Hubs, inovadores e netweavers: na rede você é importante na medida da sua capacidade de exercer uma dessas três funções e não do seu exibicionismo, da sua desenvoltura em usar os semelhantes como instrumentos para a sua projeção ou da sua auto-reclusão estudada, baseada numa opinião muito favorável sobre si mesmo ou baseada no seu currículo.
Fama, glória, riqueza, poder, conhecimento atestado por títulos – que são sinais de sucesso em outros tipos de sociedade – tendem a não ser os atributos mais importantes na sociedade-rede. Vamos ver como é isso.
Hubs. Os hubs são os conectores, os nodos da rede social muito conectados, os entroncamentos de fluxos. Um hub não é necessariamente alguém com grande popularidade ou notoriedade e sim alguém com muitas relações, que pode acessar – e ser acessado por – outros nodos com baixo grau de separação.
Não é a fama que faz um hub. Pessoas famosas, celebridades, costumam ser, em geral, inacessíveis. Não são, portanto, conectores. Qualquer trabalho na rede social que não conte com seus principais hubs encontrará mais dificuldades para “conversar” com o que venho chamando de “rede-mãe”.
Também não é o conhecimento que faz um hub, a não ser que queiramos nos referir ao conhecimento das pessoas, quer dizer, aos contatos de confiança. Às vezes um hub é o chaveiro do bairro, no qual as pessoas têm confiança de que sua segurança residencial não será colocada em risco (e aqui novamente é evocada a imagem do filme Matrix: aquele ‘O Chaveiro’ era um programa; um hub, de certo modo, também é, um programa que “roda” na rede). Tocamos agora num ponto importante da dinâmica das redes: confiança. Para que um hub possa cumprir a sua função é necessário que as pessoas confiem nele.
Ao invés de conhecimento individual, um hub precisa do reconhecimento social. Trata-se de um reconhecimento diferente daquele que manifestamos em relação a uma celebridade: não é um reconhecimento das massas, do grande público, das multidões e sim o reconhecimento realizado um-a-um, molecular. Assim, pode-se dizer que o hub é “produzido” socialmente pela rede.
Inovadores. Os inovadores são muito diferentes dos hubs. Muitas vezes não são conhecidos – e nem conhecem – muita gente. Nem são, em geral, muito conectados. Às vezes, são até bastante isolados. Podem vir a ser amplamente reconhecidos, mas isso depende de fatores, em geral, fortuitos. A característica principal do inovador é emitir mensagens na rede que acabam produzindo mudanças de comportamento dos agentes (considerando a rede social como um sistema de agentes). Quando esse processo ocorre, em geral o inovador não sabe bem por que, nem o que, aconteceu. Formaram-se laços de realimentação de reforço (feedback positivo) e a mensagem emitida pelo inovador acabou sendo reforçada e amplificada, adquirindo condições de se disseminar pela rede. Tais mensagens podem ser idéias, modos-de-fazer ou estilos (como a moda, por exemplo), atitudes que contenham novos padrões (sim, um padrão é uma mensagem e pode ser transmitido como tal, como já nos ensinava, há tanto tempo, Norbert Wiener).
O inovador – tal como o hub – também é “produzido” socialmente pela rede. Ninguém vira inovador colocando sua inovação na TV ou nos jornais ou anunciando-a em um evento massivo. A inovação é uma perturbação no tecido social que vai se espalhando molecularmente, ponto-a-ponto. Pequenas perturbações, mesmo que partam da periferia do sistema (quer dizer, de regiões pouco clusterizadas da rede social) são capazes de se disseminar se conseguirem atingir uma espécie de tipping point (a coisa parece funcionar como na propagação epidemiológica), mas para cada configuração de rede e, a rigor, para cada tipo de mensagem, podemos ter um ‘ponto de desequilíbrio’ diferente (a partir do qual a mensagem passa a se disseminar exponencialmente).
Nem sempre, porém, os inovadores vêem os resultados da sua inovação. Muitas vezes eles desencadeiam mudanças de comportamento que só vão aparecer muito depois, quando não se pode mais atribuir a um inovador particular a paternidade pela inovação, pois é próprio da dinâmica da rede social que muitas mensagens se misturem, se combinem e se transformem em outras mensagens.
Netweavers. Os netweavers são os “tecelões” (para aproveitar o que poderia ter sido uma feliz expressão de Platão, no diálogo “O Político”, se ele não estivesse se referindo a um sujeito autocrático), e os animadores de redes voluntariamente construídas. Na verdade, eles constroem interfaces para “conversar” com a “rede-mãe”. Os netweavers não são necessariamente os estudiosos das redes, os especialistas em Social Network Analysis ou os que pesquisam ou constroem conhecimento organizado sobre a morfologia e a dinâmica da sociedade-rede. Os netweavers, em geral, são políticos, não sociólogos. E políticos no sentido prático do termo, quer dizer, articuladores políticos, empreendedores políticos e não cientistas ou analistas políticos.
Os políticos tradicionais, entretanto, não são netweavers e sim, exatamente, o contrário disso: eles hierarquizam o tecido social, verticalizam as relações, introduzem centralizações, obstruem os caminhos, destroem conexões, derrubam pontes (ou fecham os atalhos que ligam um cluster a outros clusters, separando uma região da rede de outras regiões), excluem nodos; enfim, introduzem toda sorte de anisotropias no espaço-tempo dos fluxos. Fazem tudo isso porque o tipo de poder com o qual lidam – o poder, em suma, de mandar alguém fazer alguma coisa contra a sua vontade – é sempre o poder de obstruir, separar e excluir. E é o poder de introduzir intermediações ampliando o comprimento da corrente, dilatando a extensão característica de caminho da rede social ou aumentando os seus graus de separação (ou seja, diminuindo a conectividade). Não é por outro motivo que os políticos tradicionais funcionam, via de regra, como despachantes de recursos públicos, privatizando continuamente capital social. Pode-se dizer que, nesse sentido, os políticos tradicionais são os anti-netweavers, na medida em que contribuem para tornar a rede social menos distribuída e mais centralizada ou descentralizada (isto é, multicentralizada). Também não é a toa que todas as organizações políticas – mesmo no interior de regimes formalmente democráticos – têm topologia descentralizada (ou mais multicentralizada do que distribuída). Essa também é uma maneira de descrever, pelo avesso, o papel dos netweavers.
É claro que a “culpa” por esse comportamento “desenredante” não é dos políticos tradicionais individualmente. Eles são “produzidos” pelo próprio sistema político na medida em que esse sistema não está democratizado. Em outras palavras, quanto mais democratizado estiver o sistema político mais o agente político atuará como um netweaver; e vice-versa.
É preciso considerar que os netweavers articulam e animam redes (netweaving) – conectando pessoas-com-pessoas, com o grau máximo de topologia distribuída que for possível alcançar – independentemente do objetivo dessas redes. Podem ser netweavers digitais (ou cybernetweavers), que contribuam, por exemplo, para expandir a blogosfera, quer inaugurando seu próprio blog, quer ajudando outras pessoas a adquirirem essa efetiva condição de inclusão digital, quer criando ambientes interativos e programas que sirvam para agregar blogs por temas de interesse. Mas podem também se dedicar a induzir o desenvolvimento por meio de redes comunitárias ou setoriais. E podem, ainda, assumir um papel político, mais explícito, de experimentar e disseminar inovações políticas (em geral, por enquanto, em pequena escala), ensaiando formas alternativas de democracia – ou de democratização da democracia – ou de governança compartilhada em redes voluntárias de participação cidadã.
Ainda percorreremos uma longa jornada antes de assumir mais amplamente esses novos paradigmas, o que não significa que eles já não estejam vigendo. Quem está “na ponta” já se comporta mais ou menos assim. Basta ver o que começa a ocorrer nos meios científicos: antes um pesquisador, para ser reconhecido, precisava se submeter ao conselho editorial de uma publicação autorizada pelas instituições acadêmicas e esperar alguns meses (às vezes muitos) para ter seu trabalho publicado (ou rejeitado). Agora boa parte desse pessoal publica as descobertas que vai fazendo nos seus próprios blogs, imediatamente e sem pedir licença a ninguém. Convenhamos: é uma mudança é tanto!
Vai acontecer com os inovadores o que já acontece com algumas atividades intelectuais ou exercidas na área do conhecimento; por exemplo, com os escritores. Escritor é quem escreve. O escritor é reconhecido pelos que lêem o que ele publica e não em virtude de ter obtido um título acadêmico ou uma licença de uma corporação de escribas para escrever ou, ainda, um atestado concedido por uma burocracia qualquer. Podem reprovar-lhe o estilo, podem discordar do conteúdo de suas obras, mas não se pode negar que os (muitos) milhões de leitores de Paulo Coelho (ele é o escritor vivo mais traduzido do mundo, em 67 linguas) – que, até onde se saiba, não possui qualquer título acadêmico – reconhecem-no como um escritor (marca que, aliás, jamais será alcançada pelos críticos que o reprovam, tenham ou não razão no que dele dissentem).
A rede é uma oportunidade ótima para quebrar o poder das burocracias do conhecimento. Na verdade para quebrar o poder de qualquer burocracia. ‘Quebrar’ talvez não seja a melhor palavra, pois se trata de desobstruir o que foi entupido.

2 comments
Comments feed for this article
Abril 10, 2008 às 8:08 pm
sobre hubs, inovadores, neatweavers « THE HUB SÃO PAULO
[...] 10, 2008 por pablo handl Achei um blog interessante falando sobre o que estamos vivenciado todos os [...]
Março 3, 2009 às 6:03 pm
Nara Maria Muller
Parabéns pelas belas explicações sobre o que são hubs, inovadores e netweavers. A linguagem é muito clara e acessível a todos. Felicidades!