferir: não no que está acontecendo manifestamente e sim nos “programas” que estão rodando na rede e produzindo o que se vê. Mal comparando, é necessário descobrir a “linguagem de máquina” desses “programas” para poder modificá-los. Caso contrário, ou seja, se não conseguirmos compreender e fazer isso, será muito difícil articular e animar verdadeiras redes sociais, ou seja, redes distribuídas de pessoas.

 

Permita-se-me aqui abrir um parêntese um tanto abstruso: um kabbalista diria – e essa, sim, pode ser uma boa metáfora, pelo seu potencial heurístico – que é necessário operar em outro mundo, no mundo da formação (que eles chamam de Yezirah; ou até, quem sabe, no mundo da criação, Beriah) para poder alterar disposições causais no mundo da ação (Asiyyah). Digo que a metáfora é boa – a despeito das conotações mítico-sacerdotais e hierárquico-autocráticas próprias dessa ideologia de professores que se chama Kabbalah – porquanto as redes existem mesmo em outro mundo: sim, o mundo do que chamamos de social não está – no sentido de que não se realiza – no espaço físico e sim no espaço-tempo dos fluxos.

 

Por isso foi tão significativa a formação (talvez melhor dizer, a descoberta) do chamado ciberespaço (que é também um cibertempo, mas às vezes esquecemos disso). Não porque as redes sociais só possam existir enquanto realidade virtual associada a uma tecnologia específica (como a telemática). E sim porquanto foi a partir da visão proporcionada pelo ciberespaço que descobrimos que pode haver um mundo composto por coisas que não sejam átomos (como os bits). Ora, como as redes virtuais de pessoas na Internet são redes sociais, torna-se então mais fácil a percepção de que pode existir um mundo social que não seja o mundo físico. Indo um pouco além, fica mais fácil entender por que, se existe um mundo social, ele não pode ser o (ou um) mundo físico.

 

O espaço-tempo dos fluxos, no qual se realizam as redes sociais, sempre existiu, desde que existem sistemas de conexões e nodos entre seres humanos. Mas nem sempre tivemos uma visão clara desse mundo e só muito recentemente começamos a perceber as suas inusitadas características. É por isso que a sociologia jamais conseguiu explicar, por exemplo, mudanças bruscas em correntes de opinião e outros processos que envolvem, de algum modo, fenômenos emergentes (que não são singularidades, excepcionalidades; não, tais fenômenos estão ocorrendo o tempo todo e modificando intimamente disposições que, mais tarde, se manifestarão como mudanças visíveis de comportamento dos atores sociais).

 

Fechando o parêntese e voltando ao assunto da nossa discussão nesta exploração, cabe perguntar novamente: que “programas” seriam esses, que estão rodando na rede?

 

Como a tendência é que todos, ao longo do tempo, estabeleçam conexões com todos – ou seja, que, dentro de certas “regiões” da rede acessíveis à escala humana, toda rede se torne, crescentemente, uma rede distribuída – e isso só não acontecerá se alguma coisa estiver impedindo, parece claro que são esses (ou, pelo menos alguns desses) “programas” os responsáveis por tal impedimento.

 

Quando falo em “acessível à escala humana” é óbvio que isso depende dos recursos (ou das tecnologias) disponíveis. Progressivamente essa escala vem sendo aumentada pela disponibilização de novos meios de comunicação interativos ou transitivos: da interação pessoal pela voz, pelos gestos e pelo contato físico, para a interação à distância por tambores e sinais de fumaça, daí para as tabuinhas de argila e para a carta escrita sobre papel, para o telégrafo, para o telefone (voz), para o rádio, para o fax, para o e-mail, para o telefone móvel (voz e texto via SMS), para os sites da Internet, para o telefone com voz e imagem sobre IP, para as redes digitais P2P, para a chamada Web 2.0 (com suas ferramentas wiki e suas redes administradas de relacionamento) e para uma nascente Web 2.1 com seus instrumentos distribuidores, como os que permitem a livre interação entre blogs e que estão tecendo um verdadeiro meio distribuído em escala planetária (a blogosfera). De sorte que o espaço-tempo das comunidades que se formavam a partir do adensamento de conexões (clusters) com base territorial, foi se alargando, das reduzidas dimensões iniciais (locais) que possibilitavam o contato direto (ou com até um grau de separação) entre as pessoas, para o mundo inteiro. É assim que o local conectado está virando o mundo todo. E o próprio conceito de local, como pequena porção territorial, se modificou.

 

Pois bem. Que “programas” seriam esses que impedem que as redes aumentem o seu grau de distribuição? Não conhecemos ainda toda a extensão da família de “programas” hierarquizantes-autocratizantes. Mas conhecemos a sua intenção. Já podemos afirmar que são programas centralizadores, cuja função básica é o controle por meio da obstrução, da separação e da exclusão. Obstruir fluxos, separar clusters e excluir nodos: eis a receita universal para estabelecer o controle.

 

Obstruir fluxos, deixando passar somente alguns padrões (ou filtrando) é a forma de estabelecer o controle sobre o trânsito de mensagens. E também separar clusters, isolando alguns aglomerados (comunidades) de outros, derrubando pontes ou fechando os atalhos que ligam um cluster a outros clusters, apartando uma região da rede de outras regiões; em suma, fundamentalmente, interrompendo a ligação de um local com outro local, ou seja, impedindo a conexão local-global (imagine-se a formidável alteração introduzida na rede social sumeriana de uma localidade como Uruk quando foi cercada por 9 quilômetros de muralhas). E, por último, excluir nodos, desconectando-os dos clusters a que pertencem, destruindo conexões.

 

Em suma, esses “programas” hierarquizam o tecido social, verticalizam as relações, introduzindo intermediações que ampliam o comprimento da corrente, dilatando a extensão característica de caminho da rede social ou aumentando os seus graus de separação (ou seja, diminuindo a conectividade) e, com isso, acarretando toda sorte de anisotropias no espaço-tempo dos fluxos. Este é um caso (ou ‘o’ caso) em que o software modifica o hardware. Na medida em que a rede social vai rodando tais “programas” ela também vai alterando não apenas a sua dinâmica, mas também a sua estrutura. E tudo isso acaba coagulando uma estrutura física mesmo. Por exemplo (e esse não é um exemplo, mas, com certeza, ‘o’ exemplo), a Cidade-Estado-Palácio-Templo sagrada da antiguidade criou, há quase seis milênios, um outro tipo de realidade social no mundo (a partir da Mesopotâmia). Não se pode esquecer que o sentido original da palavra sagrado era, no antigo idioma sumério, separado. As separações físicas, introduzidas por portas, escadas e muros, materializaram obstruções de fluições e exclusões conectivas. A nova arquitetura adequada ao controle, apenas refletiu uma nova configuração do espaço-tempo dos fluxos. Isso é o que vemos quando colocamos os “óculos de ver rede”. Só então começamos a perceber as conexões ocultas que configuram o que chamamos de ‘social’. Essa visão é indispensável para impulsionar novos comportamentos que sejam capazes de subverter a Matrix (aquela mesma do filme dos irmãos Wachowski – o mainframe cuja missão é: ‘controle’).

 

Se sabemos isso, então já sabemos o que é necessário fazer: distribuir o que foi centralizado ou descentralizado (quer dizer, multicentralizado). Desobstruir caminhos. Estabelecer atalhos entre clusters. Incluir nodos.

 

Trata-se, portanto, basicamente, de conectar pessoas com pessoas. De aumentar a conectividade da rede social. E de trabalhar para tornar cada vez mais distribuída essa rede.

 

Tenho afirmado que quase tudo o que organizamos segundo um padrão-mainframe poderia ser organizado segundo um padrão-network. Quase tudo, não tudo: os mecanismos de controle, por exemplo, não podem.

 

Isso significa que é possível ensejar novas formas de ordenação por regulação emergente, que não dependam do controle (que significa sempre a introdução de uma ordem de cima para baixo), quer dizer, que é possível fazer isso em tudo aquilo que não exija controle.