Uma mudança significativa na nossa visão sobre a sociedade está ocorrendo nos últimos anos. É como se, de repente, um véu tivesse sido retirado da frente de nossos olhos e pudéssemos agora divisar uma estrutura e uma dinâmica – na verdade, vários mundos de fluxos luminosos e intermitentes – revelando a existência de conexões que antes não enxergávamos.

 

Essa mudança vem mostrando que aquilo que chamamos de sociedade não era bem o que até então julgávamos que percebíamos. Ou seja, não era apenas um conjunto de indivíduos humanos distribuídos sobre um território e constituído a partir de algumas relações recorrentes, normas e instituições, historicamente construídas. Era isso, sim, mas muito mais do que isso.

 

Descobrimos que o que chamamos de ‘social’ não se refere propriamente a um conjunto de seres humanos e sim a um conjunto de relações. Que essas relações são conexões. Que as conexões são caminhos pelos quais podem trafegar mensagens. Que padrões são mensagens e podem ser transmitidos como tal. Que os comportamentos dos indivíduos são condicionados, ao mesmo tempo, tanto pela sua forma peculiar de interagir com outros seres humanos – de emitir, processar e de receber mensagens – quanto pela configuração e pelo funcionamento geral da teia de conexões na qual esse indivíduo está inserido. O que aponta para um imbricamento, inescapável, entre o indivíduo (possuidor de um fluxo próprio de experiências intransferíveis) e o coletivo (os fluxos das conexões com as experiências de outros indivíduos, que o atingem continuamente).

 

Essa teia de conexões é o que foi chamado de rede social. Descobrimos, assim, que o que chamávamos de ‘social’ nada mais era do que a rede social. Isso é tão surpreendente que não é fácil captar todo sentido e imaginar as múltiplas conseqüências desse novo modo-de-ver.

 

Recorrendo a uma metáfora, é como se existisse de fato aquela The Matrix dos filmes dos irmãos Wachowski, não na forma de um mainframe controlado pelo elegante senhor de barba branca – o Arquiteto (representado pelo ator Helmut Bakaitis) que contracena com Neo (Keanu Reeves) em Matrix Reloaded – e sim como uma network, uma teia invisível, móvel, pulsante, de conexões entre indivíduos e grupos em uma sociedade. Trata-se apenas de uma imagem, em certo sentido invertida: enquanto na Matrix (do filme) o objetivo é ‘controle’, na rede social o tema é ‘regulação’. Sim, sob certas condições, podemos ter, na rede social, o fenômeno da autoregulação. Invadida, porém, por padrões de organização hierárquicos e perturbada por modos de regulação autocráticos, a rede pode ter sua estrutura deformada e seu funcionamento alterado – em geral pelo bloqueamento de fluxos – com conseqüências perversas para o que chamamos de qualidade de vida e de convivência social.

 

Ainda é difícil avaliar todos os impactos que terá essa mudança de compreensão sobre a sociedade. Um dos impactos da descoberta das redes sociais é sobre a nossa visão do desenvolvimento. Pela primeira vez está sendo possível estabelecer uma relação intrínseca entre desenvolvimento e democracia. Essa relação só se tornou perceptível – e capaz de ser justificada teoricamente – a partir da idéia de capital social.

 

Todavia o que chamamos de capital social – um recurso para o desenvolvimento aventado recentemente para explicar por que certos conjuntos humanos conseguem criar ambientes cooperativos favoráveis à boa governança, à prosperidade econômica e à expansão de uma cultura cívica capaz de melhorar as suas condições de convivência social – nada mais é do que a rede social. A constatação de que o capital social é produzido em maior escala em ambientes democráticos, tem inspirado a idéia de que a democracia é uma espécie de “metabolismo” próprio da (ou mais adequado à) rede social.

 

Do ponto de vista do capital social, quer dizer, dessa nova variável que passou a ser considerada – ao lado dos fatores econômicos já conhecidos (o capital financeiro e o capital físico, ou seja, a renda ou o produto e a riqueza) e dos fatores extra-econômicos que passaram também a ser levados em conta (como o capital humano e o capital natural) – desenvolvimento é a mesma coisa que sustentabilidade.

 

Sustentabilidade é o grande tema contemporâneo. A investigação dos mecanismos ou processos de sustentabilidade revelou o papel das redes sociais. Só redes podem ser sustentáveis porque só redes conseguem mudar programas de adaptação a partir do seu próprio padrão de identidade, ou seja, daquilo que permanece invariante na sua forma de se configurar ou de fluir. Ora, isso significa conservação da adaptação: só é sustentável o que consegue mudar de acordo com a mudança de circunstâncias, mantendo uma congruência dinâmica com o meio, conservando, porém, aquilo que o caracteriza. Sustentabilidade, em outras palavras, é uma função de autoregulação da rede social.

 

 

O que são redes

 

Uma rede é uma coleção de nodos ligados por muitos caminhos (ou um conjunto de vértices interconectados por muitas arestas).

 

Duas confusões são muito comuns na literatura sobre redes. As pessoas chamam de rede tanto a uma forma ou um tipo de organização voluntariamente construída para cumprir uma finalidade, em geral de natureza social e, ao mesmo tempo, a rede social que existe como fenômeno objetivo, independentemente dos esforços feitos por algum sujeito para tecê-la ou articulá-la.

 

Por variadas e complexas razões de ordem social e tecnológica, a sociedade humana está se conformando, cada vez mais, como uma rede – o que Guéhenno (1993) chamou de “idade das redes” e Castells (1996) chamou de “sociedade-rede”. Entretanto, a rigor, a rede social existe desde sempre, ou seja, desde que existem seres humanos se constituindo como tais na relação com outros seres humanos.

 

Ou seja, a rede social é o que propriamente chamamos de ‘social’. Não é agora que a sociedade está se constituindo como uma sociedade-rede. Toda vez que sociedades humanas não são invadidas por padrões de organização hierárquicos ou piramidais e por modos de regulação autocráticos, elas se estruturam como redes. O que ocorre na época atual é que a convergência de fatores tecnológicos (como a fibra ótica, o laser, a telefonia digital, a microeletrônica e os satélites de órbita estacionária), políticos, econômicos e sociais, está possibilitando a conexão em tempo real (quer dizer, sem distância) entre o local e o global e, assim, está tornando mais visível a rede social e os fenômenos a ela associados, ao mesmo tempo em que está acelerando e potencializando os seus efeitos, o que não é pouca coisa.

 

Isso não significa que as formas organizativas que queremos ensaiar em uma sociedade não possam também adotar voluntariamente o padrão de rede. Mas são duas coisas diferentes. Uma organização territorial, setorial ou temática voluntariamente construída recebe o nome de rede quando seus integrantes (pessoas, grupos e outras organizações) estão conectados entre si horizontalmente (ao contrário de como se organizam nas organizações hierárquicas ou em uma holding, por exemplo). Mas a denominação de rede não se aplica adequadamente a muitos esforços voluntários de construir redes, que em geral apenas disfarçam uma organização centralizada ou com um número insuficiente de caminhos, onde não podem se manifestar plenamente os fenômenos próprios da conexão em rede.

 

A rigor estamos caracterizando aqui como rede apenas as chamadas redes distribuídas (ao contrário das redes centralizadas e das redes descentralizadas) cuja topologia é P2P, ou seja, na qual os nodos estão ligados ponto a ponto e não a partir de um único centro (rede centralizada) ou de vários pólos (rede descentralizada). A novidade das redes se refere às redes distribuídas. Veja o diagrama abaixo – proposto originalmente por Paul Baran em um documento em que descrevia a estrutura de um projeto que mais tarde se converteria na Internet – melhorado por Rodrigo Araya e divulgado por David de Ugarte (2007):

[Inserir diagrama Paul Baran]

A outra confusão muito comum se refere à rede social. Nem toda rede é uma rede social. Existem muitos tipos de redes, dentre os quais os mais conhecidos e citados são as redes biológicas (a rede neural por exemplo, que conecta os neurônios no cérebro dos animais, ou a teia da vida que assegura a sustentabilidade dos ecossistemas, conectando micro-organismos, plantas e animais e outros elementos naturais) e a rede social (embora existem também redes de máquinas – como a rede mundial de computadores que chamamos de Internet – que são redes sociais na medida em que conectam pessoas). Há uma homologia entre esses diversos padrões organizativos, de sorte que, estudando-os, pode-se iluminar a compreensão do multiverso das conexões ocultas que configuram o que chamamos de social. Mas isso não significa que sejam a mesma coisa.