Como vimos na exploração anterior, aquela geração de ONGs que apareceu como grande novidade no último quarto de século, não poderá mais se manter na ponta da inovação social. Se não se reciclar, a ‘nova burocracia associacionista das ONGs’ virará, em breve, uma força francamente regressiva.
Mas o que podemos fazer então – os que priorizamos a atuação na sociedade civil, no terceiro setor – para dar nossa contribuição à democracia e ao desenvolvimento?
A resposta é simples. Articulem redes de pessoas ao invés de erigir estruturas burocráticas. Não façam igrejinhas. Não construam castelinhos. Não tentem privatizar o capital social do seu entorno ou do seu setor. Capital social é um bem público: quando privatizado, estraga. E pode dar origem a certas formas perversas de sociabilidade (como o familismo amoral que caracteriza, por exemplo, organizações malignas como a Máfia). Sobretudo não tentem jogar usando como cacife as relações alheias, negociando a partir da apropriação da vida social das comunidades.
É justo reconhecer que as organizações da sociedade civil (as chamadas ONGs) cumpriram – e ainda cumprem – um papel importantíssimo na promoção do desenvolvimento humano e social sustentável (1).
Nos últimos anos, entretanto, uma reflexão mais aprofundada sobre as relações entre redes sociais, desenvolvimento e democracia, tem revelado que não se pode estacionar na compreensão dos fenômenos associados a essas formas emergentes de organização da sociedade e, sobretudo, ignorar os seus problemas.
Vamos falar a verdade. Uma parte significativa das associações civis populares ou que se estabelecem para trabalhar na chamada “área social” – pelo menos no Brasil – é constituída por tentativas de montar um cercado ou um estoque particular de pobres para ter acesso, em seu nome, a recursos governamentais para projetos assistencialistas. Outra parte, também significativa, compõe a base para o clientelismo (quer na sua forma tradicional, de curral eleitoral de chefes políticos, quer na sua forma, que ganha destaque na atualidade, de um neoclientelismo partidário, campo no qual certas organizações políticas vão exercitar o cômodo esporte da “pesca em aquário”).
Além do sindicalismo – em geral uma forma branda de banditismo (social, não necessariamente criminal) –, o onguismo também resvala, com freqüência, para a formação de grupos de interesse (para além da defesa de causas ou idéias), legítimos em boa parte, mas, às vezes, escusos; e o onguismo militante – aquele que, no Brasil, em mais de 80% do seu contingente, fez campanha ou votou para presidente em um mesmo candidato oito vezes seguidas (!) em todas as eleições ocorridas depois da redemocratização do país (isso não pode ser por acaso, pode?) – atua, não raro, como correia de transmissão de grupos político-ideológicos. É um dado, não estamos inventando nada.
Observa-se também que as formas hierárquicas de organização da sociedade civil acabam virando trampolins para a ascensão de novos líderes; em alguns casos, de líderes políticos tradicionais, em geral de corte populista (não é a toa que dirigentes de sindicatos e associações profissionais acabem virando, mais cedo ou mais tarde, candidatos a algum cargo eletivo, pulando sem muita cerimônia, do terceiro setor para o primeiro, abandonando a convivência na sua tão querida sociedade civil para “representá-la” a partir de um carguinho no Estado); e, em outros casos, tentando construir uma carreira em moldes empresariais, em busca do sucesso pessoal.
Todavia, até mesmo essa idéia de sucesso está mudando na medida em que está mudando a morfologia e dinâmica da sociedade. A idéia de sucesso como visibilidade, notoriedade, popularidade é adequada à sociedade-massa (e à chamada “sociedade do espetáculo”) mas não à sociedade-rede.
Do ponto de vista das redes sociais as pessoas mais importantes não são as mais famosas, não são os ícones da mídia, nem os colecionadores de diplomas e títulos conferidos pelas burocracias sacerdotais do conhecimento e sim os hubs, os inovadorese os netweavers (como veremos na próxima exploração).
Toda essa conversa sobre sucesso, que à primeira vista poderia parecer meio deslocada aqui, é relevante na presente discussão porque tem a ver com os motivos que levam alguém a tentar organizar alguma coisa, na área social ou no campo político. A busca pelo sucesso é legítima: o problema é o que entendemos por sucesso. Imaginamos que sucesso mesmo seja uma vida plenamente realizada no encontro com os semelhantes (sem o que – presume-se – não podemos consumar a nossa humanidade). A mudança dos critérios de sucesso, que necessariamente acompanhará a transição da sociedade de massa para uma sociedade-rede, contribui para valorizar essa concepção em detrimento das visões instrumentais, centradas na capacidade de uma pessoa de se destacar das demais ao invés de se aproximar delas.
Voltemos, entretanto (ou portanto), ao nosso tema inicial. Como fortalecer a sociedade civil (em prol da democracia e do desenvolvimento – ou da sustentabilidade)? Ora, em primeiro lugar, admitindo que a sociedade civil que está emergindo nos tempos que correm não é mais aquela que conhecíamos há 20 anos.
Parece óbvio que a sociedade está mudando e que a nossa visão sobre ela também. Pode-se olhar essas mudanças como partes de um mesmo movimento: se uma nova ordem de fenômenos não estivesse se manifestando, não nos esforçaríamos para tentar analisá-los. Em contrapartida, se não tivéssemos desenvolvido novas maneiras de perceber e compreender os fenômenos sociais, não seríamos capazes nem de notar as mudanças que estão em curso. Mas não parece correto afirmar que a sociedade está mudando porque está mudando a nossa visão sobre ela. Em suma, há uma mudança social objetiva acontecendo no mundo contemporâneo.
Sobretudo nas últimas décadas, a grande mudança é o aparecimento da chamada sociedade-rede, da qual o cidadão está emergindo como ator de uma maneira que antes não seria possível. O indivíduo que se transforma no cidadão conectado de uma sociedade civil que não mais se organiza apenas a partir de esquemas verticais de representação, está submetido a um novo fluxo de informações e conhecimentos – ele mesmo é um entroncamento, uma encruzilhada-nodo desses fluxos – mais velozes e densos do que jamais foi possível.
A questão que se coloca é se isso não representaria uma volta ao individualismo (egoísta), um retrocesso em relação às formas anteriores de participação social (altruísta). Tudo indica que não: o cidadão que assume um papel de maior protagonismo na nova sociedade civil que está emergindo não é o clássico indivíduo do liberalismo e sim o novo cidadão conectado a múltiplas redes sociais e que, não raro, participa de novas comunidades de prática, de aprendizagem e de projeto.
Essa nova sociedade civil que se desenha no mundo e no Brasil nos últimos vinte ou vinte e cinco anos, devolve um papel maior ao cidadão que pensa com a sua própria cabeça, desorganizado do ponto de vista corporativo e partidário, porém mais conectado e mais informado. Isso significa que está havendo uma transição importante, daquele tipo de sociedade civil, composta por algumas organizações representativas de defesa de interesses ou mais ou menos alinhadas a ideários político-ideológicos (a chamada “sociedade civil organizada”), para um outro tipo de sociedade civil, composta por cidadãos mais independentes e autônomos, que participam como indivíduos do debate público e de iniciativas cidadãs voluntárias.
O indivíduo é encorajado a assumir um novo papel pelo fato de estar imerso em um novo ambiente interativo no qual pode ouvir a voz dos outros e fazer ouvir a sua voz. Ele é empoderado pelas redes sociais das quais participa mesmo quando não tem consciência da sua existência e não conhece suficientemente a estrutura e o funcionamento dessas redes.
Mesmo que o cidadão ainda dependa, em grande parte, das organizações tradicionais para exercer um papel político institucional na sociedade e mesmo que nenhuma sociedade civil possa subsistir – nas condições do mundo atual – sem essas formas de organização mais estáveis que a estruturam, isso não significa que não estejam surgindo – com uma velocidade espantosa – novas formas organizativas articuladas em rede.
Tudo indica que uma compreensão mais profunda das redes sociais acabará por tornar obsoleto o próprio conceito de sociedade civil. Não que não exista uma esfera da realidade social ou um tipo de agenciamento diferente do Estado e do mercado que mereça ser considerado, mas o que queremos dizer com o termo sociedade civil não dá mais conta de expressar adequadamente a natureza e o funcionamento da rede social.
Há uma acalorada discussão em curso, sobre se é possível controlar ou não as redes. No caso das redes digitais, parece que não; ou melhor, teoricamente (ou tecnicamente) sim, mas, na prática, não, porquanto isso implicaria desligar os provedores ou as conexões físicas, inclusive os satélites de órbita estacionária (o que causaria o caos no mundo globalizado, sobretudo no sistema financeiro que usa tais meios para fazer circular trilhões de dólares diariamente pelo mundo). Todavia, se não confundirmos ‘rede social’ com ‘rede digital’ (ou seja, mudança social com mudança tecnológica), é preciso admitir que as primeiras podem, sim, ser controladas (controladas aqui no sentido de hierarquizadas ou centralizadas). Esse controle é exercido pelo sistema político. Não, porém, pelos ocupantes da vez, pelo caráter do governante ou do seu partido situado no sistema político e sim pela forma como se estrutura e funciona esse sistema, pela sua natureza de mainframe que confere aos que se postam nos seus múltiplos centros ou filtros o poder de obstruir, separar e excluir.
Então a nossa questão poderia ser colocada nos seguintes termos: podem ser mudadas a morfologia e a dinâmica do sistema político? Ou, em outras palavras, é possível uma nova política? Ou, ainda, é possível reinventar a democracia nas condições do mundo contemporâneo (quer dizer, diante da mudança social em curso na contemporaneidade)?
Não estamos mudando de assunto: o esforço de contribuir para a emergência de uma nova política, por meio da democratização (ou seja, de mais-democracia) está coimplicado no esforço de aumentar o grau de distribuição das redes sociais (e não na aposta no padrão organizativo centralizado ou multicentralizado dos chamamos movimentos sociais, corporações, sindicatos, associações ou outras formas tradicionais de arrebanhamento), o que significa enfocar e valorizar o cidadão desorganizado e conectado que compõe o imenso contingente da nova sociedade civil emergente neste dealbar do século 21.
Trata-se, portanto, de abrir mão de replicar formas organizativas piramidais, verticais, baseadas no fluxo comando-execução. Ou seja, ao invés de engordar a velha burocracia corporativo-partidária e a nova burocracia associacionista (das ONGs, inclusive), apostar nas redes de pessoas, que conectem os tais ‘cidadãos-desorganizados’, uns com os outros, em prol de objetivos comuns, expandindo uma nova esfera pública não-estatal. Trata-se de mostrar, na prática, que o cidadão pode, sim, fazer política pública, que a sociedade pode tomar iniciativas coletivas, aumentando o seu protagonismo e o seu empreendedorismo.
Não há como garantir que uma rede articulada voluntariamente manifestará os mesmos fenômenos que são próprios da rede social que existe em qualquer sociedade independentemente de nossos esforços organizativos. As evidências, no entanto, mostram que, quanto mais distribuídas forem as redes que voluntariamente articulamos, mais elas conseguem se sintonizar ou se comunicar com essa rede social que existe desde que existam conexões entre pessoas, independentemente de nossos esforços organizativos (e que resolvemos chamar, como recurso explicativo, de “rede-mãe”).
As evidências mostram também que mais chances teremos de reproduzir, em redes voluntariamente construídas, os fenômenos que se manifestam na “rede-mãe” se essas redes que articulamos forem redes de pessoas (P2P ou peer-to-peer). Isto é, instituições hierárquicas conectadas entre si podem até tentar se articular em rede, mas dificilmente constituirão uma rede capaz de espelhar a “rede-mãe” – quer dizer, uma rede distribuída (P2P) – configurando-se quase sempre como estruturas conectivas com topologia descentralizada. O motivo é quase óbvio: instituições hierárquicas tendem a hierarquizar as redes de que fazem parte, que, assim, deixam de ser redes para se transformar em frentes de entidades ou em coligações de organizações tradicionais e, às vezes, em holdings.
Também não estamos falando de coisas ideais, irrealizáveis, e sim de mudar a forma como nos comportamos política e administrativamente em termos orgânicos. Estamos falando de mudar a matriz de projetos, programas e ações governamentais e não-governamentais em todos os níveis. Tudo ou quase tudo que organizamos atualmente a partir do padrão-mainframe, pode ser reorganizado segundo um padrão-network, desde um programa de alfabetização de jovens até uma organização política. Podemos fazer isso sem computador e, inclusive, sem um único e miserável telefone celular. Já existe o telefone fixo, já existe o Correio e já existe – há alguns milhares, talvez milhões, de anos – a possibilidade de diálogo em um encontro presencial. Não é o meio tecnológico que faz o “milagre” e sim o modo de conexão e o grau de conectividade. Até com sinais de fumaça é possível democratizar procedimentos, ampliar a freqüência e a base de consultas de opinião, incorporar pessoas como sujeitos e transformar público-alvo e beneficiários em participantes voluntários. Se não o fazemos, não é por efeito de qualquer “exclusão digital” e sim por força de uma cultura política e organizativa autoritária, hierárquica, sacerdotal e, em grande parte, autocrática.
Quem faz netweaving faz, pois, democracia. Enfim, por outros caminhos investigativos, vamos acabar dando razão ao pioneiro das redes, Robert Muller, que escreveu há mais de 20 anos:
“Conforme caminhamos para o terceiro milênio, talvez a participação em networks se torne a nova democracia, um novo elemento importante no sistema de governança, um novo modo de vida nas complexas e miraculosas condições globais do nosso estranho e maravilhoso planeta vivo, girando e circulando no universo prodigioso em uma encruzilhada de infinidade e eternidade” (2)
(1) Publiquei inclusive um livro sobre o tema – “O Terceiro Setor: a nova sociedade civil e seu papel estratégico para o desenvolvimento” (Brasília: AED, 2003) – onde tentei mostrar a multifariedade dessa forma de agenciamento subsistente fora da ordem do Estado e da “lógica” do mercado, composta por entes e processos (e não apenas por organizações) que dependem, em última instância, das múltiplas iniciativas moleculares e voluntárias dos cidadãos.
(2) Cf. Stamps, etc.

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