No post anterior descrevi alguns resultados das investigações que venho fazendo sobre topologias de rede a propósito da elaboração do meu livro “A Rede”, que entrou agora na sua fase final.
Terminei indagando para que serve esse conhecimento (no caso, das topologias de rede) para os que estão interessados não apenas em compreender as redes, mas em aplicar tal compreensão para entender melhor o funcionamento da sociedade e poder elaborar e aplicar tecnologias de netweaving. Prometi fornecer algumas respostas nesta oportunidade.
Embora o livro que estou escrevendo seja sobre visões e não sobre análise, fui obrigado a tratar um pouco da análise de redes para entender como a topologia pode influenciar a fenomenologia.
Vou tentar recolocar a questão de maneira simples. Seres humanos vivendo em coletividades estabelecem relações entre si. Tais relações podem ser vistas como conexões, caminhos ou dutos pelos quais trafegam mensagens. Qualquer coletivo de três ou mais seres humanos pode conformar uma rede social, que nada mais é do que um conjunto de relações, conexões ou caminhos (graficamente representáveis por arestas) e de nodos (vértices). Há rede quando são múltiplos (a rigor mais de um) os caminhos entre dois nodos.
A partir de certo número de conexões em relação ao número de nodos, entretanto, começam a ocorrer na rede fenômenos surpreendentes, que não dependem, ao contrário do que se acredita, do conteúdo das mensagens que trafegam por essas conexões. Quanto mais distribuída ou menos centralizada ou descentralizada (i. e., multicentralizada) for a topologia da rede, maiores são as chances de tais fenômenos ocorrerem. Esses fenômenos – como o clustering e o swarming (enxameamento), a autoregulação sistêmica, a produção de ordem emergente e/ou a desconstituição de ordem pré-existente (ou remanescente) e a redução do tamanho (social) do mundo (crunch) – não podem ser adequadamente captados e explicados pelas categorias e hipóteses (que compõem as teorias) tradicionais das ciências sociais.
O mesmo se pode dizer da dinâmica endógena das redes, que também envolve uma fenomenologia ainda não compreendida, como a pulsação e a intermitência, os múltiplos laços de realimentação de reforço (feedback positivo), a iteração (ou reiteração), o “relâmpago” e o assembleiamento, o loop e a reverberação.
Como todos esses eventos dependem, dentre vários outros fatores, do número de conexões e de nodos e do grau de distribuição da rede, para investigá-los é necessário discutir as topologias de rede. No espaço-tempo dos fluxos, a topologia, se não determina, pelo menos condiciona fortemente a fenomenologia.
Algum esforço meritório tem sido feito, mas não podemos ainda estabelecer as condições em que surgem cada um dos fenômenos, aqui mencionados, que podem ocorrer em uma rede, conquanto nos deparemos com eles freqüentemente quando passamos da fria análise sociológica para a percepção da dinâmica das redes sociais. Ainda não podemos inferir essa fenomenologia da topologia, mas já sabemos que ela depende da topologia. Isso é tão importante quanto surpreendente para nós que fomos acostumados a pensar que o decisivo são os conteúdos (como os valores). Vamos ver alguns exemplos:
Clustering. As idéias – como dizia William Irwing Thompson (1987) – dão em cachos, como as uvas (1). Grupos criativos se formam e produzem alucinadamente durante um período. Mas depois, quando se desfazem, seus integrantes, por mais que se esforcem, não conseguem atingir o mesmo nível de criatividade. Pacientes de uma mesma doença auto-imune (não-contagiosa, portanto; nem dependente de condições ambientais visíveis ou conhecidas), se aglomeram (!) em certas regiões do planeta. Populações de certas localidades parecem congeladas no tempo e continuam reproduzindo, nas praças de suas cidades, as mesmas conversas de seus ancestrais (dando a impressão de que sua cultura está presa em um looping). Pobres que só têm amigos pobres tendem a continuar pobres. E, como diz o subtítulo de um interessante livro de Mark Buchanan (2007), “rich get richer, cheaters get caught and your neighbor usually looks like you” (2). É assim que as pessoas que vivem em um lugar, pertencem a uma comunidade, acabam adquirindo os mesmos hábitos e comportamentos, vestindo as mesmas roupas, gesticulando de modo parecido, usando as mesmas expressões. Isso tem a ver com a capacidade da rede social (ou do cluster particular) a que pertencem tais pessoas de induzir comportamentos… O mecanismo parece ser semelhante ao da replicação dos memes (por imitação) (3). O que chamamos de local já é o resultado de uma clusterização.
Swarming. Uma pessoa, indignada com certo comportamento do governo, sentada, talvez, em um bar numa rua periférica da capital, começa a mandar mensagens por SMS (Short Message Service, também conhecido como “torpedo”) para seus conhecidos, que reproduzem tais mensagens por celular e por e-mail para seus próprios amigos e… de repente, irrompe um movimento de milhões de pessoas que ocupam praças e ruas do país e mudam a conjuntura política nacional em poucas horas, alterando um resultado eleitoral tido como certo. Sim, foi o que aconteceu entre 11 e 13 de março de 2004 na Espanha, nas vésperas da eleição que levou Zapatero ao poder pela primeira vez (4). Outro exemplo: contra as opiniões dos grandes líderes políticos, de respeitados intelectuais e de famosos artistas e desportistas, intensamente veiculadas pela mídia, você dá sua opinião, sobre uma questão que está sendo submetida a referendo, para uma pessoa na fila de um banco. Daqui a pouco, passados poucos dias, milhares de pessoas estão emitindo também suas próprias opiniões em todas as filas, dos pontos de ônibus aos salões de embarque nos aeroportos. O boca-a-boca se espalha e se amplifica pelo celular, ganha as listas de e-mails, os blogs e os sites de relacionamento na Internet. Em poucos dias, há uma reviravolta. O resultado esperado da consulta se inverte. Sim, foi mais ou menos o que aconteceu em 2005 no Brasil, na segunda metade da campanha do referendo sobre a proibição da comercialização de armas e munições (5). Swarming é, a rigor, a “produção” disruptiva de ordem emergente que pode se manifestar em um conflito que se dissemina e engaja seus contendores bottom up, por “contaminação viral”.
Autoregulação sistêmica e ordem emergente. Uma rede, em certas condições, pode enxamear (swarming) e pode manifestar inteligência de enxame (swarm-intelligence) ainda que seus nodos, individualmente, não tenham mais do que a inteligência de um inseto. Por exemplo, a partir de regras relativamente simples, que cada indivíduo segue em relação uns aos outros, os cupins africanos conseguem erigir uma construção arquitetônica mais complexa do que qualquer criação humana (6). É difícil compreender isso porquanto fomos educados para entender “o comportamento complexo como sendo o resultado de inteligência complexa”, como escreveu Michael Crichton (2002), no seu romance intitulado Presa: esperamos “encontrar um comando central em qualquer organização. Os países possuem governos. As empresas possuem CEOs. As escolas possuem diretores. Os exércitos possuem generais. Os seres humanos têm a tendência de acreditar que sem um comando central, o caos tomaria conta da organização e nada significativo poderia ser realizado” (7). Mas a natureza está mostrando que as coisas não são bem assim. E isso não acontece somente na, vamos dizer, na “natureza não-humana”. Como percebeu Joël de Rosnay (1995) em O homem simbiótico, “um dos pontos fundamentais da ação em rede… [é que] milhares de agentes atuando em paralelo, a partir de regras simples, podem resolver coletivamente problemas complexos… [e que] enquanto as grandes manifestações públicas mostram que as multidões estão longe de dar prova de uma inteligência significativa, determinados sistemas adaptados de retroação societal podem fazer emergir uma inteligência coletiva superior à dos indivíduos isolados” (8). E nesse caso a regra básica da emergência, como salientou Steven Johnson, é aquela mesma dos cupins: ‘aprender com os vizinhos’ (9).
Crunch. Pessoas em uma localidade, em uma organização social ou em uma empresa começam a se conectar umas com as outras em torno de propósitos comuns (como um sonho de futuro que passa a ser coletivamente desejado) ou simplesmente para compartilhar idéias, músicas, filmes ou outra coisa qualquer. A partir de certo momento começam a acontecer coisas surpreendentes que modificam profundamente essas pessoas, tornando-as e às suas organizações, mais confiantes no seu próprio futuro e mais encorajadas a empreender e a inovar. Passado algum tempo, a localidade, a entidade ou a empresa a que pertecem tais pessoas mudam radicalmente a sua estrutura e a sua dinâmica e passam a se comportar como coletivos que aprendem, se adaptam mais facilmente às mudanças que ocorrem no ambiente em que estão inseridas, ou seja, passam a ser comunidades (redes identitárias) que se desenvolvem. Mais do que isso, passam a ser comunalidades que se comportam como se fossem um indivíduo. Ocorreu um crunch, que é como chamamos à redução do tamanho (social) do mundo provocada por um aumento acelerado do grau de distribuição (incluindo aqui o aumento de conectividade) de uma rede. E isso tem tudo a ver com o que chamamos nos últimos anos de empoderamento: aliás, essa é a única maneira intrínseca de explicar como ocorre esse efeito (empowerment).
Estamos aqui diante do fenômeno mais surpreendente e mais promissor do ponto de vista da emergência de uma nova sociedade-rede, ligado ao que estudiosos como Duncan Watts e Steven Strogatz chamam de “Small World Phenomenon”. Watts, Strogatz e outros pesquisadores que trabalham com o tema não extraem, por certo, as mesmas conclusões que vamos apontar aqui (10).
Quanto mais distribuído (e conectado) é um mundo, quanto mais caminhos existirem entre seus elementos (nodos de uma rede), menor ele é, porém mais potente socialmente ele é (small is powerful). Do ponto de vista do padrão de organização, as hierarquias aumentam o ‘tamanho do mundo’, enquanto as redes diminuem. Desse ponto de vista, ‘mundo pequeno’ é sinônimo de mundo muito distribuído-conectado (11).
Se quanto maior a tessitura social, ou seja, quanto mais conexões ou caminhos puderem ser estabelecidos, menor o ‘tamanho do mundo’, então ‘pequeno’, do ponto de vista (e por força) de uma alta “tramatura” do tecido social, é uma força poderosíssima. Porque quanto mais caminhos existirem, mais possibilidades existirão de um pequeno estímulo, proveniente de qualquer lugar do mundo, se propagar e se amplificar por “reverberação”, por feedback positivo, i.e., pela ocorrência de múltiplos laços de realimentação de reforço, atingindo o mundo todo. Ora, isso significa, por um lado, que os elementos do mundo (os nodos da rede) terão mais chances de verem suas idéias – ou os seus “memes” – se replicarem; ou seja, eles estarão mais empoderados. Mas significa também, por outro lado, em primeiro lugar, que é o sistema como um todo que empodera seus componentes e, em segundo lugar, que tal sistema funciona como amplificador e macroprocessador dos estímulos recebidos/emitidos por seus componentes.
Dizer que small is powerful significa dizer que o mundo pequeno (no sentido de muito distribuído-tramado socialmente) é mais empoderante de seus componentes do que o mundo grande e que ele tem mais capacidade de usinar softwares que instruem a construção de comportamentos e de replicar tais programas. Porém, muito além disso tudo, significa dizer que uma mudança de comportamento, mesmo periférica, ensaiada no mundo pequeno, tem mais chances de se propagar para o sistema como um todo afetando o comportamento dos outros agentes que o compõem. Ou seja, mundos pequenos são mundos mais susceptíveis à mudança social do que mundos grandes.
Parece evidente que o crunch tem a ver com os outros fenômenos de rede mencionados anteriormente, quer dizer, com o clustering (que está na raiz do Small World), com a produção de ordem emergente e com o swarming: sim, porquanto a produção de ordem emergente é também a desconstituição de ordem pré-existente (ou remanescente). É aqui que nos deparamos com aquela Matrix do filme, o mainframe cujo objetivo é: controle.
Notas e referências
(1) Parece que as idéias brotam ou emergem (ou imergem?) em complexos. É por isso que, como dizia Thompson em 1987 (no Prefácio de “Gaia: uma teoria do conhecimento”), “as idéias, da mesma forma que as uvas, crescem em cachos. As pessoas gostam de se agregar pelo simples fato de sentir que, na videira, suas idéias se tornam mais completas e mais enriquecidas” e são, freqüentemente, o resultado do “trabalho de uma comunidade intelectual que reflete as idéias, reuniões, discussões, cartas e comunicações… acontecidas a partir do momento em que cada um de seus membros reconhece que o seu trabalho está sendo descrito e desenvolvido não mais individualmente, mas por outros colegas” (cf. Thompson, William Irwin (org.) (1987). “Prefácio” in Gaia: uma teoria do conhecimento. São Paulo, Gaia/Global, 1990).
(2) Cf. Buchanan, Mark (2007). The social atom. New York: Bloomsbury, 2007.
(3) O problema com as teorias dos memes é que elas não trabalham com a noção de rede, preferindo derivar uma espécie de padrão variacional de mudança usado pelo darwinismo e pelo neodarwinismo ao invés de adotar o padrão regulacional de mudança. Isso pode levar a uma espécie de determinismo memético (decalcado do determinismo genético): assim como não são os genes que explicam disposições inatas e comportamentos biológicos derivados, também não são os memes que podem fazer isso no plano cultural. São as redes.
(4) O atentado terrorista de 11 de março de 2004, na Espanha, ocorreu às vésperas de uma eleição presidencial, na qual o candidato de Aznar, do PP (Partido Popular), Mariano Rajoy, já estava cotado em todas as pesquisas como o virtual vencedor. Mesmo assim, para fazer mais um movimento que garantisse sua vitória, o governo de Aznar resolveu vir a público apontando o ETA como responsável pelo atentado. Rafael Estrella, deputado por Granada, ex-Presidente de Assembléia Parlamentar da OTAN, assim descreveu a situação: “Parece evidente que, en la mañana del 11-M, Aznar, sus spin doctors y la dirección de la campaña tomaron una decisión tan coherente como miserable: el atentado encajaba plenamente en la estrategia de campaña del PP. Con el atentado, la ecuación creada en torno a ETA se hacía realidad y adquiría toda su potencia dada la dimensión de la masacre. Por tanto, no sólo se suponía que era ETA la autora, sino que… «tenía que ser ETA». Con ello, la mayoría absoluta que las encuestas descartaban volvía a estar al alcance de la mano. La hipótesis plausible se convirtió así en certeza y en verdad incuestionable, incluso cuando la auténtica verdad se abrió paso. El resto es conocido: la manipulación interesada, la ocultación y el falseamiento de la información, llevado hasta el extremo por Ana Palacio cuando todavía el 14-M mantenía ante la prensa internacional la hipótesis de ETA. Pero a esa hora la evidencia del engaño había atravesado ya prácticamente todas las barreras, desde Sydney a Londres o Nueva York, desde Madrid a Barcelona, Bilbao o Granada. No fue el atentado lo que provocó el giro electoral que dio lugar a una contundente victoria socialista. Tampoco fue la evidencia de que había sido provocado por AlQaida ni la relación del atentado con la guerra de Iraq. Fue el intento irresponsable de ocultar y falsear la verdad lo que activó con virulencia todos los elementos, incluido el rechazo por la guerra y las mentiras de Iraq”. (1) (Cf. Estrela, Rafael (2004). “Un prólogo y una visión sobre el 11-M y España” in Ugarte, David (2004). 11M: redes para ganar una guerra. Barcelona: Icaria, 2004). E David de Ugarte (2004), nesse mesmo livro que escreveu sobre o assunto, conta em detalhes o momento em que começou o crescimento exponencial da mobilização: “Sábado, hora de comer. Justo antes de la hora en que las cuadrillas de amigos quedan y organizan la tarde. Suena el móvil. Mensaje de texto: ‘¿Aznar de rositas? ¿Lo llaman jornada de reflexión y Urdazi trabajando? Hoy 13M, a las 18h. Sede PP C/ Génova 13. Sin partidos. Silencio por la verdad. ¡Pásalo!’ En menos de una hora el mensaje ha llegado ya a Barcelona y una red informal de gente se pone a convocar una movilización equivalente. Allí el teléfono fijo también movilizará redes de amigos. Los foros, la mensajería instantánea, las bitácoras, las listas de correo, trabajarán a pleno rendimiento hasta las seis. A esa hora ya hay más de doscientas personas en la calle Génova de Madrid. La prensa digital lo recoge. Conforme pasan las horas el número va creciendo, mil, dos mil, tres mil. La radio se hace eco y se alcanzan as cinco mil personas. En Barcelona se convierte en una cacerolada masiva. El fenómeno está saltando de ciudad en ciudad: Bilbao, Gijón,Oviedo, Valencia, Palma de Mallorca, Santiago de Compostela, Alicante, Granada, Las Palmas, Sevilla, Zaragoza, Burgos, Badajoz… El stablishment tiene miedo. Su Majestad el Rey llama al candidato socialista, Zapatero, para pedirle que llame a la cadena SER y pida que no dé más cancha a la manifestaciones. Este lo hace. Pero no siendo el motor de la movilización tiene difícil pararla. El candidato popular, Rajoy, que ha dejado durante toda la campana la cara más autoritaria para sus lugartenientes da una rueda de prensa en la sede de su partido pidiendo la represión de las manifestaciones. Al recogerlo los medios y aparecer en televisión, lo que quiere sea una sutil combinación de victimismo y firmeza se le vuelve en contra: aparece crispado, violento, patético, buscando convocantes inexistentes… fuera definitivamente del tiempo histórico. Este tipo no sabe ni lo que es una cadena de mensajes, que decir de um flash-mob, comenta un manifestante en un bar cercano a la zona de protestas. En ese momento se percibe en el aire la indignación: una nueva cadena masiva recorre España Contra el golpe de estado del PP, con nuevos puntos de cita. Desde sus casas, con móviles, algunos conectores de la naciente red informal se dedican a avisar a la prensa y llamar a radios y sitios de noticias. La noticia se amplifica una y otra vez. El mensaje funciona: España percibe que alguien cuyas respuestas son tan extemporáneas no puede ser el Presidente en los nuevos tiempos que el horror ha abierto. Rajoy ha perdido, él solito, las elecciones. El guerracivilismo autoritario del PP, que había optado como estrategia por asociar al terrorismo a todos los que no compartían su visión de la identidad nacional, há acabado cobrándose al delfín de Aznar como víctima.” (Idem)
(5) No dia 23 de outubro de 2005, pouco menos de 100 milhões de brasileiros foram às urnas para decidir se o comércio de armas para civis seria proibido ou não no país, no primeiro referendo da história da República. O “sim” à proibição estava, segundo a maioria dos analistas (e inclusive dos institutos de pesquisa da opinião), com a vitória praticamente garantida. Não foi o que se viu no final do dia, quando saiu o resultado das urnas. O “não” à proibição teve 64% dos votos, enquanto que o “sim” ficou com 36%, mostrando que a maioria da população brasileira não é a favor da proibição de armas de fogo aos civis e, supreendentemente, contrariando a opinião do principal líder da situação (o presidente Lula), do principal líder da oposição (o então prefeito de São Paulo, José Serra) e da maior parte dos intelectuais, artistas, desportistas e outros ícones da mídia que se engajaram, infrutiferamente, na campanha do “sim”. Alguns analistas botaram a culpa pelo resultado no fato dos partidários do “sim” não terem sabido usar a Internet tão bem quanto os partidários do “não”…
(6) “Os cupins africanos são um exemplo clássico. Esses insetos constroem montículos de terra semelhantes a um castelo com trinta metros de diâmetro e espirais que se projetam seis metros no ar. Para apreciar sua realização é preciso imaginar que, se os cupins tivessem o tamanho de pessoas, esses montes de terra seriam arranha-céus com um quilômetro e meio de altura e oito quilômetros de diâmetro. Assim como um arranha-céu, o cupinzeiro possuía uma intricada arquitetura interna para proporcionar ar fresco, remover o excesso de calor e CO2, e assim por diante. Dentro da estrutura, há local apropriado para o cultivo de alimentos, aposentos para a realeza e espaço para até dois milhões de cupins. Não há dois cupinzeiros exatamente iguais; cada qual é construído individualmente para se adequar às exigências e vantagens de um determinado local. Tudo isso é conseguido sem nenhum arquiteto, nenhum mestre-de-obra, nenhuma autoridade central. Não há nem mesmo uma planta de construção codificada nos genes do cupim. Em vez disso, essas enormes criações são o resultado de regras relativamente simples que cada cupim segue em relação uns aos outros. (Regras como: “Se sentiro cheiro de que outro cupim esteve aqui, coloque um grão de areia neste lugar”). No entanto, o resultado poderia ser considerado mais complexo do que qualquer criação humana.” (Cf. Crichton, Michael (2002). Presa. Rio de Janeiro: Rocco, 2003).
(7) Cf. Crichton: op. cit.
(8) Cf. Capítulo 5 do livro de Rosnay, Joël (1995). O homem simbiótico. Petrópolis: Vozes, 1997 – sobretudo a seção “Democracia participativa e retroação societal”.
(9) Cf. Johnson, Steven (2001). “Only connect”, publicado no jornal The Guardian (Monday October 15, 2001) e disponível no link abaixo:
http//books.guardian.co.uk/departments/politicsphilosophyandsociety/story/0,6000,574534,00.html
(10) No final de 2002, Peter Sheridan Dodds, Roby Muhamad e Duncan Watts, da Universidade de Colúmbia, apresentaram à revista Science os resultados de um estudo experimental de busca em redes sociais globais. Utilizando programas de e-mail, eles, de certo modo, buscaram refazer o trabalho experimental pioneiro realizado por Travers e Milgram no final dos anos 60. As conclusões da pesquisa são surpreendentes. Duncan e seus colegas encontraram, para o mundo inteiro – e 35 anos depois –, um resultado muito parecido com o de Milgram, que focalizou apenas a sociedade americana. Isso sugere que o ‘tamanho de mundo’ do mundo inteiro no final de 2002 é mais ou menos o mesmo do ‘tamanho de mundo’ dos USA em 1967. Mas talvez não seja possível afirmar isso a partir (ou somente a partir) do experimento de Duncan. Travers e Milgram encontraram, em média, seis graus de separação. Duncan e sua turma, que pareciam já conhecer o resultado antes mesmo do experimento, encontraram cinco a sete graus de separação! Se o experimento de Duncan tivesse sido feito, com outros meios não-eletrônicos, no final dos anos 60, provavelmente seria encontrado um grande intervalo entre os valores mundiais e os americanos. Como não é possível inferir isso do experimento que fizeram, resta a Duncan e sua equipe refazer o trabalho para algumas sociedades escolhidas, inclusive a americana. De qualquer modo, o experimento revelou, entre outros, quatro resultados importantes: a) existe mesmo o efeito ‘Small-World Network’. Esta é a principal conclusão; b) os laços “fracos” são mais relevantes que os “fortes”; ou seja, cooperação social vale mais do que laços de sangue ou parentais (confirmando as hipóteses das teorias do capital social). Como eles próprios escreveram: “Laços “fracos” são desproporcionalmente responsáveis pela conectividade social”; c) nas palavras dos próprios autores,””a busca social parece ser um exercício geralmente igualitário, cujo sucesso não depende de uma pequena minoria de indivíduos excepcionais”; e d) “um ligeiro incremento de incentivos pode levar as buscas sociais ao sucesso sob diferentes condições”. Ou seja, como eles dizem, “a rede não é tudo”, porém, existindo a rede, basta um peteleco… As conclusões desse trabalho, intitulado “Um estudo experimental de busca em redes sociais globais”, foram publicadas pela revista Science (maio, 2003).
(11) Cf. Franco, Augusto (2003). A revolução do local: globalização, glocalização, localização. Brasília/São Paulo: AED/Cultura, 2003.

2 comments
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Julho 30, 2008 às 11:58 am
Escola de Redes» Arquivos » A fenomenologia depende da topologia
[...] fluxos, a topologia, se não determina, pelo menos condiciona fortemente a fenomenologia. Clique aqui para continuar [...]
Agosto 27, 2008 às 9:12 pm
Luiz Síveres
Prezado Augusto.
É sempre um momento prazeroso ler seus artigos e navegar pelas canais de abertura que você propõe.
Um grande abraço.