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SOBRE O NOME Nan Dai | Nan Dai, em japonês, pode significar “O que é isto?” | Nan Dai é um dojo, isto é, uma estação no caminho. Não o caminho, mas um caminho (no sentido empregado por Sêneca, quando escreveu: “Se não posso achar o caminho, farei um”) (1).
No entanto, se trata de um não-caminho.
A idéia de não-caminho surgiu durante a elaboração de Fluzz (2011), um livro que brotou de uma única frase, usada como epígrafe no texto Desobedeça (2010):
“A força (Te) não é (um querer) induzir alguém (ou alguma coisa) a seguir um caminho prefigurado e sim (um deixar) fluir com o curso (Tao)” (2).
Uma passagem de Fluzz (2011) explica:
“Desobedecer é sempre abrir um caminho. Mas cada ato ou gesto de desobediência abre um novo caminho. Manter-se no mesmo caminho, à revelia da direção do vento, acreditando que ele é o seu caminho para vida toda ou o único caminho, e tentar impingi-lo a outras pessoas… aí já é obedecer”. A expressão ‘não-caminho’ já havia sido usada pelo físico David Bohm (1970-1992) quando tentava, no ocaso da vida, compreender e promover a interação que chamava de diálogo, ao dizer que percebendo “o significado de todos os caminhos… chegamos ao ‘não-caminho’. No fundo, todos os caminhos são os mesmos…” (3).
O caminho-fluzz é o caminho-não-caminho; ou seja, em mundos altamente conectados não há caminho porque tudo é caminho.
Novamente em Fluzz (2011) podemos ler:
“O cordobés Lucius Annaeus Sêneca (c. 3 a. E. C. – 65) escreveu que “se um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe será favorável” (4). Mas é o contrário. Pouco importa onde está Ítaca. É o vento, soprando livre sobre a superfície das águas, que constitui o não-caminho (ou desconstitui todos os caminhos).
Como cantou Konstantinos Kaváfis, “se partires um dia rumo a Ítaca, faz votos de que o caminho seja longo, repleto de aventuras… Melhor muitos anos levares de jornada e fundeares na ilha, velho enfim, rico de quanto ganhaste no caminho, sem esperar riquezas que Ítaca te desse. Uma bela viagem deu-te Ítaca… Tu te tornaste sábio, um homem de experiência, e agora sabes o que significam Ítacas” (5).
Manobrando o leme para seguir uma rota já traçada não há como viver em processo de Ítaca. É preciso deixar-se ao sabor do vento.
Quando o sopro não percorre livremente os mundos é porque houve direcionamento de fluxo. Pré-cursos foram estabelecidos. Velas foram orientadas para capturar e condicionar o vento. Em geral isso é feito por essas intervenções antrópicas resultantes do congelamento de fluxos que chamamos de instituições (hierárquicas): escolas, ensino, religiões, igrejas, corporações, partidos, nações, Estados. São artifícios para exercer a Força, ou seja, para impor caminhos.
A pergunta é: quando fluzz soprar, para que forçar? Por isso se diz: não há nada a fazer (quando fluzz soprar). Não há nada a fazer significa que é preciso deixar-ir. Ter um comportamento fluzz é deixar-ir. Fluzz não é a força. Fluzz é o curso.
Impor caminhos é deformar um tecido, perturbar um campo. Se pessoas interagindo com pessoas são redes, o tecido deformado é sempre uma rede que se tornou mais centralizada ou menos distribuída. Se o campo social é composto pelo emaranhado de conexões, a perturbação é sempre um desemaranhar, de sorte que alguns mundos perderão contato com outros; ou melhor, deixarão de estar sujeitos às mesmas interações. Se isso acontece é porque interworlds foram aniquilados.
Quando forçamos um caminho exterminamos mundos (para nós, é claro – mas o que dá no mesmo, se não podemos mais interagir com eles). Perdemos então as oportunidades – de que fala o belo poema de Kaváfis – de “entrar pela primeira vez um porto para correr as lojas dos fenícios e belas mercancias adquirir” ou de peregrinar naquelas “muitas cidades do Egito… para aprender (6)” (7).
SOBRE A ORIGEM DO NOME Nan Dai | Man Tum, a velha senhora da guerra do reino de Cham, dizia que “o caminho de Nan Dai para a sabedoria passa pela política”. Mas não existe no mundo nenhum país chamado Nan Daí (8).
Nan Dai é o meu país imaginário, o “local” onde projeto as coisas que faço ou ainda quero fazer.
Notas
(1) Trata-se de uma tradução forçada do provérbio “Viam aut aut faciam inveniam” cuja localização não foi possível determinar. Cf. a bibliografia de SENECA, Lucius Annaeus (c. 3 a. E. C. – 65).
(2) Cf. <http://www.slideshare.net/augustodefranco/desobedea>
(3) Cf. <http://www.slideshare.net/augustodefranco/fluzz-book-ebook>
(4) SENECA, Lucius Annaeus (c.3 a. E. C. – 65). Cf. Wikiquote:
<http://pt.wikiquote.org/wiki/S%C3%AAneca>
Não foi possível determinar a localização desta citação. Cf. a bibliografia de SENECA:
<http://www.egs.edu/library/lucius-annaeus-seneca/biography/>
(5) KAVÁFIS, Konstantinos (1911). Ithaca. Kaváfis não publicou nenhum livro em vida. Estão disponíveis online as traduções de José Paulo Paes e Haroldo de Campos em:
<http://www.org2.com.br/kavafis.htm>
(6) KAVÁFIS: ed. cit.
(7) Fluzz: ed. cit.
(7) cf. Telien, Marc (c. 1915). Man Tum: entrevistas com a velha senhora da guerra do reino de Cham. Brasília: AED, 2001.


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