Na exploração sobre a “rede-mãe”, falamos de uma ‘nova burocracia associacionista das ONGs’ para mostrar que, muitas vezes, tais organizações ainda se estruturam piramidalmente, na forma de pequenas fortalezas que obstruem fluxos na rede social e que isso explicaria, pelo menos em parte, o fato de muitas ONGs sinceramente dedicadas ao trabalho comunitário não conseguirem estabelecer uma boa sintonia com o ambiente social onde atuam. Na verdade fizemos apenas uma citação lateral no contexto de uma discussão que propunha a metáfora da “rede-mãe” como recurso explicativo para mostrar as diferenças entre a rede social que existe de fato (com algum grau significativo de distribuição) e as redes que intentamos construir (muitas vezes denominando-as de rede meio indevidamente, face ao pouco grau de distribuição efetivamente apresentado).

 

A expressão ‘nova burocracia associacionista das ONGs’, se inspira em um escrito de David de Ugarte: “11M. Redes para ganar uma guerra” (1). No Post Scriptum dessa excelente publicação, Ugarte observa, citando o programa de uma iniciativa de ambiente interativo, denominada ‘LaMatriz.org’, que trata-se de “un nodo de red impulsado por los ciberpunks españoles cuyo primer objetivo asegura ser “quitarle la cantera” ao fanatismo, abriendo “ventanas” al mundo rede em los barrios, los colégios, los bares… Impulsando cibercafés, redes ciudadanas wifi, comunidades sobre teléfonos móviles, internet, tertúlias… Pero no reproduciendo uma estructura profesionalizada y jerárquica como las de las ONG al uso, ya que según dicen: ‘el camino hacia la vertebración social em el nuevo mundo no pasa por engordar a la burocracia del “asociacionismo”. Su necesidade como “representantes” se basava em carências de los sistemas de comunicación que la tecnología há superado hace tiempo. Nos hace falta sociedade civil de todo tipo, no “liberados” ni profesionales del asociacionismo. Las redes no sirven para “encuadrar” y si encuadran no son redes válidas para construir uma sociedad abierta y em rede’.

 

No entanto, alguns argumentam que muitas ONGs são bem enredadas, chamando a atenção para o fato de que a generalização, nesse caso, pode não levar à avaliação mais justa.

 

Em princípio a observação parece correta. Mas, pensando melhor, pode-se ver que temos aqui um problema, um ponto para uma discussão realmente substantiva. O formato básico das organizações da sociedade civil chamadas “ONGs” é o da descentralização e não o da distribuição e carrega, de fato, a herança de uma padrão organizativo baseado na representação, conquanto as próprias ONGs admitam que não são instâncias representativas stricto sensu, quer dizer, baseadas na delegação de poder (2).

 

É forçoso reconhecer que as organizações da sociedade civil, em sua imensa maioria, ainda se estruturam como mainframes e não como networks. Quando se denominam redes, quase sempre tal denominação é indevida porquanto aplicada a estruturas verticais de poder, com topologia descentralizada e não distribuída, com baixíssimo grau de rotatividade nas suas direções e com uma burocracia que, a despeito de ser reduzida pela falta de recursos, não deixa de ser formalmente semelhante a qualquer outra burocracia baseada na opacidade dos procedimentos, na discricionariedade das decisões e na verticalidade do fluxo comando-execução. Também é forçoso reconhecer que o paradigma organizativo que adotam essas organizações ainda é aquele, digamos, das fronteiras fechadas.

 

Além dessas reflexões que, a propósito da presente investigação sobre as redes, temos tido oportunidade de verificar como as coisas funcionam na prática. Vamos contar apenas uma experiência, que parece ser bastante ilustrativa.

 

Estivemos pessoalmente envolvidos – durante os anos de 2005 a 2007 – com um programa de indução do desenvolvimento em uma grande cidade do Brasil, com mais de um milhão de habitantes. Tal programa tem como objetivo estimular a formação de redes P2P de desenvolvimento comunitário, envolvendo cerca de 1.300 pessoas numa primeira etapa em quase duas dezenas regiões administrativas e, em seguida, 13 mil pessoas em quase uma centena de bairros.

 

Os agentes do referido programa têm, então, a função inicial de convidar as pessoas para participar dessas redes, onde deverão se dedicar ao exercício clássico do planejamento participativo: ensaiar uma visão de futuro, realizar um diagnóstico dos ativos e das necessidades, elaborar um plano e formular uma agenda de desenvolvimento e pactuar a realização de prioridades por meio de parcerias entre instituições governamentais, empresas e organizações da sociedade civil. Ou seja, a “fórmula” básica do desenvolvimento local.

 

Pois bem. Vejam agora o que freqüentemente ocorre quando tais agentes vão procurar as organizações da sociedade civil em uma região. Quando procurado, o responsável – em geral o presidente – da organização (associação ou fundação) costuma reagir muito positivamente, aceitando o convite para se conectar à rede do desenvolvimento comunitário da sua região. Em seguida esse dirigente perde um pouco o ânimo, quando é informado de que ele participará como pessoa (quer dizer, é a pessoa que se conecta à rede e não a organização). Quando, porém, ele é chamado a indicar outras pessoas da sua organização para entrar na rede, aí, como se diz, “o bicho pega”. Invariavelmente ele retruca: “- Mas como? Eu já estou representando a associação”.

 

Como essa reação dos dirigentes de organizações da sociedade civil não é fortuita, ela indica alguma coisa. Poderíamos dizer que revela muita coisa. Ou, ainda, que desvela quase tudo. Na cabeça do dirigente, a ele cabe representar os demais, entendendo-se por isso o direito de exercer o poder não de incluir os demais, mas de excluí-los. Sim, como já observamos em explorações anteriores, o poder (centralizado ou descentralizado, quer dizer, multicentralizado, seja ele pequeno ou grande em termos de recursos, não importa) manifesta-se sempre como o poder de excluir. É isso mesmo: em termos da análise de rede, a centralização é a instalação de um filtro, o estabelecimento de um impedimento à livre fluição, a colocação de um obstáculo no caminho.

 

Queiramos ou não, gostemos ou não, é assim que tendem a se comportar, independentemente das crenças de seus dirigentes, as estruturas não-distribuídas. Toda estrutura não-distribuída é uma hierarquia e, como tal, acaba se manifestando.

 

Também não é por acaso que as estruturas não-distribuídas da sociedade civil, inclusive aquelas da ‘nova burocracia associacionista das ONGs’, são tão vulneráveis ao aparelhamento corporativo-partidário e à cooptação governamental, servindo, não raro, como correias de transmissão de outras organizações hierárquico-piramidais. É como se a homologia de padrões organizativos provocasse uma espécie de sintonia entre organizações não-distribuídas, que acabasse favorecendo a esse tipo de violação da autonomia e gerando dependência. É muito fácil verificar isso: basta ver, por exemplo, como se comportou, durante o processo eleitoral de 2006 no Brasil, a imensa maioria das ONGs mais conhecidas regionalmente ou nacionalmente e quais foram os candidatos da preferência de seus dirigentes (os quais, em muitos casos, nem pejo tiveram, vamos dizer assim, de engajar suas organizações em uma campanha semi-institucional ou semi-oficial em prol de seus preferidos).

 

É claro que a justificativa apresentada por esses dirigentes é sempre a de que seu comportamento foi orientado pelo compromisso com o povo, pela defesa dos mais pobres. Mas aqui, como parece óbvio, já estamos no terreno da ideologia e não no da análise.

 

Não estamos entrando no mérito das escolhas e nem estamos, muito menos, questionando o direito de todo cidadão de escolher livremente os seus representantes numa democracia. Estamos apenas constatando que não é por acaso que organizações que adotam o paradigma vertical da centralização, da representação (de facto) e da delegação de poder, acabam não conseguindo evitar a dependência estrutural de organizações similares do ponto de vista da dinâmica organizativa. Não há aqui nenhum mistério maior: em um espaço cuja topologia é multicentralizada, os vários pólos, centralizadores para baixo, funcionam como entrepostos ou estações repetidoras de outros pólos centralizantes acima (e é isso, exatamente, o que se chama de ‘descentralização’, ao contrário de ‘distribuição’).

 

Quanto maior o grau de distribuição, menor a chance de esse fenômeno acontecer. Quanto mais redes, mais interdependência e menos dependência. Quanto mais redes, mais multiliderança e menos liderança (única ou unipolar). Quanto mais redes, mais diversidade e menos uniformidade. Quanto mais redes, mais conexão e ordem emergente, bottom up e menos diretivas do alto e organização top down.

 

Ao contrário do que está parecendo neste estranho período que se instalou na primeira década do novo milênio, estamos caminhando, subterraneamente, para novas formas de conexão social que tornarão obsoletas as tradicionais fortalezas organizativas urdidas com base no poder de obstruir, separar e excluir. Isso significa, entre outras coisas, que aquela geração de ONGs que apareceu como grande novidade no último quarto de século, não poderá mais se manter na ponta da inovação social. Se não se reciclar, a ‘nova burocracia associacionista das ONGs’ virará, em breve – ultrapassado este período sombrio em que vivemos – uma força francamente regressiva em termos da democratização da democracia e do desenvolvimento humano e social sustentável.

 

(1) Ugarte, David (2006). 11M. Redes para ganar uma guerra. Barcelona: Icaria, 2006.

(2) Nota pessoal do autor | Acho que sou meio insuspeito para falar do assunto. Há quase trinta anos (desde 1979, quando fundei o CRD – Centro de Reflexão e Documentação, que conseguiu sobreviver dez anos, em uma época em que nem havia a expressão ‘ONG’) milito em organizações da sociedade civil, inclusive comunitárias. Além disso, dediquei a segunda metade da década de 1990 ao tema. Com efeito, entre 1995 e 2002, como membro do Comitê Executivo do Conselho da Comunidade Solidária, fui responsável pelas Rodadas de Interlocução Política que geraram, dentre outros resultados, a chamada Nova Lei do Terceiro Setor (Lei 9790/99, que criou as Oscips), além do esforço para a aprovação da Lei do Voluntariado e de mais de uma dezena de medidas voltadas para o fortalecimento da sociedade civil. Isso não significa, entretanto, que eu deva – diante do avanço da análise sobre as redes sociais – estacionar na compreensão dos fenômenos associados a essas formas emergentes de organização da sociedade.